Blog do André Rocha

Arquivo : Alemanha

Paulo Turra, auxiliar do Palmeiras: “Mourinho aprendeu muito com Felipão”
Comentários Comente

André Rocha

A volta de Luiz Felipe Scolari ao Palmeiras após seis anos foi anunciada no dia 26 de julho. mas no dia seguinte chegavam ao clube os auxiliares Paulo Turra e Carlos Pracidelli. Na segunda-feira o primeiro treino e, em seguida, Turra à beira do campo no empate sem gols com o Bahia em Salvador pela Copa do Brasil, competição importante para o clube na temporada. Só depois Felipão chegou de Portugal e fez sua reestreia no o a 0 contra o América pelo Brasileiro.

Cronologia que mostra a relação de sintonia entre o ex-zagueiro, inclusive do Palmeiras, e o chefe Felipão. Sem Flávio Murtosa, que alegou problemas particulares, é Turra, aos 44 anos, quem aplica os treinos ao lado de Pracidelli. Antes, no Guangzhou Evergrande, trabalhava apenas na elaboração. Em entrevista exclusiva ao blog, Paulo Turra descreve a dinâmica de trabalho no novo clube e defende Scolari das críticas mais contundentes nos últimos tempos: o 7 a 1 e uma visão de futebol ultrapassada.

BLOG – O trabalho mais bem sucedido nos últimos dois anos no Brasil é o de Renato Gaúcho no Grêmio. O auxiliar, Alexandre Mendes, cuida da metodologia de treinamentos e do desenvolvimento do modelo de jogo e Renato fica com a decisão final, a parte mais estratégica e de gestão de grupo. A ideia da sua parceria com Felipão e o auxílio do Pracidelli é parecida?

PAULO TURRA – Em linhas gerais, sim. Antes eu cuidava da elaboração e Murtosa da aplicação dos treinamentos. Também observava os adversários, junto com o Pracidelli. Mas o trabalho está todo interligado. Nós também colaboramos, dentro da hierarquia, com a gestão do grupo. Conversamos individualmente, mas também em grupos, como os jogadores de um setor. Podemos também explicar como joga o próximo adversário.

BLOG – Vocês já utilizam o WhatsApp ou outro recurso para disponibilizar material diretamente no celular do atleta?

PAULO TURRA – Ainda não, embora o Felipão esteja pensando em fazer algo neste sentido. Por enquanto conversamos individualmente, mas contando com o auxílio dos profissionais da Análise de Desempenho. Só para dar um exemplo, vamos conversar com três ou quatro jogadores sobre algumas dificuldades que encontramos no jogo contra o Bahia aqui em São Paulo. Mas também tem o outro lado: Lucas Lima evoluiu muito nas infiltrações por trás da defesa neste último jogo, contra o Vitória. Ele costuma voltar para buscar a bola nos pés dos volantes, até dos zagueiros, pisou muito mais na área adversária e ali ele é mais letal e pode nos ajudar.

BLOG – Como é a dinâmica dos treinamentos?

PAULO TURRA – Chegamos aqui com bastante antecedência para prepararmos tudo. A ideia é trabalhar 50% na assimilação do modelo de jogo e os outros 50% com ajustes de acordo com o adversário. Também evitamos o campo reduzido em todas as práticas, usando muitas vezes a largura total do campo para que tenhamos algo mais próximo da realidade da partida, especialmente nas inversões de jogo. O primeiro gol contra o Vitória, por exemplo, saiu de uma jogada treinada. Passamos informações concretas para que sejam assimiladas com mais facilidade e, principalmente, trabalhamos muito o lado mental do atleta. Pedimos para que mentalizem bem o que praticaram nos treinos e precisam fazer nos jogos.

BLOG – Que legado vocês receberam do trabalho do antecessor, Roger Machado?

PAULO TURRA – O Palmeiras é um clube muito bem estruturado. Na Análise de Desempenho temos o Gustavo e o Rafael, profissionais competentes que em três ou quatro reuniões entenderam rapidamente o que pretendemos. Quanto ao legado do Roger, eu posso dizer que foi uma espécie de “troca de favores” porque tenho certeza que quando ele assumiu o Grêmio em 2015 recebeu um trabalho pronto e bem feito do Felipão, inclusive em termos de estrutura do Centro de Treinamentos. Aprendeu e deu sequência. No futebol não existe certo ou errado, mas ideias complementares. Quem é inteligente pega o melhor de cada treinador.

BLOG – É óbvio que para convidá-lo para ser seu auxiliar, certamente Felipão tem ideias sobre futebol parecidas com as suas. Mas o quanto elas são semelhantes ou alinhadas?

PAULO TURRA – São bem próximas, de fato. Mas quando há divergência falamos normalmente. Todo mundo tem algo a aprender e Felipão me dá liberdade para discordar quando achar que devo. Com o devido respeito, pois é um profissional vencedor e que está na história do futebol. Mas minhas equipes (treinou times como Brusque, Avaí e Cianorte) também tinham um volante e um atacante de referência, como são Felipe Melo e Borja ou Deyverson. Outros detalhes também, como o lateral do lado oposto ao que está atacando fechando como terceiro zagueiro. Conhecia como amigo do futebol, já tínhamos ideias parecidas e desde que começamos a trabalhar juntos na China essa sintonia aumentou.

BLOG – Tanto que ele recentemente não aceitou que você retornasse a China como treinador, correto?

