Blog do André Rocha

Arquivo : Colômbia

Fim dos 100% do Brasil de Tite é compensado pelo valor do teste
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André Rocha

O calor e a umidade em Barranquilla foram obstáculos tão grandes quanto a boa atuação da Colômbia no segundo tempo, não por acaso coincidindo com a maior produção de James Rodríguez, o meia central do 4-2-3-1 armado por Jose Pekerman. Na jogada bem trabalhada do camisa dez com Arias contra Filipe Luís sem o suporte de Renato Augusto, o cruzamento na cabeça de Falcao García, que se antecipou a Marquinhos para empatar.

Um raro vacilo brasileiro dentro de uma atuação segura de acordo com o contexto. Tite acertou ao acrescentar Fernandinho e Roberto Firmino às mudanças obrigatórias – Thiago Silva no lugar do lesionado Miranda e Filipe Luís no lugar do suspenso Marcelo. Descansou Casemiro e guardou Gabriel Jesus para a segunda etapa na vaga de Firmino, que não brilhou mas novamente contribuiu coletivamente. Mais importante: experimentou sua equipe.

Manteve Willian entre os titulares e o ponteiro pela direita do 4-1-4-1 correspondeu com bom trabalho no setor, em dupla com Daniel Alves. E ainda apareceu no centro para receber passe de Neymar, após lançamento preciso de Fernandinho, para acertar um chutaço no ângulo de Ospina. Golaço único da primeira etapa, logo depois da parada para a retirada de um cachorro do gramado.

A assistência de Neymar foi o ápice de uma atuação mais solidária. No esforço na recomposição e, principalmente, por soltar mais rapidamente a bola e fazer o jogo fluir. Quando tentou as jogadas individuais era o único recurso, como na bela arrancada desde a intermediária brasileira até a área colombiana no segundo tempo. O craque voltando aos eixos, mesmo sem desequilibrar, foi uma boa notícia.

Também a confiança do treinador ao arriscar novamente Philippe Coutinho no lugar de Renato Augusto, mudando o desenho tático para o 4-2-3-1 com o recuo de Paulinho, novamente atuando mais avançado na linha de meias. O Brasil nunca abdicou de jogar e isto é sempre positivo e merece reconhecimento.

Assim como a manutenção do desempenho, mesmo com quase meio time alterado. O fim dos 100% de aproveitamento com Tite nas Eliminatórias era esperado, até pelo peso zero do resultado na classificação. Importante foi o valor do teste e a boa resposta de maturidade de uma seleção que parece pronto, mas ainda está em formação.


Seleção: testar novidades ou entrosar e criar variações na base titular?
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André Rocha

A partir dos duelos contra Equador e Colômbia pelas Eliminatórias a seleção brasileira viverá um dilema causado pela competência de Tite, comissão técnica e jogadores.

Por conta das oito vitórias seguidas alcançou a vaga para a Copa do Mundo da Rússia. Encontrou uma base titular muito rapidamente e deu liga de maneira veloz quase na mesma proporção. Mas continua sendo um trabalho de pouco mais de um ano e um universo de apenas onze partidas, incluindo amistosos contra Colômbia, Argentina e Austrália.

É pouco, mas conseguiu muito. O objetivo principal. E terminar a disputa sul-americana em primeiro lugar nada significa objetivamente para o Mundial. Por isso fica a impressão de que seria o momento para fazer testes. Para evitar o grupo fechado, a pouca importância dada ao momento dos jogadores e a preferência pela manutenção do que deu certo anteriormente. Ideias que prejudicaram Parreira, Dunga e Felipão nas três últimas Copas do Mundo.

Desta vez não houve Copa das Federações. Ou das ilusões: de time pronto e imbatível, sem considerar todas as variáveis e possibilidades de mudanças em doze meses. O engano da receita de sucesso infalível. O que deve ser evitado.

