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Neymar, Ibrahimovic e “O Show de Truman”
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André Rocha

Foto: Jean-Sebastien Evrard/AFP

E lá vamos nós de Neymar… Este blog evita o recurso fácil de caçar cliques com a maior “isca” da internet, mas em alguns momentos é inevitável abordar o tema.

O brasileiro novamente foi centro de uma polêmica ao provocar adversários na vitória por 3 a 2 do Paris Saint-Germain sobre o Rennes na semifinal da Copa da Liga Francesa. Primeiro o gesto de oferecer a mão para levantar um colega de trabalho e depois deixá-lo no “vácuo”.

Quanto ao domínio com as costas seguido de um chapéu em Bourigeaud, é o risco que Neymar adora assumir. Para quem leva será sempre um ato de desrespeito, ainda mais na Europa. O craque encara como espetáculo e uma forma de revidar com habilidade as pancadas e provocações. Mesmo sabendo que com isso se torna ainda mais o alvo.

É do jogo. Não precisava ser assim e talvez sejam exemplos ruins de um ídolo para a criança que está formando valores para a vida. Mas não definem o caráter de ninguém. Basta observar as declarações de quem convive ou já conviveu com o craque – inclusive no Barcelona, mesmo com uma saída traumática que poderia deixar ressentimentos – para desconstruir essa imagem de astro egocêntrico. Há coisas bem mais reprováveis por aí que passam batidas. Inclusive no futebol.

Ibrahimovic, por exemplo, já humilhou adversário procurando o nome na camisa, ironizou até o bigode de um oponente e agrediu com bolada o goleiro das Ilhas Faroe. Sem contar suas brincadeiras de mau gosto com colegas e as entrevistas em tom arrogante falando de si mesmo na terceira pessoa (“Zlatan”). Para muitos é visto apenas como “personalidade forte”. Outros tantos são indiferentes. Longe de causar tanta celeuma, no mesmo PSG.

Porque não é Neymar. Sempre o centro das atenções, com a vida escancarada nas redes sociais para milhões de seguidores. A ponto de monitorarem seu desempenho em campo de acordo com o namoro com a atriz global. Sem contar outras pautas que nada têm a ver com esporte.

Uma espécie de “O Show de Truman”, filme estrelado por Jim Carrey que completa 20 anos em 2018. Mas se na obra cinematográfica Truman Burbank não sabia que estava sendo filmado e sua vida transformada em um programa de TV, Neymar capitaliza com a exposição. Em todos os sentidos.

Só não pode reclamar do lado ruim, inclusive este texto que foge um pouco da bola jogada pelo brasileiro em Paris. Nem apelar para o clichê “o futebol está chato” ou se irritar com pancadas dos rivais, vaias das arquibancadas e críticas de quem pensa diferente. Ou mesmo a perseguição dos haters, muitas vezes por pura inveja.

São os prós e contras da vida. O verso da moeda vem sempre no pacote.

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Vitória do City é a prova de que Guardiola se reinventou e Mourinho não
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André Rocha

O primeiro tempo do clássico de Manchester no Old Trafford foi um típico duelo Pep Guardiola x José Mourinho. City ocupando o campo de ataque, trocando passes e buscando surpreender o United com uma configuração inusitada do trio ofensivo: Sané pela direita, Sterling centralizado como uma espécie de “falso nove” entre a defesa e o meio-campo adversário e Gabriel Jesus à esquerda.

Provavelmente guiado pelo desenho tático dos Red Devils, desarmando o sistema com três zagueiros e voltando ao 4-2-3-1 com Smalling e Rojo na zaga e Lingard centralizado atrás de Lukaku. Sem tanta necessidade de esgarçar a marcação, os citizens tentaram explorar os ponteiros com pés invertidos buscando as diagonais.

Mas com 75% de posse de bola e num universo de nove finalizações, o gol saiu na bola parada. Cobrança de escanteio, desvio de Otamendi e gol de David Silva, aparecendo livre na falha de Ashley Young na tática de impedimento.

Só então o time da casa se aventurou no ataque e finalizou a gol, com Martial, que iniciou pela direita, mas logo depois da desvantagem no placar trocou com Rashford. Pela direita, a joia do lado vermelho de Manchester aproveitou falha grotesca de Fabian Delph no domínio para empatar já nos acréscimos. De novo Mourinho vivendo dos elos fracos dos adversários. Um exagero na especulação.

Guardiola foi ainda mais ousado na volta do intervalo ao trocar Kompany, sempre às voltas com problemas físicos, por Gundogan. Fernandinho foi para a zaga. O jogo ficou mais equilibrado, com United se aventurando um pouco mais. Também com uma substituição na zaga: Rojo por Lindelof.