PAULO TURRA – Exatamente. A proposta nem chegou a mim. Felipão recebeu por e-mail, negou e depois me contou, sem nem dizer qual era o nome do clube chinês. Mas eu não sairia mesmo. Estou feliz no Palmeiras e sei que ele precisa de mim, ainda mais sem o Murtosa. Seria uma ingratidão. Quero seguir no Brasil, onde para mim é um dos lugares em que o futebol é melhor jogado.

BLOG – Você observa jogos e relata para o Felipão. No episódio do 7 a 1 na Copa do Mundo de 2014, os observadores Roque Júnior e Alexandre Gallo relataram sobre a força da Alemanha no meio-campo e a capacidade de preencher espaços no campo de ataque e Felipão descartou preencher o meio-campo e apenas trocou Neymar por Bernard. A decisão foi do Felipão, que muitas vezes se guia pela intuição – e também já venceu muito desta forma, diga-se. Como funciona com você?

PAULO TURRA – Ele ouve muito, mas é quem decide por ser o chefe. Honestamente nunca vi uma decisão dele por intuição. Pelo contrário, considero o Felipão muito atualizado, antenado. Não tem nada de ultrapassado. E a meu ver a derrota para a Alemanha não aconteceu por causa da entrada do Bernard. Foi uma conjunção de fatores.

BLOG – Você sempre que pode cita José Mourinho como uma referência de treinador. Que outros profissionais você e também o Felipão consideram como influentes na maneira atual de trabalhar no futebol?

PAULO TURRA – Para mim o Mourinho, sem dúvida, é uma referência. Mas com Felipão creio que seja o contrário. O Mourinho é um grande admirador dele. Aprendeu muito com ele quando treinava o Porto e Felipão estava em Portugal trabalhando na seleção, já como campeão do mundo pelo Brasil. Basta ver suas equipes, com os atacantes como os primeiros defensores, pressionando muito os adversários. Adota também a prática de forçar o adversário a jogar pelo lado e dali não sair mais. Lembra quem era o volante do Porto? Costinha, que depois Felipe levou para a seleção. Sempre um atacante de referência, dois jogadores velozes pelos lados. São visões de futebol muito próximas, inclusive na gestão de grupo.

BLOG – Mas que outro treinador você poderia citar como alguém fazendo um bom trabalho capaz de agregar coisas ao que vocês fazem?

PAULO TURRA – São vários, difícil citar. Mas nunca vi o Felipão criticar o trabalho de um treinador, seja lá quem for. Já vi, sim, elogiando. Como fez com o Marcelo Caranhato, do Cianorte, quando eu o apresentei. Mas Simeone seria um deles, pela capacidade de armar seu time de forma compacta. Também Fabio Capello pela experiência, o André Villas-Boas, entre outros.

BLOG – O Palmeiras tem usado um time mais “alternativo” no Brasileiro e outro aparentemente mais completo, perto do que o Felipão considera o titular, nos torneios de mata-mata. Será essa a tônica até o final da temporada?

PAULO TURRA – Pensamos jogo a jogo. O grupo é bom, a maioria já conhecíamos de acompanhar jogos no Brasil. Eles absorveram as ideias muito rapidamente. O que fazemos é pensar na melhor formação possível considerando todos os aspectos, especialmente as informações do Departamento Médico e de Fisiologia. Se tiver um maior risco de lesão a gente segura. Queremos todos o mais próximo possível dos 100% fisicamente para poder manter o bom rendimento que estamos conseguindo neste início de trabalho. Não há prioridade, vamos brigar nas três frentes da melhor maneira possível.

 


Toni Kroos é a Alemanha. Nunca duvide deles
Comentários Comente

André Rocha

Toni Kroos foi muito mal na estreia. Talvez desgastado física e mentalmente pela temporada do Real Madrid tricampeão da Liga dos Campeões. Muito provavelmente sentindo a mudança na Alemanha em relação ao clube. Com a mesma função de auxílio aos zagueiros na saída de bola, mas com menos companheiros para fazer a transição ofensiva. Sem um Casemiro de guardião. E velocidade nunca foi seu forte.

Atuação muito ruim na estreia, como toda a Alemanha. Especialmente no primeiro tempo, atropelado pela intensidade e pelos contragolpes de manual dos mexicanos. Contra a Suécia, erro de passe, novo contra-ataque e belo gol de Toivonen. Tudo parecia ruir em outro primeiro tempo com desempenho bem abaixo. Podia ter sofrido mais gols e os suecos podem e devem reclamar de pênalti claro sobre o centroavante autor do gol não marcado pelo árbitro Szymon Marciniak.

Mas Kroos, além de craque, é alemão. Que vencendo ou perdendo mostram força mental quase inquebrantável. Nunca desistem, nunca deixam de acreditar. Não é acaso que tenham vencido a Hungria em 1954 e a Holanda em 1974, duas das maiores seleções de todos os tempos. Ambas de virada. Porque só eles são capazes de não desistir quando o mundo todo os considera derrotados. Como em 1982, perdendo por 3 a 1 na prorrogação da França na semifinal e buscando o empate para vencer nos pênaltis.

A entrada de Mario Gomez no lugar de Draxler fez com que a Alemanha se mantivesse no campo de ataque, mas empurrando a última linha de defesa sueca para a própria área. Kimmich e Hector abrindo o campo, Muller e Reus fazendo dupla com os laterais e se juntando a Gomez e Werner quando a jogada saía do lado oposto. Boateng e Kroos iniciando a construção e Rudiger pronto para se defender das saídas rápidas suecas.

Empate com Reus, depois pressão, bola na trave, defesas inacreditáveis do goleiro Olsen. 71% de posse, persistência e eletricidade no ar, mesmo exagerando nos cruzamentos: 44. Os suecos foram cansando de se defender em suas linhas de quatro cada vez mais acuadas, na retranca “handebol”.

