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Vinícius Júnior não pode ser Neymar. Porque Santos não é Flamengo
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André Rocha

Quando o Flamengo foi eliminado pelo Corinthians nas quartas-de-final da Copa SP – com Vinicius Júnior, joia da base e destaque do time nas fases anteriores, desperdiçando duas chances claras – este que escreve viu no Twitter comentários nesta linha: “Fomos enganados pelo novo Negueba”.

Também foi possível pescar na rua a seguinte observação de um senhor, na casa dos 50 anos: “O garoto até que é habilidoso, mas nunca será um Adílio”.

Vinicius Júnior tem 16 anos, foi artilheiro e craque do Sul-Americano sub-17. Entre os profissionais que trabalham com base – treinadores, auxiliares, observadores, jornalistas – é praticamente uma unanimidade: o menino é um fenômeno, com potencial para no futuro concorrer aos principais prêmios individuais. Não por acaso, Barcelona, Real Madrid e outros gigantes europeus estão atentos aos seus movimentos.

Em campo, a qualidade e versatilidade saltam aos olhos: o menino rende nas pontas, na articulação e até jogando como referência. É habilidoso, inventivo, preciso nos fundamentos e tem leitura de jogo. Serve tão bem quanto finaliza. Forte também na bola parada.

Por isso já desperta uma enorme curiosidade e, por conta da carência de um talento deste quilate no ataque do time principal, especialmente nas pontas, já há um lobby pela utilização do atacante pelo técnico Zé Ricardo.

O Flamengo trata com cuidado. Vinicius não está inscrito nem no Estadual, nem na fase de grupos da Libertadores. Mas o clube também vive um dilema: tem contrato até 2019, tenta prorrogá-lo por mais um ano, mas se demorar muito a utilizá-lo pode vê-lo partir sem entregar todo seu talento entre os adultos.

A grande questão é que o rubro-negro tem certas particularidades: a primeira é contar com a maior torcida do país e tudo que acontece de bom e ruim ganhar uma repercussão imensa. E dentro do imediatismo do nosso futebol, a urgência é amplificada também. Com toda essa expectativa, qualquer jovem talentoso pode ser execrado se errar em um jogo importante. E o erro é parte do processo de amadurecimento.

Por outro lado, se entrar brilhando a euforia pode deslumbrar, desviar o foco. O assédio aumenta exponencialmente e pode distrair até a boa cabeça que Vinicius demonstra ter. É preciso cuidado.

E lembrar que até o maior ídolo do clube não se afirmou imediatamente. Zico estreou no profissional em 1971, com 18 anos, voltou à base e só foi se consolidar aos 21 anos, ganhando o Carioca e sendo Bola de Ouro da Placar. A geração mais vencedora do clube, sem querer, também cria dificuldades.

Porque o Flamengo segue à espera do novo messias que conduzirá o time novamente ao titulo da Libertadores e à hegemonia nacional. Todo garoto que surge é comparado a Zico, Junior, Leandro, Andrade e Adílio. Como Vinicius pelo senhor que ouvi na rua. Essa nostalgia, essa régua tão alta na exigência já custou a carreira de muita gente boa formada na Gávea. Inclusive Negueba, citado no início deste texto. De “alegria nas pernas” a “peladeiro”.

As comparações são inevitáveis também entre Vinícius Júnior e Neymar, que coloca o “Jr.” na camisa e inspirou o menino a fazer o mesmo. Alguns até avaliam o rubro-negro acima do santista, na mesma idade, em capacidade de desequilibrar.

Só que Neymar surgiu inserido em outro contexto. O Santos reverencia Pelé, campeão mundial aos 17 anos pela seleção e multicampeão pelo clube, mas sem tanto saudosismo. Porque existiu a geração de Pita e Juary, a de Diego e Robinho e em 2010 explodiu a de Neymar e Ganso. Com Robinho, que poderia ser um parâmetro de comparação, de volta a Santos e aceitando ser coadjuvante, no campo, das duas jovens estrelas nas conquistas da Copa do Brasil e do Paulista.

A repercussão é diferente, a cobrança também. Por ter dado certo outras vezes, quando surge um garoto talentoso ele ganha carinho e confiança para se desenvolver. Está no DNA do alvinegro praiano o apoio aos “Meninos da Vila”. Se errar a crítica virá, mas não tão pesada. Sem massacre.

