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Não é a derrota de Fernando Diniz, mas a vitória de Abel Braga
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André Rocha

Foto: Lucas Merçon/Fluminense FC

Quando se contrata Fernando Diniz você compra uma ideia. Que precisa de tempo. Para aperfeiçoar os métodos, adaptar melhor o elenco à proposta de jogo e trabalhar as divisões de base para que o jovem entre no time profissional já sabendo o que fazer. O próprio treinador também necessita de vivência para aprimorar sua visão, o feeling. Como em qualquer ofício. É da vida.

A mágica no futebol é raríssima. O Barcelona de Guardiola vinha de Johan Cruyff, mas também do antecessor Frank Rijkaard. A combinação das escolas holandesas e espanholas apenas ganhou atualização e novos elementos. E havia material humano para executá-la com excelência. O mesmo para a origem, a Holanda de 1974. Rinus Michels reuniu o que se fazia no Ajax e no Feyenoord e deu ênfase à intensidade e a um movimento radical: o “arrastão” com todos correndo na direção da bola ao mesmo tempo para roubar e partir com superioridade numérica ou deixar um ou mais adversários em impedimento.

Diniz só não pode entrar na roda viva do futebol brasileiro, condicionada apenas a resultados imediatos. Se for para ser assim é melhor nem contratar. Ou abraça o projeto acreditando ser possível criar uma identidade e lá na frente fazer história ou entra no bolo da tentativa e erro.

Mas há jogos e jogos. E os 2 a 0 aplicados pelo Fluminense no Maracanã sobre o Atlético Paranaense foi o do espetáculo através do contragolpe. Este movimento tão incompreendido. Ou visto de uma forma até contraditória. Se é praticado por um time sem estrelas ou de um treinador com discurso mais pragmático é tratado como único recurso para compensar as limitações técnicas.

Por outro lado,caso o time conte com craques ou venda uma imagem de “jogo bonito” eles entram no pacote do “espetáculo”. Como os muitos do Manchester City campeão inglês de Guardiola. Ou os vários do Brasil de 1970, no calor do México aproveitando a preparação física realizada com muita antecedência e métodos modernos para a época. Mas confundem com “magia”.

O time de Abel Braga empilhou contragolpes. Uma goleada não teria sido nenhum absurdo no universo de treze finalizações, seis no alvo. Duas nas redes com Jadson concluindo e Thiago Heleno fazendo contra e depois Marcos Júnior. O Atlético finalizou 16, mas apenas três na direção da meta de Julio César. Com 66% de posse.

O detalhe que passa despercebido por quem olha os números e interpreta como domínio do time visitante é que a proposta de negar espaços e aproveitar os cedidos pelo oponente visa dificultar as finalizações “limpas”. Com liberdade. E usar a velocidade na transição ofensiva para criar as chances cristalinas.

E nisto o Flu foi preciso, até pelo maior tempo de trabalho. Um 5-4-1 organizado, com linhas próximas e estreitando a marcação no setor em que estava a bola. Alternando marcação no próprio campo com a adiantada para dificultar a construção da equipe de Diniz desde a defesa.

Bola retomada, saída rápida e com muita gente. E o mérito de Abel no Flu é privilegiar quem sabe jogar. Jadson e Richard são volantes com passes rápidos e certos, os alas Gilberto e Marlon descem com vigor e confiança, mas também técnica. Sornoza é o organizador, Marcos Júnior é o típico ponteiro ligeirinho que corre mais que pensa, mas dá sequência aos ataques e tem momentos de lucidez. Assim como Pedro vai evoluindo e mostrando não ser apenas o tradicional centroavante rompedor.

Nada muito sofisticado, até porque o orçamento tricolor não permite. Mas a proposta é voltada para o ataque, sempre. Mesmo que seja reagindo à iniciativa do adversário. E fica mais fácil quando se sabe o que o oponente vai fazer. O grande risco das ideias de Diniz sem o modelo bem assimilado e jogadores capazes de surpreender na jogada individual é a previsibilidade. Não há surpresa. O time terá a bola, ocupará o campo de ataque e trocará passes até encontrar uma brecha.

Pior ainda com uma recomposição lenta e sem defensores rápidos nas coberturas. Se transforma num convite aos rivais. Não por acaso as cinco derrotas seguidas. Ajustes imediatos são necessários, sem abrir mão dos princípios. Insistir apenas por “filosofia inegociável” será pouco inteligente, para dizer o mínimo.

Assim como é obtuso não reconhecer os méritos de quem faz um jogo potencializando virtudes e explorando as deficiências do adversário. Questão de lógica pura e simples. Porque o objetivo deste esporte que tanto amamos não mudou: colocar a bola na rede e vencer fazendo mais gols que o outro time. Há maneiras e maneiras de conseguir este intuito. Tolo é quem acredita nos que vendem a ideia de que só há uma. Ou a mais “nobre”.

Até Guardiola, ícone e referência dos defensores do jogo de posse como o “Santo Graal” do esporte,  já entendeu que é preciso ser “camaleão”, jogar por demanda, de acordo com o que pede o confronto. A especialidade do Real Madrid de Zinedine Zidane que pode ser tricampeão europeu e do mundo. Que também não surgiu por mágica. Veio da semente de Carlo Ancelotti e da manutenção de uma base.

Diniz é jovem na função e vai aprender. Pode e deve tirar lições, inclusive de Abel Braga.  O veterano treinador é que foi o grande vencedor na noite da beleza do contra-ataque no Maracanã.

