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Copa e maturidade fazem PSG de Tuchel inverter status entre Neymar e Mbappé
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André Rocha

Quando Mbappé foi anunciado no PSG, este blog projetou o time francês ainda jogando em função de Neymar, mais experiente e afirmado no cenário mundial. Ao jovem que explodiu no Monaco restaria um posicionamento de relevância no ataque da equipe, porém com maior sacrifício tático.

Sem comparações, mas a expectativa era que simbolicamente Neymar seria Messi. Ou seja, o ponta articulador partindo do flanco para criar e finalizar, com total liberdade. Já a joia francesa seria o Neymar do Barcelona: coadjuvante de luxo, o ponteiro do lado oposto que acelera e busca as infiltrações em diagonal. Mas também com a responsabilidade de voltar e formar com o tripé de meio-campo uma segunda linha de quatro para bloquear as ações ofensivas dos adversários.

Justamente a opção do treinador Unai Emery na maior parte da temporada. Neymar solto com Cavani à frente, Mbappé se juntando à dupla, mas com maior entrega no trabalho coletivo. A contratação mais cara da história como a estrela, o garoto prodígio servindo de fiel escudeiro.

O reflexo nos números é inegável: Neymar marcou 19 gols e serviu 13 assistências em 20 aparições na liga francesa. Na Liga dos Campeões foram sete jogos, seis gols e três assistências. Desempenho excepcional prejudicado pela lesão no pé que fez o brasileiro retornar praticamente na Copa do Mundo.

Mbappé disputou 27 partidas (três saindo do banco de reservas), marcou 13 e entregou oito passes para gols na Ligue 1 e nos oito jogos que o Paris Saint-Geirman disputou na Champions anotou quatro gols e três assistências. Estatísticas respeitáveis para um atacante de 19 anos, mas bem inferiores ao seu companheiro e “tutor” no vestiário de estrelas do campeão francês e também das Copas da França e da Liga Francesa.

Mas veio a Copa do Mundo…França campeã e Mbappé como destaque e tendo a melhor atuação justamente na vitória mais simbólica dos Bleus na Rússia – 4 a 3 na Argentina pelas oitavas de final, com dois gols e desempenho fantástico, “varrendo” a defesa albiceleste com velocidade e técnica. Anotou quatro gols, inclusive na final contra a Croácia, e, para este que escreve, foi o melhor do Mundial.

Já Neymar, em que pese o tempo de inatividade, não teve o mesmo brilho nem conseguiu evitar a eliminação da seleção brasileira para a Bélgica nas quartas. Dois gols e uma assistência em cinco partidas. Ainda desgastou terrivelmente sua imagem por simulações de faltas e contusões e rodou o mundo piadas com o hábito de rolar no gramado e fazer caras e bocas quando sofre as infrações (ou não).

Na volta ao clube, um novo comandante: Thomas Tuchel. Com 45 anos e fama de “inventivo”, chegou valorizando todas as estrelas do elenco, elogiando muito Neymar. Com paciência, mas firmeza, mobiliza o grupo de jogadores, diminui as rusgas do brasileiro com Cavani e muda a mentalidade da equipe para a disputa da Champions, prioridade máxima na temporada.

O espírito ficou claro na vitória sobre o Liverpool na penúltima rodada da fase de grupos que praticamente garantiu a vaga no mata-mata em um grupo complicado que acabou jogando o bom Napoli de Carlo Ancelotti para a Liga Europa. Muita fibra, vibração e entrega para conquistar o único resultado que não complicaria a classificação. Nem a surpreendente eliminação na Copa da Liga para o Guingamp com derrota de virada por 2 a 1 muda essa impressão, até porque a “vingança” veio na Ligue 1 com uma goleada implacável: 9 a 0 e o time jogando sério o tempo todo, como um rolo compressor.

Nos dois triunfos simbólicos e em outras partidas da temporada fica bem clara uma mudança de status que se reflete no campo: agora é Mbappé quem joga livre na frente com Cavani e Neymar se sacrifica um pouco mais pelo time. Sem a bola, o camisa dez retorna e compõe uma segunda linha de quatro com Di María do lado oposto e Marquinhos ou Daniel Alves e Verratti no centro. No início da jornada 2018/19 chegou a atuar por dentro, como um “enganche”. Mas sempre municiando Mbappé.

Os números novamente apresentam as consequências do posicionamento em campo. Neymar segue com ótimo desempenho: 13 gols e seis assistências na liga. Na Champions foi às redes cinco vezes e serviu dois passes decisivos em seis partidas. Mas a joia francesa deu um salto, especialmente no campeonato por pontos corridos. São 17 gols e cinco assistências. No torneio continental, curiosamente, serviu mais que foi às redes: quatro assistências, três bolas nas redes adversárias.

É claro que a confiança com o título mundial e a melhor ambientação com os companheiros contribuíram significativamente para o progresso de Mbappé. Mas o posicionamento mais adiantado, com liberdade para procurar os lados e infiltrar em diagonal ou muitas vezes até ser a referência do ataque, com Cavani recuando para colaborar defensivamente quando o time recua as linhas para jogar em rápidas transições ofensivas, também colaborou para a evolução.

Até por temperamento, Neymar segue dando as cartas no vestiário e ajuda o companheiro a se soltar ainda mais. Mas o status mudou claramente: Mbappé é a estrela ascendente, com segurança e, principalmente, maturidade para desequilibrar e decidir nos momentos-chave. O brasileiro segue fundamental, mas terá que recuperar terreno em jogos grandes para voltar a ser o protagonista. Justamente o que o motivou a trocar Barcelona por Paris.

Se o sonho é ganhar a Bola de Ouro, Neymar ganhou um “inimigo íntimo”. O desafio é fazer com que essa disputa seja leal, sem prejudicar o rendimento coletivo. Até aqui vem funcionando, com os dois trocando muitos passes e comemorando juntos os gols. E Cavani sem reclamar do papel menor.

Todos parecem saber o lugar em campo e o valor do que entregam. Entenderam a nova “hierarquia”. Méritos também de Tuchel.


Para que serve o “estive lá” do ex-boleiro se o futebol não é mais o mesmo?
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André Rocha

O desafio dos dez anos (#10YearsChallenge) movimenta as redes sociais há dias, com famosos e anônimos postando fotos recentes em comparação a 2009. E se pudéssemos fazer o mesmo com o futebol, como seria?

Em 2009, o Barcelona de Pep Guardiola ainda estava em sua primeira temporada, embora muito bem sucedida com a tríplice coroa. Mourinho não tinha adotado as linhas de handebol na defesa da Internazionale como resposta defensiva à proposta do catalão. Jurgen Klopp, também em seu primeiro ano no Borussia Dortmund, apenas ensaiava o “gegenpressing” e o estilo agressivo, com o pé cravado no acelerador, que vem marcando sua carreira.

