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Fernandinho na vaga de Renato Augusto é Tite definindo seus 15 “titulares”
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André Rocha

A Espanha foi campeã do mundo em 2010 utilizando 15 jogadores por ao menos três partidas em sete – de início ou saindo do banco de reservas. Seguindo este mesmo critério, Joachim Low trabalhou com 16 na campanha do tetra alemão no Brasil há três anos.

É a tônica nas Copas, não só entre as seleções que vencem. Um time titular inicial, quase sempre modificado ao longo do torneio em uma ou duas posições e outros dois ou três reservas utilizados na maioria das partidas. Ou seja, no mínimo sete jogadores entram em um ou dois jogos, no máximo. Normalmente naquela partida já definida ou no terceiro jogo da fase de grupos com o país já classificado.

Em 2010, Dunga utilizou 13 em pelo menos duas partidas num total de cinco. No Brasil, Luiz Felipe Scolari trabalhou com 17 em no mínimo três jogos. Ou seja, mesmo em seleções com irregularidade no desempenho e indefinição do treinador, a média não muda.

Tite sinaliza a entrada de Fernandinho na vaga de Renato Augusto para o amistoso de sexta-feira contra o Japão em Lille, na França. Ou seja, o volante que, em tese, seria o reserva de Casemiro entra na vaga de um dos meias por dentro no 4-1-4-1 brasileiro.

Nenhuma novidade para o meio-campista do Manchester City, que já atuou mais adiantado em outros momentos da carreira, inclusive no próprio clube inglês. Mas, principalmente, é o reconhecimento de Tite a um jogador marcado pelos 7 a 1 – injustamente, porque atuou mal porque ficou praticamente sozinho na intermediária brasileira levando botes seguidos de Khedira, Kroos e Schweinsteiger dentro de um time totalmente desorganizado – que evoluiu demais desde que passou a trabalhar com Pep Guardiola.

Na leitura de jogo, em especial. Inteligência para se posicionar, distribuir o jogo e ainda aparecer à frente, mesmo dividindo o setor com meias essencialmente ofensivos como Kevin De Bruyne e David Silva. Sabe mudar o comportamento no momento da perda da bola, logo pressionando e fechando linhas de passe. Acima de tudo, entende a necessidade de se apresentar como opção de apoio para os companheiros.

Com Casemiro, pode recuar para fazer a saída de bola e liberar o volante do Real Madrid, como Kroos e Modric fazem no plano de jogo de Zidane. Nada tão diferente do que Renato Augusto realiza, mas Tite tem razão em se preocupar com seu jogador de confiança que tem mostrado intensidade abaixo dos companheiros por disputar a liga chinesa, de menor exigência.

Para o próximo amistoso faz ainda mais sentido pela ausência de Diego Ribas, com dores musculares. O meia do Flamengo é tratado como reposição a Renato Augusto, mas a impressão que fica é de que se nada de excepcional acontecer até o Mundial, caso esteja na lista final fará parte dos sete ou oito que entrarão em campo poucas vezes ou nenhuma.

Porque o time base parece definido, com dúvidas no gol entre Alisson e Ederson, na zaga entre Marquinhos, Miranda e Thiago Silva e no meio-campo, exatamente pela inconstância de Renato Augusto, com Fernandinho correndo por fora.

Ou seja, 14 jogadores disputando posições. A outra opção que vem sendo frequentemente usada e não deve mudar é Willian. Sempre pela direita. No lugar de Philippe Coutinho, como deve ocorrer na sexta, ou de Renato Augusto, com Coutinho centralizando e o desenho tático variando para um 4-2-3-1. Ou até na vaga de Neymar, numa emergência. Neste caso, Coutinho inverteria o lado e atuaria pela esquerda.

Quinze “titulares” para o Mundial. Como o mais provável é que um goleiro seja definido como titular, pode ser que outro jogador durante a Copa seja um reserva utilizado com frequência para descansar titulares. Talvez Giuliano ou Roberto Firmino. Os outros oito apenas numa necessidade ou queda brusca de produção de um ou outro atleta entre os que iniciam as partidas.

Preocupante por essa consolidação tão precoce e pelo risco de precisar de jogadores sem muitos minutos com Tite e, em alguns casos, desempenho confiável para entrar no time em momentos decisivos. Mas é compreensível para um trabalho curto e com pouco tempo de maturação até a estreia na Rússia. O treinador deve monitorar e estimular ainda mais obsessivamente seus escolhidos para que o rendimento não caia.

Principalmente os 15 homens de Tite.

 


Messi deve, sim, ser cobrado na Argentina pelo nível mais alto da história
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André Rocha

Foto: Alejandro Pagni (AFP/Getty Images)

Este que escreve ama e acompanha o futebol há mais de três décadas e não viu ao vivo ninguém melhor que Lionel Messi. Nenhum jogador combinou tão bem técnica, habilidade e objetividade por tanto tempo. Já completou uma década atuando em altíssimo nível e concorrendo ao prêmio de melhor do mundo – sua primeira indicação foi no ano em que Kaká venceu e o argentino terminou em segundo lugar.

Mesmo em uma temporada não tão inspirada, como a passada, é capaz de faturar a Chuteira de Ouro da UEFA pelos 37 gols no Campeonato Espanhol e só perder a artilharia da Liga dos Campeões para Cristiano Ronaldo na grande decisão, com o Barcelona eliminado nas quartas de final pela Juventus.

As conquistas e os recordes com o time catalão o colocam entre os maiores da história do esporte. Mas para as gerações que ainda colocam o desempenho na seleção como o grande parâmetro para avaliar o tamanho de um jogador, nas quais me incluo, é impossível negar que falta a Messi algo maior com a camisa albiceleste.

Os fãs mais apaixonados defendem o camisa dez alegando que ele não pode ser responsabilizado pelo caos na AFA, com constantes trocas de treinadores e sérios problemas de gestão, incluindo corrupção. Também que não tem culpa se seus companheiros não acompanham seu nível. Ainda assim, é o maior artilheiro da seleção bicampeã mundial, com 58 gols.