(Estatísticas: Footstats)

 


Iniesta, o melhor coadjuvante que um time pode querer, vai fazer falta
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André Rocha

Foto: Divulgação/Barcelona

34 anos, 22 no Barcelona. 32 títulos no clube, mais três pela seleção espanhola. O mais importante, da Copa do Mundo em 2010, fazendo o gol da conquista na prorrogação. Algo que já valeria respeito e reverência em toda Espanha, mesmo dos madridistas.

Mas Iniesta é muito mais que isto. Cidadão consciente. De seu tamanho e do que representa, mas também dos valores que são importantes. Foi o que se viu principalmente no campo de jogo. No clube ou na seleção, sempre foi o melhor coadjuvante que um time pode ter.

Conviveu tranquilamente com o protagonismo de Ronaldinho Gaúcho e Messi no Barça e de Xavi como símbolo maior do estilo da seleção espanhola. Nunca deu entrevistas cobrando Bola de Ouro, até quando mereceu em 2012. Total consciência de ser um facilitador.

Um gênio da simplicidade e do senso coletivo. Se o mais adequado é o passe curto, de lado, para manter o controle da bola e o time no campo de ataque sem riscos, ele não vai inventar algo diferente tentando ser mais do que o necessário.

Heroismo só quando for essencial. Como no gol sobre o Chelsea na semifinal da Liga dos Campeões 2008/09 ou no chute decisivo do Mundial da África do Sul. Ou liderando uma Espanha já iniciando a curva descendente na Eurocopa 2012. O grand finale da geração mais vitoriosa do país. Coletiva, sem uma estrela maior. E ainda tem a Copa da Rússia como uma possibilidade de cereja do bolo.

Iniesta é digno até na hora de se retirar. Ao perceber que o time precisa de mais intensidade e vigor abre espaço com humildade, sem deixar o clube na saia justa de manter mais pela história que por conta do desempenho. Sim, havia negócios para conciliar na China e agora podem surgir oportunidades também fora de campo no Japão.

Mas o camisa oito nos gestos e exemplos nunca simbolizou ganância. Pelo contrário, apenas generosidade. Como na passagem da braçadeira para Lionel Messi. Por isto vai fazer tanta falta ao futebol mundial no seu mais alto nível. Como lembrou a torcida no Camp Nou em camisas e bandeiras na vitória sobre a Real Sociedad por 1 a 0, golaço de Philippe Coutinho, jogadores e pessoas como ele são infinitos. Ou deveriam ser.


Sampaoli deve visitar Simeone. Argentina precisa de paixão e humildade
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André Rocha

Foto: Álex Marín

Jorge Sampaoli já disse que sente o futebol diferente de Diego Simeone. De fato, basta olhar para o campo e ver ideias de jogo bem distintas. Ambos intensos, mas um querendo a bola e se arriscando mais preenchendo o campo de ataque e outro mais focado no erro do adversário e abnegado na tarefa de defender a própria meta.

Mas pelo momento da seleção argentina, com menos de um ano de trabalho e as perspectivas na Copa do Mundo, já começando por um Grupo D longe de ser fácil com Islândia, Croácia e Nigéria, o atual treinador da albiceleste deve olhar para o trabalho de seu compatriota, novamente campeão no Atlético de Madri com a conquista da Liga Europa ao vencer o Olympique de Marselha por 3 a 0. Até visitá-lo para trocar impressões e adaptar convicções.

Porque está claro que não será possível seguir a linha de Sampaoli, fortemente influenciada pela dinâmica de Marcelo Bielsa. Da “soberania argentina”. O que deu certo no Chile. Faltando um mês para o Mundial na Rússia é preciso ser pragmático. Os 6 a 1 impostos pela Espanha, mesmo com todo o contexto e a ausência de Messi, deram um recado claro, cristalino: a trajetória tortuosa até aqui e o material humano pedem cuidados para ao menos honrar a camisa duas vezes campeã mundial e presente em cinco finais.

O 4-4-2 ou 4-4-1-1 de Simeone no Atlético é um bom início. Até pela semelhança com o de Alessandro Sabella no Brasil. Para diminuir os espaços dos adversários com linhas compactas e principalmente deixar Messi bastante confortável. Como nesta temporada no Barcelona campeão espanhol e da Copa do Rei comandado por Ernesto Valverde.

Porque é desperdício prender o gênio argentino pela direita ou deixá-lo como único atacante, a menos que seja um “falso nove” com dois ponteiros agudos infiltrando em diagonal. Melhor deixá-lo solto com uma referência na frente para tabelas e passes em profundidade. Pode ser Higuaín ou Aguero. Este que escreve apostaria em Mauro Icardi, mais jovem, rápido e sanguíneo, sem o peso do retrospecto negativo dos outros dois na seleção em jogos grandes.

A escolha dos demais nomes ficaria por conta dos treinamentos e da condição física depois de uma temporada europeia desgastante. Há uma base com Romero na meta, Otamendi na zaga, Biglia na proteção da retaguarda e Di María em um dos flancos na linha de meio-campo.

Mas duas características do Atlético de Simeone não podem faltar neste Mundial à albiceleste: paixão e humildade. A primeira para buscar o título que não vem desde a Copa América de 1993 e também jogar por Messi. Para a única grande conquista que falta a um dos melhores e maiores da história do esporte.

Mesmo que não se compare em idolatria a Maradona, até pelas personalidades diametralmente opostas, mas digno de um momento marcante, histórico. Para isto é fundamental colocar sangue nos olhos dos companheiros e do próprio Messi, com seu comportamento indecifrável em alguns momentos decisivos.