No Brasil, o jogo era ainda mais espaçado e lento, menos intenso. Neymar era só um menino marcando seus primeiros gols como profissional no Santos. Dunga vivia na seleção brasileira o seu melhor momento, com uma posse de bola às vezes burocrática, mas quando chegava ao trio Kaká-Robinho-Luís Fabiano com espaços para acelerar unia beleza e eficiência. Júlio César era o melhor goleiro do mundo.

Tite comandava o Internacional no ano do seu centenário. Campeão gaúcho, vice da Copa do Brasil. Depois venceria tudo com o Corinthians e, mesmo assim, em 2014 foi para a Europa estudar, buscar reciclagem. Unir experiência e novos conceitos. Deu o salto na carreira para realizar o sonho de comandar o Brasil numa Copa do Mundo. Pode chegar à segunda.

Além disso, as medidas dos gramados ainda não estavam padronizadas em 105 m x 68m. Não existia o VAR, nem a maioria das novas orientações da FIFA que norteiam as arbitragens. A bola também era diferente. Ou seja, era outro futebol se não reduzirmos o esporte ao clichê dos “onze homens correndo atrás de uma bola”.

Agora imaginemos as diferenças em relação ao que se jogava nas décadas anteriores. No século passado. Sem a internet com banda larga e Wi-Fi para popularizá-la e virar o mundo pelo avesso. Algo que os jovens hoje sequer conseguem imaginar. Um recurso que mudou tudo também no futebol. Na análise, no jornalismo, na formação e preparação de atletas, na relação com a mídia.

Com tudo isso, a pergunta simples e direta é: objetivamente, qual a vantagem de quem jogou nos anos 1970, 80, 90 ou mesmo na primeira metade da década de 2000 em relação aos jornalistas na hora de analisar uma partida em 2019?

A resposta é óbvia: nenhuma. Ou só contar os “causos” de sua época. Ou fazer o torcedor que viu jogar deixar de zapear e parar no canal de esportes para vê-lo. Porque simplesmente não pode existir vantagem da prática se o jogo – intensidade, espaços, dinâmica, arbitragem, medidas dos campos, bola, material esportivo, etc. – é completamente diferente.

Por isso soa cada vez mais ridícula a falácia lógica do apelo à autoridade. Algo que normalmente surge quando o ex-boleiro não tem mais argumentos para debater e apela para o surrado, mas ainda tratado como carta na manga, “eu estive lá”. E daí? Esteve quando? Para que serve esta experiência hoje se tudo mudou?

São poucos os que jogaram e hoje comentam futebol, falando ou escrevendo, que saem dos clichês e análises baseadas no senso comum. Tostão é a melhor das exceções. Vez ou outra pode dar vazão a um certo saudosismo, especialmente em relação à seleção brasileira de 1970, mas seus textos revelam um observador humilde, que procura estar atento às transformações do esporte. Valoriza o novo e respeita a análise de quem não jogou profissionalmente.

Infelizmente a grande maioria se comporta, de forma velada ou não, como Vanderlei Luxemburgo: “nada mudou, nós fazíamos o mesmo há quatro décadas, mas com nomes diferentes”. Uma visão estanque, muito diferente da dinâmica do tempo. Em muitos casos para manter o status quo. Para continuar relevante. Felizmente alguns se tocam e buscam a atualização. Outros preferem alimentar a saudade do passado e agradar o público apenas da sua faixa etária em diante.

É claro que também há jornalistas com o mesmo perfil. O texto não é uma defesa de classe, muito menos de reserva de mercado. A presença de quem praticou o esporte é importante, contanto que ele não olhe para o campo hoje e veja o jogo do seu tempo. Uma ilusão de ótica.

Instagram, Twitter e Facebook seguem com muitas fotos de 2019 e 2009. Quem pensa que nada muda deveria fazer essa experiência. Certamente levaria um susto. Ou uma boa surpresa para fazer a cabeça sair do passado que não volta. Esteve lá? Agora não está mais.

Falcão disse que parar é a “primeira morte” do jogador. Se a volta ao esporte é pela mídia, que a nova vida seja feliz, curiosa, com brilho nos olhos. Sem a amargura de quem sempre vê tudo no mesmo lugar. Que bom que não é assim.


Para Alecsandro, “falso nove” é uma mentira. O que diz a história do jogo?
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André Rocha

– Camisa nove pra mim tem que fazer gol. Quem veste esse número é o cara mais próximo ao gol. Quando isso não acontece e o treinador arma o jogo para isso acontecer, vai dar errado. Está se usando falso nove, isso não existe. Ou cara é nove ou não é. Vou confessar uma coisa, os treinadores têm medo de dizer que estão sem centroavante, estão jogando com meia e falam que estão com falso nove. Os treinadores não falam para a imprensa não pegar no pé, tudo mentira. O camisa nove tá em falta, o falso tem um monte por aí.

Palavras de Alecsandro, centroavante de 37 anos, em sua primeira entrevista como jogador do São Bento. Filho de Lela, irmão de Richarlison, com passagem por Atlético Mineiro, Vasco, Internacional, Flamengo e Palmeiras. Talvez incomodado com a perda de espaço ao longo do tempo. Quem sabe embalado pelo senso comum – seguido por muita gente boa, boleiro ou não – que está até em música: “o centroavante é o mais importante”.

Foi tantas vezes, com Romário, Ronaldo, Careca, Van Basten, Gerd Muller, Hugo Sánchez e muitos outros que eternizaram a função, que Dadá Maravilha chamava de profissão junto com a do goleiro. Ainda decisivo no país. Desde Edmundo em 1997, o artilheiro do Brasileiro, ou um deles quando o posto de goleador máximo era dividido, jogava como centroavante: Romário, Adhemar, Guilherme, Viola, Magno Alves, Luís Fabiano, Dimba, Washington, Souza, Josiel, Keirrison, Kléber Pereira, Adriano, Diego Tardelli, Jonas, Borges, Fred, Éderson, Ricardo Oliveira, Jô, Henrique Dourado e Gabriel Barbosa. O próprio Edmundo jogou mais adiantado que Evair naquele Vasco.

Fundamental em vários momentos, mas não obrigatório como ele faz parecer. E a história do jogo mostra vários exemplos de jogadores que desequilibraram atuando como “falso nove”. Ou seja, no centro do ataque, mas com liberdade de movimentação, caindo pelos lados,  circulando entre a defesa e o meio-campo do adversário ou recuando e abrindo espaços para as infiltrações dos companheiros. Craques ou não que contribuíram significativamente para a evolução do esporte.

Desde Matthias Sindelar do Wunderteam da Áustria dos anos 1930, passando por Nandor Hidegkuti da Hungria de 1954, Alfredo Di Stéfano no Real Madrid multicampeão dos anos 1960, Johan Cruyff no Ajax, Barcelona e na seleção holandesa nos anos 1970. Saindo da posição mais adiantada sem a bola para circular por todo o campo. Armando, marcando, atacando o espaço certo. Pensando o jogo.