Smalling trocou de lado na zaga. E deu azar no corte de Lukaku defendendo a própria área. A bola bateu nas suas costas e sobrou para Otamendi livre. Com a vantagem, entrou em ação o Guardiola mais pragmático.

Tirou Jesus, colocou Mangala. Preencheu o meio-campo com a volta de Fernandinho ao setor e abriu Sterling e Sané para os contragolpes. Também se protegeu do mais que previsível ataque aéreo do United na necessidade de reverter o resultado. Ibrahimovic no lugar de Lingard e Juan Mata substituiu Ander Herrera.

No abafa, quase o empate com Mata e Lukaku, mas Ederson salvou mostrando que é candidato, sim, à titularidade na seleção brasileira. Guardiola tirou Sané, exausto, mas deixou Aguero no banco. Colocou Bernardo Silva, que desperdiçou dois contragolpes cristalinos. Ainda falta um pouco de rapidez na tomada de decisão ao português para a intensa Premier League. De Gea ainda salvou em bela finalização do meia De Bruyne em mais uma rápida transição ofensiva.

Nos minutos finais, a frieza e o foco no resultado mantendo a bola perto da bandeira de escanteio. Lembrou times argentinos na Libertadores, principalmente o Boca Juniors de Riquelme. Gastando tempo pela noção do tamanho da vitória.

Os 11 pontos de vantagem no topo da tabela praticamente encaminham a conquista nacional. A campanha até aqui é espetacular e histórica: 15 vitórias – 14 seguidas – e só um empate. Reflexo da superioridade do City com um elenco renovado, mas também da reinvenção de Guardiola. Treinador que mantém seus princípios de jogo, mas se recicla para transformar o protagonismo em vitórias.

Seu time ataca de todas as formas, com bola no chão e pelo alto. Se preciso for, reforça o sistema defensivo e gasta o tempo. Provando de vez que não é romântico. Sempre quis vencer, mas agora sem exigir tanto que seja à sua maneira. Como for possível.

Por isso está à frente de Mourinho, que não abandona a persona anti-Guardiola, o homem que pára o ônibus e parece estacionado. O português tem elenco e orçamento para fazer mais nos clássicos. Ainda pragmático e mirando o resultado. Porém mais eficiente, como Guardiola vai se impondo na Premier League.

(Estatísticas: BBC)

 

 


Liga Europa, vamos! Ao seu estilo, Mourinho volta a ganhar o continente
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André Rocha

Foto: Darren Staples, Reuters

O garoto-propaganda do patrocinador da Liga dos Campeões estará de volta ao maior torneio de clubes do planeta. Se não conseguiu a vaga para o Manchester United via Premier League, o título da Liga Europa aumenta a lista de taças conquistadas por José Mourinho.

No continente é a quarta, se juntando à antiga Copa da UEFA e às duas Champions Leagues, com Porto e Internazionale. Com os Red Devils, na primeira temporada, o terceiro título, se juntando às Supercopa da Inglaterra e Copa da Liga Inglesa.

Vitória sobre o Ajax em Estocolmo bem ao seu estilo. Diante de um time jovem e sem vivência em jogos grandes, aproveitou a pior faceta da atual escola holandesa: a falta de mobilidade e variações do tradicional 4-3-3 de manual.

Mourinho sabia que a fluência da equipe do treinador Peter Bosz partia do trio de meio-campistas acionando os ponteiros Traoré e Younes para buscar Dolberg, centroavante dinamarquês de 19 anos. A solução foi encaixar o 4-2-3-1 no engessado desenho tático do adversário.

Resultado: o meio-campo não jogou. Ander Herrera pegava Ziyech, Pobga grudava em Klaassen e Fellaini impedia a saída limpa do volante Schone. Os pontas Mata e Mkhitaryan acompanhavam os laterais Veltman e Riedewald, que não davam profundidade e Rashford dificultava a saída do zagueiro De Ligt.

Sobrava o zagueiro colombiano Davinson Sánchez, que entristeceria Johan Cruyff se ainda estivesse entre nós. Para este, o defensor é o primeiro construtor das jogadas. Sánchez conduzia a bola…e entregava ao adversário, que saía em transição rápida.

Assim o United controlou o jogo sem posse, com apenas 34%. A armadilha visava acelerar os contragolpes com o jovem Rashford e aproveitar a chegada forte pela direita de Valencia, descendo pelo corredor deixado pela movimentação de Mata.

No entanto, o gol saiu no vacilo de Klaassen, que deixou Pogba livre para bater de fora e contar com o desvio para deixar o jovem time holandês ainda mais tenso. Só Traoré saía do lado direito e buscava o centro ou a infiltração em diagonal para tentar quebrar a marcação na vitória pessoal.