Por isso Vinícius Júnior pode conquistar na próxima década os prêmios que hoje Messi e Cristiano Ronaldo negam a Neymar e a qualquer terráqueo que jogue futebol. Mas certamente construirá sua trajetória de maneira bem diferente do atual camisa onze do Barcelona.

Porque Santos e Flamengo são gigantes vencedores do Brasil, mas têm diferenças cruciais. Na história, na quantidade de gente envolvida em suas coisas. Especialmente no trato com os garotos. Por isso a cautela com Vinícius precisa ser triplicada. Até excessiva. Para evitar um novo erro que seria cruel para o clube e para o futebol brasileiro.


Quartas da Champions: duelos de gigantes e entre semelhantes
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André Rocha

ATLÉTICO DE MADRID x LEICESTER CITY – Dureza para os dois times. Para o Atlético porque entra como favorito absoluto, obrigado a propor jogo e dar o contragolpe. Para o Leicester também, já que será azarão, mas não tanto como se encarasse um gigante como Bayern, Barcelona e Real Madrid.

Interessante para ver essa versão do time de Simeone, que ocupa o campo de ataque e valoriza mais a posse de bola no ritmo de Saúl Ñíguez, mas sem deixar de ser compacto e concentrado, diante do campeão inglês que só joga em velocidade, vai entregar tudo no trabalho defensivo para definir em casa com o melhor de Vardy e Mahrez.

FAVORITO – Atlético de Madrid

BORUSSIA DORTMUND x MONACO – Duelo de intensidade máxima e vocação ofensiva, com times se arriscando dentro e fora de casa. Porém sem tanto controle de jogo. Ou seja, quem abrir vantagem na ida sofrerá se quiser administrá-la na volta.

Dembelé e Aubameyang contra Bernardo Silva e Mbappé. Thomas Tuchel versus Leonardo Jardim. Confronto sem a pompa dos duelos de gigantes, mas que promete demais. Muitos gols. Time alemão leva pequena vantagem pela cancha maior na competição.

FAVORITO – Borussia Dortmund

BAYERN DE MUNIQUE X REAL MADRID – Simplesmente 16 títulos em campo. Carlo Ancelotti, o mentor e campeão de “la decima”, contra Zidane, o aprendiz e atual vencedor. Dois times com camisa e experiência. Mas é difícil imaginar alguma novidade tática, já que são treinadores mais administradores que construtores.

Mesmo que a marcação individual tenha ficado para trás, é impossível não imaginar duelos como Bale x Alaba e a luta no meio-campo com Casemiro, Modric, Kroos de um lado; Xabi Alonso, Vidal e Thiago Alcântara do outro. Mais Robben contra Marcelo. Quem controlar a posse não leva vantagem necessariamente. Aposta na “sede” dos bávaros de recuperar o domínio europeu e no retrospecto positivo no confronto.

FAVORITO – Bayern de Munique

BARCELONA X JUVENTUS – A reedição da final da temporada 2014/15. Mas desta vez com o time catalão sem a consistência da última conquista e a equipe que domina a Itália há tempos mais cascuda e querendo revanche da decisão no Estádio Olímpico de Berlim.

A Juve parece ter uma formação mais equilibrada, com Mandzukic sendo o centroavante que infiltra pela esquerda para se juntar a Higuaín e Dybala no centro e receber as bolas de Cuadrado e Daniel Alves, que conhece muito bem o adversário. Mas o Barça, apesar das oscilações e dos problemas defensivos, tem o tridente genial e a sensação de que pode tudo depois dos 6 a 1 sobre o PSG.

FAVORITO – Barcelona

 

 


A noite mágica em que Neymar, e não Messi, foi Michael Jordan para o Barça
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André Rocha

É inegável que a arbitragem prejudicou muito o Paris Saint-Germain. O pênalti sobre Neymar que terminou no terceiro gol era até marcável, já que Meunier cai e obstrui a passagem do brasileiro que, claro, também se aproveita e força o contato.

Mas é um lance até discutível perto do pênalti claro de Mascherano arriscando um carrinho de braços abertos na própria área que Deniz Aytekin ignorou. Pior ainda foi penalizar o contato mais que natural de Marquinhos em Suárez, que desabou, óbvio. Sem contar os acréscimos de cinco minutos, que justificaram até a piada da placa do quarto árbitro com a frase “Até o sexto”.