Mas veio novo golpe para os alemães. Duríssimo. Expulsão de Boateng, o zagueiro que conduzia o time à frente. Joachim Low não tinha escolha. Tirou Hector e colocou Brandt. Ao invés de repor a defesa, reoxigenou o ataque. Brandt bateu na trave. Muller e Werner cometeram erros grosseiros no ataque. Neuer salvou uma defesa totalmente exposta.

Mas havia Kroos. Questionado, criticado. De fato, abaixo do seu desempenho habitual. De um dos grandes meio-campistas da história do seu país, da Europa e do planeta. De incrível precisão em passes e cruzamentos. De gols um pouco mais raros. Mas a falta pela esquerda era a última chance de não depender de golear a Coréia do Sul e torcer para que México e Suécia não empatassem.

Toni Kroos acreditou e colocou todo o talento. Apesar do cansaço físico, da confiança abalada. Mas é alemão. E craque. Cobrança perfeita, no ângulo oposto. Na última das 16 finalizações de sua equipe. A quinta no alvo. Um golaço catártico, até para quem não torce para os campeões mundiais. Mas ama o futebol. E respeita quem não é derrotado antes por si mesmo. Na própria cabeça.

Alemanha viva. Muito. Agora até favorita à vaga pelo confronto menos complicado, enquanto a Suécia precisa vencer o líder México. Ainda pode terminar em primeiro e, talvez, fugir do Brasil nas oitavas. Ou encontrá-los caso a Suíça confirme o favoritismo contra a Costa Rica e consiga um placar capaz de chegar ao topo da classificação no grupo.

Em uma Copa imprevisível e de disputas quase sempre muito parelhas, não é possível descartar qualquer hipótese. Mas nunca duvide da capacidade de se redimir dos alemães. E menos ainda de Toni Kroos. O grande símbolo de uma vitória tão típica quanto épica.

(Estatísticas: FIFA)


O futebol não perdoa o “sono”, nem dos campeões mundiais. México histórico
Comentários Comente

André Rocha

Juan Carlos Osorio, sempre inventivo, adepto do uso de três zagueiros  e que arma seu time de acordo com o adversário, surpreendeu ao ser pragmático e optar pelo simples na montagem do México para a estreia contra a Alemanha no Estádio Luzhniki.

Um 4-2-3-1 compactando duas linhas de quatro sem a bola e aproximando Carlos Vela de Chicharito Hernández. Pressão no homem da bola, intensidade e muita rapidez nas transições ofensivas, especialmente pelos flancos com Layun e Lozano, autor do gol único em contragolpe bem engendrado, de manual.

Muito mérito do México na vitória histórica. Até pelas muitas cobranças antes da Copa do Mundo. Ainda mais para o contestado e controverso Osorio.

Mas o resultado também passa muito pela baixa intensidade da Alemanha campeã mundial. Especialmente no início da partida. E o futebol atual não perdoa o “sono” em disputas de alto nível.  Low mandou a campo uma equipe naturalmente lenta, também no 4-2-3-1. Muller e Draxler nas pontas, Ozil atrás de Werner, o único com um pouco mais de velocidade, mas sem espaços para acelerar contra Ayala e Moreno.

Para piorar, os zagueiros Boateng e Hummels, sempre participativos na construção do jogo desde a defesa, não conseguiam acelerar o jogo através de passes verticais que ultrapassassem linhas de marcação do oponente. Nem Kroos, já que Khedira era o volante responsável pela aproximação com o quarteto ofensivo.

Força pela direita com Kimmich, mas do lado oposto Plattenhardt não compensou a ausência de Hector, vetado por forte gripe. No “abafa” da reta final, com Mario Gómez no centro do ataque, a bola rodava até os seguidos cruzamentos. Previsíveis. Faltou a jogada diferente pela ponta. Faltou Leroy Sané.

Linhas avançadas, baixa intensidade, pouca força na pressão após a perda da bola. Sem criatividade. A Alemanha foi um convite para a velocidade mexicana. Se Ochoa salvou sua seleção com boas defesas nos momentos de maior pressão, a retaguarda alemã se safou pelos equívocos do adversário no acabamento das jogadas.

Ainda assim, um jogaço quase do mesmo nível de Portugal 3×3 Espanha. Alemanha com 61% de posse de bola e 25 finalizações contra 12 – nove a quatro no alvo. Mas pagou pela dispersão e uma certa letargia no primeiro tempo, só acordando depois de sofrer um gol. Fatal. Melhor para o México de Osorio.

(Estatísticas: FIFA)


Copa do Mundo deve combinar características da última Euro e da Champions
Comentários Comente

André Rocha

A Copa do Mundo tem sua abertura na quinta-feira com a anfitriã Rússia diante da Arábia Saudita. O primeiro duelo já deve dar a tônica do que provavelmente será a fase de grupos na maioria das partidas.

Uma seleção favorita pela camisa, história, tradição e/ou um grupo mais qualificado de jogadores contra uma equipe tratada como “zebra” fechando espaços no próprio campo. Com a cada vez mais frequente linha de cinco ou mesmo a tradicional com quatro defensores, porém com os pontas recuando como laterais formando um cinturão guardando a própria área. Todos os movimentos estudados por departamentos de inteligência cada vez mais equipados e qualificados.

Então o time que ataca busca uma jogada individual mais perto da área do oponente, ou uma virada de bola rápida que surpreenda o sistema defensivo. Se não for possível, os chutes de média e longa distância, a jogada aérea com bola rolando ou parada e o desarme no campo de ataque com transição rápida viram as possíveis soluções para ir às redes. Tudo isso atento ao balanço defensivo para não dar ao rival os espaços tão desejados às costas da retaguarda.