Não resta dúvida que depositar toda a culpa em um indivíduo pela falta de conquistas em um esporte coletivo sempre soará injusto. E Messi quase sempre entregou desempenho. Só que estamos tratando do mais alto nível. A excelência. O topo. E aí há uma dívida, sim.

Porque é inaceitável a Argentina passar pela Era Messi sem nenhuma conquista relevante. É absurdo estar há 24 anos sem títulos. Mais ainda se recordarmos que em todas as decisões o genial atacante teve chances cristalinas, que não costuma desperdiçar no seu clube, e falhou. Nas três últimas, definidas na prorrogação ou na disputa de pênaltis, podiam ter mudado a história.

Por mais que concordemos que “a bola não entra por acaso”, naqueles segundos não havia AFA, companheiros medíocres ou qualquer outro obstáculo. Era Messi, o goleiro do oponente e seu ofício de marcar gols. Não podia desperdiçar.

Assim como a Argentina não pode ficar fora de uma Copa do Mundo. Caso aconteça será inevitável lembrar das oportunidades que ele também perdeu. Ou por errar a finalização, ou por preferir passar para os conterrâneos menos confiáveis na missão de ir às redes.

Porque Messi foi criado e moldado no jogo posicional do Barcelona. No qual cada jogador sabe exatamente sua função no trabalho da equipe. Por mais que Pep Guardiola diga que o time que comandou e fez história trabalhava para que o mais talentoso brilhasse, Messi pensa coletivamente. Arranca para fazer o gol, mas se percebe que passar a bola aumentará as chances de êxito ele não hesitará em fazê-lo. Está no DNA. Porém já deu tempo de perceber que é obrigatório assumir mais a responsabilidade representando seu país.

É cruel acusá-lo de ser “menos argentino” por não ter história em um clube de lá e ter saído cedo para a Europa. Até porque ninguém acreditou e investiu naquele menino com problemas hormonais que impediam seu desenvolvimento ósseo. Por isso a gratidão e o propósito de encerrar a carreira no Barcelona.

Mas segue faltando o gol decisivo para quem já marcou tantos. 579 como profissional, para ser mais exato. Deve o toque preciso que define para que lado vai a taça. Por mais méritos que tenham o Brasil de 2007 e o Chile em 2015 nas Copas América que faturaram e, principalmente, a Alemanha no título mundial vencido no Brasil, o direito de errar na frente do goleiro adversário tem que ser menor para Messi.

Porque ele está no Olimpo, com Pelé, Maradona e outros poucos. Mas por enquanto ainda olhando para cima ao mirar aqueles que levaram taças para seus povos. Até Cristiano Ronaldo e a conquista da Eurocopa se colocam acima. Se não é melhor, o português está maior que seu grande rival. Ainda que admitamos que este mostrou menos desempenho no título que conquistou do que Messi nas competições que deixou escapar.

Por isso não pode falhar na terça contra o Equador em Quito, nem em uma eventual repescagem. Se não for à Rússia ficará para sempre um degrau abaixo. Por mais duro que seja reconhecer isto para quem venera o talento genial do argentino.


História mostra que favoritismo um ano antes da Copa do Mundo é pura ilusão
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André Rocha

Entre dezembro de 1981 e outubro de 1983, a Itália disputou 16 partidas. Nenhuma vitória nas seis primeiras, sem triunfos nas seis últimas. Venceu apenas quatro: Argentina, Brasil, Polônia e Alemanha. Exatamente as que lhe deram o terceiro título mundial na Copa da Espanha.

Favoritismo? Zero, mesmo com a manutenção de boa parte do grupo da Copa de 1978 que venceu a campeão e anfitriã Argentina e terminou em quarto perdendo dois jogos, para Holanda e Brasil, por detalhes. Mas nas Eliminatórias ficou atrás da antiga Iugoslávia. Não há dúvidas, era zebra. Até pelo escândalo de manipulação de resultados, o “Totonero”, que comprometeu o futebol do país.

Parecido com o de 2006 que rebaixou a campeã Juventus e também tirou qualquer favoritismo de uma Azzurra igualmente forte e talentosa comandada por Marcelo Lippi. Outro título inesperado, quando o Brasil era favorito.

Aliás, chegar como principal candidato só fez bem ao Brasil no Chile em 1962. Ainda assim, com superação da ausência de Pelé. Garrincha e o “apito amigo” contra a Espanha ajudaram a construir o bicampeonato. O último, sendo o outro em 1934/38 dos italianos.

A Alemanha pode repetir o feito na Rússia. A conquista da Copa das Confederações reforçou a impressão de que a renovação está sendo bem conduzida por Joachim Low. Com Kimmich no lugar de Lahm e Toni Kroos suprindo a aposentadoria de Schweinsteiger. Mais Draxler, Brant, Stindl, Werner, Hector se juntando a Ozil, Muller, Hummels, Neuer.

Se em 2014 a chegada de Pep Guardiola ao Bayern de Munique foi influência clara no modelo de jogo alemão, desta vez a inspiração, ou variação do estilo, parece vir da Inglaterra, mas de um treinador italiano: o 5-4-1/3-4-3 do Chelsea de Antonio Conte. Para propor o jogo ou reagir de acordo com as circunstâncias. Um time inteligente.

Como já era há três anos, mas foi um tanto menosprezado pelo revés na Eurocopa dois anos antes na semifinal contra a Itália de Balotelli. A ponto de transformar a final da Copa das Confederações entre Brasil e Espanha em uma espécie de “tira-teima” entre a campeã mundial e bi da Eurocopa e o anfitrião buscando recuperar protagonismo.

A seleção de Luiz Felipe Scolari venceu e foi mais uma a se iludir com a conquista. Como Dunga em 2009 e Parreira em 2005. A convicção de que o grupo estava fechado e o trabalho pronto só necessitando de manutenção foi ilusória. Porque o que define os rumos do Mundial é a temporada europeia que se encerra com a Copa.

Basta lembrar a queda de rendimento de Paulinho e Fred e o período de adaptação de Neymar no Barcelona que minaram as forças de um trabalho de um ano e meio, incompleto. Assim como o de Tite agora, que acabou de completar doze meses. Dois anos perdidos com Dunga que podem fazer falta.