O PSG também colaborou. Falhas grotescas nos três primeiros gols, incluindo a queda de Meunier. Um certo ar blasé depois do gol de Cavani. Chances cristalinas perdidas e a desconcentração que virou desespero quando saiu o quinto gol e ainda faltavam os acréscimos.

E o mais cruel: a estratégia coletiva de Unai Emery estava correta. Já que o Barcelona abria Rafinha e Neymar pelos flancos, mas os pontas de pés invertidos sempre cortavam para dentro e não buscavam a linha de fundo, o foco era aproximar as linhas do 4-1-4-1 e estreitar a marcação na entrada da área. Tudo para negar espaços a Messi.

Exatamente o que queria Luis Enrique quando armou o 3-3-1-3. Abrir o campo para esgarçar o sistema defensivo adversário e deixar frestas para o gênio argentino. Não conseguiu por esse afunilamento das ações de ataque e também por um certo conformismo do camisa dez, que a rigor só fez notar sua presença na cobrança de pênalti seca e minimalista no torceiro gol.

Já Neymar…apareceu quando o time mais precisava para tornar uma eliminação melancólica e precoce para o investimento e a visibilidade do clube em uma virada histórica e apoteótica. Golaço de falta, o quarto. Depois assumiu a cobrança de pênalti no quinto.

No lance derradeiro, levantou a bola na área e, no rebote, cortou para dentro e surpreendeu a todos ao ter a frieza, na última bola, de trocar o chute pelo toque genial de cobertura que achou Sergi Roberto livre para concretizar o milagre.

Neymar foi Michael Jordan, o astro da NBA que nos seis títulos pelo Chicago Bulls foi o melhor jogador das finais. Exatamente por chamar para si a responsabilidade no momento decisivo. No lance derradeiro. Logo na noite inesquecível no Camp Nou.

Sim, com mais um asterisco indelével nesta trajetória vitoriosa no Barça, se juntando ao empate com o Chelsea na semifinal da mesma Liga dos Campeões na temporada 2008/09, a primeira da Era Guardiola. Com a arbitragem marcando e deixando de assinalar os lances simples e nítidos nos quais se equivocou, o PSG estaria nas quartas-de-final.

É até criminoso insinuar favorecimento encomendado. Mas não sejamos ingênuos ou hipócritas: interessa a todos os envolvidos no negócio Champions League que o time mais midiático, líder de audiência no mundo todo, siga no torneio. E isso acaba respingando no árbitro. Camisa pesa e pressão de todos os lados também.

Mas Neymar fez a sua parte e, mesmo que o artilheiro, o astro, o símbolo e o protagonista continue sendo Messi, o brasileiro merece mudar de patamar no clube. Sem ele, sua personalidade, seu pensamento positivo de acreditar e tentar sempre não haveria classificação épica.

Na hora em que tudo pareceu impossível, o craque tático que hoje se sacrifica pelo time foi a estrela máxima. E a Champions ganha um favorito.


Um chocolate em Paris. Jogo coletivo do PSG engole os talentos do Barça
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André Rocha

O desenho do passeio do PSG: intensidade e mobilidade da equipe francesa, com destaque para os ponteiros Di María e Draxler e a inércia de um Barcelona fragilizado coletivamente e que só teve Neymar mais ativo (Tactical Pad).

Você leu antes AQUI que o Barcelona estava previsível, com as ações ofensivas e os mecanismos de saída de bola mapeados pelos adversários e muito dependente dos lampejos do fantástico trio MSN.

Sem Daniel Alves, negociado, e agora Mascherano, além da fase inconstante de Rakitic, o cenário ficou ainda mais complicado. Messi, Suárez e Neymar foram resolvendo ou descomplicando. Os dois primeiros com gols, o brasileiro com assistências e sacrifício tático pela esquerda.

Funcionou até encontrar no Parc des Princes um time também com qualidade individual, mesmo sem Thiago Silva, mas com organização, intensidade, alma e coragem para se impor. O Paris Saint-Germain de Unai Emery não sobra na liga francesa como nos últimos anos. Nem é o líder, está atrás do Monaco.

Mas diante de um oponente fragilizado simplesmente atropelou, com Verratti como “regista” distribuindo o jogo e Rabiot se juntando a Di María, Matuidi, Draxler e Cavani. Movimentação, jogo entre linhas e inteligência para explorar os muitos espaços cedidos por um rival zonzo. Sem a bola, pressão e posicionamento perfeito, impedindo que a bola chegasse aos três desequilibrantes. Só Neymar tentou algo pela esquerda.