Por isso a humildade é essencial. Para entender limites e possibilidades. Compreender que ter a bola sem um plano bem assimilado e executado aumenta exponencialmente os riscos. Pressionar o tempo todo no campo de ataque sem coordenação e ainda contando com um Messi que costuma caminhar sem a bola é convidar o oponente para aproveitar espaços entre os setores. Humildade em Sampaoli para entender que será preciso ser mais Carlos Bilardo que César Menotti ou Bielsa. Mais Simeone. É o que o momento pede.

O sucesso dos treinadores argentinos na Europa é ótimo, mas provoca um efeito colateral: o melhor não está a serviço da seleção. Sampaoli aceitou interromper o sonho no Velho Continente para servir seu país. Agora precisa colocar de lado a vaidade de assinar um estilo.

A Argentina clama por um plano de emergência. Mesmo com todos os problemas da AFA, o da última Copa só negou o título na prorrogação da decisão. Com Higuaín perdendo uma chance no primeiro tempo que podia ter mudado a história. Por que não repetir, incluindo a entrega e o “correr até a morte” de Simeone como o toque final para buscar a redenção com tons de drama, como bem gosta o seu povo?

 


De Flávio Costa a Tite, toda escolha é julgada pelo resultado final da Copa
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André Rocha

Foto: CBF/Divulgação

Talvez não houvesse 7 a 1 em 2014 se doze anos antes o chute de Neuville no início do segundo tempo da final da Copa do Mundo, também entre Brasil e Alemanha, não tivesse parado em Marcos e na trave esquerda. Ou alguém imagina Luiz Felipe Scolari voltando tranquilo para seguir sua carreira no país depois de perder a decisão do Mundial na Ásia para uma Alemanha enfraquecida, sem o craque Ballack, e deixando Romário fora da lista final enfrentando um clamor popular poucas vezes visto?

O que seria de Carlos Alberto Parreira em 1994 sem o tetra? Talvez viajasse direto dos Estados Unidos para assumir o Valencia. Certamente lembrariam da falta de um meia criativo como plano B para a irregularidade de Raí. Ou não ter ousado enfiando mais um atacante, Viola ou o menino Ronaldinho, junto com Bebeto e Romário.

Por outro lado, quem lembraria da romaria de políticos em campanha por São Januário na véspera da final de 1950 no Maracanã ainda que o Brasil conquistasse seu primeiro título mundial com um suado empate contra os uruguaios? E quem criticaria Flávio Costa, considerado “carioca” demais pelos paulistas e “vascaíno” demais no Rio de Janeiro?

O mesmo vale para Telê Santana em 1982. Curioso lembrar que até a derrota para a Itália a seleção brasileira era a favorita absoluta ao título, jogando um futebol considerado de outro planeta. Mas bastou ser eliminada para que Waldir Peres, Luisinho, Júnior, Cerezo e Serginho Chulapa fossem contestados como titulares. Meio time. Se Zoff não segurasse sem rebote a cabeçada certeira de Oscar no ataque final e a caminhada fosse segura para o título, estes mesmos jogadores hoje seriam lembrados como os herois de 1970.

Até Zagallo poderia virar alvo se a considerada maior seleção de todos os tempos tivesse sido vencida pelo nervosismo ao sofrer o gol do uruguaio Cubilla que abriu o placar da semifinal no México. Talvez cobrassem Marco Antonio na lateral esquerda no lugar de um Everaldo que se limitava a defender. Ou Paulo César Caju na vaga de Rivelino ou Gérson. Quem sabe até o contestado Dadá Maravilha não seria uma “solução”?

Sem contar Vicente Feola, que apostou em Pelé e Garrincha, dupla que, segundo o psicólogo a serviço da CBD, não teria capacidade cognitiva e equilíbrio emocional para disputar uma Copa. Se a anfitriã Suécia fosse mais um país a usar o fator casa para conquistar um título mundial, algo perfeitamente plausível, é bem provável que por aqui a linha de quatro na defesa e a utilização de um ponta recuando para se juntar à dupla de meio-campistas demorassem bem mais tempo para acontecer. Viraram vanguarda porque o “escrete” voltou com a taça.

No Brasil é corriqueiro dizer que o “se” não entra em campo. Mas a partir do momento que o resultado final norteia toda a análise e surgem os “profetas do acontecido” para dizer o que devia ser feito pelos derrotados e apontar os “segredos” dos vencedores, vale o exercício de imaginar o que seria caso vencidos e campeões trocassem os papéis.

O resultado é consequência das escolhas, sim. Mas também de uma infinidade de fatores, inclusive a sorte. Ou o imponderável. Um detalhe. A bola que bate na trave e quica dentro ou fora da meta. A arbitragem que erra a favor ou contra. Escorregar para fazer ou salvar um gol.

Todas as decisões podem ser questionadas. Antes, durante e depois da competição. O problema está no parâmetro único para este julgamento dos treinadores da seleção brasileira: ganhar ou perder.

Tite pode e diz que aceita ser contestado por não ter levado Arthur e Luan. Ou porque incluiu na lista final Fagner, Taison, Fred…Assume a dificuldade que é escolher. Mas merece respeito por ter trabalhado como nenhum outro treinador na história da seleção brasileira. Ele e sua comissão técnica. Acompanhando jogos in loco, na TV e até treinamentos. Estudando, atualizando, aprimorando. Em menos de dois anos de trabalho. Para enriquecer a análise e embasar as decisões. Com desempenho e resultado em campo sinalizando que a rota está correta. Ao menos até aqui.

