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Temporada do Barcelona começa com mais do mesmo, mas precisa ser diferente
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André Rocha

Supercopa da Espanha, baterias começando a aquecer, os muitos jogadores que disputaram a Copa do Mundo voltando aos poucos. O jogo único no Marrocos entre Barcelona e Sevilla manteve o clima de pré-temporada dos amistosos, algo que não costumava existir quando jogado no próprio país.

Ernesto Valverde escalou Arthur de início e deixou Phillipe Coutinho no banco. Um 4-3-3 variando para o 4-4-2 sem a bola com Rafinha abrindo à direita e dando liberdade a Messi. Dembelé foi para o setor esquerdo, formando dupla com Jordi Alba. Do lado oposto, Nelson Semedo fazia todo o corredor.

O gol logo aos oito minutos condicionou o primeiro tempo. Até porque o Sevilla, agora comandado por Pablo Machín, tinha como proposta deixar o adversário com a bola, negar espaços num 5-4-1 compacto e acelerar nos contragolpes. Com os ponteiros Pablo Sarabia e Franco Vázquez, na variação para o 4-3-3, se aproximando de Muriel, o atacante único que serviu Sarabia numa transição ofensiva rápida que terminou com conclusão precisa e a ajuda do VAR para validar o gol legal inicialmente anulado.

Depois o Barcelona ficou com a bola, tentando as inversões em busca dos laterais que chegam ao fundo. Suárez ainda nitidamente fora de ritmo, não conseguia dar sequências às jogadas como de costume e desperdiçou boa chance em chute cruzado. Dembele buscava os dribles para infiltrar em diagonal, mas batia no muro da última linha de defesa do Sevilla até bem coordenada para a primeira partida oficial da temporada.

Messi caminhava ou trotava em campo, buscando espaços entre a defesa e o meio-campo do oponente, por vezes recuando para ajudar na articulação. Só acelerava com a bola colada no pé esquerdo. Ou fazia a tradicional inversão para Alba. Impressiona a qualidade quando interfere no jogo e o respeito que impõe ao adversário, ao menos dentro da Espanha.

Cada vez mais preciso na bola parada. Cobrança de falta do camisa dez na trave esquerda, a bola bateu no goleiro Vaclik e Piqué empatou no rebote. O Barça manteve o domínio, sofrendo com um ou outro contra-ataque. Especialmente pelo setor esquerdo, com o zagueiro francês Lenglet, ex-Sevilla, mais uma contratação para a temporada, sem conseguir fazer a cobertura de Alba com a rapidez e a eficiência de Umtiti.

Arthur sofreu a falta do gol de empate, mas não foi tão bem. Ainda precisa se adaptar à velocidade da circulação da bola no ritmo de competição no mais alto nível. Questão de tempo e entendimento. Deu lugar a Philippe Coutinho e Rafinha saiu para a entrada de Rakitic. Com o 4-4-2 mais próximo da temporada passada e Dembelé indo para o lado direito, saiu o golaço do ponteiro francês em chute forte e preciso.

Gol de título, porque nos acréscimos Ter Stegen fez pênalti em Aleix Vidal, mas Ben Yedder bateu fraco e o goleiro alemão segurou. Mesmo sem uma clara superioridade sobre o adversário, o Barcelona alcançou mais uma conquista. A décima terceira do maior vencedor da história.

Mais do mesmo. Fruto de uma cultura de vitória dentro do país nos últimos anos. Ou desde Guardiola. Contando a partir da temporada 2008/09, são sete conquistas em dez edições do Espanhol. Mais seis taças da Copa do Rei e o mesmo número de Supercopas. Aproveitamento espetacular, mesmo considerando o foco habitual do Real Madrid na Liga dos Campeões e a trajetória bem sucedida deste nos últimos cinco anos.

Mas exatamente por essa sequência de triunfos é que o patamar subiu e a exigência para voltar a ser protagonista na Champions aumentou. Até porque depois do último título em 2015 o time vem caindo antes das semifinais. Nos confrontos contra Atlético de Madri, Juventus e Roma, a impressão de que faltou competitividade. Talvez um pouco mais de intensidade de Messi. Ou um elenco que aumentasse o leque de opções e fosse possível alterar as características da equipe, caso necessário.

Por isso a busca por Arthur, Malcom, Vidal para se somar à base titular que é reconhecidamente forte. Agora com Coutinho desde o início da temporada. Porque precisa ser diferente. Ou voltar ao que já foi. Sem perder o protagonismo na Espanha, mas voltando a dar as cartas no continente. Ir além do “piloto automático” na liga e na Copa. Ou mesmo repetir o grande rival e festejar a conquista mais importante, mesmo que as “domésticas” não venham.

No apito final, a comemoração tímida e protocolar. Mais uma. Parece pouco. O Barcelona tem que sair do marasmo. Inusitado pelas muitas conquistas recentes, mas sem deixar de parecer estagnado.

 


Neymar não “mata” centroavantes como Mano Menezes pensa. O problema é outro
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André Rocha

Foto: Antonio Scorza/AFP

Desde quando surgiu em 2009 até agora, Neymar disputou 551 jogos por Santos, Barcelona, Paris Saint-Germain e seleções brasileiras (olímpica e principal). Marcou 337 gols e serviu 180 assistências.

Muitos passes para gols. De André, Zé Love, Fred, Suárez, Messi, Cavani, Mbappé e Gabriel Jesus. Em 2010, seu recorde no Brasil: 20. Em 2016/17, última pelo Barcelona, o maior equilíbrio: 20 gols e 21 assistências, líder neste último quesito entre as principais ligas da Europa.