No Brasil, a segunda metade dos anos 1980 apresentou um exemplo clássico de adaptação para passagem de bastão. Roberto Dinamite, maior artilheiro da história do campeonato brasileiro com 190 gols, recuou no centro do ataque do Vasco comandado por Antonio Lopes para servir um jovem centroavante adaptado à ponta esquerda: Romário. O Baixinho, em início de carreira, aprimorou as infiltrações em diagonal que o consagrariam ao longo da carreira para receber os passes do camisa dez cruzmaltino.

Inspiração para Vanderlei Luxemburgo, que trabalhou como auxiliar de Lopes em outros clubes, na década seguinte adaptar Evair, que tinha Dinamite como grande ídolo, para atrair a marcação dos zagueiros e acionar Edmundo e Edilson, depois Rivaldo, infiltrando em diagonal no Palmeiras bicampeão paulista e brasileiro em 1993 e 1994.

Outro time ainda mais vencedor foi o São Paulo de Telê Santana. Bicampeão da Libertadores e Mundial. Quem era o centroavante num ataque com Cafu, Raí, Palhinha e Muller? Sem contar o Brasil de 1970, considerado o maior time de todos os tempos, com Tostão também adaptado ao centro do ataque. Aproveitando a experiência no Cruzeiro que atuava com dois pontas abertos e o “ponta de lança” revezando com Dirceu Lopes na chegada à área adversária. Na seleção de Zagallo, procurava o lado esquerdo deixando o centro para as infiltrações de Pelé ou as diagonais de Jairzinho partindo da ponta direita.

Chegar na área como elemento surpresa e não a referência do ataque, mas também dos defensores. Foi o que consagrou todos eles. Também o que fez o futebol de Messi explodir no Barcelona de Pep Guardiola, especialmente na temporada 2010/11. O gênio argentino trabalhava entre linhas, recuava para trabalhar com Busquets, Xavi e Iniesta – formando o que provavelmente foi o melhor “losango” de meio-campo em todos os tempos – e aparecia na área para finalizar ou servia os pontas Pedro e Villa. Time que só não repetiu a tríplice coroa de 2008/09 por causa de um gol do Real Madrid na prorrogação da final da Copa do Rei.

De Cristiano Ronaldo, outro que é referência técnica de qualquer ataque que faça parte, mas precisa de um parceiro mais fixo na área adversária para fazer o “trabalho sujo”. Na Juventus é Mandzukic que luta com os zagueiros e fica no centro para o português se desmarcar da ponta para dentro e finalizar. Mais um caso em que o centroavante não é a estrela.

Com linhas de marcação compactas, concentração defensiva e muita análise de desempenho em clubes e seleções, o jogador mais estático, o centroavante “raiz” tende a encontrar mais dificuldades. O time fica mais previsível e os companheiros induzidos a alimentar aquele que só aparece quando vai às redes. A função vai se transformando com Lewandowski, Diego Costa, Harry Kane, Luis Suárez e Edinson Cavani. Todos móveis e inseridos num trabalho mais coletivo.

Até Mohamed Salah vai se aprumando na função no Liverpool de Jurgen Klopp. Antes um atacante de lado, explora a velocidade, intensidade e capacidade de se deslocar e abrir espaços para que o ataque ganhe versatilidade e mais um elemento. Agora um quarteto que pode ter Shaqiri, Wijnaldum ou Keita junto com Mané e Firmino, que cresce quando recua como meia, mas também se destacava…como “falso nove”.

No Paulista que o “Alecgol” vai disputar, o atual campeão Corinthians encontrou o melhor encaixe no torneio e na temporada alternando Jadson e Rodriguinho na frente. Uma espécie de 4-2-4 sem referência ou o tipico homem-gol.

Alecsandro está na reta final da carreira como jogador. Se quiser se manter no meio do futebol é melhor abrir um pouco a mente e aceitar uma verdade inexorável deste esporte que tanto amamos: há várias formas de jogar e vencer. Muitas verdades e poucas mentiras. Sem dogmas, nem preconceitos.

 


Casagrande, Tite, Neymar e um apelo: menos resultadismo em 2019!
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André Rocha

Há uma confusão de conceitos que marca o futebol brasileiro desde 1982: busca do resultado x resultadismo.

É óbvio que todos entram em campo para competir e vencer. A seleção de Telê Santana, tão criticada pela irresponsabilidade defensiva na derrota para a Itália, sofreu o terceiro gol com todos os jogadores dentro da própria área no escanteio para garantir o empate por 2 a 2 que garantiria a classificação para a semifinal da Copa do Mundo na Espanha.

O Brasil em Mundiais venceu e perdeu com os pragmáticos Parreira e Felipão. Até com Zagallo, o que melhor conseguiu combinar espetáculo e eficiência no título de 1970 no México. Telê não ganhou o mundo com a camisa verde e amarela, mas venceu tudo uma década depois no São Paulo.

Há formas e formas de vencer. Normalmente quem joga bem – diferente de jogar bonito, que é muito subjetivo e depende da visão do esporte de quem julga – está mais perto do triunfo. Mas no Brasil uma crença foi alimentada ao longo do tempo em uma espécie de “atalho” para conseguir os três pontos.

A ordem é simplificar. Fecha a casinha, bola no talento e se nada der certo aquele gol de bola parada, rebatida, meio ao acaso é o suficiente para detonar a catarse. Junte a isso a versão do torcedor de que “sofrido é mais gostoso” e temos o cenário perfeito para valorizar aquele um a zero suado…e mal jogado.

Mas o grande prejuízo vem nesse vício de construir toda a narrativa a partir do resultado puro e simples. Não há o jogo em si, com o imponderável e a interferência de todos os agentes. A menos que um erro da arbitragem seja decisivo. Então todo o debate se resume à decisão do apitador. Novamente o jogo fica em segundo plano. Só o resultado segue com seu protagonismo.

Parte dos jornalistas e ex-boleiros também alimentam esse reducionismo. Porque é mais simples para comentar e fácil de jogar para a galera. Se o time vence basta apontar os herois e não colocar nenhuma ressalva. Na derrota a tarefa é encontrar os vilões e colocar defeito até onde não existe.

Tite foi o primeiro convidado do programa “Grande Círculo” no Sportv e Casagrande, um dos entrevistadores, questionou o treinador sobre o corte de cabelo de Neymar na véspera da estreia da seleção na Copa do Mundo na Rússia contra a Suíça. Usando o exemplo de sua estreia em Mundiais no México em 1986 contra a Espanha, afirmou que todos no dia anterior pensavam apenas na partida, não na imagem.

É bem provável que a tentativa do comentarista fosse usar um gancho para arrancar de Tite um mea culpa sobre uma suposta falta de comando sobre o craque do time. Só que o paralelo não pareceu dos mais felizes. Até porque Casagrande já afirmou algumas vezes que quando jogava procurava se desligar e baixar a ansiedade ouvindo música e lendo livros na concentração. Também já admitiu que só assiste aos jogos que comenta, sem nenhuma pesquisa anterior.

Ainda que fosse um jogo especial para ele, o primeiro em Copas, o contexto era bem diferente. O Brasil devia ter informações bastante genéricas sobre a Espanha por conta dos recursos limitados da época. Em 2018, certamente na véspera o adversário já estava mais que estudado, dissecado por analistas, auxiliares e o próprio Tite. Os jogadores estavam municiados com todos os dados sobre cada adversário.