Fica tudo muito condicionado ao primeiro gol. Se a seleção que defende marca aí o bloqueio fica ainda mais sólido, com todos os jogadores num espaço de 20 metros em linhas quase chapadas, como no handebol. Já se o favorito abre o placar aumenta exponencialmente a chance do jogo mudar e os espaços e mais gols aparecerem.

Foi o que aconteceu na última Eurocopa, na França em 2016, com algumas partidas de fato entediantes para quem aprecia uma trocação de ataques e gols e se apega ao esporte mais pela emoção que pelo jogo em si. Apenas oito placares com vantagens iguais ou superiores a dois gols num total de 36 partidas. Média de 1,2 por jogo.

Sim, desta vez haverá Messi, Neymar, Suárez, James Rodríguez, Salah, Guerrero, o jovem Mbappé que surgiu ano passado na França e outros talentos desequilibrantes. Mas também um trabalho defensivo ainda mais concentrado e aprimorado para bloquear a técnica e o improviso.

Por outro lado, se os favoritos em cada grupo conseguirem suas classificações o torneio tende a passar por uma transformação, como a que ocorre quase todo ano na Liga dos Campeões. A partir da primeira “seleção natural” o nível já sobe bastante. Mesmo com a presença de algumas surpresas que se conseguem a vaga a partir das quartas é porque houve mérito.

Imaginemos a partir das oitavas os duelos envolvendo as favoritas Alemanha, Brasil, Espanha e França, mais os talentos belgas, o Uruguai de Cavani, Suárez e agora meio-campistas mais qualificados. Inglaterra, Colômbia, Croácia…A Polônia de Lewandowski e a promissora Dinamarca do meia Eriksen. E ainda Messi e Cristiano Ronaldo no Mundial que provavelmente será o último da dupla de extraterrestres jogando no mais alto nível. Conduzindo Argentina e Portugal. Mas ao contrário do universo dos clubes sem o favoritismo de Barcelona e Real Madrid, o que torna tudo mais imprevisível e eletrizante. Mesmo sem o peso de Holanda e Itália, esta a única ausente do seleto grupo de campeãs. Em jogo único. Segue ou vai para casa.

A torcida é para que este que escreve esteja enganado em sua previsão da primeira fase e os jogos eliminatórios sejam acima das ótimas expectativas. Mas caso o blogueiro tenha razão viveremos uma montanha russa de impressões. Para o deleite dos saudosistas – como se nas décadas anteriores os Mundiais não tivessem peladas homéricas, inclusive com a seleção brasileira – e reclamões de plantão na “chata” primeira fase e depois a apoteose de jogaços na reta final deixando a média positiva.

Seja como for, Copa do Mundo é como pizza. Até quando é ruim é boa e vale a pena. O maior evento esportivo do planeta que felizmente acontece de quatro em quatro anos e não se banaliza, ao menos por enquanto. Que tudo enfim comece na Rússia!


Low corta Sané, o “Douglas Costa alemão”. Tite é menos radical pelo sistema
Comentários Comente

André Rocha

Quando o Manchester City contratou Leroy Sané para a temporada 2016/17, Pep Guardiola afirmou que buscava um jogador para fazer na sua nova equipe o que Douglas Costa realizava sob seu comando em sua melhor fase na carreira no Bayern de Munique.

Ou seja, o ponta canhoto dentro do jogo de posição que espera a bola bem aberto para driblar, cortar para o fundo e finalizar ou servir os companheiros. Ou à direita cortando para dentro e finalizando. Normalmente recebendo numa inversão para enfrentar apenas um marcador. Sem se incomodar de pegar pouco na bola, mas ser decisivo. O fator de desequilíbrio. Em 2015/16, o brasileiro marcou seis gols e serviu 12 assistências na Bundesliga e na Champions.

Na temporada seguinte, o encontro entre Guardiola e Sané em Manchester rendeu sete gols e cinco assistências, ainda se adaptando a um novo modelo de jogo. Na campanha do título nacional, a explosão com dez gols e 17 passes para os companheiros irem às redes. Totalmente adaptado e ciente de sua missão em campo.

Por isso a surpresa pela ausência do atacante entre os 23 convocados da atual campeã Alemanha para a Copa do Mundo na Rússia. Nem tanto pelo desempenho na seleção, mas pelo potencial que poderia ser desenvolvido e, principalmente, pelas características diferentes de Draxler, Reus e Brandt. Mesmo iniciando sempre no banco, seria uma possibilidade de mexer com a marcação adversária. Joachim Low preferiu os jogadores mais associativos, de tabelas e infiltrações. Preferiu a afirmação do sistema à alternativa de ruptura.

Exatamente a crítica que Tite recebeu por deixar no Brasil o meia do Grêmio, eleito melhor jogador da América do Sul. Porque é jogador de entrelinhas, centralizado num 4-2-3-1. No 4-1-4-1 da seleção, não rendeu aberto nem por dentro nos treinamentos.

Discordar da lista de convocados é mais que legítimo. É até saudável. Contestar Taison é compreensível por estar jogando na Ucrânia e Luan ainda por aqui. A questão é que o camisa sete gremista seria opção apenas para uma função. Na prática, a mesma que Roberto Firmino executa no Liverpool: busca espaços entre a defesa e o meio-campo do oponente e aciona os companheiros ou aparece para finalizar. Isto no mais alto nível do futebol mundial: Premier League e Liga dos Campeões. A Libertadores fica abaixo neste parâmetro de avaliação. Ou seja, se precisar de um Luan existe Firmino.