Di María sobrou com dois golaços – cobrança de falta precisa no primeiro tempo. O segundo num gol à la Barcelona. Mesmo pressionado, trocou passes desde a própria área até encontrar o argentino entrando da direita para dentro e terminar com outra bela finalização.

Também pela direita, Draxler apareceu para receber de Verratti e fazer o segundo. Faltava o de Cavani e saiu depois de uma sequência de erros do Barça na saída para o ataque e contragolpes perigosos até o uruguaio colocar nas redes e, com 4 a 0, igualar o placar do passeio do Bayern de Munique comandado por Jupp Heynckes na Allianz Arena em 2013.

A diferença em relação aos outros duelos recentes entre as equipes? O jogo coletivo que engoliu os talentos. O PSG antes jogva mais em função da estrela Ibrahimovic, o time catalão trabalhava para fazer a bola chegar aos talentos para resolver no último terço. O que não se viu na França e foi minando a confiança e a força da equipe dominante nesta década.

Gigante que terá que se superar como nunca para reverter uma desvantagem que parece definitiva e historicamente nunca foi revertida em mata-mata. Muito pelo demérito do Barcelona e mais ainda pela atuação irretocável da equipe de Unai Emery.

Foram 16 finalizações contra apenas seis, dez a um no alvo. Mesmo com apenas 43% de posse. Eficiência com beleza. Um chocolate em Paris.

(Estatísticas: UEFA)


Apocalipse de Fábregas é “mimimi” pelo banco no Chelsea e não faz sentido
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André Rocha

Fabregas_Chelsea

“Hoje em dia é mais difícil para um jogador talentoso ter sucesso. Não sou forte a nível físico, não sou o mais rápido, não sou o mais forte, pelo que tenho de tentar estar à frente de outro modo. Sei que para ter sucesso hoje em dia é preciso ser muito forte, correr muito e isso não é fácil. O futebol está a mudar e cada dia que passa vemos menos talento e mais poder físico”.

Palavras de Cesc Fábregas à televisão oficial do Chelsea. Um nítido incômodo por estar na reserva de Matic e Kanté no 3-4-3 de Antonio Conte no time londrino. Uma crítica que se mostra sem sentido na prática. Como se o seu problema fosse o de todos os meio-campistas das principais equipes.

Como se o atual campeão europeu não tivesse Modric, Kroos ou mesmo Casemiro entre os titulares. Ou a recuperação do Manchester City na Premier League não fosse marcada pela efetivação no meio-campo de Yaya Touré, De Bruyne e David Silva. No meio-campo do Barcelona e do Bayern de Munique não há nenhum Kanté.

Tudo depende da proposta de jogo. No Chelsea de Conte, os zagueiros, especialmente David Luiz, são os responsáveis pelos passes longos de trás. Na frente, a criatividade fica por conta de Eden Hazard. Em contragolpes ou trabalhando em pequenos espaços quando os Blues ocupam o campo de ataque.

Com este estilo vertical, não há a necessidade de um meio-campista com características de “regista”, como Pirlo na própria Juventus de Conte, nem o “trequartista”, o meia criativo. Ou seja, não há vaga para Fábregas.

Mas o meia espanhol, antes de partir para a crítica direta, deveria refletir e lembrar que no Barcelona de Guardiola, Xavi e Iniesta, que privilegiava o talento, Fábregas também oscilou e não se firmou como titular absoluto e importante. E o treinador bem que tentou, inclusive tirando Messi da função de “falso nove”.

A equipe caiu de produção e os reveses para o Real Madrid de Mourinho desgastaram Guardiola. Sim, soa cruel responsabilizar Fábregas pela fase sem títulos. Mas, coincidência ou não, a equipe catalã voltou a vencer a Liga dos Campeões e a tríplice coroa exatamente na temporada depois da saída do meia para o Chelsea.

Há espaço para o talento e sempre haverá. Mas sem intensidade e consistência, a qualidade é praticamente inútil. Vide Ganso sem espaço no Sevilla. Fábregas não é tão lento, mas no modelo de jogo do Chelsea tem que aceitar, ao menos por enquanto, em ser uma opção de variação tática.

Sem apocalipse ou”mimimi”. Fica feio.