É quando entra o resultado. Casagrande certamente se sentiu mais seguro para usar seu exemplo para a comparação porque o Brasil venceu a então “Fúria” há 32 anos por 1 a 0, gol de Sócrates, e agora apenas empatou com a Suíça. Mas quem viu os dois jogos pode interpretar sem nenhum temor que a atuação em 2018 foi bem superior. Gol sofrido na bola parada em um lance esporádico, falha pontual de posicionamento. Boas oportunidades criadas para ir além do 1 a 1.

Já em 1986 foi um sufoco no Estádio Jalisco e o “apito amigo” ajudou mais uma vez o Brasil em Copas ao não validar um gol espanhol, ainda com 0 a 0 no placar, em chute de Michel que claramente cruzou a linha da meta do goleiro Carlos depois de bater no travessão. Casagrande? Atuação discreta, para ser generoso. Ao longo do torneio o centroavante perderia a vaga na dupla de ataque com Careca para Muller.

O resultado no Mundial também mudou o tom com Tite. Antes da Copa os elogios eram frequentes, os questionamentos, quando aconteciam, eram amenos. Só pergunta levantando a bola para o treinador cortar. Bastou perder para a Bélgica e, mesmo com o reconhecimento de que o trabalho merece um ciclo desde o início, as críticas chegam com outro peso.

A mais frequente de que o técnico teria levado um “nó tático” do espanhol Roberto Martínez no duelo pelas quartas de final da Copa. Mais uma vez a simplificação: se Martínez mexeu no time, posicionou Lukaku pela direita, De Bruyne como “falso nove” e terminou o primeiro tempo vencendo por 2 a 0 só pode ter sido a surpresa da mudança.

Mas basta rever o jogo com atenção para notar que a “barbeiragem” tática do técnico da Bélgica só não custou caro porque a sequência de acontecimentos da partida o beneficiou demais. Se houvesse surpresa isso ficaria claro nos primeiros minutos. Tite mandou recado para manter a maneira de jogar e o sistema tático.

Nos primeiros minutos, a superioridade numérica pela esquerda com Marcelo, Phillipe Coutinho e Neymar contra apenas Meunier e Fellaini, já que Lukaku não voltava para ajudar sem bola, criou uma finalização e o escanteio que terminou no toque de Thiago Silva que bateu no travessão de Courtois.

O que desequilibrou tudo foi o gol contra de Fernandinho. O substituto de Casemiro se perdeu no jogo e, aí sim, o sistema defensivo desmoronou. No segundo dos belgas, o rebote do escanteio gerou um contragolpe com Lukaku por dentro servindo De Bruyne pela direita. Chute forte e cruzado, 2 a 0. Qual a relevância das mudanças da Bélgica nos gols?

Tite pode e deve ser questionado por não ter sido mais prudente por conta da ausência de Casemiro, que nos jogos anteriores, especialmente nas oitavas contra o México, salvou vários erros de posicionamento de Paulinho e Coutinho no meio-campo. Poderia ter mantido Filipe Luís e deixado Marcelo, com seus problemas defensivos, no banco. Ou reforçado o meio. Aí entram dois equívocos correlatos: manter Fred lesionado no grupo sabendo que Renato Augusto não teria condições de entregar 100% em 90 minutos.

No segundo tempo, um ajuste na retaguarda com Fagner e Miranda colando em Hazard e Lukaku, Fernandinho vigiando De Bruyne e Thiago Silva sobrando; Douglas Costa, Roberto Firmino e Renato Augusto em campo e domínio absoluto brasileiro. Várias finalizações, chances cristalinas (e imperdíveis num jogo eliminatório) de Coutinho e Renato Augusto, autor do único gol, e defesaça de Courtois em chute colocado de Neymar no ataque final.

Era jogo para 2 a 2 ou até virada brasileira, mas deu Bélgica. Eliminação e o ciclo de vilanização, especialmente de Tite e Neymar. Que merecem críticas, sim. Mas não atirando para qualquer lado. O Brasil podia ter passado à semifinal apesar dos problemas. A campeã França jogou tão melhor assim?

Neymar merece ser alvo, mas pelo motivo mais justo: o erro grave de preferir forçar o jogo individual para pendurar adversários com cartões e tentar cavar um vermelho simulando contusão e rolando no chão em vez de dar sequência, não cair e tentar definir finalizando ou servindo. Pouco inteligente, para dizer o mínimo.

Mas preferem focar no periférico, no cabelo. Tite já havia admitido a imaturidade de Neymar em uma pergunta simples e direta sobre o tema no “Bola da Vez” da ESPN Brasil. No Sportv diante de Casagrande deu a única resposta possível para uma pergunta mal formulada: o jogador tem a liberdade de cortar o cabelo na véspera de uma partida.

Ronaldo Fenômeno fez o corte “Cascão” nos dois últimos jogos em 2002. Na Copa das Confederações de 1997, jogadores tiveram suas cabeças raspadas em um trote absurdo que deixou sequelas no relacionamento entre alguns deles. Como a bola entrou e a taça foi levantada, tudo entra para o “folclore”. Se tivesse perdido…

Não pode ser só isso. O futebol é apaixonante justamente por suas nuances, imprevisibilidades. Pela beleza do futebol bem jogado, mas também pela possibilidade nada desprezível do time pior sair de campo vencedor. É simplista demais resumir todos os processos ao placar e à posição na tabela. Se o resultado fosse tudo não seria futebol.

Por isso, neste último texto em 2018, o blog faz um humilde apelo por obrigação de ofício e também amor ao jogo: menos resultadismo em 2019! Até lá!

 


Ancelotti é o líder tranquilo que inspira Tite e Zidane e combina Pep e Mou
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André Rocha

“Antes de sua chegada ao Real, pensávamos que por ser italiano ele daria muito destaque a treinos táticos, mas os treinos começaram e nada de tática. Carlo dizia: “Com esse time, não preciso de muita tática. Quero marcar gols com esses jogadores’. Quando se tem essa mentalidade ofensiva, a ênfase deixa de ser dada à defesa”.

Palavras de Cristiano Ronaldo sobre Carlo Ancelotti no livro “Liderança Tranquila”, do próprio treinador italiano com Chris Brady e Mike Forde traduzido pela Editora Grande Área. Uma obra que trata fundamentalmente de gestão de pessoas e da importância da serenidade e da resiliência no meio insano que é o futebol.

Impossível não lembrar da tradicional “Oração da Serenidade”, do teólogo Reinhold Niebuhr: “Concedei-nos, senhor, serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguirmos uma das outras”.

Ancelotti não sofre com a pretensão de controlar tudo. Entende as particularidades de cada atleta, dirigente e subordinado e busca sempre um consenso. O meio termo. Equilíbrio.