Porque haverá menos testes e chances de observação. Ou tempo para o amadurecimento da proposta de jogo. É um processo que vai queimando etapas por necessidade. O treinador assumiu precisando de resultados e evolução rápida. Pelo próprio mérito, as nove vitórias seguidas nas Eliminatórias alçaram a equipe diretamente do risco de ficar de fora de sua primeira Copa do Mundo à condição de uma das favoritas.

Mais rápido que isso só em 1993, quando os 2 a 0 sobre o Uruguai com atuação antológica de Romário levaram o escrete canarinho do futuro incerto ao protagonismo. Em uma partida, por conta de um atacante genial que depois confirmou seu estrelato com a taça que não vinha há 24 anos e a Bola de Ouro como melhor do mundo.

Mas a grande favorita era a Itália de Roberto Baggio, o grande jogador do ano anterior. Assim como em 2002 as apostas recaíam sobre Argentina e França, que em 1998 superou em casa o Brasil de Ronaldo, candidatíssimo ao bi. Sob o comando de Platini, os franceses eram os favoritos em 1986. Mas havia um Maradona pelo caminho. Gênio que colocou a Argentina na final em 1990, mas havia uma Alemanha na decisão para confirmar a alternância de poder.

Resumo da ópera: falar em favoritismo no ano anterior é puro chute. Até porque este Mundial tende a não repetir os dois últimos, com as vencedoras tendo como bases as melhores equipes do mundo à época. Espanha do Barcelona e Alemanha do Bayern de Munique. Com entrosamento, movimentos já executados de memória. Seleções maduras, com craques no esplendor.

Mesmo os espanhois em 2010 não chegaram com tal status. Nema conquista da Euro 2008 minimizou o fato de não fazer parte do seleto grupo de campeões. A derrota para os Estados Unidos que tirou a chance de um duelo contra o Brasil de Dunga no ano anterior fez da grande seleção daquele período uma incógnita. Talvez por isso tenha triunfado.

Agora a Alemanha titular, em tese, tem apenas Neuer, Kimmich, Hummels e Muller do time bávaro. Na Espanha,  Barcelona e Real Madrid dominam naturalmente, mas o time merengue bicampeão europeu também cede apenas quatro: Carvajal, Sergio Ramos, Isco e Asensio. A França poderia se basear em PSG e Monaco, mas as mudanças na janela de transferência pulverizaram qualquer chance de ter uma ou duas equipes como referências.

O Brasil, como bem disse Renato Augusto numa coletiva recente, está “no bolo”. É candidato, como foi até no fiasco de 1990. Um ano antes, vencera a Copa América e Itália e Holanda, outras favoritas. Mas sucumbiu no Mundial pela queda técnica e lesões de seus grandes destaques: Bebeto, Careca e Romário.

Contexto, circunstâncias, o imponderável.Tudo isso pesa em um ano. Por isso é tão difícil pensar em junho de 2018. O dinamismo do mundo atual já é absurdo. No futebol mais ainda. Mais prudente celebrar a evolução brasileira e evitar falar em grupo fechado, sistema definido ou qualquer coisa que sugira uma estabilidade que não se sustenta. Serve apenas como linha mestra para não se perder no planejamento.

A Copa não começa agora. Melhor segurar a ansiedade e respeitar a sequência e o tempo de cada seleção. A pressa, neste caso, é ainda mais inimiga.


Sarrià, 35 anos: a velha mania brasileira de achar que perdeu pra si mesmo
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André Rocha

 

As seleções brasileiras nas Copas de 1930 e 1934 foram “improvisadas”, não eram propriamente um grupo com os melhores jogadores do país. Em 1938 a Itália fascista de Mussolini venceu a semifinal por conta da ausência de Leônidas da Silva, “poupado” pelo treinador Ademar Pimenta. O “Maracanazo” de 1950 está eternamente na conta do goleiro Barbosa. Em 1954 e 1966 foi a desorganização. Na Copa da Alemanha depois do tri “amarelamos” contra a Holanda.

Em 1978 não houve derrota, então foi “campeão moral”. Mas se o Falcão tivesse sido convocado…Em 1986 a culpa foi do Zico com o joelho em frangalhos. Em 1990 e 2010 o responsável pelo fracasso foi o Dunga, dentro e fora de campo. A convulsão de Ronaldo impossibilitou a conquista em 1998 – para muitos foi a Copa “vendida” para a França. Há três anos, um simples “apagão” no Mineirão.

Para muitos brasileiros, em condições normais de temperatura e pressão, a seleção de Tite iria para o Mundial da Rússia apenas buscar sua 19ª taça. Porque o Brasil sempre perdeu apenas para si mesmo. Quando venceu foi por méritos totais. Ou não mais que a obrigação.

Ninguém lembra da dura semifinal contra a França em 1958 que acabou facilitada pela fratura do zagueiro Jonquet que deixou a forte seleção de Just Fontaine e Raymond Kopa fragilizada pela impossibilidade de fazer substituições. Nem dos apitos amigos em 1962 e 2002 contra Espanha e Bélgica, respectivamente. Em 1994, Branco nos tirou do sufoco nas quartas-de-final contra a Holanda numa falta cavada em que colocou a mão na cara do adversário. Mas aí é a velha “malandragem” tupiniquim.

Em 1982 foi culpa do Cerezo que entregou a bola para Paolo Rossi no segundo gol, do Telê Santana que não tinha um ponta pela direita e Cabrini desceu livre para cruzar na cabeça do algoz brasileiro no gol que abriu o placar . Junior vacilou não deixando Rossi impedido no tento derradeiro dos lendários 3 a 2 no Sarrià. Há 35 anos.

Esquecem, mais uma vez, que havia uma camisa bicampeã mundial vestindo a base da equipe, com o mesmo Enzo Bearzot no comando, que foi a única a vencer a anfitriã Argentina quatro anos antes. Que ficou em quarto no Mundial por detalhes, tanto na derrota para a Holanda que custou a vaga na final quanto nos gols de Nelinho e Dirceu na decisão do terceiro lugar. Em disputas equilibradíssimas.