Mas por conta do espaçamento entre as partidas e das poucas sessões de treinos é natural que Tite fique tentado a ver seus titulares em ação mais vezes. Para consolidar ideias, construir o jogar de memória na execução do 4-1-4-1 já bem ajustado e até criar variações sem mexer nas peças. Ou só deixar Phillippe Coutinho de lado neste momento por não estar em ritmo de competição, sem jogar no Liverpool e esperando o desfecho deste interminável interesse do Barcelona.

Willian deve começar a partida na Arena do Grêmio, o que muda as características porque o ponteiro do Chelsea atua mais aberto e circula menos que Coutinho. Perde o ponta articulador, mas pode abrir o campo e até aproveitar Daniel Alves descendo mais por dentro.

Não seria, porém, o momento de testar mais gente, mesclar a escalação com reservas para observá-los em ação num cenário competitivo, com os adversários ainda buscando a classificação? De repente testar Luan e buscar um jogo entrelinhas mais envolvente tentando reeditar o sucesso da parceria com Neymar. Experimentar e manter todos atentos, motivados, sem risco de acomodação. Mas sem perder a identidade como equipe.

Difícil escolha que só reforça a crítica à CBF por ter perdido dois anos com Dunga quando era claro o momento do melhor treinador brasileiro que se sentia pronto para o cargo. O trabalho estaria mais maduro, haveria duas disputas de Copa América como bagagem e o planejamento teria menos urgências.

Agora cabe a Tite definir o caminho até o ano que vem. Dosando manutenção, aprimoramento e busca constante de meritocracia. Entrosar, variar e testar na justa medida. Um desafio que começa na quinta-feira em Porto Alegre.

 


Reinaldo Rueda e Flamengo: relação que já nasce imediatista
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André Rocha

Reinaldo Rueda é mais um treinador estrangeiro a desembarcar no Brasil cercado de expectativas. Campeão da Libertadores com o Atlético Nacional, alimenta a esperança do torcedor do Flamengo de colocar na rota do sucesso e das conquistas o elenco milionário construída pela gestão financeira responsável do clube.

Em relação à imprensa será visto com a desconfiança habitual pelos que refutam a presença de comandantes estrangeiros no país. Mas como tem perfil estudioso, porém não é nenhum garoto com seus 60 anos pode agradar aos mais atualizados, mas também à “velha guarda”.

No entanto, a relação entre Rueda e Fla já nasce com urgências. Imediatista. Simbolizada pela chegada ao Rio de Janeiro e a viagem logo em seguida para Belo Horizonte acompanhar a derrota por 2 a 0 para o Atlético Mineiro. Pela necessidade de recuperação no Brasileiro, porque há uma semifinal de Copa do Brasil contra o Botafogo aquecida pela rivalidade regional e também a urgência em conquistar um título internacional e a Sul-Americana aparece como ótima oportunidade.

Talvez a única com o treinador colombiano. Porque no melhor dos cenários o Flamengo será uma mera ponte para o grande sonho de Rueda: voltar a comandar a seleção do seu país, mas desta vez em um ciclo completo de Copa do Mundo. Não como “bombeiro” para buscar o milagre da classificação para o Mundial, como aconteceu, sem sucesso, no ciclo de 2006.

Ele é o favorito  para suceder o argentino José Pekerman depois do Mundial da Rússia. A informação de bastidor é de que há uma cláusula de liberação sem multa no contrato (atualização pós anúncio oficial: não há a cláusula contratual, mas o risco continua o mesmo) . Ou seja, se não demiti-lo antes, o Fla pode ficar sem técnico no segundo semestre do ano que vem. A única competição que poderia comandar do início ao fim seria o estadual.

Diante da falta de opções mais confiáveis é uma aposta válida. Rueda é antenado e bom gestor de grupo. Tem perfil semelhante ao de Tite. Não por acaso foi atrás de Carlo Ancelotti na Alemanha para buscar aprimoramento de suas ideias. É mais administrador de elencos que um gênio criativo. No Atlético Nacional deu sequência a um projeto que passou pelas mãos de Juan Carlos Osorio e conseguiu seis títulos em sete finais disputadas. Sem reveses, já que o que não conquistou, da Copa Sul-Americana, foi cedido em solidariedade à Chapecoense.