A prova de que Tite é menos radical na defesa de seu sistema é justamente Douglas Costa. Quase sempre lesionado quando o treinador precisou, mas sempre no radar. É ponteiro diferente de Willian, Coutinho e Neymar. Mais drible e força em direção ao fundo, ainda que na Juventus não guarde tanta posição no flanco como nos tempos de Guardiola em Munique. É o tal “cara para mudar o jogo”. A preocupação é que está novamente com problemas físicos, mas deve estar pronto para enfim dar sua contribuição a Tite.

Low justificou a ausência afirmando que Sané “não deu tudo que podia nos jogos da seleção”. Na Alemanha nem houve tanta contestação. Porque, de fato, nunca houve uma atuação memorável do ponteiro de 22 anos com a camisa tetracampeã mundial, como tantas fardando o uniforme azul de Manchester. Mas também pela moral do treinador no comando há 12 anos. Que confia em seu sistema e vai com ele até o fim.

Com apenas dois anos, ou meio ciclo de Copa, Tite também carrega suas convicções. Mas deixa uma brecha para novas possibilidades, ainda que quebrem o desenho tático e a proposta de jogo. Quem tem razão? Já sabemos qual será o único critério de avaliação geral, muito mais no Brasil que na Alemanha: o resultado final na Rússia.


Brasil vai bem como “desafiante”. O problema é outro, ou o mesmo de sempre
Comentários Comente

André Rocha

A última vez que a seleção brasileira entrou em campo como “zebra” diante de um adversário tido como mais poderoso e, portanto, favorito foi na final da Copa das Confederações 2013. A Espanha era campeã mundial e bi da Eurocopa. O time de Luiz Felipe Scolari entrou transpirando fogo no Maracanã e atropelou Xavi, Iniesta e seus companheiros. 3 a 0, gritos de “o campeão voltou” e, pouco depois, o coordenador Parreira assumindo o favoritismo para o Mundial no ano seguinte como anfitrião.

O erro de Felipão nos 7 a 1 foi não ter resgatado este espírito. Sem Thiago Silva e Neymar, diante de um adversário com trabalho mais consolidado. Bastava jogar o favoritismo para o outro lado e entrar como franco-atirador, pelo contexto. Mas era a Alemanha, “freguesa histórica”. O treinador acreditou na camisa, no Mineirão lotado, no Bernard ídolo do Atlético Mineiro e “alegria nas pernas”. Se achou mais forte e o tombo foi sem precedentes.

Goleada histórica que criou o clima para o Brasil de Tite entrar mais que concentrado em Berlim. Sim, contra um “mistão” de Joachim Low. Mas se a campeã mundial venceu a Copa das Confederações com reservas merecia respeito independentemente da formação. Objetivamente era o primeiro confronto com uma candidata ao título. E justificou tentando impor seu jogo no ritmo de Toni Kroos.

De novo um Brasil sem Neymar. Mas desta vez organizado e precavido, com Coutinho pela esquerda e Fernandinho no meio dando liberdade para Paulinho infiltrar. Uma equipe bem coordenada no 4-1-4-1 e condicionada a pressionar o adversário desde a perda da bola. Pronta para acelerar assim que a retomasse.

No espaço deixado pela proposta alemã de controlar com a bola e ocupar o campo de ataque. Tudo que o Brasil precisa. Nosso jogo forte é o de transições ofensivas rápidas, com condução, passe e definição. Na bola roubada na frente, cruzamento de Willian da direita e gol de Gabriel Jesus, que podia ter se consagrado se não andasse tão afobado nas finalizações. Mas decidiu jogo grande e garantiu titularidade na Copa.

Podia ter sido mais que 1 a 0. No segundo tempo a Alemanha só levantou bolas na área e Alisson, Thiago Silva, Miranda e Casemiro sobraram. No final, a luta para a manutenção do resultado. Não adianta, é nossa cultura e Tite sabia que era importante vencer para aumentar a autoestima. A convocação final e a viagem para a Rússia estão logo ali.

O problema, porém, continua o mesmo. Talvez a seleção leve de três a quatro jogos para encarar um cenário parecido, com o adversário saindo para o jogo. Poucos paises atacam a camisa cinco vezes campeã mundial. Na fase de grupos, a tendência é encarar linhas de cinco e no mínimo oito jogadores guardando a própria área.

E aí tudo muda. Os problemas para infiltrar aparecem. Os espaços somem e com eles a paciência para trabalhar a bola. Falta o ritmista que não foi necessário em Berlim porque a equipe só acelerava. Será preciso abrir o campo, girar a bola, construir o espaço e ser letal na finalização.

Contra Inglaterra em Wembley e na Rússia enquanto os anfitriões não se empolgaram e bloquearam a entrada da área ninguém entrou, Vejamos a combinação dos novos conceitos, tempo para treinamentos, volta de Neymar e moral pelo triunfo sobre o “fantasma”.

Só não pode transformar um feito relevante – a Alemanha não era derrotada desde a semifinal da Eurocopa – na ilusão da Copa das Confederações. Já sabemos como termina, mesmo faltando tão pouco tempo desta vez. Tite é vivido, os jogadores com uma casca de quatro anos.

É hora de afinar o discurso. A Alemanha é a campeã, a Espanha a favorita. Melhor seguir como “desafiante”.


Espanha é a melhor seleção e pinta como a favorita. Bom até para o Brasil!
Comentários Comente

André Rocha

A história mostra que a Copa do Mundo consagra a melhor seleção durante aquele mês de disputa. Às vezes coincide ser também a grande equipe daquele ciclo que consegue chegar ao auge no momento certo.