Time do “regista” Antognioni, meio-campista que jogava com classe e marcou o quarto gol, anulado por impedimento inexistente. De Bruno Conti, ponta direita canhoto e articulador com técnica refinada. Do onipresente Tardelli no meio, indo e voltando. Do versátil Oriali, que foi atuar na lateral direita para que Gentile fosse perseguir Zico no campo todo, assim como fizera com Maradona.

De Gaetano Scirea, um dos melhores líberos de todos os tempos. De Cabrini, o lateral apoiador que apareceu bem no primeiro gol, mas depois sofreu com a movimentação brasileira pelo seu setor. Um dos motivos de críticas depois do revés, mas que confundiu e tirou o encaixe pensado por Bearzot. A ideia era que Cabrini cuidasse de Sócrates e Graziani, o ponta esquerda, voltasse com Leandro. Por ali saíram os gols de Sócrates e Falcão.

Porque a Azzurra também errou. Na defesa deixando Zico e Serginho livres para concluir à frente de Dino Zoff, mas o centroavante finalizou bisonhamente. O camisa dez brasileiro ainda sofreu pênalti tendo sua camisa rasgada. Marcação implacável? Só no segundo tempo. E Zico reclama até hoje que os companheiros pararam de procurá-lo, por estar sempre vigiado.

Rossi marcou três, porém o mais fácil ele perdeu, totalmente livre no segundo tempo, com a bola à feição no tradicional “contropiede” italiano. Com Bergomi no lugar de Collovati e a entrada de Paulo Isidoro na vaga de Serginho, Sócrates foi para o centro do ataque e a retaguarda italiana se confundiu para fazer a sobra com Scirea.

Jogaço duríssimo até a cabeçada de Oscar na cobrança de falta de Eder que Zoff pegou na maior defesa sem rebote da história das Copas. Mérito total do goleiro veterano. Assim como a Itália cumpriu sua melhor atuação naquela Copa na Espanha. Depois, com a confiança no topo, passou por cima da Polônia sem o craque Boniek na semifinal e atropelou na decisão no Santiago Bernabéu a Alemanha estropiada pelo esforço hercúleo diante da França.

Por isso a festa de título no apito final de Abraham Klein no dia 5 de julho. A Itália havia eliminado o melhor futebol daquele torneio até então. Que não é esquecido até hoje. Que provocou aplausos a Telê Santana na sala de imprensa e elogios do vencedor Bearzot. Também o prêmio de segundo melhor jogador da competição a Falcão.

Mas não perdeu para si mesmo. A Itália venceu. Talvez fosse derrotada em outros dez confrontos. Talvez não. Nunca saberemos. No Sarrià superou as desconfianças de uma primeira fase de empates contra Peru, Polônia e Camarões para alcançar um de seus mais celebrados êxitos. Porque foi melhor.

Como tantas outras seleções que nos superaram em Copas. Desde a Itália bicampeã nos anos 1930, passando pelo Uruguai de Obdulio Varela, a Hungria em 1954, mesmo sem Puskas. Portugal de Eusébio, Holanda de Cruyff e de Sneijder, Argentina de Menotti, a França de Platini e de Zidane, a Argentina de Maradona e Caniggia. A Alemanha dos 7 a 1. Com exceção de 1966 e 1986, todos que eliminaram o Brasil foram, no mínimo, finalistas.

Não é pouco, nem merece ser subestimado como a Itália. Não foi a vitória do pragmatismo sobre a arte irresponsável, o futebol “bailarino”. O Brasil de Telê tinha os dez homens na defesa quando sofreu o terceiro gol e foi buscar o empate na jogada aérea. Não houve catenaccio, retranca, futebol covarde. A Azzurra fez uma partida combinando seu estilo e a necessidade do resultado.

O Brasil não contrariou suas características, mas quando empatou pela segunda vez com Falcão percebeu que devia ser mais cuidadoso. E foi, não sofreu gol em contra-ataque. Telê podia ter trocado Waldir Peres por Paulo Sérgio, Luisinho por Edinho e Serginho por Dinamite ao longo do Mundial. Mas não foi derrotado apenas por conta de seus elos fracos.

Havia um rival valoroso, com entrega, técnica e estratégia. O Brasil perdeu para a melhor seleção daquele mês de verão na Espanha em 1982. O resto é nossa presunção de onipotência quando o assunto é futebol. Uma velha e tola mania.


Alemanha campeã é o resultado dando respaldo ao planejamento
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André Rocha

Foto: Ivan Sekretarev (AP Photo)

Na final da Copa das Confederações, a Alemanha encarnou a máxima que já passou pela boca de José Mourinho e Rafael Nadal, dois pragmáticos até a medula: “Finais não são para ser jogadas, mas vencidas”. Já que “deixou chegar”…

Trabalhou em um 5-4-1 mais “duro” e menos fluido que em outras ocasiões no torneio. Jogou para controlar os espaços e sofreu mais do que deveria contra o Chile. Porque na execução deste sistema, o perigo é não conseguir sair da pressão adversária e nunca sair em bloco, perdendo a bola e vendo o adversário dominar com volume de jogo.

Foi o que aconteceu e só não causou maiores danos porque o Chile, assim como você já leu aqui sobre o Flamengo, é uma equipe “arame liso”. Ou seja, cerca mas não fura. Ou melhor, tem dificuldade para transformar em gols as oportunidades criadas dentro de uma proposta ofensiva no 4-3-1-2.

A partir da saída de bola “lavolpiana”: dois zagueiros abrem, um volante afunda para qualificar o toque com passe limpo. Mas Marcelo Díaz errou no domínio, e com Medel e Jara distantes, restou ao goleiro Bravo assistir ao toque de Werner para Stindl marcar o gol que seria do título.

O triunfo podia ter sido resolvido ainda na primeira etapa com o claro abatimento dos chilenos após o gol sofrido exatamente no período de maior domínio. Mas Goretzka não completou com precisão passe de Draxler. A Alemanha controlava sem a bola.

Na segunda etapa, atuação pragmática para conter o campeão sul-americano. Joachim Low trocou Werner por Can. Pizzi tirou Aranguiz e colocou Sagal. Substituições sintomáticas dentro das propostas. Sagal perdeu gol feito, Ter Stegen foi o melhor alemão na decisão com grandes defesas, inclusive no ato final em cobrança de falta de Sánchez.