Por isso Tite foi procurá-lo em Madrid no seu 2014 “sabático”. O técnico da seleção brasileira descreve brevemente na orelha do livro como foi sua experiência com Ancelotti e, ao contrário da visão de Cristiano Ronaldo, viu muita tática no Real Madrid que venceu “La Décima” e seria a referência para Zinedine Zidane, então seu auxiliar, a faturar de 2016 a 2018 o tricampeonato da Liga dos Campeões.

“Um time que atacava em 4-3-3 e defendia em 4-4-2. Era desafiador saber como ele havia montado uma equipe tão equilibrada, que vencia e encantava”, elogia Tite. Uma boa explicação vem justamente do treinador brasileiro em conversa com este blogueiro: “Ele circula com inteligência entre as ideias de Pep Guardiola e José Mourinho”.

Ancelotti monta equipes que sabem jogar com posse e em transições rápidas de acordo com a necessidade desde o Milan que venceu duas das três Champions que o técnico ostenta em seu currículo. Em 2007 montou o 4-3-2-1, a “Árvore de Natal” que protegia o “regista” Pirlo com os marcadores Gattuso e Ambrosini e dava liberdade a Kaká para ser a força de arranque no típico “contropiede” italiano para desequilibrar finalizando ou servindo Pippo Inzaghi. Tudo isso com o auxílio luxuoso de Clarence Seedorf. Um time histórico, assim como o Chelsea dos 103 gols marcados e campeão inglês na temporada 2009/10.

Foi jogador e discípulo de Arrigo Sacchi. Sabe usar o “pressing” e atacar com volume de jogo como Guardiola, mas se preciso é capaz de atropelar o Bayern do próprio treinador catalão nos 4 a 0 em Munique pela semifinal da Liga dos Campeões jogando à la Mourinho: recuando as linhas até a entrada da área, fazendo Bale voltar pela direita e abrir Di María à esquerda para se trancar num 4-4-2 guardando a meta de Casillas e pulverizar o time alemão nas saídas rápidas procurando Cristiano Ronaldo.

Mas abrindo o caminho na bola parada com Sergio Ramos. Vencendo com todas as armas possíveis. Gerenciando e dando confiança aos jogadores para tomarem as melhores decisões em campo. Sem forçar protagonismo, como se tudo fosse meticulosamente planejado e treinado antes. Como se o jogo não tivesse suas múltiplas improbabilidades e surpresas.

Assim comanda o Napoli que herdou de Maurizio Sarri. Mantendo o gosto pela posse de bola, mas adicionando velocidade, contundência e mobilidade, além da capacidade de competir em altíssimo nível. Assim lidera o duríssimo Grupo C da Champions com PSG e Liverpool e precisa de um empate em Anfield para eliminar os Reds de Jurgen Klopp, vice da edição passada.

Na liga italiana tem 76% de aproveitamento, mas é difícil concorrer com a Juventus heptacampeã e que em 14 rodadas faturou 95% dos pontos e já tem Cristiano Ronaldo como um dos artilheiros. Continua sendo bonito ver a equipe de Allan, Hamsik, Callejón, Mertens e Insigne, que com Ancelotti ganhou liberdade para sair da esquerda e se juntar à referência na frente formando uma dupla. Assim como CR7 no time merengue há cinco anos.

Carlo Ancelotti pode ser considerado o “pai” do futebol por demanda. Ainda que Jupp Heynckes tenha sido uma espécie de introdutor da ideia em 2013, ainda na dicotomia Pep x Mou, fazendo seu Bayern de Munique ser o rolo compressor que varreu a Alemanha e a Europa amassando os adversários ao se instalar no campo do oponente ou voando nos contragolpes com os ponteiros Robben e Ribéry para enfiar 7 a 0 no agregado sobre o Barcelona na semifinal continental.

Se hoje Guardiola procura ser um pouco mais direto e usar mais as jogadas aéreas com bola parada ou rolando no Manchester City; Simeone e Klopp tentam dosar a intensidade e ter mais a posse para controlar jogos, Mourinho parece parado no tempo exatamente por se manter preso ao velho pragmatismo, sem variações, e Zidane venceu tudo tão rapidamente como treinador é porque Ancelotti, discretamente, apontou o caminho. A pista do centro para chegar mais rápido e seguro ao destino.

Fuga dos extremos. Fundamental no futebol e na vida, ainda mais nestes tempos tão estranhos. “Liderança Tranquila” não é um tratado sobre coaching. Até porque Ancelotti deixa claro que não há um jeito certo para liderar. Existe a maneira de cada um. O italiano mostra dentro e fora de campo uma possibilidade de vencer e inspirar combinando ideias. Sem exageros e estrelismos. Apenas a justa medida.

 


Brasil deve unir futebol intuitivo de Felipão e o jogar de memória de Tite
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André Rocha

Foto: Alex Silva (Agência Estado)

O maior título da carreira de Luiz Felipe Scolari é o último mundial do Brasil em 2002. Pouco mais de um ano depois de ser anunciado como treinador da seleção. Aos trancos e barrancos formou uma base que contou com a ascensão de Ronaldinho Gaúcho e a volta de Ronaldo para encontrar o time no amistoso contra Portugal há dois meses da Copa e depois efetuar duas trocas: Emerson por Gilberto Silva e Kléberson por Juninho Paulista.

Sem muito tempo, fez o básico da escola brasileira: “fechou a casinha” com Edmilson ora terceiro zagueiro, ora volante e baseou seu jogo ofensivo na força e velocidade dos laterais Cafu e Roberto Carlos e no talento dos dois Ronaldos e mais Rivaldo. Venceu sete jogos – na estreia contra a Turquia e nas oitavas diante da Bélgica com erros graves da arbitragem que beneficiaram a seleção – e faturou a quinta taça para a camisa verde e amarela.

O mesmo futebol intuitivo que consagra o técnico veterano 16 anos depois na sua volta ao Brasil após três temporadas de sucesso na China. Sem muito tempo para treinar por estar envolvido em três competições fez o simples: organizou a defesa, protegeu os veteranos Edu Dracena e Felipe Melo e apelou para ataques mais diretos, procurando um pivô – Borja ou Deyverson – e o talento de Dudu, potencializado pelo carinho de Scolari ao atacante.

Fez o que a diretoria e a torcida queriam: priorizou Libertadores e Copa do Brasil e alternava três ou quatro titulares no Brasileiro. Atrás de Flamengo e São Paulo nos pontos corridos, foi resgatando o desempenho de Lucas Lima e Mayke, ganhou o reforço do zagueiro paraguaio Gustavo Gómez e, com o clima leve pelos bons resultados no mata-mata, foi pontuando e subindo até chegar à liderança.

Com as eliminações para Cruzeiro no torneio nacional e Boca Juniors no continental, a pressão para transformar a primeira colocação e a invencibilidade em título. O desempenho caiu, mas não o aproveitamento. Na vitória sobre o Vasco em São Januário, a confirmação do décimo título brasileiro do Palmeiras.

Todos felizes e à vontade. Clima de família. Funciona desde que o comandante gaúcho ganhou destaque no cenário nacional com a conquista da Copa do Brasil de 1991 pelo Criciúma. Passando por Grêmio, Palmeiras e Cruzeiro em sua fase mais gloriosa que alcançou o ápice no Mundial de 2002.