Neymar não vive má fase, só mudou de função no Barcelona
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André Rocha

Neymar marcou 41 gols em 52 partidas pelo Barcelona na temporada 2014/15. Talvez a melhor da carreira, com tríplice coroa e artilharia da Liga dos Campeões. Apenas oito assistências.

Na última o número de gols caiu para 31 em 50 jogos, mas o de assistências quase triplicou: 21 passes para gols. Agora são apenas nove bolas nas redes adversárias, cinco na liga espanhola, porém o número de assistências já chegou a 15, sete no campeonato nacional.

Queda de rendimento? Se compararmos com o de dois anos atrás, sem dúvida. Com Luis Enrique no comando técnico, encontrou o melhor posicionamento em campo, o trio MSN era uma novidade que assombrou o mundo empilhando gols e os sul-americanos se entendendo rapidamente com incrível sintonia.

O cenário atual é bem mais complexo. O Barça, com a base mantida, tem praticamente todas as ações ofensivas mapeadas pelos rivais. Rareou a jogada característica que proporcionava as finalizações de Neymar: arrancada em diagonal de Messi da direita para o centro, inversão para Neymar. Jordi Alba passava voando atraindo a marcação, Iniesta se aproximava como opção e o brasileiro cortava para dentro e concluía.

O lateral espanhol vem de lesão e agora disputa posição com o francês Lucas Digne, que não tem a mesma qualidade no apoio. Iniesta, que lhe servia tantos passes, é outro que não consegue ter sequência. Além disso, Messi agora joga centralizado em praticamente todos os jogos, formando uma dupla à frente com Suárez. Não por acaso os dois dispararam na artilharia do time catalão – 31 de Messi e 22 de Suárez, ambos empatados na artilharia do Espanhol com 16.

A força pela direita, com Daniel Alves e Rakitic se juntando ao gênio argentino para criar e Neymar tantas vezes completar do lado oposto, se perdeu também com a saída do lateral ainda sem reposição à altura e a queda de produção do meia croata.

Com tudo isso, Neymar se viu obrigado a se transformar num ponteiro típico. Quase um “winger” britânico, voltando com muito mais frequência para formar uma segunda linha de quatro com os três meio-campistas. Colaborando na organização de um sistema defensivo que vai mostrando mais solidez.

Na transição ofensiva, com os oponentes mais atentos à marcação, o craque brasileiro instintivamente se posiciona mais aberto para tentar alargar e depois desmontar o sistema defensivo na base da vitória pessoal em busca da linha de fundo. Não por acaso é o líder em dribles e o que mais sofre faltas na competição.

Ou seja, as circunstâncias obrigam Neymar a jogar mais para o time e menos para si. Prova de evolução tática e amadurecimento. Não vive má fase, só mudou de função. De atacante finalizador a ponteiro assistente. Ainda criativo, fundamental. Mas sem artilharia. O protagonismo fica para a seleção brasileira.

Aniversariante de ontem, talvez tenha pedido mais gols na celebração dos 25 anos. Para calar os críticos, continuar midiático em tempos de Gabriel Jesus na crista da onda e ter mais chances de brigar ao menos no top 3 dos melhores do mundo.

Mas certamente deve ter agradecido pela capacidade de adaptação em campo a um momento complicado do Barcelona que se recupera no Espanhol com os tropeços de Real Madrid e Sevilla, está com classificação encaminhada para mais uma final da Copa do Rei e se prepara para o mata-mata da Liga dos Campeões. Com um novo Neymar, decisivo nos dribles e passes.

(Estatísticas: Whoscored.com)


FIFA? Quem deve contar sua própria história é o clube
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André Rocha

Quem sabe o valor de vencer o primeiro torneio internacional depois do Maracanazo em 1950 é o Palmeiras. Enfiar 3 a 0 no poderoso Liverpool ou superar o “Dream Team” do Barcelona com Cruyff no comando e Guardiola em campo são feitos que nenhum agente externo saberá medir tão bem quanto Flamengo e São Paulo. Os nomes de Copa Rio e Copa Toyota são meros detalhes.

A FIFA é a entidade máxima do futebol e o que ela determina é a versão oficial. Ponto. Daí a ter credibilidade para definir se uma conquista é válida ou não vai uma distância bem grande. Um abismo.

O equívoco dos clubes é ficar buscando equiparações, trazendo para o século 21 um contexto que pertence àquela época e precisa ser lembrado. A FIFA na Era João Havelange não se importava em organizar um Mundial de clubes simplesmente porque estava mais preocupada em fazer política junto aos países, no universo de seleções, para se manter no poder.