A vitória dentro de um “estilo Mourinho” é curioso paradoxo para quem usou a Copa como laboratório e oportunidade para dar rodagem a quem deve ser titular no Mundial do ano que vem. Kimmich se afirmou como o jogador mais inteligente em termos táticos e de tomada de decisão de sua geração. Goretzka, Stindl e Werner foram aprovados. Ter Stegen é a sucessão de Neuer.

Draxler não foi o protagonista que se esperava, mesmo com a Bola de Ouro do torneio que costuma ser mais midiática do que por mérito.Mas o coletivo se impõe dentro de uma proposta atual, que se adapta às circunstâncias e às ideias do oponente. A decisão pedia cuidado e eficiência diante da melhor e mais vencedora geração chilena, faminta por mais uma conquista. Na provável despedida da Copa das Confederações.

O título, porém, não muda os planos da Alemanha. Mas é óbvio que dá ainda mais respaldo a Low e afirma o favoritismo que já existia da atual campeã mundial. Descansando os veteranos será possível voltar a Rússia acrescentando experiência à qualidade dos jovens que mantiveram a mentalidade vencedora.

E se chegar de novo…


O que a Alemanha tem a ensinar ao Flamengo
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André Rocha

A Alemanha foi campeã mundial em 2014 no Maracanã com sua tradicional camisa branca. Mas na vitória mais emblemática e histórica, o uniforme era rubro-negro. Assumidamente inspirada no Flamengo, numa clara tentativa de conquistar a simpatia da maior torcida do país. Conseguiu, mesmo impondo a maior derrota do futebol cinco vezes campeão do mundo.

Agora é a vez do Fla se inspirar na Alemanha. País que com três títulos mundiais resolveu se transformar. Condicionada, sim, por resultados frustrantes nas Copas de 1994 e 1998 e na Eurocopa 2000. Mas entendendo que as eliminações eram consequência de um desempenho insatisfatório. Fruto de um estilo ultrapassado.

A mudança passou por clubes, desde a formação até o profissional. O vice-campeonato mundial em 2002 ainda seguindo a velha escola poderia ser tratado como um sinal de que era possível vencer da mesma forma. Não mudou em uma vírgula o planejamento a longo prazo.

Não é na reestruturação do futebol em campo que o Flamengo precisa ter a Alemanha como espelho, embora seja um ótimo modelo.  Mas sim na certeza de que a escolha de um caminho é essencialmente filosófica. Parte da ideia de que é a coisa certa a fazer. Mesmo que de 2005 a 2014 a seleção tenha convivido com eliminações seguidas nas semifinais. Da Copa das Confederações em casa até a Eurocopa 2012, caindo para a Itália.

A mudança no comando técnico, de Klinsmann para Joachim Low, foi absolutamente natural na manutenção do projeto. Na Eurocopa do ano passado, eliminação de novo na semifinal para a anfitriã França. Low segue e a perda do título não motivou nenhuma alteração no que estava projetado. Reservas na Copa das Confederações para dar férias aos mais experientes e rodagem aos mais jovens.

Com o mesmo propósito, mandou um grupo bastante jovem para a Olimpíada do Rio de Janeiro, até aproveitando o limite de 23 anos. Medalha de prata e mantendo a imagem para o mundo de prezar o bom futebol. Desde a vontade de privilegiar a técnica há mais de uma década, passando pela influência dos três anos de Pep Guardiola no Bayern de Munique para valorizar ainda mais a posse de bola. Mas também bebendo da fonte de Antonio Conte na execução do 5-4-1. Primeiro da Itália na Eurocopa e agora do Chelsea campeão inglês.

O principal: nenhuma derrota foi capaz de mudar as ideias e ideais dos alemães. Porque sabem que não há controle sobre resultados, nem garantia de títulos. Mas é saudável e também é possível fazer história pela bola jogada e não só pelas taças levantadas. Fazem porque acham o melhor caminho a seguir.

A diretoria encabeçada por Eduardo Bandeira de Mello equacionou dívidas, aumentou receitas e prometeu um Flamengo forte em três anos. A torcida comprou a ideia, mas agora começa a cobrar com mais intensidade os títulos relevantes na temporada brasileira e sul-americana.

Como se fosse uma equação exata, sem chances de equívoco: time popular + altas receitas = elenco qualificado, estádios lotados e hegemonia no país e no continente.

A questão é que futebol e matemática ou lógica nem sempre combinam. Ainda mais nessas terras de tanta alternância de poder. Com um Palmeiras que quase caiu pela terceira vez em 2014, mas com o auxilio inicial do presidente milionário Paulo Nobre e depois a injeção da Crefisa, alcançou resultados mais rapidamente: uma Copa do Brasil, um Brasileiro. Ainda vivo na Libertadores, prioridade no ano.

Agora um Corinthians que em termos de gestão tem muitas lacunas, mas dentro do campo construiu uma identidade vencedora com Mano Menezes e Tite que Fabio Carille resgata e forma um time competitivo que abre nove pontos em relação ao terceiro colocado Flamengo. O vice é o Grêmio que construiu um modelo de jogo com Roger Machado e Renato herdou acrescentando seu carisma e ajustando o que não vinha dando certo. Faturou uma Copa do Brasil e encaminhou a vaga na semifinal do mesmo torneio com os 4 a o sobre o Atlético-PR.

Clubes que no momento estão na frente do Flamengo, que acerta nas finanças, mas nem tanto no futebol. Contratações, montagem de elenco. Ano passado se equivocaram ao não preparar um estádio no Rio de Janeiro para evitar o desgaste de viagens seguidas. Custou o fôlego na reta final da última temporada.

Corrigido em 2017 com a Arena da Ilha do Governador. Questão de tempo e aprendizado. Que deve seguir mesmo que não venham o Brasileiro, a Copa do Brasil e a Sul-Americana até dezembro. Sem a visão limitada de que é melhor voltar aos tempos de equipes vencedoras montadas sem compromisso com orçamento.

Porque mesmo que clubes vivam de glórias mais que as seleções, os títulos não podem ser um fim em si mesmo. A Alemanha começou a semear em 2000 e colheu 14 anos depois. Sem desvios. Porque havia convicção de que o resultado viria em algum momento. Porque era a coisa certa a fazer.