Felipão coloca cada um em seu lugar, se defende com encaixe na marcação, pressão sobre o adversário com a bola e perseguições curtas ou longas dependendo do adversário. Ofensivamente abusa das ligações diretas para ganhar metros de campo e acionar os atacantes mais perto da área do oponente para definir a jogada rapidamente. Se a bola bater e voltar, o sistema defensivo está organizado para não ser surpreendido no contragolpe.

Para isto não precisa de muitas sessões de treinamento. A assimilação é rápida também porque cada atleta só necessita colocar para fora os instintos de cada função. Velocidade dos laterais, vigor e senso de cobertura dos zagueiros, desarmes dos volantes, criatividade do meia mais solto, agressividade dos ponteiros, pivô e faro de gol do atacante de referência.

Bem diferente do jogar “de memória” de Tite. Porque exige repertório mais amplo e maior entendimento coletivo. A começar pela marcação por zona com última linha de defesa posicionada para proteger a própria meta. Algo pouco ou nada trabalhado nas divisões de base nas décadas passadas.

Exige convencimento e tempo. Algo que Tite ganhou no Corinthians, mesmo com o furacão Tolima no início de 2011. Foi burilando o time até vencer o Brasileiro. Com a proposta amadurecida e direito a variações do 4-2-3-1 para o 4-1-4-1 com o avanço do volante Paulinho como meia e alternando Danilo e Emerson Sheik pelo centro e à esquerda do ataque venceu a Libertadores. Com Guerrero comandando o ataque num 4-4-1-1 superou o Chelsea no último título brasileiro no Mundial de clubes.

Em 2014 foi para a Europa buscar repertório ofensivo para adicionar à solidez sem a bola que marcou sua fase vitoriosa. Mirava a seleção depois da Copa de 2014, com Felipão no comando. A CBF preferiu Dunga e Tite voltou ao Corinthians no ano seguinte. Encontrou atletas campeões com ele, mas de novo encarou o desafio de convencer e fazer funcionar suas novas ideias com horas em campo, treinando e jogando.

Adicionou posse de bola e criatividade através de tabelas e triangulações para infiltrar. Ajustou peças até encaixar Vagner Love no ataque, aprimorar Jadson como ponta articulador partindo da direita e fazer Renato Augusto comandar a saída de bola e as trocas de passes para o time voar na reta final do Brasileiro e ser o último campeão capaz de dar espetáculo com um belo jogo coletivo.

Em 2016 foi chamado para resgatar a seleção. Precisando de resultados imediatos para colocar o Brasil na Copa e sem tempo para treinar, Tite criou uma rotina árdua com sua comissão técnica de estudo e observação de atletas. O objetivo era claro: fazer o jogador repetir na seleção os movimentos e a dinâmica individual e coletiva que pratica no clube. Ativar a memória de um jeito diferente. Totalmente sintonizado com as práticas do futebol atual não foi difícil convencer os comandados nas Eliminatórias.

O único que fugia do que fazia no clube era Philippe Coutinho. Meia pela esquerda no Liverpool virou ponta articulador pela direita, mas aproveitando a liberdade para circular e aparecendo por dentro para marcar um golaço nos 3 a 0 sobre a Argentina no Mineirão. Ascensão rápida até o topo nas Eliminatórias e vaga garantida no Mundial da Rússia com enorme antecedência.

Na Copa, Tite sentiu o peso da missão. Ele mesmo admite que na execução do hino na estreia contra a Suíça a ficha caiu. Faltou tempo para se preparar mentalmente. Em dois anos teve que colocar o Brasil na Copa, depois trabalhar para ser competitivo diante dos europeus.

Pior: teve sua base abalada. Daniel Alves cortado, Renato Augusto fora de forma, Neymar lesionado três meses antes da Copa, Gabriel Jesus oscilando no Manchester City. Usou Danilo na lateral direita, depois Fagner. Centralizou Coutinho e abriu Willian pela direita. Quando Douglas Costa viraria titular se contundiu.

Mexeu na estrutura, perdeu desempenho. Mas seguiu na Copa até o golpe fatal: sem Casemiro, viu Fernandinho marcar a favor da Bélgica e o sistema defensivo desmoronar com a instabilidade emocional de seu volante de proteção e também a qualidade de Lukaku, De Bruyne e Hazard. Para depois cumprir sua melhor atuação na Copa ao longo do segundo tempo, desperdiçar chances claras com Renato Augusto e Coutinho, ver Courtois fazer milagre em chute de Neymar e voltar para casa nas quartas de final.

Eliminação que colocou Tite no olho do furacão resultadista tipicamente brasileiro. De gênio, referência de competência até para políticos a burro e fraco, incapaz de gerir o mimado Neymar. Da China, Felipão deu o recado: agora não era o último a perder com a seleção, mas era o último a ter vencido.

Em tempos tão apressados, o 7 a 1 tinha sido empurrado para o passado. Com o fracasso da Alemanha em 2018, a maior derrota da seleção brasileira passou a ser relativizada. Justamente o revés que mostrou que o futebol meramente intuitivo pode desabar nas disputas em altíssimo nível. Também retirou definitivamente o nome de Scolari da mira de times e seleções nos principais centros.

Por outro lado, talvez tenha faltado mais instinto e sensibilidade a Tite no Mundial. Quando o entrosamento e a memória faltaram e era preciso ter feeling para tomar decisões sob pressão, o treinador com mais preparo e estudo vacilou. Com um novo ciclo, agora desde o início mas com enorme desafio já no ano que vem com a disputa da Copa América em casa, surge a chance de amadurecer, ganhar cancha no universo de seleções.

Acima de tudo se encaixar no jogo por demanda que ascende no futebol mundial. Inspirado no Real Madrid de Zidane e Cristiano Ronaldo, mas também na França de Deschamps e Mbappé. Campeões “camaleões”, que vencem atacando ou explorando contragolpes.

Inteligência e versatilidade para se adaptar aos mais diversos cenários. Ter conceitos, mas também capacidade de improvisar. Principalmente no mata-mata, quase sempre decidido com força mental e talento. Como em 2002 com Felipão. Agora, paradoxalmente, o campeão da regularidade em seu primeiro título brasileiro nos pontos corridos.

Tite e Scolari são dois lados de um futebol brasileiro buscando o retorno ao topo. Antigos companheiros da escola gaúcha, hoje separados por desavenças e trocas de farpas. Exatamente pelas visões antagônicas que resistem em ver valor no outro pólo.

O melhor caminho seria o aprendizado em conjunto para uma evolução segura. Dos treinadores e do nosso jogo, que pode e deve alternar memória e instinto para voltar a se impor no cenário mundial.

 


Dudu sobra no Palmeiras e no país porque é o típico talento brasileiro
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André Rocha

Dudu faz cara de choro com a arbitragem. Reclama de qualquer coisa, já protagonizou cenas patéticas rolando no chão e pedindo VAR em cobrança de lateral na Copa do Brasil.