Logo, fica difícil concordar com Mano Menezes, em sua participação como convidado de Galvão Bueno no programa “Bem Amigos” do SporTV,  quando afirmou que o craque brasileiro “não prepara jogadas para o centroavante, só para ele decidir”. Em resposta a um questionamento sobre a falta de gols de Gabriel Jesus na Copa do Mundo.

Muricy Ramalho, hoje comentarista do canal de esportes, interferiu bem discordando e citando as assistências de Neymar tanto no período em que foi seu jogador no Santos quanto jogando no futebol europeu e na seleção.

Não é este o ponto. Neymar é a estrela e centraliza as jogadas, sim. Também é exímio finalizador e é normal que marque mais gols até que o centroavante. O que prejudica Neymar é o individualismo lá no início do processo. Culpa também de sua formação.

Porque ele é a estrela da companhia desde sempre. Na base foi moldado para decidir, assumir a responsabilidade. “Vai para cima!” é o que ouve desde criança. Por isto escolheu o lado esquerdo do campo para jogar. O flanco é menos congestionado para receber e partir com a bola no seu pé direito para dentro.

Repare no seu comportamento nos gramados do mundo. Recebe a bola e analisa rapidamente se é possível progredir através de dribles. Se está bem cercado pelo adversário, toca para o lado ou para trás e espera. Seu time roda a bola. Se voltar para ele há uma nova tentativa. Caso os caminhos estejam fechados ele desiste de novo.

Até surgir a chance de arrancar em diagonal ou para a ponta depois cortando para dentro quando estiver mais perto da área adversária. Só na zona de decisão é que Neymar resolve se vai passar ou ele mesmo finalizar. Ou seja, o caminho é solitário e individualista, sim. Mas no final ele também pode ser solidário e servir um companheiro.

Onde Neymar erra? Primeiro quando não tem paciência para esperar e tenta abrir a defesa à forceps. Bate no muro e perde a bola ou sofre falta. E exagera na reclamação e nas caras e bocas. Muito esforço para pouco rendimento.

Falta jogo associativo. Tocar a bola, se deslocar, dar opção de passe entre as linhas do adversário. Trabalhar coletivamente na intermediária ofensiva. Ser um elemento importante, mas dentro de um modelo de jogo. O mais próximo que chegou foi no Barcelona que tinha Messi como estrela. Ou no início da “Era Tite” na seleção

No Santos, inclusive com Muricy, com a camisa verde amarela e agora no PSG, a noção de protagonismo que aprendeu cedo: “Toca em mim!” Ele é o ataque. O passe final ou a conclusão. Se Neymar não está no auge físico e técnico fica mais complicado.

Por isso o sacrifício de Gabriel Jesus na Copa do Mundo. Não raro os momentos em que Neymar ficou solto na frente poupando energias. Como no final do trabalho interrompido de Mano Menezes na CBF em 2012 para a volta de Felipão e Parreira. Talvez seja o melhor neste ciclo até 2022 com Tite. Não por “matar” o centroavante, como Mano pensa.

Apenas ganhar jogo coletivo e um talento admirável que define jogadas. Com gols e assistências.

 


Sai Paulinho, entra Arthur: seleção deve seguir mudança do Barcelona
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André Rocha

Foto: Divulgação/Barcelona

Arthur já recebe elogios pelos primeiros treinamentos no Barcelona. A impressão geral é de que o meio-campista brasileiro de 21 anos contratado por cerca de 31 milhões de euros parece ter sido formado em La Masia e já surgem até comparações com Xavi e Iniesta. Apesar de algum exagero e da precocidade no paralelo com os dois maiores jogadores da história do futebol espanhol, não é nada absurdo para quem acompanhava sua evolução no Grêmio. Saiu como o melhor passador do país, disparado.

A tendência é que Arthur alterne com Busquets e Rakitic nas duas funções por dentro na segunda linha de quatro do 4-4-2 que foi a marca da equipe campeã espanhola e da Copa do Rei na última temporada. Pela direita, Willian pode ser a novidade, já que Dembelé não se afirmou, também por problemas físicos, e a perda da titularidade na França que ganhou corpo para ser campeã mundial fez com que diminuísse ainda mais seu prestígio no clube catalão. O atacante pode sair para a Internazionale.

O brasileiro, ainda definindo sua vida no Chelsea agora comandado por Maurizio Sarri, se juntaria a Messi, Suárez e Philippe Coutinho, este herdando definitivamente a vaga de Iniesta pela esquerda. Um quarteto de intensidade e rapidez que dentro da filosofia do Barça pede mais controle, precisão nos passes e variações no ritmo dos meio-campistas pelo centro.

Esta é a correção de rota do Barça que se completa com a volta de Paulinho para o Guangzhou Evergrande. Contratado a pedido de Messi e com o aval do novo treinador, o volante era uma opção de infiltração, imposição física e jogo aéreo num time que pecava pela previsibilidade e por insistir numa posse muitas vezes inócua.

Ao longo da temporada, porém, o brasileiro se mostrou com muitas dificuldades para participar da construção das jogadas, contrastando demais com o estilo de seus companheiros. A provável conclusão do treinador Ernesto Valverde: com Messi recuando para articular é melhor que a infiltração parta dos ponteiros em diagonal ou de Suárez. O meio-campo é para pensar o jogo e circular a bola. Por isso a “troca” de Paulinho por Arthur é tão marcante.