Só que nesta terra cinco vezes campeã do mundo a derrota sempre é para si mesmo. Não há mérito do adversário. Basta fazer tudo certo que ninguém nos supera. Ainda que a Alemanha seja campeã do mundo, a Espanha jogue o melhor futebol dos últimos tempos e um português e um argentino estejam fazendo história há uma década. Somos imbatíveis. Se perdermos foi porque alguém errou.

Então se o resultado esperado na Rússia não vier o discurso já estará pronto. Mesmo que Tite mande a campo Roberto Firmino e Douglas Costa, destaques da temporada em Liverpool e Juventus, e eles até saiam do banco para melhorar o desempenho, se vier a eliminação a culpa recairá sobre a presença de Taison entre os reservas.

Usando apenas um exemplo no universo dos clubes, chega a ser engraçado ouvir ou ler que hoje”falta gente no banco para mudar o jogo” e lembrar que em 2006 os torcedores do Internacional explodiram no Orkut, a grande rede social da época, quando Abel Braga chamou o contestado Adriano Gabiru para entrar em campo. Numa final de Mundial de Clubes contra o poderoso Barcelona de Ronaldinho Gaúcho. Podia ter dado bem errado…

Como pode acontecer de tudo na trajetória brasileira em mais uma Copa do Mundo. Só uma coisa não vai mudar. Desde Flávio Costa até Tite. O julgamento será pelo resultado final. E só. Pouco, mas é o que tem para hoje. E ontem. Sempre.


Messi, CR7 e Champions são “culpados” pela disparidade nas ligas europeias
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André Rocha

Foto: Sergio Perez / Agência Reuters

O Bayern de Munique garantiu o sexto título consecutivo da Bundesliga, conquista inédita, com cinco rodadas de antecedência. Na França, o Paris Saint-Germain retomou do Monaco a hegemonia também disparando e confirmando matematicamente faltando cinco rodadas. A Juventus na Itália teve mais dificuldades, porém superou o Napoli e faturou o heptacampeonato nacional.

Na Premier League há maior alternância de poder, mas o Manchester City de Pep Guardiola liderou de ponta a ponta e empilhou recordes: chegou aos 100 pontos em 38 jogos e ainda fez história com mais vitórias (32), triunfos consecutivos (18), gols marcados (105), saldo (+79) e os 19 pontos de vantagem sobre o segundo colocado.

Se somarmos tudo isso ao domínio do Barcelona nesta edição da liga espanhola, com a invencibilidade perdida apenas na penúltima rodada com vários reservas e uma atuação desastrosa do colombiano Yerri Mina nos 5 a 4 do Levante. mas título confirmado faltando quatro jogos, temos um cenário em que as principais ligas da Europa não reservaram disputas mais acirradas.

A senha para os disseminadores do “ódio ao futebol moderno”, muitos confundindo equilíbrio com qualidade, protestassem contra este cenário em que, para eles, apenas a disparidade econômica justifica essa vantagem dos campeões.

O grande equívoco é desprezar a enorme competência e know-how desses clubes. O Bayern ostenta a melhor geração de sua história ao lado da de Beckenbauer, Gerd Muller e Sepp Maier nos anos 1970. O mesmo vale para a Juventus. O PSG nem há como comparar e no caso do Manchester City há um retrospecto de conquistas na década, mas principalmente a presença do “rei das ligas” Guardiola, com sete conquistas em nove temporadas por três clubes e países diferentes.

Sem contar Barcelona e Real Madrid com os grandes times de sua história. E os maiores jogadores de todos os tempos nos dois clubes. Competindo na mesma época. Eis a chave para todo este cenário.

Messi e Cristiano Ronaldo venceram as quatro últimas edições da Liga dos Campeões. Se considerarmos desde 2007/08, dez anos, são sete: Manchester United com uma, Barcelona e Real Madrid com três. E os merengues em mais uma decisão podendo ampliar este retrospecto.

Em tempos recentes nunca houve nada parecido. Um fenômeno que subiu o patamar da Champions para níveis estratosféricos. De interesse, inclusive, pela sedução de se medir entre grandes da história. Com isso, o sarrafo foi parar no topo. Para desafiá-los é preciso estar em um nível de excelência em desempenho. Em todos os aspectos – físico, técnico, tático, mental, logística…

Resta aos desafiantes investir. Em elenco, comissões técnicas, estrutura…Internazionale, Chelsea e Bayern de Munique conseguiram superá-los, com os alemães ainda acumulando dois vices e os ingleses um. Manchester United, ainda com CR7, Borussia Dortmund, Juventus e Atlético de Madri chegaram às decisões, mas não conseguiram equilibrar forças em jogo único. PSG e City seguem lutando para furar a casca e entrar no grupo de clubes mais tradicionais. O Liverpool, finalista depois de onze anos, tenta voltar à elite. Mas não é fácil.

Com esse nível tão alto, quem não consegue acompanhar vai perdendo o bonde da história. E os gigantes trabalham para ficar cada vez melhores de olho no principal torneio de clubes, dominado por Messi e Cristiano Ronaldo com seus históricos Barcelona e Real Madrid, mesmo com o time blaugrana de fora das últimas três semifinais.

Como consequência sobram em seus países. Elenco numerosos, estruturas fantásticas, ótimas comissões técnicas. Nos casos específicos de Bayern de Munique e Juventus, os títulos consecutivos acontecem também porque não há como se acomodar com as conquistas nacionais. Não são a prioridade. Então mesmo sobrando os processos são revistos e aprimorados, o elenco ainda mais qualificado. O time que está ganhando se mexe e fica ainda melhor. Pensando em Barça e Real Madrid.