Dudu precisa de um paizão. Um treinador que saiba cobrar com carinho e deixar bem claro o quanto ele é fundamental, essencial para o time. Sem exigir taticamente, nem muita leitura de jogo coletivo. Liberdade total.

Dudu necessita da bola. Para ser o destaque do Palmeiras campeão da Copa do Brasil de 2015, do título brasileiro do ano seguinte e agora da conquista que deve se confirmar no domingo contra o Vasco em São Januário ou ficar para a última rodada e fazer a festa em casa diante do Vitória.

Impressiona a vontade de participar do jogo. É capaz de arrancadas seguidas com velocidade e intensidade máximas. Parece preferir esse estilo bate-volta de Cuca em 2016 e de Felipão agora. Ataca rápido, perde, recupera, volta a acioná-lo. Ele parte, conduz, dribla, finaliza o serve os companheiros.

Sete gols, 12 assistências. A grande maioria sob o comando de Scolari, que vez ou outra reclama da dificuldade de se comunicar com a geração atual. Mas pegou Dudu no colo e o camisa sete retribui voando em campo. No Palmeiras é quem mais acerta dribles e o segundo melhor finalizador, atrás de Willian. O terceiro em viradas de jogo.

Vão cobrar na seleção brasileira e Tite pode, mesmo, dar uma chance no ano que vem se Dudu mantiver o desempenho. Mesmo descontando o nível do futebol jogado no país, a vaga na ponta direita, em disputa com Douglas Costa e Willian, está aberta. Vale o teste.

Porque Dudu sobra por aqui. É o típico talento brasileiro: reclamão, manhoso, meio mala em campo. Mas desequilibrante quando se sente abraçado. Assim deve aninhar nos braços mais uma taça. Nenhuma foi tão dele.

(Estatísticas: Footstats)


Ajustar seleção com Arthur, Coutinho e Neymar é o desafio de Tite para 2019
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André Rocha

Há um mito no Brasil de que basta escalar os melhores de cada posição que eles se entendem em campo. Vem dos tempos das “Feras do Saldanha” ou, pouco tempo depois, da Copa do Mundo de 1970. Com outra lenda, a dos “cinco camisas dez” – leia mais AQUI.

Mesmo há quase meio século não fazia muito sentido, já que no México o lateral Marco Antonio foi reserva de Everaldo, este menos qualificado tecnicamente, mas que defendia melhor e dava liberdade para Carlos Alberto Torres apoiar do lado oposto e os canhotos Gérson, Rivelino e Tostão podiam trabalhar ofensivamente pela esquerda.

Equilibrar setores e combinar características são justamente os grandes desafios de Tite na remontagem da seleção brasileira no novo ciclo até 2022. Mas que tem uma etapa decisiva no ano que vem com a disputa da Copa América em casa. Como sempre, tudo fica condicionado ao resultado final, sem avaliar evolução e potencial de crescimento.

Mas parece claro que o desempenho pós-Copa não foi dos mais empolgantes. Talvez em resultados: seis vitórias, 12 gols marcados, nenhum sofrido. 50% na bola parada, nove com participação direta de Neymar – seis assistências e três gols.

Em campo, porém, fica nítido que o encaixe das peças não é tão simples. Começando pelo novo titular do meio-campo: Arthur vai ganhando cancha internacional atuando pelo Barcelona e também minutos com a camisa verde e amarela para se soltar. É o jogador que dá o ritmo e o tempo do jogo, muitas vezes com passes para o lado e para trás. Faz sua equipe controlar pela posse, desde o período vitorioso no Grêmio.

Mas para completar o trio do setor com Casemiro é necessário um companheiro de estilo mais direto, com infiltração. Não é Renato Augusto, nem Paulinho. Fred tem características parecidas com as deArthur. Talvez Allan, novidade da última lista e que atuou assim contra Camarões. Perdeu duas boas chances, mas vai se soltando.

E Philippe Coutinho? Bem, este é mais um problema de ter atletas talentosos, porém com características parecidas e ocupando o mesmo espaço. No Barcelona se acertou justamente abrindo vaga para Arthur no meio e formando o ataque com Messi e Suárez. Exatamente na faixa deixada por Neymar que Dembelé não conseguiu ocupar.

Na seleção, Coutinho atuando por dentro oscila muito. É capaz de ajudar a equipe com um belo passe para gol, mas também deixar espaços às costas e sobrecarregar Casemiro, como aconteceu na Copa. Não parece à vontade, também por causa de Neymar.

O camisa dez e estrela máxima da seleção deixou de ser o atacante no Barça que recebia os passes e inversões de Messi e infiltrava em diagonal para se juntar a Suárez. No PSG essa função é de Mbappé. Neymar agora faz a do gênio argentino no ex-clube: ponta articulador. Recebe, conduz, dribla e aciona um companheiro em velocidade.

Com Tomas Tuchel na maioria das partidas da atual temporada se transforma mesmo em um camisa dez, com liberdade de ação e chegando de trás. Tite prefere Neymar partindo da esquerda, mas os movimentos são praticamente os mesmos. Agora ele procura mais a bola, não ataca tanto os espaços às costas da última linha de defesa do adversário. Carrega e passa ou corta para dentro e finaliza. Assim como Coutinho.

Soluções? Talvez mudar o desenho tático para o 4-2-3-1 e dar mais liberdade a um dos dois. Melhor Neymar, deixando Coutinho pela esquerda. Ou voltar à ideia do início do trabalho, deslocando Coutinho para o lado direito como ponta articulador, circulando e procurando as costas dos volantes do oponente. Só que agora seriam dois extremos cortando para dentro, afunilando a jogada. O mesmo se a opção for pelo canhoto Douglas Costa à direita.

Para compensar, só com profundidade dos laterais. A má notícia é que Danilo, Fabinho e Filipe Luís não têm como características a intensidade e a rapidez para fazer a ultrapassagem e cruzar do fundo. Nem Marcelo. Só Alex Sandro dos últimos convocados.

Então o Brasil roda a bola no ritmo de Arthur, toca, toca, toca…e dificilmente encontra o passe que clareia tudo, quebra as linhas de marcação e encontra o homem livre para servir ou concluir. É um time travado na maior parte do tempo. Lógico que há a questão mental, de ressaca da derrota para a Bélgica na Rússia, do desgaste da imagem da seleção, do treinador e do craque. Mas não é só isso que vem tornando os jogos enfadonhos, sonolentos.

A boa notícia é Richarlison. Atacante rápido, móvel e finalizador. Assim como Gabriel Jesus, procura os espaços para infiltrar, porém vivendo um melhor momento que o jogador do Manchester City. Firmino é mais um jogador de passe e que procura a bola para só depois acelerar. Como Neymar, Coutinho, Douglas Costa, Willian…

Defensivamente os problemas parecem bem menores. Tite organiza e compacta bem os setores, a resposta com pressão depois da perda da bola é positiva e opções para goleiro e zaga não faltam. Para ficar ainda mais tranquilo só falta um reserva confiável para Casemiro. Por mais que Fernandinho renda no City de Guardiola o histórico na seleção joga contra.