Lógica que deve ser também a da seleção brasileira, com ou sem Tite. Já que Casemiro se mostrou tão fundamental na proteção da defesa, a presença de Arthur se torna ainda mais necessária. Para este que escreve cabia já no grupo de 23 que disputou o Mundial na Rússia, mais ainda com a lesão de Fred e sua injustificável permanência entre os convocados. Porque ficou clara a dificuldade na articulação das jogadas a partir da intermediária, obrigando Coutinho a recuar muito para auxiliar. Mesmo defensivamente a tendência é que o posicionamento se ajuste pelas características de volante do agora jogador do Barcelona.

O futuro da seleção no ciclo até a Copa de 2022 depende demais da adaptação de Arthur ao novo clube. Uma decepção como foi, por exemplo, a passagem de Lucas Silva pelo Real Madrid manterá o nosso futebol estacionado, com seu maior “gargalo”: a ausência de um jogador de meio-campo que atue de área a área. Defendendo, organizando, acionando os atacantes e até aparecendo para finalizar.

O que Paulinho nunca foi e Renato Augusto tentou ser, mas no mais alto nível ficou devendo, até pelo abismo entre a principais ligas do mundo e a chinesa. O nome é Arthur e, ao menos por enquanto, não há um “plano B”. Oremos!


Neymar é o Brasil das contradições e do pensamento binário
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André Rocha

Foto: Pascal Guyot/ AFP

Neymar é individualista. Mas também é um dos que mais servem passes para gols no futebol jogado na Europa. Neymar só quer saber de ser o melhor do mundo. No entanto, aceitou ser coadjuvante de Messi no Barcelona e, mesmo voando na reta final da Liga dos Campeões, viu o argentino conquistar sua quinta Bola de Ouro em 2015. E aplaudiu.

Neymar tem vida social agitada, vai e volta o namoro com a atriz global. Mas também faz declaração de amor em público. Neymar queima sua imagem com provocações desnecessárias em campo e negociações, digamos, “complexas” do seu pai envolvendo seu nome. Ainda assim, é um dos mais requisitados para a publicidade. Vende o que quiser.

Neymar é contradição pura. Pode chutar ou xingar um adversário por quase nada em um jogo e abraçá-lo depois de levar entrada duríssima, como fez com o sérvio Ljajic. Na partida em que marca gol chora no gramado. Quando perde várias chances deixa o campo sorrindo e mandando beijos. Com os mesmos 2 a 0 no placar.

A impossibilidade de definir Neymar e encaixá-lo num estereótipo é o que mais incomoda quem o critica. Ou elogia. Quem vê seu narcisismo midiático tende a aproximá-lo de Cristiano Ronaldo. Mas ele é amigo de Messi. Se é marrento e não solta a bola, como era querido por todos no Barcelona, time com filosofia mais coletiva do mundo no qual, se alguém tiver que brilhar será o gênio argentino?

O PSG fez Neymar dar alguns passos atrás e hoje lembrar mais o garoto do Santos que tinha que resolver tudo na individualidade que o craque maduro e solidário do Barcelona. Aquele que voou no início da Era Tite na seleção brasileira. Fazendo gols ou dando assistências. Nos últimos tempos passou a prender um pouco mais a bola. Contra a Sérvia, sem reclamações e provocações. Fominha só no final, buscando seu gol com o placar tranquilo.

Neymar são vários. Como cada um de nós, só que com milhões de olhos o stalkeando no Instagram e nos sites sobre celebridades. Sendo dissecado à distância. Para muitos um deus, para outros tantos tudo de pior. No país do “Fla-Flu” e do pensamento binário, onde você é zero ou é um, ter muitas facetas é um problema sério.

Às vezes Neymar parece não ligar e estar alheio a tudo que o cerca. Mas sabe do que falam e escrevem. Parece desdenhar, mas vez ou outra muda o comportamento de acordo com críticas e elogios. É confuso, controverso. Dizem que não tem carisma e é antipático, mas nunca deixa de ser notícia. Até pelo que não fez. Tudo parece tão fake que bem que pode ser verdade.

Neymar é “ame-o ou deixe-o”. É vencer querendo mais mandar um “chupa” para os haters do que celebrar o próprio feito. É no carinho e na porrada. “100% Jesus” ou “Vão ter que me engolir”. Neymar é o Brasil. Deixem o menino-homem brincar. Mas com moderação.


As diferenças entre ferrolho, catenaccio, retranca e linha de handebol
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André Rocha

Como previsto neste blog antes mesmo da bola rolar na Rússia, a Copa do Mundo de 2018 vem trazendo nesta primeira rodada da fase de grupos e especialmente nas atuações da Islândia no empate com a Argentina por 1 a 1 e na do Irã, derrotada pela Espanha por 1 a 0, a marca de sistemas defensivos sólidos e organizados numa linha que costuma proteger a área com cinco, seis ou até sete jogadores.

Nas redes sociais e nos debates em TV, internet, rádio e na mesa de bar surge logo o termo “retranca”, normalmente reduzindo a estratégia das seleções que se fecham como um amontoado de jogadores guardando “covardemente” a própria meta.

Muito comum também recorrem a termos que orbitam o “glossário” habitual do futebol como “ferrolho” e “catenaccio” como sinônimos de estilos que privilegiam o trabalho defensivo. Como se fosse tudo a mesma coisa.