Há pouco menos de três meses da disputa na Rússia, a Espanha é a que apresenta o melhor futebol. Não só pelos 6 a 1, fora o baile, na Argentina sem Messi. O desempenho médio do último ano considerando amistosos e eliminatórias a credencia como grande candidata ao segundo título.

Julen Lopetegui consegue dosar a experiência e a rodagem de jogadores como Piqué, Sergio Ramos, Busquets e Iniesta com a juventude de Asensio e a maturidade de Carvajal, Jordi Alba e Isco. É time pronto para aguentar a pressão de uma Copa.

Na proposta de jogo, ainda a posse de bola. No empate em 1 a 1 com a Alemanha colocou a campeã mundial dentro de um grande “rondo” em alguns momentos. Já na goleada histórica sobre a albiceleste a Espanha mostrou o seu melhor: o domínio do futebol por demanda. Alternando controle da bola e um jogo mais vertical. Sempre a partir da retomada da bola no campo de ataque.

Assim constroi volume de jogo e vai minando as forças dos adversários. É óbvio que não há perfeição. Quando o oponente consegue sair da pressão e encontra espaços para o contragolpe, Piqué e Sergio Ramos têm problemas para conter velocidade. Higuaín perdeu uma chance cristalina no primeiro tempo. A jogada aérea continua sendo um sofrimento, como no gol de Otamendi.

Mas funciona muito bem a ideia de abrir o campo com os ofensivos laterais Carvajal e Jordi Alba e rodar a bola e as peças que transbordam qualidade no meio-campo usando um centroavante como referência na frente – Diego Costa, Rodrigo ou Iago Aspas. Acelerando e desacelerando. Desequilibrando com Isco, autor de três gols sobre a Argentina.

Jogo inteligente. A Espanha aparece como a melhor representante do futebol 2.0 no universo das seleções. E merece respeito. Basta olhar para o campo: Carvajal, Sergio Ramos e Isco do Real Madrid; Piqué, Alba, Busquets e Iniesta do Barcelona. Sete jogadores dos times que dominam o futebol europeu desde a última Copa. Mais outros tantos talentos de Atlético de Madri, Bayern de Munique e das equipes de Manchester.

É um timaço! Ótimo também para diminuir o tradicional “oba oba” brasileiro depois de vitória em amistoso. Mesmo contra um mistão da Alemanha. Então, por justiça e para tirar o peso, que a Espanha seja tratada como a favorita.

 


Tite acerta nas novidades no meio-campo, mas é incoerente nos “brasileiros”
Comentários Comente

André Rocha

A boa notícia da convocação da seleção brasileira para os amistosos contra Rússia e Alemanha é que Tite está com o leque aberto e os olhos atentos. Sem grupo fechado. Até porque há conceitos novos a trabalhar e, a rigor, o que aconteceu nas eliminatórias sul-americanas não pode ser o único parâmetro de avaliação. Está claro que o amistoso em Wembley contra a Inglaterra praticamente reserva mudou muita coisa na cabeça do treinador.

É óbvio que o Brasil pode ser eliminado no Mundial por uma seleção do nosso continente. Jogo único, tensão, os times podem mudar até lá. Mas o parâmetro é a Europa. A maneira como ocupam espaços, se defendem e fazem suas transições ofensivas. Mesmo no mundo globalizado, sem grandes segredos em termos táticos e estratégicos, há diferenças e Tite está atento.

Por isso o acerto nas escolhas do meio-campo para observação. Fred tem as características de “ritmista” que ele quer para o setor. Sabe acelerar e desacelerar o jogo e no Shakhtar Donetsk atua mais numa linha intermediária de articulação. Já Anderson Talisca é meia central de uma linha de três num 4-2-3-1. JJoga mais adiantado, buscando as brechas entre o meio e a defesa do oponente. Assim funciona no Besiktas. Ambos times que se classificaram para o mata-mata da Liga dos Campeões. Fred, inclusive, pode seguir na competição se ultrapassar a Roma no confronto das oitavas de final. Junto com Taison, mais uma vez incluído na lista.

Ou seja, estão no contexto europeu. Da dinâmica, do posicionamento, do movimento buscando espaço entre as linhas, da circulação de bola, da busca do passe que quebra o sistema de marcação posicionado com quatro ou cinco na última linha. Ou seja, da leitura de jogo e dos espaços a ocupar e atacar.

Independentemente do nível técnico, gosto pessoal ou identificação de cada um, é consenso que o futebol jogado aqui parece outro esporte em relação à Europa. O leitor pode questionar se é melhor ou pior. Mas diferente não há dúvidas. Também por causa do clima, gramados, imediatismo e outros problemas bem nossos. Há também dificuldades bem deles…

Mas o que espera o Brasil na Copa é o jeito europeu de jogar futebol. É preciso se adaptar e nada melhor que contar com jogadores que atuam por lá. No mais alto nível, de preferência.

Por isso é difícil entender a opção por Fagner na lateral direita. Com Danilo disponível e que poderia ser mais um jogador a colaborar com Tite para a assimilação do jogo de posição por jogar no Manchester City de Pep Guardiola. Mesmo não sendo titular, teria muito a acrescentar como o reserva de Daniel Alves. Fagner não comprometeu quando o treinador precisou, mas nem vive sua melhor fase para compensar a diferença entre o que é jogado aqui e lá.

Pior ainda Rodrigo Caio, em mau momento no São Paulo disputando o Paulista. A impressão que deixa é que a honestidade demonstrado no caso do fair play com Jô virou uma credencial eterna para o zagueiro. Para arriscar melhor seria insistir com Jemerson, mesmo fazendo temporada bem hesitante no Monaco.