Com a mudança do lado da força para os clubes globais e milionários passou a ser interessante a criação do torneio. Mesmo que os europeus sigam tratando como um engodo, um problema no planejamento da temporada.

Cabe ao clube valorizar os ídolos do passado, explicar a relevância de uma disputa que não existe no calendário atual, mas naqueles anos, com todas as suas particularidades, valia para definir qual o melhor time do planeta. E daí se para a FIFA não era importante?

Ela não tem o poder de apagar os livros e arquivos. Nem deveria ser alvo de súplicas para equiparar o que não tem paralelo. O título já tem o seu valor, com ou sem “beija mão” na entidade. O que foi conquistado não pode virar chacota, “título por fax”. Não é justo com quem suou em campo, nem com quem lotou o estádio e comemorou no final. Não precisa de chancela. Porque se ela não vem é como se a taça nada valesse desde sempre.

Quem deve contar sua própria história é o clube.

 


Ritmo da Premier League é o maior inimigo de Guardiola na Inglaterra
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André Rocha

Guardiola_City_crise

No eterno Fla-Flu do “Guardiolismo”, os detratores dirão que acabou a moleza, o campeonato inglês é mais equilibrado, tem melhores times e Barcelona e Bayern sobravam porque jogavam contra equipes bem mais fracas. E talvez tenham alguma razão.

Já os fãs incondicionais do técnico catalão defenderão alegando que a culpa é do pouco tempo de trabalho para implementar sua filosofia e dos erros individuais dos jogadores do Manchester City, que não estão no mesmo nível de excelência dos atletas que o técnico comandou anteriormente. Não estão errados.

Difícil encontrar apenas uma razão para justificar o mau momento do City de Guardiola na Inglaterra depois do ótimo início, de seis vitórias seguidas e a liderança da liga. Mas ao cruzar a visão de futebol do treinador e o que se vê nos campos da Inglaterra é possível afirmar que o maior inimigo até aqui é o ritmo da Premier League.

É algo difícil de quantificar mas que salta aos olhos. O jogo na Inglaterra tem técnica e variações táticas, mas não permite tanta fluidez. É naturalmente caótico. As transições são muito rápidas, saindo das zonas de perigo no próprio campo. Induz as disputas físicas. A pressão no homem da bola é constante. Há mais choques e a arbitragem não marca falta em qualquer contato.

Guardiola constroi seu jogo posicional com passes desde a defesa, com calma, até se instalar no campo de ataque com praticamente todos os jogadores. Na perda da bola, pressão imediata para retomar a posse em não mais que dez segundos.

Como fazer isso se o fluxo é quebrado na pressão, no choque ou na bola longa mais bem planejada e executada, focada no rebote? A saída de bola fica “suja”, os setores não se aproximam. Ou seja, é praticamente impossível ditar este ritmo. A essência do plano de Guardiola.

No Barça era Xavi quem controlava o tempo do jogo. As sístoles e diástoles do coração da equipe. No Bayern era Lahm. Primeiro no meio, depois como um lateral que jogava por dentro, participando na articulação. No City, Guardiola tentou com Fernandinho, Gundogan, David Silva, Yaya Touré. Sem sucesso, porém. E a questão não é a qualidade individual dos meio-campistas.

Simplesmente não há controle. No início, o time azul de Manchester surpreendeu com as novas ideias e pelo ritmo intenso que impôs, até pela necessidade de uma resposta rápida nos playoffs da Liga dos Campeões contra o Steaua Bucareste. Depois o time passou a ser estudado e o ritmo alucinante da Premier League acompanhou a intensidade do City.

Guardiola vai tentando se adaptar. Primeiro buscando criar superioridade numérica no meio com três zagueiros e Fernandinho e Gundogan qualificando o início da construção das jogadas. Na virada sobre o Barcelona pela Champions, a pressão absurda no campo de ataque e o contragolpe letal.

Nas derrotas para Chelsea, Leicester e agora Everton, os erros técnicos prejudicaram. Especialmente no passe que vira assistência ou na finalização. Mas a saída de bola continua sendo a questão mais complexa. Guardiola tenta acelerar, fazer a bola chegar mais rapidamente no campo de ataque para então fazer o jogo posicional.