Mas não basta só dinheiro. Ou o Borussia Dortmund de Jurgen Klopp não seria bicampeonato alemão de 2010 a 2012, o Atlético de Madri não teria superado os gigantes na Espanha em 2014. O mesmo com o Monaco contra o PSG na temporada passada e, caso a Juve não tivesse deixado a Champions ainda nas quartas eliminada pelo Real Madrid e dividisse esforços por mais tempo, o Napoli poderia ter fôlego para terminar na frente. Sem contar o fenômeno Leicester City na liga mais valiosa do mundo em 2015/16. Se não jogar muito não vence. A tese do “piloto automático” é furada.

Mais do que nunca o futebol no mais alto nível exige superação constante. Com regularidade, consistência. “Culpa” de Messi, Cristiano Ronaldo e da Liga dos Campeões que levam o esporte para outra galáxia. Ainda bem que estamos vivos para ver a história sendo escrita. E até os que hoje reclamam vão sentir saudades, mesmo que não admitam.

 

 


VAR agora é regra! Porque o “molho” do futebol é o melhor sair vencedor
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André Rocha

A International Football Association Board (IFAB), órgão da FIFA responsável por regulamentar as regras do futebol, anunciou mudanças para os próximos dois anos. Entre os pontos mais relevantes se encontram a permissão para a quarta substituição na prorrogação e a introdução do árbitro de vídeo (VAR), já valendo para a Copa do Mundo na Rússia. Leia mais AQUI.

Impressiona como a utilização do árbitro de vídeo possa ser algo tão contestado no Brasil. Talvez porque se os erros de arbitragem forem minimizados para muita gente vai faltar assunto. Seja em programas de debates na TV e no rádio, seja nas mesas de bar e o fetiche das teorias de conspiração.

Mas basta pensar em um futebol profissional, com investimentos cada vez maiores e muito em jogo nas principais competições para concluir o óbvio: decisões tão importantes não podem ficar a cargo apenas dos olhos de quem está no campo. Em fração de segundos, nem sempre em uma posição privilegiada para a melhor interpretação.

É óbvio que ainda haverá erros ou lances muitos questionáveis. As câmeras e os demais recursos tecnológicos continuam sendo ferramentas para a análise e a interpretação de um ou mais indivíduos, com todas as suas imperfeições, incoerências e fraquezas.

Mas só de evitar erros grosseiros, muitas vezes detectados na TV sem precisar de repetição ou câmera lenta, já será um enorme avanço. Assim como oficializa o uso “informal” dos recursos, como fica nítido em algumas partidas jogadas no Brasil, mas não se admite por ser uma irregularidade.

O lateral Marcelo, do Real Madrid e da seleção brasileira, disse após o clássico contra o Barcelona no fim de semana que era contra o VAR porque “tira o molho do futebol”. Os detratores desta modernização vibraram, assim como o erro dos árbitros de vídeo no Campeonato Australiano.

Muito fácil para o brasileiro dizer isso depois de ver sua equipe prejudicada em uma partida que objetivamente nada valia pelo Campeonato Espanhol. Mas beneficiada por erros tão graves quanto na Liga dos Campeões, grande objetivo do time merengue na temporada. Inclusive num pênalti que o próprio brasileiro admitiu ter cometido colocando a mão na bola dentro da área. Mas sem mudar o resultado final da partida.

Para quem joga no time grande, de fato, o VAR pode atrapalhar muito. Afinal, na dúvida e precisando decidir em um segundo, a arbitragem muitas vezes pende para o mais forte e influente temendo uma punição maior caso tenha se equivocado na interpretação.

Mas se o que torna o esporte tão apaixonante é sua imprevisibilidade, nada melhor que um recurso que aumente as chances do menor vencer o mais poderoso. Dizem por aí que o bom do futebol é que ele não é justo e um time pode vencer sendo dominado e acertando apenas um chute a gol. Então que o VAR seja mais uma ferramenta que possibilite que ninguém interfira nessa particularidade.

Que venha o árbitro de vídeo! Porque o verdadeiro “molho” do futebol é o melhor – ou o mais eficiente ou o mais feliz nos 90 minutos – saindo de campo com a vitória.


Real Madrid se sai melhor que o Liverpool nos clássicos antes de Kiev
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André Rocha

Havia muito em jogo para Real Madrid e Liverpool contra Barcelona e Chelsea, respectivamente, na reta final das ligas nacionais, impedindo que os times pudessem se dedicar exclusivamente à final da Liga dos Campeões no dia 26 em Kiev.

Para os Reds era a chance de confirmar a vaga na próxima edição do principal torneio do continente. No Stamford Bridge contra um adversário direto na Premier League. Já o time merengue entraria no Camp Nou com a missão de impedir o título espanhol invicto do rival Barcelona e ainda “carimbar” a despedida de Iniesta do clássico.

Tirando tudo que foi desnecessário no duelo entre os últimos campeões espanhois e europeus, desde o Real se recusando a recepcionar em campo o adversário que confirmou a conquista na rodada anterior até as brigas, chutes e pontapés que tiraram muito da beleza de um jogo sempre especial, não é absurdo dizer que a equipe de Zinedine Zidane deu mais uma demonstração de força.