Geromel é um caso à parte. Vive fase esplendorosa no Grêmio. Fundamental na conquista da Libertadores, bom desempenho contra o Real Madrid no Mundial de Clubes e cresce em jogos grandes. Mas taticamente o time de Renato Gaúcho trabalha na defesa quebrando a última linha para os jogadores perseguirem os adversários. Não guarda posicionamento marcando por zona. Pode ser um problema, ainda que o zagueiro tenha atuado por oito anos no futebol do Velho Continente. De qualquer forma vale o teste, por merecimento.

E Luan? Bem, o melhor jogador da última Libertadores e campeão olímpico como um dos destaques em 2016 não convenceu Tite. Segundo ele, nos treinamentos foi “engolido” e não se adaptou à função pelo lado. Por dentro a concorrência é grande, a movimentação é diferente e a atuação sofrível contra o Real Madri, no único contato com o mais alto nível do futebol mundial, depõe muito contra o camisa sete do Grêmio, de talento inquestionável. Mas só isto não basta.

Willian José é mais uma novidade interessante dentro da nova linha de raciocínio de Tite. Se é preciso ter uma referência na área com maior estatura, que seja alguém atuando na Espanha e não Diego Souza, que não é centroavante de ofício e nem titular absoluto do São Paulo – ao menos o comandado por Dorival Júnior. William não é um primor técnico, mas conhece a dinâmica de abrir espaços e atuar como pivô sem deixar cair a intensidade.

Renato Augusto segue na cota da confiança do treinador, mas terá um último teste importante. Se fraquejar e algum novo nome entrar bem corre sério risco até de ficar fora da Copa. No mais, a lamentar a ausência de Neymar para o primeiro experimento do jogo de posição brasileiro. Boa oportunidade para Douglas Costa.

Faltam pouco mais de três meses para a estreia do Mundial da Rússia e Tite ainda carrega muitas dúvidas, de nomes e de jogo. Mesmo com incoerências, pode acreditar, isto é muito bom!


Fernandinho na vaga de Renato Augusto é Tite definindo seus 15 “titulares”
Comentários Comente

André Rocha

A Espanha foi campeã do mundo em 2010 utilizando 15 jogadores por ao menos três partidas em sete – de início ou saindo do banco de reservas. Seguindo este mesmo critério, Joachim Low trabalhou com 16 na campanha do tetra alemão no Brasil há três anos.

É a tônica nas Copas, não só entre as seleções que vencem. Um time titular inicial, quase sempre modificado ao longo do torneio em uma ou duas posições e outros dois ou três reservas utilizados na maioria das partidas. Ou seja, no mínimo sete jogadores entram em um ou dois jogos, no máximo. Normalmente naquela partida já definida ou no terceiro jogo da fase de grupos com o país já classificado.

Em 2010, Dunga utilizou 13 em pelo menos duas partidas num total de cinco. No Brasil, Luiz Felipe Scolari trabalhou com 17 em no mínimo três jogos. Ou seja, mesmo em seleções com irregularidade no desempenho e indefinição do treinador, a média não muda.

Tite sinaliza a entrada de Fernandinho na vaga de Renato Augusto para o amistoso de sexta-feira contra o Japão em Lille, na França. Ou seja, o volante que, em tese, seria o reserva de Casemiro entra na vaga de um dos meias por dentro no 4-1-4-1 brasileiro.

Nenhuma novidade para o meio-campista do Manchester City, que já atuou mais adiantado em outros momentos da carreira, inclusive no próprio clube inglês. Mas, principalmente, é o reconhecimento de Tite a um jogador marcado pelos 7 a 1 – injustamente, porque atuou mal porque ficou praticamente sozinho na intermediária brasileira levando botes seguidos de Khedira, Kroos e Schweinsteiger dentro de um time totalmente desorganizado – que evoluiu demais desde que passou a trabalhar com Pep Guardiola.

Na leitura de jogo, em especial. Inteligência para se posicionar, distribuir o jogo e ainda aparecer à frente, mesmo dividindo o setor com meias essencialmente ofensivos como Kevin De Bruyne e David Silva. Sabe mudar o comportamento no momento da perda da bola, logo pressionando e fechando linhas de passe. Acima de tudo, entende a necessidade de se apresentar como opção de apoio para os companheiros.

Com Casemiro, pode recuar para fazer a saída de bola e liberar o volante do Real Madrid, como Kroos e Modric fazem no plano de jogo de Zidane. Nada tão diferente do que Renato Augusto realiza, mas Tite tem razão em se preocupar com seu jogador de confiança que tem mostrado intensidade abaixo dos companheiros por disputar a liga chinesa, de menor exigência.

Para o próximo amistoso faz ainda mais sentido pela ausência de Diego Ribas, com dores musculares. O meia do Flamengo é tratado como reposição a Renato Augusto, mas a impressão que fica é de que se nada de excepcional acontecer até o Mundial, caso esteja na lista final fará parte dos sete ou oito que entrarão em campo poucas vezes ou nenhuma.

Porque o time base parece definido, com dúvidas no gol entre Alisson e Ederson, na zaga entre Marquinhos, Miranda e Thiago Silva e no meio-campo, exatamente pela inconstância de Renato Augusto, com Fernandinho correndo por fora.

Ou seja, 14 jogadores disputando posições. A outra opção que vem sendo frequentemente usada e não deve mudar é Willian. Sempre pela direita. No lugar de Philippe Coutinho, como deve ocorrer na sexta, ou de Renato Augusto, com Coutinho centralizando e o desenho tático variando para um 4-2-3-1. Ou até na vaga de Neymar, numa emergência. Neste caso, Coutinho inverteria o lado e atuaria pela esquerda.