A seleção de Joachim Low está em mais uma decisão. Depois dos 4 a 1 na semifinal da Copa das Confederações contra o México. Mostrando ao mundo Goretzka, Werner e um futebol atualíssimo. Alternando linhas de quatro, cinco e até seis homens. Jogadores técnicos e inteligentes formados lá atrás e ganhando minutos e vivência com uma camisa pesada.

Mas se perderem a final para o Chile, país sem grande tradição com a sua melhor e maior geração da história, nada vai mudar. Nem um sinal de arrependimento de poupar os mais veteranos, nada de “tivemos a chance de ganhar mais uma taça”. O trabalho segue com seus processos. Sem imediatismo.

Um bom norte para o Flamengo não mirar o futuro querendo voltar a um passado que deixou conquistas, mas também caos e um enorme passivo que quase inviabilizaram a recuperação dos últimos anos. Manter as contas em dia e investir em estrutura é o básico, o correto. Não necessariamente uma receita de bolo para empilhar troféus.

 


Brasil na Copa! Agora é encarar gigantes, mas também retrancas “handebol”
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André Rocha

A vitória do Peru sobre o Uruguai por 2 a 1 de virada garantiu matematicamente o que estava claro no campo: o Brasil estará na Copa do Mundo da Rússia.

Com a confirmação oficial, o discurso de Tite é experimentar jogadores, manter a concorrência em alto nível por vagas não só no time titular, mas no grupo de 23 até a convocação final. Também medir forças com as principais seleções europeias em amistosos.

Importante para o próprio treinador ganhar cancha em grandes duelos internacionais além do continente. Ainda que os europeus tratem os jogos que não valem três pontos com menos seriedade, rodem o elenco e não se importem tanto com o resultado final.

Mas há um teste tão fundamental quanto os grandes clássicos mundiais para esta seleção brasileira: enfrentar uma retranca típica desta era do futebol moderno. A criada por José Mourinho para conter o Barcelona de Guardiola. Alguns chamam de “ônibus” na frente da própria área. Este que escreve prefere tratar como “handebol”. Leia mais AQUI.

Foi vista com frequência na última Eurocopa e criou problemas para grandes seleções. Uma linha de cinco na defesa, outra de quatro no meio. Mas tão próximas que em alguns momentos era possível ver sete ou até os nove fechando os espaços para a infiltração do adversário. Como o momento defensivo do handebol, obviamente com outra dinâmica e um campo maior para cobrir.

O exemplo mais radical foi a Irlanda do Norte que deu trabalho à campeã mundial e então favorita Alemanha. A linha de cinco se estreitava e permitia que os meias pelos lados também recuassem praticamente como laterais, formando uma barreira de sete homens que os favoritos abriram à forceps no gol único de Mario Gómez.

Flagrante da linha de sete defensores da Irlanda do Norte para conter o ataque alemão na fase de grupos da Eurocopa 2016. Lembra o handebol (reprodução Sportv).

Por que será importante para o Brasil de Tite? Ora, com o favoritismo que pode aumentar caso seja bem sucedido nos amistosos, os oponentes não terão vergonha de se retrancar. Mesmo os mais tradicionais. E certamente numa fase de grupos ou até nas oitavas-de-final não será surpresa ter pelo menos dois adversários adotando esta prática.

Para abrir esse ferrolho, o posicionamento dos jogadores é tão importante quanto o drible, a movimentação e a inventividade na criação de espaços. No 4-1-4-1 de Tite, Philippe Coutinho e Neymar são pontas que procuram o meio para tabelas e triangulações. Os laterais, Daniel Alves e Marcelo, que poderiam abrir bem e esgarçar a marcação também tendem a centralizar. Para furar a linha de handebol fica mais complicado.

A Austrália, adversária no amistoso que será disputado em junho, costuma atuar com três zagueiros. Mas vale o teste contra uma seleção da Europa. País de Gales, de Gareth Bale, chegou à semifinal da Euro se defendendo com cinco na última linha e recuando até o seu grande craque para negar espaços. Pode ser um rival interessante. Sérvia também joga com cinco atrás. A própria Irlanda do Norte.

A Itália venceu ontem a Holanda de virada em Amsterdã por 2 a 1 com Zappacosta, Rugani, Bonucci, Romagnoli e Darmian à frente do jovem goleiro Donnarumma. Mais De Rossi na proteção. Uma experiência do técnico Giampiero Ventura seguindo a linha de seu antecessor Antonio Conte, sensação na Premier League atuando no 5-4-1 quando não tem a bola. Se mantiver a ideia pode ser um confronto ainda mais importante, pois combinaria peso da camisa e um teste para o ataque brasileiro.

A linha de cinco, mais dois jogadores no apoio, da Itália na virada sobre a Holanda. Se Gianpiero Ventura mantiver a estrutura, pode ser teste interessante para a seleção brasileira (reprodução ESPN Brasil).

Antenado ao que acontece no futebol mundial e detalhista como é Tite, certamente a retranca “handebol” está no seu radar. Porque os adversários nas Eliminatórias até tentaram se fechar contra o Brasil, mas não com essa proposta mais radical.

Como Neymar e seus companheiros vão se comportar? Temos praticamente um ano para descobrir até a bola rolar na Rússia.


O campeão tem sempre razão?
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André Rocha

Renato Gaucho Gremio campeao

Final da Copa do Mundo de 1954 no Estádio Wankdorf em Berna, Suíça. 43 minutos do segundo tempo. A lenda húngara, Ferenc Puskas, mesmo com o tornozelo inchado que quase o tirou da final por uma pancada na goleada por 8 a 3 sobre a mesma Alemanha da decisão, marca o gol que seria do empate.

A arbitragem marca impedimento. Para muitos inexistente, inclusive o saudoso jornalista Luiz Mendes, presente no estádio como único locutor brasileiro. Podia ter evitado o “Milagre de Berna” e quem sabe o que aconteceria depois?