O encaixe do 4-2-3-1 do Manchester United sobre o engessado 4-3-3 do Ajax que sofria na saída de bola com o zagueiro colombiano Sánchez. Bola roubada, contragolpe e eficiência nas finalizações (Tactical Pad).

O Ajax finalizou seis vezes contra quatro do United, mas apenas uma no alvo contra duas. Os números importantes dos primeiros 45 minutos, porém, foram os de bolas recuperadas: 32 da equipe inglesa contra 19 dos holandeses. Emblemático.

O caminho para o primeiro título da Liga Europa, a primeira taça internacional depois da saída de Alex Ferguson, foi pavimentado pelo gol de Mkhitaryan completando desvio de Smalling em mais uma falha defensiva do adversário. Na bola parada. Bosz tentou mexer com a marcação adversária, inclusive com o brasileiro David Neres. Um pouco mais de mobilidade, com Traoré circulando. Muito pouco.

O United deixou a marcação individual, compactou duas linhas de quatro com Herrera entre elas e deixou Lingard e Martial abertos para a saída dos contragolpes. Podia ter ampliado com Lingard, mas nem foi necessário. Valeu para Rooney sair do banco para substituir Mata, comemorar mais um título com a camisa do clube e levantar a taça como capitão.

Um mimo de Mourinho, campeão mais uma vez à sua maneira. O United terminou com 33% de posse e seis finalizações contra 15 do Ajax. Eficiência com quatro na direção da meta de André Onana e apenas duas que deram trabalho ao goleiro Romero.

Assim como o cãozinho Salsicha, a Liga Europa também vai com José Mourinho. Título importante para afirmar o português no comando do maior campeão inglês. Apesar dos problemas, em especial o sentido desfalque de Ibrahimovic, que celebrou de muletas em sua Estocolmo. Para amenizar a dor da tragédia em Manchester.

Na próxima temporada, Mourinho voltará a sentir o gostinho de “Match Day” na UEFA Champions League. Não só na propaganda.

(Estatísticas: UEFA)


O primeiro título de Mourinho e Ibra em Manchester. O United será forte
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André Rocha

Manchester United de José Mourinho no 4-2-3-1 com mobilidade no quarteto ofensivo e velocidade para explorar os espaços cedidos pelo Leicester City que teve mais a bola que o habitual por Claudio Ranieri contar com uma equipe já pronta, apenas com King no lugar de Kanté (Tactical Pad).

Manchester United de José Mourinho no 4-2-3-1 com mobilidade no quarteto ofensivo e velocidade para explorar os espaços cedidos pelo Leicester City que teve mais a bola que o habitual por Claudio Ranieri contar com uma equipe já pronta, apenas com King no lugar de Kanté (Tactical Pad).

Foi a 21ª conquista da Supercopa da Inglaterra. Mas o Manchester United sofreu em Wembley contra o Leicester City com a base do título inglês – apenas King no lugar de Kanté, negociado com o Chelsea, no meio do 4-4-2 habitual.

Um time montado, com a proposta de jogo de Claudio Ranieri mais que assimilada. Só que exatamente pela moral da conquista improvável e o maior entrosamento foi induzido a mudar as características. O time da transição em velocidade com passes verticais e nenhuma preocupação em valorizar a posse ficou mais com a bola que o habitual.

Porque o novo time de Mourinho está naturalmente em construção. Com Ibrahimovic em campo, Mkhitaryan no banco e Pogba a caminho. O técnico português usou a base de Van Gaal num 4-2-3-1 com pitadas da filosofia do treinador. Linhas próximas, compactação defensiva, saída rápida.

O quarteto ofensivo formado por Lingard, Rooney e Martial como o trio atrás de Ibrahimovic mostrou uma característica muito cobrada pelo novo treinador: mobilidade e circulação nos espaços entre a defesa e o meio-campo adversário. Ibra já ensaiou seus movimentos de “falso nove” muito comuns no PSG, recuando para colaborar na articulação.

Mas os Red Devils só foram às redes no primeiro tempo em arrancada de Lingard pelo meio, conduzindo para cima da última linha do Leicester, que seguiu com volume de jogo e empatou na falha de Fellaini, que deve deixar o time com todos disponíveis e em forma. O incrível Vardy não perdoou à frente de De Gea.

Muitas substituições, chances para os dois lados ainda em ritmo de pré-temporada. Gol da vitória e do título no centro de Valencia que encontrou Ibrahimovic. Impedido por centímetros, sem falta na disputa no alto com Morgan. Golpe certeiro no canto de Schmeichel.

