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André Rocha

Alberto Valentim e o mito de que manter treinador é sempre o melhor a fazer

André Rocha

10/02/2020 07h00

Foto: Agência Estado

Nas conversas que este que escreve já teve com dirigentes de clubes, mais de uma vez ouvi que trocar de treinador na virada do ano era a pior opção, quase sempre.

O argumento comum era algo como "técnico novo chega cheio de gás, de idéias. Quer trazer seus 'bruxos', vem com lista de reforços. O mantido já é mais calmo, conhece o elenco, a situação financeira do clube…"

Dependendo do contexto pode mesmo haver razão nesse discurso avesso às mudanças. Não só para campeões, mas times em evolução nítida, viés de alta.

Mas, como sempre, é preciso avaliar caso a caso. Principalmente aquele em que o treinador chega como "bombeiro", com missão a curto prazo de salvar de rebaixamento. Consegue e, por "gratidão", é mantido para o ano seguinte.

Funções bem diferentes: um precisa fazer o melhor com o que tem e rapidamente; outro necessita planejar, ter feeling e conhecimento para avalizar dispensas e contratações.

Alberto Valentim conseguiu às duras penas e muitas críticas da torcida manter o Botafogo na Série A do Brasileiro. Em pouquíssimos momentos conseguiu extrair da equipe alvinegra um desempenho entre razoável e bom.

O treinador, que se mostrou promissor em 2017 ao sair do posto de auxiliar para suceder Cuca no Palmeiras, até agora não deu o salto de qualidade na carreira. Parece perdido entre conceitos atuais de jogo colocados em prática sem consistência, o nosso resultadismo de todo dia e um pouco de marketing pessoal, investindo na imagem de "galã".

Nem mesmo em um raro momento de euforia, na festa da chegada de Keisuke Honda, a torcida alvinegra deu uma trégua nos protestos. Mas a diretoria manteve até um limite bem conhecido: derrota inquestionável em clássico.

Os 3 a 0 impostos pelo Fluminense no Maracanã com facilidade não tiveram nem a relativização do desânimo pela eliminação antecipada da Taça Guanabara. Campanha, aliás, prejudicada por uma pré-temporada prolongada no Espírito Santo que acrescentou quase nada em rendimento e ainda custou a vaga nas semifinais do primeiro turno por conta de duas derrotas no início com equipe "alternativa".

Quase encerrou também a participação do Botafogo na Copa do Brasil. O Caxias foi superior e teve dois pênaltis que as novas orientações da FIFA tornam obrigatórios. O 1 a 1 e o regulamento esdrúxulo e excludente do mata-mata nacional, que diminuiu ainda mais as chances dos pequenos, salvaram Valentim e sua equipe.

Não livraram, porém, o técnico da demissão. Mesmo com a multa rescisória de um milhão de reais que deve sangrar ainda mais os cofres do clube. O aproveitamento, porém, justifica o ato: 42,5%, com sete vitórias, dois empates e nove derrotas em 18 partidas.

A rigor, não era motivo nem para a permanência. Ou a contratação em outubro. Mas o mito de que manter treinador é o melhor a fazer falou mais alto. Ou a preguiça mental dos gestores. Vai saber…

 

 

 

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o Autor

André Rocha é jornalista, carioca e blogueiro do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros “1981” e “É Tetra”. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Entender de tática e estratégia é (ou deveria ser) premissa, e não a diferença, para qualquer um que trabalha com o esporte. Contato: anunesrocha@gmail.com

Sobre o Blog

O blog se propõe a trazer análises e informações sobre futebol brasileiro e internacional, com enfoque na essência do jogo, mas também abrindo o leque para todas as abordagens possíveis sobre o esporte.