Não é. Até porque são práticas de épocas diferentes, com todas as suas particularidades. Seu “zeitgeist”, ou espírito do tempo. São de uma época que não volta mais, ainda que o legado de todos os eles sempre ajude a construir o que se pratica hoje.

Tudo começa no reconhecimento de que se um time tentar encarar o adversário de frente sendo inferior tecnicamente as chances de ser derrotado e até goleado aumentam exponencialmente. Jogar mal e deixa o oponente à vontade é um convite ao fracasso.

Não foi exatamente o que pensou Karl Rappan ao chegar ao Servette no final dos anos 1920 para ser jogador-técnico. Sua preocupação maior era a questão física, já que seu time era semiprofissional e iria enfrentar adversários totalmente dedicados ao esporte. Mas a questão técnica também era importante.

Por isso criou o “verrou”, ou “ferrolho”. Nada mais era que uma evolução diferente do 2-3-5 para o WM (3-2-2-3). Um defensor protegendo a linha de três zagueiros, um centro-médio à frente de dois meias, dois pontas e um centroavante. Uma espécie de 4-3-3 com líbero. Encaixando no sistema rival. Cada um marca o seu e um homem sobra. Com o olhar de hoje, nada demais.

O “ferrolho” da Suíça em 1938 que chamou atenção pela solidez defensiva. Basicamente um 4-3-3 com líbero (Tactical Pad).

Mas chamou atenção na época especialmente na Copa do Mundo de 1938, a última antes da Segunda Guerra Mundial. A Suíça de Rappan venceu a Inglaterra em um amistoso pré-Copa e na estreia superou os alemães. Acabou vencido pelos húngaros e voltaram para casa. Marcaram época, porém.

E o que marcaria o conceito de “retranca” também estava lá na Suíça. Não exatamente com quantos se defende, mas como se ataca. O time poderia jogar em qualquer sistema, mas se atacasse apenas em velocidade com bolas longas para seus atacantes, chegando com apenas três ou quatro na área adversária e marcasse poucos gols já era chamado de time “covarde”.

Como o Fluminense nos anos 1950, cujo grande destaque era o goleiro Castilho e vencia seus jogos por placares magros em tempos de gols em profusão. Por isso ganhou o apelido de “timinho”. Mas vencia.

Multicampeão foi Helenio Herrera, argentino que comandou a Internazionale de 1960 a 1968, mas com passagens pelas seleções de Espanha e Itália. O treinador que atualizou o “catenaccio”, a porta trancada. Estratégia que teve seu primeiro ensaio no “Método” de Vittorio Pozzo, bicampeão mundial de 1934 e 1938 pela Itália e a consolidação com Nereo Rocco, vice-campeão italiano de 1948 com o Triestina e que depois se consagraria no Milan dos anos 1960.

Herrera contestava o rótulo defensivista para sua estratégia que adaptou o volante Picchi como líbero para que Fachetti tivesse liberdade para atacar pela esquerda como o “terzino fluidificante”. O armador espanhol Luís Suárez, chamado de “regista”, acionava o trio de ataque em contragolpes. O conceito ofensivo de Herrera não podia ser mais atual: poucos toques na bola e velocidade. “Se você toca verticalmente e perde a bola, o prejuízo é pequeno. Mas se perder tocando horizontalmente pode levar um gol”, explicava.

Helenio Herrera armou o “catenaccio” na Internazionale com líbero para permitir que Facchetti tivesse liberdade para apoiar pela esquerda. Time de toques rápidos e velocidade no ritmo do “regista” Luis Suárez (Tactical Pad).

A estratégia da Itália campeã mundial em 1982 que eliminou o lendário Brasil de Telê Santana até hoje é chamada erroneamente de “catenaccio”. A seleção do treinador Enzo Bearzot praticava mesmo o “gioco”. Com o líbero Scirea, o “terzino” Cabrini, o “regista” Antognoni e Bruno Conti, o “ala tornante”, ou o ponta que retorna para transformar o 4-3-3 em 4-4-2. A proposta, porém, embora reativa contra equipes superiores tecnicamente, valorizava mais a bola e tinha alguma preocupação estética, com o jogar. A marcação era mista, por zona ou encaixe para a maioria dos jogadores e individual com o grande talento do adversário. Quem não lembra de Gentile perseguindo Zico e Maradona por todo o campo?

No Brasil, as retrancas sempre foram tratadas como o único recurso para o time inferior. Algo inconcebível para times grandes. Os quatro da defesa mais o volante, o meia-armador e o “falso ponta” recuados para que a equipe atacasse apenas com três homens. Viviam de uma “bola vadia” para vencer. Era o que faziam os times médios e pequenos contra esquadrões como o Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha, a Academia do Palmeiras, o Cruzeiro de Tostão, o Flamengo de Zico, entre outros tantos.

Milton Buzzeto, Paulinho de Almeida e Pinheiro foram “retranqueiros” célebres, comandando times pequenos que se fechavam e tomavam pontos dos grandes. Muitas vezes apelando para faltas violentas e esburacando os gramados para dificultar a vida das equipes mais técnicas.

Há, porém, uma diferença clara entre os métodos citados e as atuais linhas “de handebol”. Enquanto o “ferrolho”, o “catenaccio” e a retranca tinham o jogador adversário como referência com perseguições individuais, o trabalho sem a bola na atualidade, na grande maioria dos casos, procura fechar espaços de acordo com a região em que está a bola. Marcação por zona.