Mas não faz milagres. Com o desmanche da equipe de Medellín, sem Berrío, Guerra e Borja que vieram atuar no futebol brasileiro, caiu na fase de grupos da Libertadores. Com duas derrotas para o Botafogo. Manteve a proposta ofensiva e sofreu com o jogo reativo do time de Jair Ventura.

Não quer dizer que será derrotado na quarta-feira. Assim como seus títulos na Colômbia nada garantem agora. É uma nova história. Um idioma a aprender, uma cultura a descobrir. Resultadista e intensa, até cruel nas cobranças.

Rueda pode dar muito certo, mesmo com a péssima primeira impressão que certamente teve no Estádio Independência. Consolidar a recuperação de Berrío, fazer Diego e Everton Ribeiro se entenderem na criação, aproveitar o compatriota Cuéllar de maneira mais efetiva no meio-campo, posicionar melhor o sistema defensivo e dar mais chances aos jovens do elenco – também teve passagem pela seleção sub-20 da Colômbia.

Armar o time no 4-2-3-1 ou no 4-4-2 que utilizou no Nacional ou seguir o exemplo de Tite e implantar o 4-3-3/4-1-4-1 bebendo na fonte de Ancelotti. Construir um modelo de jogo forte e competitivo, potencializando as qualidades individuais através do coletivo.

A questão é o tempo. O encaixe precisa ser rápido, a margem para testes e experiências é mínima. E há uma massa de torcedores ansiosa, querendo tudo para ontem. Rueda sabe, ou deveria saber, que os mesmos que clamaram nas redes sociais para que ele viesse e fizeram festa no aeroporto podem pedir sua saída na primeira sequência ruim.

Que não seja mais um triturado por nossa máquina de moer que já vitimou ou desgastou Gareca, Osorio, Bauza, Aguirre, Fossati, entre outros estrangeiros. Paciência é artigo raro por aqui, ainda mais com quem não fala nossa língua. Boa sorte a Rueda! Ele vai precisar…


A maior vitória de Tite: a geração “fraca e mimada” agora sabe o que fazer
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André Rocha

Além dos três pontos que recolocam a seleção brasileira no pelotão da frente nas Eliminatórias, o melhor da vitória por 2 a 1 sobre a Colômbia em Manaus foi perceber que em pouquíssimo tempo Tite já conseguiu o mais importante para qualquer treinador: seus comandados já entendem seu plano de jogo.

Tem a ver com tática, mas principalmente com concentração e capacidade de se manter competitivo. No primeiro tempo, o gol relâmpago de Miranda em jogada nitidamente ensaiada no escanteio cobrado por Neymar. Depois o controle da partida com posse de bola, organização, força pela esquerda aproveitando os espaços deixados pelos rivais.

Depois o gol contra de Marquinhos salvando a equipe de Jose Pekerman, que não havia finalizado no alvo e terminou os primeiros 45 minutos apenas com uma finalização. O Brasil teve 63% de posse e o dobro de passes certos. Mas foi para o intervalo com o empate.

Sofreu na segunda etapa com o crescimento da Colômbia e de James Rodríguez na articulação. Em outros tempos, a chance de se desmanchar mentalmente e perder a coordenação dos setores seria enorme. Até porque a torcida passou a transformar o apoio em tensão e impaciência.

Tite trocou Paulinho e Willian por Giuliano e Coutinho. Com o meia do Liverpool, novamente ganhou mobilidade e um homem para circular por todo o ataque, deixando o lado direito para o apoio de Daniel Alves praticamente como um ala. Melhorou a produção, retomou o domínio e seguiu jogando. Sem desespero, atento à disputa e não se deixando impactar pelo ambiente externo.