Quinze “titulares” para o Mundial. Como o mais provável é que um goleiro seja definido como titular, pode ser que outro jogador durante a Copa seja um reserva utilizado com frequência para descansar titulares. Talvez Giuliano ou Roberto Firmino. Os outros oito apenas numa necessidade ou queda brusca de produção de um ou outro atleta entre os que iniciam as partidas.

Preocupante por essa consolidação tão precoce e pelo risco de precisar de jogadores sem muitos minutos com Tite e, em alguns casos, desempenho confiável para entrar no time em momentos decisivos. Mas é compreensível para um trabalho curto e com pouco tempo de maturação até a estreia na Rússia. O treinador deve monitorar e estimular ainda mais obsessivamente seus escolhidos para que o rendimento não caia.

Principalmente os 15 homens de Tite.

 


Messi deve, sim, ser cobrado na Argentina pelo nível mais alto da história
Comentários Comente

André Rocha

Foto: Alejandro Pagni (AFP/Getty Images)

Este que escreve ama e acompanha o futebol há mais de três décadas e não viu ao vivo ninguém melhor que Lionel Messi. Nenhum jogador combinou tão bem técnica, habilidade e objetividade por tanto tempo. Já completou uma década atuando em altíssimo nível e concorrendo ao prêmio de melhor do mundo – sua primeira indicação foi no ano em que Kaká venceu e o argentino terminou em segundo lugar.

Mesmo em uma temporada não tão inspirada, como a passada, é capaz de faturar a Chuteira de Ouro da UEFA pelos 37 gols no Campeonato Espanhol e só perder a artilharia da Liga dos Campeões para Cristiano Ronaldo na grande decisão, com o Barcelona eliminado nas quartas de final pela Juventus.

As conquistas e os recordes com o time catalão o colocam entre os maiores da história do esporte. Mas para as gerações que ainda colocam o desempenho na seleção como o grande parâmetro para avaliar o tamanho de um jogador, nas quais me incluo, é impossível negar que falta a Messi algo maior com a camisa albiceleste.

Os fãs mais apaixonados defendem o camisa dez alegando que ele não pode ser responsabilizado pelo caos na AFA, com constantes trocas de treinadores e sérios problemas de gestão, incluindo corrupção. Também que não tem culpa se seus companheiros não acompanham seu nível. Ainda assim, é o maior artilheiro da seleção bicampeã mundial, com 58 gols.

Não resta dúvida que depositar toda a culpa em um indivíduo pela falta de conquistas em um esporte coletivo sempre soará injusto. E Messi quase sempre entregou desempenho. Só que estamos tratando do mais alto nível. A excelência. O topo. E aí há uma dívida, sim.

Porque é inaceitável a Argentina passar pela Era Messi sem nenhuma conquista relevante. É absurdo estar há 24 anos sem títulos. Mais ainda se recordarmos que em todas as decisões o genial atacante teve chances cristalinas, que não costuma desperdiçar no seu clube, e falhou. Nas três últimas, definidas na prorrogação ou na disputa de pênaltis, podiam ter mudado a história.

Por mais que concordemos que “a bola não entra por acaso”, naqueles segundos não havia AFA, companheiros medíocres ou qualquer outro obstáculo. Era Messi, o goleiro do oponente e seu ofício de marcar gols. Não podia desperdiçar.

Assim como a Argentina não pode ficar fora de uma Copa do Mundo. Caso aconteça será inevitável lembrar das oportunidades que ele também perdeu. Ou por errar a finalização, ou por preferir passar para os conterrâneos menos confiáveis na missão de ir às redes.

Porque Messi foi criado e moldado no jogo posicional do Barcelona. No qual cada jogador sabe exatamente sua função no trabalho da equipe. Por mais que Pep Guardiola diga que o time que comandou e fez história trabalhava para que o mais talentoso brilhasse, Messi pensa coletivamente. Arranca para fazer o gol, mas se percebe que passar a bola aumentará as chances de êxito ele não hesitará em fazê-lo. Está no DNA. Porém já deu tempo de perceber que é obrigatório assumir mais a responsabilidade representando seu país.

É cruel acusá-lo de ser “menos argentino” por não ter história em um clube de lá e ter saído cedo para a Europa. Até porque ninguém acreditou e investiu naquele menino com problemas hormonais que impediam seu desenvolvimento ósseo. Por isso a gratidão e o propósito de encerrar a carreira no Barcelona.

Mas segue faltando o gol decisivo para quem já marcou tantos. 579 como profissional, para ser mais exato. Deve o toque preciso que define para que lado vai a taça. Por mais méritos que tenham o Brasil de 2007 e o Chile em 2015 nas Copas América que faturaram e, principalmente, a Alemanha no título mundial vencido no Brasil, o direito de errar na frente do goleiro adversário tem que ser menor para Messi.

Porque ele está no Olimpo, com Pelé, Maradona e outros poucos. Mas por enquanto ainda olhando para cima ao mirar aqueles que levaram taças para seus povos. Até Cristiano Ronaldo e a conquista da Eurocopa se colocam acima. Se não é melhor, o português está maior que seu grande rival. Ainda que admitamos que este mostrou menos desempenho no título que conquistou do que Messi nas competições que deixou escapar.

Por isso não pode falhar na terça contra o Equador em Quito, nem em uma eventual repescagem. Se não for à Rússia ficará para sempre um degrau abaixo. Por mais duro que seja reconhecer isto para quem venera o talento genial do argentino.