Estádio Sarriá, Barcelona. Último lance de Itália 3×2 Brasil. Jogando pelo empate, a seleção de Telê Santana parte para o abafa derradeiro. Cobrança de falta de Eder, o zagueiro Oscar sobe mais que todos e acerta um golpe de cabeça no canto. Seria o gol da classificação da equipe que encantou o mundo na Copa de 1982.

Não foi por uma das mais impressionantes defesas da história das Copas. A mais incrível sem rebote. Dino Zoff pegou de um jeito inusitado, parando a bola num movimento de cima para baixo e evitou que ela cruzasse a linha e também a chegada de Sócrates e Zico.

Stamford Bridge, maio de 2009. O Chelsea vencia o Barcelona por 1 a 0 e, com o empate sem gols no Camp Nou, se classificaria para a final da Liga dos Campeões não fosse um golaço de Iniesta já nos acréscimos.

Jogo com uma das arbitragens mais polêmicas de todos os tempos, com pelo menos três pênaltis claros não marcados para os Blues, que colocou o time de Guardiola e Messi na decisão do torneio continental que garantiria a tríplice coroa e o início da trajetória de um dos maiores times de todos os tempos.

Três entre tantos exemplos de partidas definidas em detalhes, em fatos aleatórios. Uma bola que separou campeões e derrotados. Que criou ou destruiu legados, fez heróis, mudou a história do esporte.

Corte para 2016. O Grêmio de Renato Gaúcho conquista a Copa do Brasil e encerra um duro período de 15 anos sem títulos nacionais. Campanha sólida, especialmente fora de casa na reta final. Melhor equipe da competição. Incontestável.

Na comemoração, o sempre bravateiro Renato Gaúcho chamou para si todas as atenções ao afirmar: “quem sabe, sabe; quem não sabe vai para a Europa estudar”. Gerou enorme polêmica, mas nem ele deve acreditar nisso. Sem contar que o propósito de estudar e se aperfeiçoar é algo pessoal, de foro íntimo. Uma escolha.

O blog prefere um outro recorte da fala do maior ídolo gremista: “Disseram que estavam trazendo um treinador que estava jogando futevôlei. E agora? E aí?”

Eis o ponto: a taça encerra qualquer discussão? O campeão tem sempre razão? Renato é um fanfarrão desde os tempos de jogador, um personagem sensacional que nunca se levou muito a sério nem devemos dissecar o que ele diz, ainda mais no calor da conquista. Mas vale a reflexão.

E o contexto da base montada pelo trabalho de Roger? E a importância de Valdir Espinosa e outros profissionais? E a prioridade que o Palmeiras deu ao Brasileiro tornando a disputa nas quartas-de-final menos complicada? E a desorganização do Atlético Mineiro com Marcelo Oliveira no jogo de ida da decisão em Belo Horizonte?

Aliás, cabe um parêntese: o técnico mais vencedor do futebol brasileiro nos últimos quatro anos, com dois títulos brasileiros e uma Copa do Brasil, deixou o Galo coberto de críticas e com cinco minutos de jogo em Porto Alegre já foi possível perceber uma equipe com setores mais bem coordenados pelo jovem técnico Diogo Giacomini.

Em um esporte absolutamente imprevisível, por isso tão arrebatador, no qual vitórias e glórias se definem numa bola que bate no travessão e cruza ou não a linha, numa decisão da arbitragem em fração de segundos e em tantos outros mínimos detalhes, o troféu, ainda que seja o objetivo final de qualquer competição, é sempre um argumento sem resposta?

A história mostra que alguns derrotados no placar final colaboraram mais com a evolução do futebol e são mais lembrados que os campeões. Alguns vencedores são até hoje questionados por seus métodos. Multicampeões pragmáticos quando citados nada mais têm a oferecer do que as conquistas. É suficiente?

Renato merece respeito por sua história e faz mesmo jus a uma estátua na Arena do Grêmio. Que vá comemorar com amigos, a filha Carol e curtir as férias. O torcedor mais motivos ainda tem para celebrar, zoar os rivais. Vencer é delicioso e fundamental na formação de novos torcedores. Sem contar a visibilidade, novas receitas e tantas outras coisas.

Mas futebol não é só isso. Nem pode ser. Por isso o post se encerra com trecho de uma reflexão de Marcelo Bielsa no livro “Los 11 caminos ao gol”, de Eduardo Rojas, muito bem resgatada pelo colega Gustavo Carratte no perfil do seu ótimo Conexão Fut no Twitter. Um técnico com um currículo mais recheado de ensinamentos que títulos.

“Na vida há muito mais derrotas que vitórias e é preciso entender isso. Portanto, endeusar alguém que acaba de triunfar, alçando-o a um patamar acima dos demais acaba confundindo quem o vê fazendo isso. As pessoas são indecisas sobre as coisas e quando forem questionadas sobre como alcançar os êxitos elas só saberão que é preciso vencer, sendo incapazes de dizer quais valores cultivar e o que fazer para chegar até lá”.


Ainda não dá para encarar os alemães
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André Rocha

Nunca mais acontecerá um 7 a 1, até porque já existe o histórico e em todo confronto haverá a lembrança – e a cautela. E, a rigor, o Brasil de Tite só precisa estar pronto para um novo duelo que envolve nove títulos mundiais em 2018, na Rússia.

Mas vendo a Alemanha jogar fica claro que, apesar de toda evolução recente da seleção canarinho, o estágio de trabalho é bem superior. Natural, até porque os campeões mundiais têm uma base pronta e não deixam de renová-la para manter o altíssimo nível.

A começar por Kimmich, jogador que evoluiu demais nas mãos de Pep Guardiola. O catalão não está mais em Munique, mas continua sendo o grande mentor do modelo de jogo da seleção alemã. Joachim Low coloca para jogar Kimmich e também Hector, laterais que atuaram praticamente os noventa minutos dos 3 a 0 sobre a República Checa em Hamburgo pelas eliminatórias europeias no campo de ataque.

Abrindo o campo, esgarçando a marcação e permitindo a mobilidade do quarteto ofensivo formado por Muller e Draxler nas pontas, Ozil e Gotze soltos na articulação e no ataque com a ausência por lesão de Mario Gómez, centroavante de ofício.