Mas para isso é preciso espaçar mais os setores. Os laterais e os meio-campistas se adiantam para tornar o processo menos suscetível a erros. Só que deixam os zagueiros desprotegidos. Um equívoco e a retaguarda está exposta.

Qual a saída? Voltar à essência de suas ideias ou ceder totalmente e virar um técnico comum dentro do contexto da Premier League? Afinal, para que Guardiola foi contratado? Impor estilo ou aceitar a impotência diante do ritmo do jogo na Inglaterra?

Antonio Conte começou mantendo o padrão do Chelsea e fez sua equipe voar até a liderança colocando suas ideias. Só que a filosofia do treinador italiano é mais simples e flexível. Gosta de bolas longas, disputas físicas e na velocidade em todos os pedaços do campo. A solidez da linha de cinco atrás é uma diferença a favor.

O catalão está emparedado. Para piorar, a pressão e a visibilidade sobre o técnico mais estudado do planeta em um clube sem a história gloriosa de Barcelona e Bayern. Com mais equilíbrio, menos craques. Pouco tempo de trabalho. Fãs e detratores não deixam de ter razão.

Difícil é encontrar uma saída para Pep Guardiola voltar a acertar.

 

 

 


Procura-se um time para Lionel Messi
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André Rocha

Lionel Messi tem 13 gols no Espanhol e dez na Champions League em 20 partidas – 14 pela liga nacional, seis no torneio continental. Em 2016 foi às redes 59 vezes e serviu 31 assistências em 61 jogos.

No empate com o Villareal com arbitragem polêmica que fez o Barcelona perder a segunda colocação para o Sevilla de Sampaoli, evitou uma derrota que podia ter sido trágica com uma fantástica cobrança de falta no final da partida.

Na Argentina, salvou a seleção no último jogo de 2016 com um golaço, também em cobrança de falta que está virando especialidade, e mais duas assistências nos 3 a 0 sobre a Colômbia que fez a albiceleste ao menos ficar na zona de classificação na repescagem das eliminatórias sul-americanas.

Messi viu Cristiano Ronaldo faturar a Bola de Ouro da “France Football” e provavelmente levar amanhã em Zurique também o prêmio da FIFA. Porque Real Madrid e Portugal conquistaram os títulos mais importantes da Europa na temporada. Equipes que nos momentos decisivos trabalharam coletivamente e não dependeram tanto de sua estrela maior.

Já Barça e Argentina precisam demais de seu camisa dez pela falta de uma proposta de jogo que não necessite tanto do brilho de seu craque. O time catalão porque está mais que previsível e o técnico Luis Enrique não encontra alternativas para variar as ações ofensivas e surpreender os rivais nos jogos mais complicados. Na seleção, o trabalho de Edgardo Bauza, ainda no início, sofre por falta de repertório.

Sem desempenho da equipe, Messi precisa buscar mais o jogo e partir com bola dominada para tentar a vitória pessoal ou usar sua visão de jogo privilegiada para colocar um companheiro na cara do gol. Agora adiciona as cobranças de falta em seus múltiplos recursos para desequilibrar. Ou igualar as forças entre times organizados e suas equipes, talentosas, mas capengas no jogo coletivo.

Eis o paradoxo de Messi: para recuperar o domínio dos prêmios individuais, o gênio argentino precisa de um time. Na acepção da palavra. Para potencializar seu enorme talento e não sobreviver por causa dele.


Messi e Cristiano Ronaldo: um deve um pouco ao outro o lugar na história
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André Rocha

Messi e CR7

Em 2013, o filme “Rush – No Limite da Emoção” relembrou a rivalidade de Niki Lauda e James Hunt na disputa do Mundial de Fórmula 1 de 1976, marcado pelo grave acidente que deformou o piloto austríaco com queimaduras.

Uma história romantizada, que carrega naturalmente nas tintas para se adaptar à narrativa do cinema. Lauda era o nerd arrogante e perfeccionista, Hunt o louco mergulhado no mito “sexo, drogas e velocidade”. Como a história do automobilismo criou o mito Senna, o arquétipo do bom moço em contraste com Piquet, Alain Prost e depois Michael Schumacher, com personalidades mais controversas e competitivas.

Como se alguém pudesse ser uma coisa só, um personagem “flat”, reto, sem desvios, dúvidas, contradições.