Por iniciar pressionado pela dupla Messi-Suárez mais acesa que o habitual e pelo gol do uruguaio logo aos nove minutos em saída rápida bem engendrada com assistência de Sergi Roberto. Mas responder rapidamente com jogada coletiva ainda mais bela: calcanhar de Cristiano Ronaldo para Kroos, centro do alemão para Benzema preparar e o gênio português finalizar a obra que iniciou. O 25º do vice artilheiro da competição.

Real com uma “velha novidade” de Zidane: o trio “BBC”, fazendo a variação do 4-3-3 para as duas linhas de quatro sem a bola com o recuo de Gareth Bale pela direita. Na transição ofensiva, muita movimentação dos três, enchendo mais a área adversária. Ao menos por 45 minutos, já que Cristiano Ronaldo, por precaução, teve que sair no intervalo, substituído por Asensio.

Não só porque sentiu uma entrada dura, aparentemente maldosa, de Piqué justamente no lance do gol que empatou a disputa. Também por conta da pancadaria que tomou conta do jogo, muito mal conduzido pelo árbitro Alejandro José Hernandez, que culminou na expulsão de Sergi Roberto, que ingenuamente agrediu Marcelo na frente do juiz.

Desta vez o Real pode reclamar muito das decisões da arbitragem. Principalmente pela falta clara de Suárez na disputa com Varane que terminou no golaço de Messi quanto na falta dentro da área do Barça não menos nítida de Jordi Alba em Marcelo. Podia ter mudado o clássico e complicado a vida e a invencibilidade do time da casa muito mais que o golaço de Bale, completando assistência de Asensio. Foram 17 finalizações contra 11 do time blaugrana.

Mesmo com os 2 a 2, a força mental e a cultura de vitória se fizeram presentes. O desempenho geral também foi satisfatório. Confirmando algo que já virou senso comum: é difícil superar este Real Madrid em jogo grande.

O Liverpool também costuma crescer neste tipo de confronto, mas não foi o caso do duelo em Londres. Porque o time de Jurgen Klopp, ainda que mantenha a proposta ofensiva longe do Anfield Road, não consegue reproduzir o “arrastão” num ciclo de pressão pós-perda, acelerar a circulação da bola e acionar o seu trio de ataque.

Salah, Firmino e Mané também pagam um pouco o preço do sucesso e da visibilidade. Estão mais estudados e, consequentemente, vigiados em campo. Ainda mais contra o time de Antonio Conte com sua linha de cinco defensores e mais Kanté e Bakayoko na proteção.

Deram algum trabalho ao goleiro Courtois na primeira etapa, mas nos minutos finais apelaram para os muitos cruzamentos procurando Solanke, que entrou na vaga do lateral esquerdo Robertson, e o zagueiro Van Dijk, que se transformou em um segundo centroavante. Sem ideias, sem brilho. Os torcedores podem até desdenhar, mas quando os espaços diminuem o fato é que Philippe Coutinho faz muita falta aos Reds.

Assim como a equipe se ressente de uma maior solidez defensiva, especialmente pelo alto. No centro da direita, Giroud subiu mais que Lovren para marcar o gol único do duelo, ainda no primeiro tempo. Na ausência do lesionado Oxlade-Chamberlain, Klopp deixou Henderson no banco e arriscou uma formação com Alexander-Arnold formando o meio-campo com Wijnaldum e Milner e Clyne entrando na lateral direita. Podia ter sido melhor.

Apesar dos 68% de posse, foram apenas dez finalizações dos visitantes contra 12 dos Blues, que também foram superiores em desarmes e no jogo aéreo. Resultado coerente com o que foi a partida disputada com a intensidade típica do Campeonato Inglês.

Agora é obrigatório vencer o Brighton em Anfield para chegar aos 75 pontos e garantir ao menos a quarta colocação. A menos que venha a apoteose na Ucrânia com o sexto título da Champions. Depois de onze anos sem chegar a uma decisão e treze da última conquista.

Missão que já era complicada por enfrentar o atual bicampeão e maior vencedor da história. Depois dos clássicos fica a impressão de que a tarefa ficou ainda mais difícil.

(Estatísticas: Whoscored.com)

 


Goleada na última final de Iniesta também sinaliza Barcelona do futuro
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André Rocha

O Barcelona vencer a Copa do Rei não é nenhuma novidade, nem título a celebrar tanto assim, considerando o nível que o clube alcançou na década. Nas últimas dez edições foram seis conquistas, quatro consecutivas em um total de trinta. O maior vencedor do torneio.

Ainda na ressaca da surpreendente e até vexatória eliminação na Liga dos Campeões para a Roma, considerando as prateleiras bem separadas entre os clubes no cenário europeu, a conquista vale mais pelo simbolismo de ser a última decisão de Iniesta com a camisa blaugrana antes da mais que provável partida em direção ao futebol chinês.

Mas se os 5 a 0 sobre o Sevilla no Wanda Metropolitano, em Madri, reverenciam o passado com um dos últimos atos de seu camisa oito histórico, chegando a 31 títulos pelo clube, também sinalizam o futuro.

O primeiro gol foi simbólico. Com o adversário adiantando a marcação desde a área do Barça, o goleiro Cillessen, titular no torneio enquanto Ter Stegen joga nas outras competições, não fez a bola circular desde a defesa dentro da proposta tradicional do jogo de posição. Sem trocas de passes até o time se instalar no campo do oponente.

Lançamento direto para Philippe Coutinho, novamente pela direita, explorando os espaços às costas da defesa avançada do rival para arrancar e servir Luis Suárez. Jogada simples, objetiva e inteligente. Para que aumentar a margem de erro perto da sua própria meta se é possível chegar ao gol na mesma ação?