Até o gol da vitória que começa com um desarme de Neymar no campo brasileiro, a saída rápida até Coutinho, pelo centro, achar o camisa dez pela esquerda. Finalização precisa. Uma das cinco na direção da meta de Ospina, dentre as 15 conclusões contra apenas quatro colombianas. Nenhuma no alvo.

Ponto para o treinador, que não se deixou levar pelas boas atuações do craque na Olimpíada atuando mais centralizado, praticamente como um meia articulador, e seguiu seu plano de escalar os jogadores nas funções em que estão acostumados em seus clubes. Neymar pela esquerda, como no Barcelona.

Para que os movimentos fossem assimilados mais rapidamente e a equipe entendesse o que é preciso fazer em campo sem grandes adaptações. Cada um jogando no seu espaço “de memória” e contribuindo para o coletivo. Não são por acaso as ótimas atuações de Marcelo e Casemiro, por exemplo.

Por isso a geração “fraca e mimada” mostrou personalidade nos dois triunfos que alçaram o Brasil à vice-liderança. Com chances de chegar ao topo já em outubro contra Bolívia e Venezuela. Porque agora sabe o que fazer.

Continua sendo o início de um trabalho, sujeito a oscilações. Tite não é um gênio da raça nem Rei Midas. Pelo contrário, faz o simples: planeja e trabalha. Cria um bom ambiente e deixa os atletas confortáveis em campo. Tão importante quanto os conceitos atualizados e a cobrança por concentração.

A seleção já é um time. Agora a missão é evoluir.

(Estatísticas: Footstats)

 


O Brasil dos quatro atacantes que não sofre gols. Porque todos defendem
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André Rocha

Foi um jogo diferente. Pela rivalidade recente com a Colômbia, por ser o primeiro confronto eliminatório na Olimpíada e pela torcida paulista, quase sempre ácida com a seleção brasileira, apoiando o tempo todo na Arena Corinthians.

O gol de Neymar de falta aos onze minutos ajudou. A única finalização no alvo no primeiro tempo – cinco brasileiras, quatro colombianas. Atrapalhou o clima bélico que podia ter rendido um vermelho a Neymar pelo destempero porque o rival não teve fairplay. O capitão brasileiro cavou três dos quatro cartões amarelos do oponente, fora o próprio.

Não teve jogo em 45 minutos. Pior para o Brasil, pois sobravam espaços entre os setores colombianos, mas o quarteto ofensivo errava nos contragolpes por pura tensão.

No segundo tempo, com o perigoso Borja, meteoro artilheiro do Atlético Nacional campeão da Libertadores, a disputa foi tática. E aí saltou aos olhos o trabalho coletivo da equipe de Rogerio Micale. Especialmente sem a bola.

O 4-2-3-1, ou 4-2-4 ganhou solidez com Gabigol e Gabriel Jesus pelos flancos, Neymar e Luan centralizados. Em tese, quatro atacantes. Na prática, todos participam da pressão no campo adversário ou voltam na recomposição e defendem em trinta metros. A entrega de Jesus pela esquerda foi impressionante. Para pulverizar todos os clichês.

Protegidos ou expostos quando as linhas avançam, Marquinhos e Rodrigo Caio estiveram perfeitos. Rápidos nas coberturas, corretos na saída de bola, atentos no jogo aéreo. O zagueiro do PSG um pouco acima do são-paulino, que ainda hesita em alguns momentos. Mas não compromete.

Atuação madura na segunda etapa, controlando com Thiago Maia no lugar de Gabriel para fazer dupla com Walace, liberar Renato Augusto e transferir Luan para o lado direito. Autor do segundo, com passe de Neymar. Golaço encobrindo Bonilla para premiar a consistência. Do gremista e da seleção.

A Colômbia, mesmo eliminada, consolida o bom momento e pode ter uma geração do mesmo nível ou superior à atual. Não por acaso manda no continente no universo dos clubes.

Mas é o Brasil que avança às semifinais contra Honduras. Maduro para compensar o nível técnico pouco abaixo na partida e com os zagueiros voando no time que não sofre gols. Porque todos trabalham.

 


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