Tentam fazer o mesmo com a maior rivalidade entre dois craques na história do futebol. Cristiano Ronaldo, o vaidoso que exalta seus feitos, seus carros, suas modelos a tiracolo. Lionel Messi, o moço tímido e pacato, que quase não fala e não gosta de aparecer.

Como se o português não fosse um exemplo de profissionalismo e uma liderança positiva no Real Madrid e na seleção, além de protagonizar belas histórias de solidariedade e altruísmo, e o outrora discreto Messi não fosse capaz de aderir a um visual que misturava Neymar com Chuck Norris ou usar ternos “exóticos” nas premiações da FIFA ou criticar publicamente a desorganização da AFA.

A única verdade em todas essas rivalidades, tanto nas mais respeitosas quanto nas notoriamente agressivas, é o quanto o sucesso de um impacta no desempenho do outro.

Ou alguém duvida que a Bola de Ouro da “France Football” para Cristiano Ronaldo na mesma semana da conquista do título mundial de clubes com o Real Madrid com três gols do astro português não influiu na atuação antológica do camisa dez argentino do Barcelona nos 4 a 1 sobre o Espanyol, com direito a uma sequência mágica de dribles no segundo gol, marcado por Luís Suárez?

É assim desde 2008, quando Cristiano Ronaldo ganhou sua primeira Bola de Ouro ainda no Manchester United e Messi na sequência explodiu todo seu talento com a Era Guardiola no Barça. A ponto de fazer o português aceitar a proposta do Real Madrid para competir de mais perto, em mais competições e com toda a atenção do planeta.

Há oito anos eles alternam no posto de melhor da temporada. A ponto de atrair votos no piloto automático, até quando em uma temporada específica outros fossem superiores em desempenho e resultado – como Wesley Sneijder em 2010, por exemplo. Mas não há dúvidas de que são os melhores desta era e nunca houve uma disputa pelo olimpo tão marcante.

Nem com números tão absolutos. Goleadores máximos da história de seus clubes, quebram recordes seguidos e disputam gol a gol a artilharia do maior torneio de clubes do planeta, a Liga dos Campeões. Messi tem mais conquistas no Barcelona, mas agora Cristiano alcançou o feito que falta ao argentino: o título relevante pela seleção com a Eurocopa que Portugal venceu este ano.

Tudo para colocar ainda mais molho nesta disputa que provoca verdadeiras guerras nas redes sociais e muita discussão nas mesas de bar e nos programas de debate na mídia. Quem é melhor? Talvez Messi encante mais por ser uma espécie de mistura do melhor de Pelé e Maradona. A arte vertical, os dribles mágicos na direção do gol e o passe preciso e objetivo que coloca o companheiro na cara do gol.

Mas como questionar o melhor finalizador que o mundo já viu? Uma evolução de Romário que agora, atuando mais dentro da área adversária, aprimora as finalizações de todas as formas – pé direito, canhota, cabeça, chutes de média e longa distância, falta e pênalti. Incrível máquina de fazer gols que hoje se concentra em estar preparado física e mentalmente para decidir com o mínimo possível de toques.

Dois gênios que se alimentam da motivação de superar um ao outro. Eles se precisam. Difícil prever o que será de um quando o outro parar – o português é dois anos mais velho. Talvez enfim deem lugar a outro como protagonistas do futebol moderno. Por ora parece improvável, porque a distância é grande. Jogam em outra dimensão.

Desfrutemos, pois. Sem a necessidade humana de execrar um para exaltar o outro. Curtindo as qualidades e também os defeitos. Estimulando a competição sadia e a relação distante pelas personalidades distintas, mas cada vez mais cordial, ao menos em público. Como na foto que ilustra este post.

Elevaram a disputa a um nível inimaginável e, por isso, um deve um pouco ao outro o lugar na história do esporte. Como Lauda há 40 anos deve a Hunt o exemplo de obstinação ao voltar às pistas e competir logo após o acidente, mesmo com dores quase insuportáveis. Como Senna disse pouco antes de morrer que sentia falta do rival aposentado Prost e, de certa forma, fora tricampeão mundial por causa do francês.

Ser o melhor no que se faz deve vir de dentro. Mas quando lá fora existe uma referência para superar é difícil criar limites. Messi e Cristiano Ronaldo vão superando todos. Felizes somos nós que podemos acompanhar em tempo real uma das mais incríveis histórias do mais apaixonante dos esportes. Quem sabe nas telas dos cinemas quando bater a saudade da dupla nos campos?