O resto foi consequência, com o Sevilla deixando um verdadeiro latifúndio às costas de Banega e N’Zonzi que Messi, Coutinho e Iniesta aproveitaram, cada um com um gol. Do argentino completando linda assistência de calcanhar de Jordi Alba, do brasileiro cobrando pênalti que sofreu e Messi cedeu generosamente. O mais belo do meia veterano, tabelando com Messi. Lembrando o “velho” Barça lá da Era Guardiola. Mas que precisa se adaptar aos novos tempos.

Para isso conta com Suárez, o centroavante que  dá profundidade aos ataques. Chama lançamentos e está sempre pronto para receber as “pifadas” de Messi. Intenso até a medula. Dois gols que encaminharam a goleada.

Agora a missão é confirmar o “doblete”, fazer um bom superclássico contra o Real Madrid e tentar o título espanhol invicto. Para o treinador Ernesto Valverde é a chance de deixar a impressão de uma primeira temporada positiva no clube, apesar das críticas justas ao comportamento coletivo ao longo da temporada, especialmente na noite trágica na capital italiana.

Sem Iniesta e com Coutinho, em sua primeira conquista no novo clube, resta montar um Barcelona mais parecido com o rival Real Madrid que vem sobrando na Europa: adaptável, mutante. Capaz de se impor dentro de uma disputa que privilegie a técnica ou mais física ou de velocidade. Com Messi cada vez mais passador e “ritmista” na reta final da carreira, necessitando de jogadores rápidos e fortes ao redor como contraponto.

Vale a comemoração de mais um título numa era vencedora. Especialmente pela imagem de Iniesta erguendo a taça. Mas é preciso refletir, porque a régua criada pela própria excelência não aceita apenas a supremacia no país. Para voltar a vencer a Champions a velha escola não é mais suficiente. Deve ir com o eterno camisa oito.

O primeiro gol na final da Copa do Rei é um bom indício do que o futuro reserva ao Barça.


A noite simbólica dos fracassos de Guardiola e Messi na Champions
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André Rocha

O Barcelona e o Manchester City serão campeões na Espanha e na Inglaterra. Por isso seria exagero falar em “morte” da escola que valoriza a posse de bola e jogadores mais ágeis, técnicos e de menos imposição física. Ainda que Pep Guardiola e Ernesto Valverde venham buscando adaptar e adicionar intensidade e pragmatismo em suas propostas de jogo.

Mas na Liga dos Campeões as eliminações para Roma e Liverpool são duras e simbólicas demais para os dois. Principalmente pelos contextos e pelo que fizeram os vencedores.

Jogos eliminatórios são naturalmente tensos e exigem força mental, concentração e precisão. Principalmente porque quando os nervos estão à flor da pele, quanto mais naturalidade e “jogar de memória” melhor. Mas ligado, firme. Não é por acaso que o Real Madrid vem se impondo nos últimos anos no torneio. O time merengue se adapta a qualquer cenário. Com o feeling de Ancelotti e agora Zidane.

Guardiola pecou por novamente “ousar” na formação do City. Um 3-1-4-2 com Walker e Laporte como zagueiros-laterais, Fernandinho alternando como zagueiro e volante, De Bruyne mais recuado adiantando David Silva, Bernardo Silva pela direita e Sterling mais próximo de Gabriel Jesus. Até surpreendeu o Liverpool no primeiro tempo pela pressão logo após a perda da bola e a capacidade de ocupar o campo de ataque com oito ou nove homens.

Mas de novo falhou ao não transformar 66% de posse e 13 finalizações em um placar maior que o 1 a 0 no gol de Gabriel Jesus logo aos dois minutos. Arbitragem à parte no polêmico gol anulado de Sané que custou a expulsão do treinador catalão pelo “piti” na saída para o intervalo.

A pausa fez Jurgen Klopp acalmar e reagrupar seu time. Com Mané pela direita ajudando Alexander-Arnold para fechar as incursões de Sané, Salah no centro e Firmino à esquerda, além de serenidade para conter a pressão e ficar um pouco mais com a bola. Mas o gol que definiu a vaga saiu no jogo direto, vertical. Liberdade de Chamberlain para acionar Salah e deste para Mané. Disputa com a zaga e sobra para o toque com categoria do egípcio. No final, Firmino apenas selou a classificação dos Reds para a semifinal da Liga dos Campeões depois de dez anos.

O City construiu sua campanha quase perfeita na Premier League com um 4-3-3 executado com todos os conceitos aplicados por Guardiola. Laterais Walker e Delph ora apoiando por dentro, ora por fora se juntando aos ponteiros Sterling e Sané que são abastecidos por De Bruyne e David Silva e acionam Aguero ou Gabriel Jesus. Ideia bem assimilada, movimentos bem coordenados.

O obsessivo Guardiola desconstruiu tudo nos dois jogos das quartas-de-final e pela quinta temporada consecutiva sequer chega à decisão da Champions. Desta vez com duas derrotas. Sinal de que é preciso rever algumas ideias e práticas para suas equipes se tornarem mais competitivas nessas disputas mais imprevisíveis, condicionadas a mando de campo e definidos no placar agregado. Cenário bem diferente das ligas nacionais das quais o treinador caminha para o sétimo título em nove anos de carreira. Com jogos menos complicados de planejar e controlar.