Há qualidade, como quase sempre nas gerações brasileiras. O desafio de Tite é seguir com seu trabalho de estudo e observação, vendo partidas e treinos dos atletas nos clubes e fazendo experiências nos jogos. Esquentar o cérebro até montar o quebra-cabeças. Cada peça em seu lugar e todas funcionando para o time. Em função de Arthur, Coutinho e Neymar, os diferentes.

Sem fórmula mágica,  mas precisando de um “click” para fazer tudo fluir melhor a partir do ano que vem.


Por que Richarlison é o atacante mais promissor da Premier League
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André Rocha

Foto: Agência Reuters

Melhor contratação da temporada na Premier League. Assim a revista Four Four Two saudou o atacante Richarlison, do Everton, em um ranking de aquisições dos clubes da primeira divisão inglesa na temporada 2018/19. Um “centroavante completo” segundo a publicação.

Este que escreve se arrisca a dizer que o brasileiro de 21 anos é o atacante mais promissor de uma das ligas mais competitivas do planeta. E um dos melhores, mesmo com a enorme concorrência de Aguero, Hazard, Kane, Aubameyang, Salah e outros.

Porque o nível alcançado em pouco tempo depois da saída do Watford para o clube de Liverpool já é muito alto. Em técnica, tática e, principalmente, intensidade. Richarlison é o típico atacante para o ritmo e as particularidades do campeonato que disputa.

Atua centralizado, mas sabe sair para os lados. Tanto abrindo espaços para os companheiros como para criar as brechas para as próprias finalizações. Especialmente nas infiltrações em diagonal. Sabe rondar a área adversária e não se intimida com a disputa física e pelo alto com os zagueiros.  Também participa com eficiência da pressão logo após a perda da bola. Forma com Walcott, Sigurdsson e Bernard um quarteto ofensivo de muita mobilidade na equipe de treinador Marco Silva.

Richarlison já mostra sintonia fina com Sigurdsson, o articulador do quarteto ofensivo do Everton. No lance, o brasileiro ataca o espaço no tempo certo para finalizar passe do meia islandês (Reprodução ESPN Brasil).

É uma espécie de Diego Costa mais ágil e inteligente e menos “polêmico”. Chama lançamentos, mas também faz pivô. São seis gols em 840 minutos nas dez partidas em que entrou em campo, sempre iniciando como titular. Com média de 2,3 finalizações por jogo, segundo o site Whoscored.com. Ainda pode melhorar o senso coletivo, já que ainda não serviu passes para gols e tem média inferior a um “key pass” por partida.

Natural que pela idade e por conta da mudança de clube a ansiedade para dar respostas com gols seja maior. O potencial de evolução, porém, é enorme. Ainda mais se continuar progredindo e fizer nova mudança de clube, desta vez para um dos que disputam efetivamente o título nacional. O Everton, apesar da tradição, ocupa apenas a nona posição e a meta palpável é tentar alcançar uma vaga para a Liga Europa – está a cinco pontos do Arsenal, quinto colocado.

Na seleção brasileira, a disputa é cruel com Gabriel Jesus e Roberto Firmino, que estão na frente dentro da meritocracia de Tite, pelo histórico de convocações e desempenho ao longo do processo desde o segundo semestre de 2016. Mas Richarlison é alvo de elogios do treinador e pode ser aproveitado também pelos flancos.

Em um ataque com passadores como Firmino, Coutinho e Neymar, contar com uma opção que dê profundidade e contundência às ações ofensivas é sempre importante. Neste ponto a concorrência maior do jogador do Everton é com Gabriel Jesus, que sinaliza recuperação de desempenho no Manchester City. Mas também pode entrar como ponteiro em uma formação mais ofensiva.

Richarlison em sua jogada característica, infiltrando em diagonal partindo da esquerda para finalizar de pé direito com efeito (reprodução ESPN Brasil).

No popular, Richarlison “fede a gol”. E ainda tem carisma, como mostrou na popularização da “dança do pombo” e no trato com os fãs. No universo midiático e das redes sociais é um trunfo importante, ainda mais para um atleta de origem humilde, vindo de Nova Venécia, no Espírito Santo.

Mas a maior credencial, sem dúvida, é o que o atacante revelado no América-MG e que se destacou no Fluminense demonstra no campo. Na Premier League ele já está sobrando.

 

 


Nem vitória sobre Argentina tira o Brasil de Tite da “ressaca” pós-Copa
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André Rocha

Tite resolveu resgatar contra a Argentina na Arábia Saudita uma ideia da Copa do Mundo. Mais especificamente o segundo tempo da vitória sobre o México nas oitavas de final. Ou emular a dinâmica do ataque do PSG para deixar Neymar partindo da esquerda, mas à vontade para circular.

Gabriel Jesus na ponta direita buscando as diagonais em velocidade como Mbappé, Roberto Firmino no centro do ataque sendo o “Cavani”. No meio, Philippe Coutinho por dentro com Arthur e Casemiro. Variação do 4-1-4-1 para o 4-4-2 sem bola com o camisa dez e capitão sem grandes atribuições defensivas.

Valeu o teste para observar a movimentação, mas novamente ficou a impressão de que a “ressaca” da Copa do Mundo ainda não passou. Talvez por conta da permanência de Tite, sem um recomeço, “fato novo”…O fato é que as atuações têm sido com baixa intensidade. O forte calor também jogou contra.

Dentro desta nova proposta, a presença de laterais de maior vigor físico, atenção defensiva, mas que não chegam ao fundo com velocidade deixam a equipe um pouco mais travada, previsível. Sem Paulinho e com Arthur, o Brasil ganha circulação da bola, mas perde outra opção de infiltração.

Melhorou um pouco com a entrada de Richarlison no lugar de Gabriel Jesus, mas nada especial. Com Neymar articulador é preciso ajustar a movimentação de Coutinho para não subaproveitar o talentoso meia do Barcelona que rendeu pouco mais uma vez.

A Argentina renovada de Lionel Scaloni sem Messi também teve problemas para criar, com Dybala e Correa alternando pelas pontas, mas sem infiltrar e Icardi encaixotado por Marquinhos e Miranda. O mesmo 4-1-4-1 variando para as duas linhas de quatro, também sem ultrapassagens rápidas pelos flancos. A albiceleste teve um período de domínio no início da segunda etapa e só.

O resultado foi um jogo sonolento, protocolar. Para cumprir contrato. Sem espírito de clássico, um triste retrato da perda de protagonismo mundial dos gigantes sul-americanos. No final, o gol de Miranda completando de cabeça escanteio de Neymar, após enrosco com Otamendi, para evitar uma decisão por pênaltis que seria constrangedora.

A expectativa é de que o trabalho de Tite desde o início do ciclo ganhe vida em 2019, com a Copa América como uma meta mais próxima. Algo para ser encarado como desafio e tirar do marasmo de um “luto” que apesar dos sorrisos está demorando demais a passar.