O “marco zero” surgiu por necessidade. José Mourinho perdeu Thiago Motta expulso no Camp Nou contra o Barcelona de Pep Guardiola na semifinal da Liga dos Campeões 2009/10 precisando administrar uma vantagem de dois gols, mas que pela vitória por 3 a 1 da Internazionale em Milão podia escapar com uma derrota por 2 a 0.

Com a desvantagem numérica, Mourinho abriu mão totalmente da posse de bola e da possibilidade de contra-atacar e plantou seu time na frente da área. Mas não de forma desordenada. Criou uma linha de seis ou sete jogadores para ao mesmo tempo negar espaços para as arrancadas de Lionel Messi e também as infiltrações por dentro, mas sem deixar de cuidar dos jogadores abertos que eram um dos segredos do esquadrão blaugrana para abrir as defesas adversárias.

José Mourinho armou a “linha de handebol” com sete homens, inclusive Samuel Eto’o protegendo a própria área do Barcelona de Guardiola. E o futebol começou a mudar. (Reprodução ESPN)

Sofreu apenas um gol e ainda viu o Barça apelar para Piqué como centroavante nos minutos finais. Já que não havia como infiltrar, a saída foi levantar bolas na área. Mourinho tirou o Barça de seu conforto, alcançou uma classificação heroica para a final da Liga dos Campeões que terminaria em título. O último da Champions do clube e do treinador. Mais que isto, sua resposta a Guardiola mudou o futebol mundial.

Alguns treinadores tentaram copiar os conceitos do catalão, mas a maioria, quando necessário, assimilou mesmo o “ônibus” de Mourinho. Já que o jogo passou a ser feito em 20, 30 metros, o time concentra o maior número de corpos nos espaços certos perto da própria área para impedir que o adversário entre. Como no handebol.

O desenho tático pode variar. Uma linha de quatro defensores pode ganhar mais dois pelos lados e passar a ser formada, na prática, por seis homens. Ou sete, se a linha for de cinco ganhando mais um zagueiro. Mas dois jogadores para impedir os chutes de fora da área com liberdade e um único atacante.

Mourinho tirou a vergonha e colocou a inteligência na retranca. Junto com outros treinadores foram aprimorando os conceitos ao longo do tempo. Sem deslealdade ou jogo sujo, apenas posicionamento e concentração. É claro que no mais alto nível fica difícil competir com equipes mais versáteis e talentosas – e Mourinho vem sofrendo com isso nos últimos anos.

Mas para confrontos como o dos iranianos comandados por Carlos Queiroz diante dos favoritos espanhois é uma estratégia legítima e até lógica. Embora não agrade as retinas deste que escreve, muitos conseguem até enxergar beleza na prática.

Irã com seis jogadores protegendo a própria área: quatro defensores e os dois pontas voltando como laterais para conter a Espanha (reprodução TV Globo).

Só não é tudo igual. As linhas de handebol podem até ser consideradas uma evolução de “ferrolho”, “catenaccio” e “retranca”. Mas as práticas e os princípios são bem distintos. Basta ter olhos de ver.

 

 


Já é hora de parar de passar pano em Lionel Messi
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André Rocha

Ele é o melhor jogador que este blogueiro viu em ação ao vivo desde que começou a ver futebol com um mínimo de discernimento, lá pelos anos 1980. Mas mesmo neste pedestal os gênios não podem ficar isentos de críticas.

Lionel Messi vem desperdiçando seu talento descomunal com um comportamento indecifrável no campo em momentos difíceis. Não exatamente jogos complicados em tese. Mas se sua equipe não torna as coisas acessíveis coletivamente, a capacidade do camisa dez fica limitada. Não é ele quem conduz seu time a reagir, mas o entorno precisa transformá-lo em protagonista.

Não significa que seja omisso. Sempre tenta. Ainda mais na quase sempre descoordenada e/ou limitada seleção argentina. Volta para articular, distribui e aparece na área para buscar a finalização. Mas repare que os movimentos são sempre os mesmos, os gestos técnicos iguais. Se os espaços entrelinhas não aparecem, se o adversário nega as opções de passe, se o dia não é dos melhores, como no empate em 1 a 1 com a Islândia na estreia da Copa do Mundo, Messi não inventa algo fora do seu vasto repertório. Normalmente se entrega.

Sim, ele finalizou 11 vezes na partida. Sim, a seleção de Jorge Sampaoli não tem ideias bem assimiladas, até pelo curto trabalho, e, por isto, não joga de memória. Mas, ora bolas, é o Messi. A exigência precisa ser a mais alta. Não basta tentar e se esforçar. Precisa decidir. E não pode desperdiçar a oportunidade de resolver a partida na cobrança de pênalti que consagrou o goleiro Halldorsson. Ainda mais quando a equipe depende tanto dele.

Já é hora de parar de passar pano em Lionel Messi. Uma certa conivência de quem se encanta com o que faz nos melhores momentos. Descendo quando convém o nível do sarrafo que tem que ficar no topo na cobrança por desempenho e resultados. A fama de bom moço, tímido e discreto, bem diferente do narcisismo midiático de Cristiano Ronaldo e Neymar, também cativa.

É óbvio que seu currículo recheado de conquistas não é de um perdedor. O questionamento é em relação ao comportamento em momentos específicos e muito importantes. Não é por acaso que nas ligas por pontos corridos ele supere Cristiano Ronaldo de longe. Messi é constante e regular. Nos últimos dez anos. O problema é quando a coisa sai do roteiro esperado.

“Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”, como está no imaginário popular. Ele não é super herói, mas quando vemos a atitude e a força mental de Cristiano Ronaldo contra a Espanha e também na trajetória que culminou no tricampeonato da Liga dos Campeões conquistado pelo Real Madrid fica claro que tem faltado algo a Messi.

Independe do entorno, do cenário, dos problemas da AFA. Messi precisa se indignar mais com a derrota enquanto é possível revertê-la. Não adianta chorar mirando chilenos e alemães na celebração de seus títulos. Ou ficar atônito com a eliminação do Barcelona para a Roma na última edição da Champions. Vexatória, se considerarmos as prateleiras dos clubes no futebol europeu.

Ainda há dois jogos da fase de grupos e as disputas eliminatórias, caso a Argentina se classifique. Sim, porque a Croácia já assumiu a liderança do Grupo C ao vencer a Nigéria por 2 a 0. Se não encontrar soluções para seus muitos problemas, o risco de eliminação da bicampeã mundial na primeira fase, repetindo o fiasco de 2002, é real.

Messi pode reverter o quadro e ainda ser o craque do Mundial na Rússia. Impossível duvidar de sua capacidade de fazer magia com o pé esquerdo. Cabe ao gênio reescrever sua história recente repleta de fracassos no mais alto nível. Afastar o rótulo de “pecho frio” que ele mesmo vem colando na sua imagem. O primeiro passo é abandonar a postura blasé, como se nada estivesse acontecendo. Como seus fãs querem fazer parecer.

É a última chance em Copa do Mundo de entrar no Olimpo dos maiores. Cristiano Ronaldo demonstra que já entendeu. Lionel Messi precisa despertar.

 


Lopetegui demitido! Surreal crise espanhola aumenta favoritismo do Brasil
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André Rocha

Bastava deixar tudo encaminhado com transparência e bater o martelo depois da Copa do Mundo para o Real Madrid anunciar Julen Lopetegui como o sucessor de Zidane no comando técnico.

Na Europa não costuma ser tão problemático esses anúncios que no Brasil poderiam provocar crises demolidoras. Como Pep Guardiola anunciado no Bayern de Munique e no Manchester City com a temporada rolando e Jupp Heynckes e Manuel Pellegrini ainda treinando as equipes. Ou Antonio Conte acertado com o Chelsea ainda comandando a Itália na última Eurocopa ou Louis Van Gaal fechado com o Manchester United disputando a Copa do Mundo de 2014.

Mas desta vez criou uma quebra de confiança dentro do grupo da seleção espanhola, que já tem suas tensões naturais entre jogadores de Real e Barcelona. Uma inacreditável falta de tato e sensibilidade. Do Real por ter acertado com o treinador sem avisar à Federação Espanhola e anunciado oficialmente às vésperas do Mundial e, principalmente, de Lopetegui por ter aceitado a proposta depois de esconder a negociação, tendo o contrato renovado recentemente até 2020. Atitude infeliz que  ejetou o treinador do comando da Roja. Demissão anunciada na véspera da abertura da Copa.

Algo inédito, que abala muito o favoritismo espanhol. A seleção que apresentou melhor futebol em 2018. Consolidando os dois anos do ciclo de sucessão de Vicente Del Bosque. Praticamente o mesmo tempo de trabalho de Tite. Mas suficiente para resgatar o estilo e o espírito que se esvaiu depois da conquista da Eurocopa 2012. Agora se transforma em um enorme ponto de interrogação.

Pensando com o olhar brasileiro, é um forte concorrente que, ao menos em tese, se enfraquece para a disputa do Mundial. E já estreando contra Portugal de Cristiano Ronaldo. No pior dos cenários de uma derrota no primeiro jogo, ainda assim não deve ser problema conseguir a classificação disputando vaga com Irã e Marrocos. Mas num hipotético duelo nas oitavas contra um Uruguai ou até diante da anfitriã Rússia já pode se complicar.

Porque é uma troca de comando traumática e sem tempo para buscar uma solução bem pensada. Rubiales está no cargo há poucos meses sucedendo Angel Villar. Prometeu anunciar um nome amanhã. Tão caótico quanto surreal.

Perde o Mundial, ganha o Brasil de Tite. Uma possível final pode ter outro adversário. O futuro dirá.

 


Não é a derrota de Fernando Diniz, mas a vitória de Abel Braga
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André Rocha

Foto: Lucas Merçon/Fluminense FC

Quando se contrata Fernando Diniz você compra uma ideia. Que precisa de tempo. Para aperfeiçoar os métodos, adaptar melhor o elenco à proposta de jogo e trabalhar as divisões de base para que o jovem entre no time profissional já sabendo o que fazer. O próprio treinador também necessita de vivência para aprimorar sua visão, o feeling. Como em qualquer ofício. É da vida.

A mágica no futebol é raríssima. O Barcelona de Guardiola vinha de Johan Cruyff, mas também do antecessor Frank Rijkaard. A combinação das escolas holandesas e espanholas apenas ganhou atualização e novos elementos. E havia material humano para executá-la com excelência. O mesmo para a origem, a Holanda de 1974. Rinus Michels reuniu o que se fazia no Ajax e no Feyenoord e deu ênfase à intensidade e a um movimento radical: o “arrastão” com todos correndo na direção da bola ao mesmo tempo para roubar e partir com superioridade numérica ou deixar um ou mais adversários em impedimento.

Diniz só não pode entrar na roda viva do futebol brasileiro, condicionada apenas a resultados imediatos. Se for para ser assim é melhor nem contratar. Ou abraça o projeto acreditando ser possível criar uma identidade e lá na frente fazer história ou entra no bolo da tentativa e erro.