Controle que foi o que o Barcelona não teve no Estádio Olímpico de Roma. Permitiu o jogo físico do time italiano bloqueando Messi e Suárez e forçando pelos lados e nos passes longos para Dzeko e Patrik Schick contra Piqué e Umtiti, sobrecarregado na cobertura de Jordi Alba. Duas esticadas para Dzeko, gol do bósnio no primeiro pênalti e pênalti sofrido e convertido por De Rossi. No “abafa”, o gol de Manolas no escanteio.

No final, Piqué de centroavante. Desde 2010 é a solução quando o time de jogadores mais baixos, técnicos e velozes não consegue jogar ao natural e criar espaços. A Roma travou as infiltrações com Manolas, Fazio e Juan Jesus mais De Rossi na proteção e Florenzi negou as ultrapassagens de Alba. O Barça parou. De novo. Foi assim contra Atlético de Madri e Juventus.

Foram 15 finalizações a seis, oito na direção da meta de Ter Stegen e apenas duas que fizeram Alisson trabalhar. Domínio absoluto de quem parecia eliminado por conta dos 4 a 1 no Camp Nou.

E Messi? De novo flanando em campo como se jogasse uma partida qualquer da liga espanhola, que o argentino conquistou seis vezes nos últimos nove anos. Natural até demais…Mais uma vez não se viu a indignação com a derrota. Ou a noção de que é a Liga dos Campeões que vem definindo o melhor do mundo e, por isso, Cristiano Ronaldo transformou um 4 a 2 em 5 a 5. Agora caminhando para o desempate a favor do português. A terceira eliminação sem gols de Messi nos confrontos. Sintomático.

Noites históricas para Liverpool e Roma, com muito a comemorar. Feitos memoráveis também por superarem o treinador e o jogador mais talentosos desta era. Que construíram juntos uma trajetória vencedora lá no início da década e, fora a epopeia do Barça em 2015 com o trio MSN sob o comando de Luis Enrique, ficaram devendo em conquistas na competição mais importante.

É preciso mais que regularidade e foco na qualidade do jogo. E o paradoxo: enquanto Guardiola fica pilhado demais e acaba “inventando”, Messi parece indiferente, serenidade que se transforma em letargia. Mais uma noite de fracasso para rever convicções e prioridades.

(Estatísticas: UEFA)

 

 


Paes, Ismaily, André Gomes. As várias faces da nossa crueldade
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André Rocha

O goleiro Paes do São Caetano falhou no gol de Trellez e foi infeliz ao colocar nas redes a cabeçada de Diego Souza que tocou na trave direita. Os gols da classificação do São Paulo para as semifinais do Paulista. Errou, sim. Mas as lágrimas depois do jogo no Morumbi são  de quem sabe que comprometeu o trabalho de toda a equipe e também por saber que ficou marcado.

Mesmo em um time de menor investimento, será tema de memes. Talvez até debochando de suas lágrimas. O triunfo são-paulino será relativizado pelo que fez, ou deixou de fazer. Já ecoa o trocadilho “Goleiro Paes foi uma mãe para o São Paulo”.

Ismaily do Shakhtar Donetsk foi convocado por Tite para a vaga de Alex Sandro, que substituiria Filipe Luís. Ou seja, foi a quarta opção para a lateral esquerda. Dificilmente irá ao Mundial da Rússia. Mas só porque atua na Ucrânia e não fez história em um grande clube brasileiro os protestos vêm de todos os lados.

Um jogador em bom momento, de uma equipe que se classificou para as oitavas de final da Liga dos Campeões eliminando na fase de grupos o Napoli que disputa o título italiano com a Juventus. Jogos transmitidos ao vivo para o Brasil. Ismaily foi citado por Tite há dez dias. Se ninguém se informou sobre o lateral, o problema não é dele. Uma convocação circunstancial, de emergência, guiada pelo contexto. Provavelmente não vai jogar os amistosos, nem será convocado até a Copa. Nenhum motivo para alarde. Muito menos para tratá-lo como um Zé Ninguém.

André Gomes confessou à revista “Panenka” que sofre pela pressão que coloca sobre si mesmo por não render no Barcelona. A ponto de sentir vergonha de sair de casa. Não importa se o seu estilo não tem muita relação com a escola do clube, nem é um “transgressor” como Paulinho, mais intenso e infiltrador. Não interessa se o erro foi de quem contratou.

É o jogador que sofre, entra em depressão. É ele também o contestado quando está em campo, por ser uma espécie de corpo estranho. Ninguém quer saber. Porque se o sonho da maioria dos jogadores do planeta é estar nos gigantes da Espanha e jogar com Messi algo para contar para os netos é obrigação render em alto nível, não importa como.

Esquecemos que aqueles que julgamos por noventa minutos, ou pelas nossas convicções, são gente. Com sonhos e frustrações, vitórias e derrotas muito além do campo. Não precisam que sejamos impiedosos, implacáveis com os erros alheios como não agimos conosco ou com aqueles que defendemos. A maior cobrança é de quem avalia o próprio desempenho.

A crítica aos que não rendem não pode ser destruidora, definitiva. O futebol é complexo e caótico demais para este nível de exigência. Com o goleiro que falha, o meia que não encaixa, o lateral que “ninguém conhece”. Até porque não há outro esporte com tantas histórias de redenção, subvertendo a lógica.

Mas temos o péssimo hábito de ver o lado negativo de tudo. O erro salta aos nossos olhos. Diminuir alguém reduz a própria dor, esconde os fantasmas. São as várias faces da nossa crueldade. Que aprendamos a lutar contra este vício. Em nome do respeito.