Troca de passes até se instalar no campo do oponente, inclusive os zagueiros Boateng e Hummels. No último terço do campo, um jogo mais acelerado para surpreender a marcação do adversário, que chegou a posicionar seis jogadores na última linha defensiva.

Kroos passa, Khedira se junta ao quarteto ofensivo e infiltra como elemento surpresa. Um volume de jogo absurdo por conta do entrosamento. Neste cenários os gols saíram naturalmente. Primeiro Muller, depois Kroos e de novo Muller – quatro gols em dois jogos nas Eliminatórias, 36 pela seleção. Dezesseis finalizações no total. Até Howedes, zagueiro adaptado à lateral que entrou na vaga de Hector, atacou e concluiu na direção da meta de Vaclik.

Domínio absoluto de quem teve 66% de posse de bola (chegou a 73% na primeira etapa) e acertou 92% dos mais de 600 passes. Postura ofensiva que permitiu apenas uma conclusão que deu trabalho a Neuer, muito mais útil na reposição da bola. Ainda entraram os talentosos Gundogan e Brandt, aquele mesmo da Olimpíada, para mostrar que a renovação segue firme.

Um recital da melhor seleção do planeta. Os analistas de resultados lembrarão da derrota para a França na semifinal da Eurocopa. Quem vê desempenho, porém, sabe que o padrão coletivo dos alemães segue insuperável. Em beleza e eficiência. Você pode até vencê-lo, mas dominá-lo é quase impossível.

Difícil encarar. Certamente não ouviríamos “Lá vem eles de novo!” ou “Virou passeio!”, mas estamos abaixo. Ainda.

(Estatísticas: UEFA)


O Brasil de Neymar ganha o ouro e um time. Agora é com Tite!
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André Rocha

Somos eternos insatisfeitos. A medalha de ouro em casa era a meta, a ponto de poupar o nosso craque maior em um torneio oficial da seleção principal. Instantes depois da catarse no Maracanã após a cobrança de Neymar, a pergunta surge: e agora?

A final em 120 minutos deixa lições. A Alemanha, mesmo sem remanescentes dos 7 a 1, mostrou as nossas deficiências de sempre: dificuldade de criar espaços jogando coletivamente e sofrer quando a disputa vai para o emocional. Os alemães jogavam agrupados, pressionavam o adversário com a bola assim que entrava na sua intermediária e induziam o quarteto ofensivo brasileiro a tentar o drible e não a tabela.

Bola roubada, saída rápida com Meyer às costas de Walace e Renato Augusto e os pontas Brant e Gnabry buscando as diagonais. Ainda ameaçavam nas jogadas aéreas. Três bolas no travessão de Weverton.

O Brasil tinha Neymar. Buscando para articular, procurando mais o lado esquerdo. Desequilibrando na cobrança de falta que também tocou no travessão. Mas entrou e explodiu o Maracanã. Salvando uma atuação ruim ofensivamente no primeiro tempo.

Porque além da tensão de uma final que ganhou um peso de Copa do Mundo pelo contexto, os meninos Gabriel e Gabriel Jesus ainda precisam aprender muito no senso coletivo. Deslocar no tempo certo para dar opção, saber a hora de tocar de primeira, mesmo pressionado. Luan também errou, inclusive na finalização fraca em cima do zagueiro Süele na outra oportunidade nos primeiros 45 minutos.

Mas voltavam pelas pontas formando uma linha de quatro à frente da defesa. A seleção brasileira foi um time sem a bola e no espírito. Pressão imediata na perda da bola, disciplina e atenção na recomposição.

Segundo tempo com o plano claro de esperar a Alemanha e aproveitar os espaços. Mas com muitos erros de passe, mesmo com Renato Augusto recuando na linha dos zagueiros para qualificar a saída. Não por acaso, o camisa cinco foi o melhor brasileiro por ter a leitura de jogo e visão tática mais apuradas.

Walace errou, depois Marquinhos – o primeiro na Olimpíada. Não por acaso, a equipe de Rogério Micale sofreu seu primeiro gol. Meyer, novamente nas costas de Walace.

A melhor notícia da decisão é que o Brasil não se desmanchou mentalmente com o empate. Pelo contrário, cresceu com Felipe Anderson à direita na vaga de Gabriel, que errou em contragolpes seguidos. Depois Micale trocou o esgotado Jesus por Rafinha para liberar Neymar, que deu três passes geniais para chances cristalinas. Felipe Anderson e Rafinha sentiram e erraram à frente do goleiro Horn.

Domínio completo na prorrogação, até Neymar tentar um pique e mancar. Inteligente, os alemães avançaram as linhas e trocaram passes. Mas também não tinham pernas para tentar algo mais. De qualquer forma, foram 120 minutos de bom futebol no Maracanã.

Também belas cobranças de pênaltis até Weverton pegar o chute do artilheiro Petersen. Não podia haver melhor roteiro para Neymar. De nome riscado na camisa do menino para o gol do título. Fez a pré-temporada depois das férias na preparação, sentiu a falta de ritmo nos primeiros jogos, sofreu aberto à esquerda tendo que dar piques e receber a bola toda hora para a jogada individual. Ouviu críticas de todos os lados, até quando guardou o silêncio.

Com liberdade, cresceu como passador. E fez o que dele se esperava: decidiu. O craque e o personagem do título inédito.

Mas agora com um time acompanhando. Méritos de Micale. Técnico de conceitos e convicções que compensaram a inexperiência além da base. Mostra que o caminho é o do conteúdo, do trabalho. Da gestão de grupo também. Mas não só o discurso de motivação e “virem-se!”

Com pouco mais de um mês com o grupo completo entregou resultado e desempenho. Mesmo descontando a fragilidade dos adversários em casa. O que seria capaz em um ciclo de quatro anos? Talvez de aprimorar o jogar “de memória”, que é algo impossível na seleção. Um desafio.

Agora com Tite. Não com todos os campeões olímpicos, mas aproveitando e polindo os meninos. Com conceitos e muito mais vivência, ao menos em clubes. Para trazer Thiago Silva e Marcelo de volta, aproveitar os melhores e formar outra equipe para as Eliminatórias. Que pode ser forte em um clima mais leve, com cultura de vitória após tantos reveses e vexames.

Para o Brasil, o ouro é a cor da esperança.