Mas há jogos e jogos. E os 2 a 0 aplicados pelo Fluminense no Maracanã sobre o Atlético Paranaense foi o do espetáculo através do contragolpe. Este movimento tão incompreendido. Ou visto de uma forma até contraditória. Se é praticado por um time sem estrelas ou de um treinador com discurso mais pragmático é tratado como único recurso para compensar as limitações técnicas.

Por outro lado,caso o time conte com craques ou venda uma imagem de “jogo bonito” eles entram no pacote do “espetáculo”. Como os muitos do Manchester City campeão inglês de Guardiola. Ou os vários do Brasil de 1970, no calor do México aproveitando a preparação física realizada com muita antecedência e métodos modernos para a época. Mas confundem com “magia”.

O time de Abel Braga empilhou contragolpes. Uma goleada não teria sido nenhum absurdo no universo de treze finalizações, seis no alvo. Duas nas redes com Jadson concluindo e Thiago Heleno fazendo contra e depois Marcos Júnior. O Atlético finalizou 16, mas apenas três na direção da meta de Julio César. Com 66% de posse.

O detalhe que passa despercebido por quem olha os números e interpreta como domínio do time visitante é que a proposta de negar espaços e aproveitar os cedidos pelo oponente visa dificultar as finalizações “limpas”. Com liberdade. E usar a velocidade na transição ofensiva para criar as chances cristalinas.

E nisto o Flu foi preciso, até pelo maior tempo de trabalho. Um 5-4-1 organizado, com linhas próximas e estreitando a marcação no setor em que estava a bola. Alternando marcação no próprio campo com a adiantada para dificultar a construção da equipe de Diniz desde a defesa.

Bola retomada, saída rápida e com muita gente. E o mérito de Abel no Flu é privilegiar quem sabe jogar. Jadson e Richard são volantes com passes rápidos e certos, os alas Gilberto e Marlon descem com vigor e confiança, mas também técnica. Sornoza é o organizador, Marcos Júnior é o típico ponteiro ligeirinho que corre mais que pensa, mas dá sequência aos ataques e tem momentos de lucidez. Assim como Pedro vai evoluindo e mostrando não ser apenas o tradicional centroavante rompedor.

Nada muito sofisticado, até porque o orçamento tricolor não permite. Mas a proposta é voltada para o ataque, sempre. Mesmo que seja reagindo à iniciativa do adversário. E fica mais fácil quando se sabe o que o oponente vai fazer. O grande risco das ideias de Diniz sem o modelo bem assimilado e jogadores capazes de surpreender na jogada individual é a previsibilidade. Não há surpresa. O time terá a bola, ocupará o campo de ataque e trocará passes até encontrar uma brecha.

Pior ainda com uma recomposição lenta e sem defensores rápidos nas coberturas. Se transforma num convite aos rivais. Não por acaso as cinco derrotas seguidas. Ajustes imediatos são necessários, sem abrir mão dos princípios. Insistir apenas por “filosofia inegociável” será pouco inteligente, para dizer o mínimo.

Assim como é obtuso não reconhecer os méritos de quem faz um jogo potencializando virtudes e explorando as deficiências do adversário. Questão de lógica pura e simples. Porque o objetivo deste esporte que tanto amamos não mudou: colocar a bola na rede e vencer fazendo mais gols que o outro time. Há maneiras e maneiras de conseguir este intuito. Tolo é quem acredita nos que vendem a ideia de que só há uma. Ou a mais “nobre”.

Até Guardiola, ícone e referência dos defensores do jogo de posse como o “Santo Graal” do esporte,  já entendeu que é preciso ser “camaleão”, jogar por demanda, de acordo com o que pede o confronto. A especialidade do Real Madrid de Zinedine Zidane que pode ser tricampeão europeu e do mundo. Que também não surgiu por mágica. Veio da semente de Carlo Ancelotti e da manutenção de uma base.

Diniz é jovem na função e vai aprender. Pode e deve tirar lições, inclusive de Abel Braga.  O veterano treinador é que foi o grande vencedor na noite da beleza do contra-ataque no Maracanã.

(Estatísticas: Footstats)

 


Iniesta, o melhor coadjuvante que um time pode querer, vai fazer falta
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André Rocha

Foto: Divulgação/Barcelona

34 anos, 22 no Barcelona. 32 títulos no clube, mais três pela seleção espanhola. O mais importante, da Copa do Mundo em 2010, fazendo o gol da conquista na prorrogação. Algo que já valeria respeito e reverência em toda Espanha, mesmo dos madridistas.

Mas Iniesta é muito mais que isto. Cidadão consciente. De seu tamanho e do que representa, mas também dos valores que são importantes. Foi o que se viu principalmente no campo de jogo. No clube ou na seleção, sempre foi o melhor coadjuvante que um time pode ter.

Conviveu tranquilamente com o protagonismo de Ronaldinho Gaúcho e Messi no Barça e de Xavi como símbolo maior do estilo da seleção espanhola. Nunca deu entrevistas cobrando Bola de Ouro, até quando mereceu em 2012. Total consciência de ser um facilitador.

Um gênio da simplicidade e do senso coletivo. Se o mais adequado é o passe curto, de lado, para manter o controle da bola e o time no campo de ataque sem riscos, ele não vai inventar algo diferente tentando ser mais do que o necessário.