Conquista para transferir confiança na montagem de um time que será forte e competitivo. Sem Liga dos Campeões para disputar e por conta do investimento insano é favorito para retomar a hegemonia na Premier League.

Mourinho e Ibra venceram juntos o campeonato nacional com a Internazionale na temporada 2008/09. Mais maduros, podem repetir o feito na Inglaterra.


Ibrahimovic, Cavani e Jonas – fazedores de gols e o mata-mata da Champions
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André Rocha

Cavani_PSG_Chelsea

O futebol atual em seu mais alto nível já descarta o centroavante que, mesmo cheirando a gol, é lento, pouco participativo e torna as ações ofensivas de sua equipe previsíveis.

Este blogueiro, inclusive, prefere um time sem o típico camisa nove se não houver um nome inquestionável. Como na seleção brasileira, que pode aproveitar mais de Neymar perto da zona de decisão.

O finalizador, porém, é imprescindível. Em qualquer posição e função que não atrapalhe o time. Aquele que garante os três pontos, faz o gol do 1 a 0 ou do 2 a 1. Não por acaso costumam ser os maiores salários do mercado. A diferença no jogo duro, de máxima concentração dos defensores, de goleiros acesos. Decisivo. De mata-mata.

Não cabe aqui a velha discussão sobre a emoção dos pontos corridos. Desde sempre a liga que premia o melhor é a que viabiliza o futebol profissional, com garantia de calendário e, consequentemente, planejamento. E em qualquer tempo, em todos os países, os dois formatos caminham juntos e convivem bem.

Em qualquer decisão, porém, o fazedor de gols é fundamental. Porque o trabalho coletivo, o ataque posicional ou o jogo de transição precisa daquele que transforma em bola na rede a chance cristalina. Ou mesmo a improvável.

Como Ibrahimovic no Parc des Princes abrindo o placar para o Paris Saint-Germain sobre o Chelsea na cobrança de falta que desviou em Obi Mikel. O craque com fama de “amarelão” em jogos decisivos da Liga dos Campeões transformou em vantagem o controle da posse de bola que chegou a 72%. Oito finalizações, mas só duas no alvo no primeiro tempo.

Na oportunidade de Diego Costa, o finalizador dos Blues, o goleiro Trapp salvou no reflexo. Obi Mikel se “redimiu” empatando e o jogo ficou mais igual. No 4-3-3 do PSG, Di Maria e Lucas alternavam pelas pontas, infiltravam em diagonal no espaço deixado pela movimentação de Ibrahimovic. Faltava a contundência.

Entrou Cavani. Atacante. Finalizador. Sacrificado pela presença da estrela sueca no centro do ataque, mais longe que o habitual da meta adversária. Mas letal na primeira intervenção, cinco minutos depois de substituir Lucas. Frio à frente de um goleiro portentoso como o belga Courtois.

Fazendo valer o mando de campo do time francês, que leva vantagem nas oitavas-de-final da Liga dos Campeões para Londres. Mas nem tanto. O paradoxo: o gol de Mikel, volante reserva, pode fazer a diferença mais uma vez no terceiro duelo seguido entre PSG e Chelsea. Vaga sempre definida no “gol qualificado”. Mas é melhor apostar em Diego Costa no Stamford Bridge. Assim como o rival deve manter a fé nos seus goleadores que fizeram a diferença em Paris.

Assim foi também em Lisboa. Disputa equilibrada com o Zenit, que superou a inatividade de 70 dias pela parada do campeonato russo por conta do inverno rigoroso com organização defensiva e um pouco mais de cadência no ritmo de Danny e Shatov. Mas sem abdicar do ataque com Hulk e Dzyuba.

O Benfica fez de tudo para se impor em seus domínios: 61% de posse, 15 finalizações contra cinco – cinco a dois na direção das metas de Lodygin e Julio César, respectivamente. Aos 44 do segundo tempo, a vantagem numérica com a expulsão do italiano Criscito. Parecia tarde.

Não para Jonas. Artilheiro absoluto do Campeonato Português com 23 gols em 22 partidas. Mas apenas um anotado na fase de grupos do torneio continental. Questionado e pressionado, o brasileiro apareceu já nos acréscimos para marcar de cabeça, na força e na fibra, explodir o Estádio da Luz. Construindo, em tese, vantagem mais favorável que a do PSG.

Nos dois duelos da volta na principal competição de clubes do planeta, a consistência e o bom jogo coletivo serão fundamentais. Mas o “acabamento” é o que define. Para isso as equipes contam com seus fazedores de gols. Com classe, técnica ou de forma simplória, rústica.

Na essência, descarnando todas as “camadas” que o futebol pode ter, é o que vale.


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