Heroismo só quando for essencial. Como no gol sobre o Chelsea na semifinal da Liga dos Campeões 2008/09 ou no chute decisivo do Mundial da África do Sul. Ou liderando uma Espanha já iniciando a curva descendente na Eurocopa 2012. O grand finale da geração mais vitoriosa do país. Coletiva, sem uma estrela maior. E ainda tem a Copa da Rússia como uma possibilidade de cereja do bolo.

Iniesta é digno até na hora de se retirar. Ao perceber que o time precisa de mais intensidade e vigor abre espaço com humildade, sem deixar o clube na saia justa de manter mais pela história que por conta do desempenho. Sim, havia negócios para conciliar na China e agora podem surgir oportunidades também fora de campo no Japão.

Mas o camisa oito nos gestos e exemplos nunca simbolizou ganância. Pelo contrário, apenas generosidade. Como na passagem da braçadeira para Lionel Messi. Por isto vai fazer tanta falta ao futebol mundial no seu mais alto nível. Como lembrou a torcida no Camp Nou em camisas e bandeiras na vitória sobre a Real Sociedad por 1 a 0, golaço de Philippe Coutinho, jogadores e pessoas como ele são infinitos. Ou deveriam ser.


Sampaoli deve visitar Simeone. Argentina precisa de paixão e humildade
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André Rocha

Foto: Álex Marín

Jorge Sampaoli já disse que sente o futebol diferente de Diego Simeone. De fato, basta olhar para o campo e ver ideias de jogo bem distintas. Ambos intensos, mas um querendo a bola e se arriscando mais preenchendo o campo de ataque e outro mais focado no erro do adversário e abnegado na tarefa de defender a própria meta.

Mas pelo momento da seleção argentina, com menos de um ano de trabalho e as perspectivas na Copa do Mundo, já começando por um Grupo D longe de ser fácil com Islândia, Croácia e Nigéria, o atual treinador da albiceleste deve olhar para o trabalho de seu compatriota, novamente campeão no Atlético de Madri com a conquista da Liga Europa ao vencer o Olympique de Marselha por 3 a 0. Até visitá-lo para trocar impressões e adaptar convicções.

Porque está claro que não será possível seguir a linha de Sampaoli, fortemente influenciada pela dinâmica de Marcelo Bielsa. Da “soberania argentina”. O que deu certo no Chile. Faltando um mês para o Mundial na Rússia é preciso ser pragmático. Os 6 a 1 impostos pela Espanha, mesmo com todo o contexto e a ausência de Messi, deram um recado claro, cristalino: a trajetória tortuosa até aqui e o material humano pedem cuidados para ao menos honrar a camisa duas vezes campeã mundial e presente em cinco finais.

O 4-4-2 ou 4-4-1-1 de Simeone no Atlético é um bom início. Até pela semelhança com o de Alessandro Sabella no Brasil. Para diminuir os espaços dos adversários com linhas compactas e principalmente deixar Messi bastante confortável. Como nesta temporada no Barcelona campeão espanhol e da Copa do Rei comandado por Ernesto Valverde.

Porque é desperdício prender o gênio argentino pela direita ou deixá-lo como único atacante, a menos que seja um “falso nove” com dois ponteiros agudos infiltrando em diagonal. Melhor deixá-lo solto com uma referência na frente para tabelas e passes em profundidade. Pode ser Higuaín ou Aguero. Este que escreve apostaria em Mauro Icardi, mais jovem, rápido e sanguíneo, sem o peso do retrospecto negativo dos outros dois na seleção em jogos grandes.

A escolha dos demais nomes ficaria por conta dos treinamentos e da condição física depois de uma temporada europeia desgastante. Há uma base com Romero na meta, Otamendi na zaga, Biglia na proteção da retaguarda e Di María em um dos flancos na linha de meio-campo.

Mas duas características do Atlético de Simeone não podem faltar neste Mundial à albiceleste: paixão e humildade. A primeira para buscar o título que não vem desde a Copa América de 1993 e também jogar por Messi. Para a única grande conquista que falta a um dos melhores e maiores da história do esporte.

Mesmo que não se compare em idolatria a Maradona, até pelas personalidades diametralmente opostas, mas digno de um momento marcante, histórico. Para isto é fundamental colocar sangue nos olhos dos companheiros e do próprio Messi, com seu comportamento indecifrável em alguns momentos decisivos.

Por isso a humildade é essencial. Para entender limites e possibilidades. Compreender que ter a bola sem um plano bem assimilado e executado aumenta exponencialmente os riscos. Pressionar o tempo todo no campo de ataque sem coordenação e ainda contando com um Messi que costuma caminhar sem a bola é convidar o oponente para aproveitar espaços entre os setores. Humildade em Sampaoli para entender que será preciso ser mais Carlos Bilardo que César Menotti ou Bielsa. Mais Simeone. É o que o momento pede.

O sucesso dos treinadores argentinos na Europa é ótimo, mas provoca um efeito colateral: o melhor não está a serviço da seleção. Sampaoli aceitou interromper o sonho no Velho Continente para servir seu país. Agora precisa colocar de lado a vaidade de assinar um estilo.

A Argentina clama por um plano de emergência. Mesmo com todos os problemas da AFA, o da última Copa só negou o título na prorrogação da decisão. Com Higuaín perdendo uma chance no primeiro tempo que podia ter mudado a história. Por que não repetir, incluindo a entrega e o “correr até a morte” de Simeone como o toque final para buscar a redenção com tons de drama, como bem gosta o seu povo?