Blog do André Rocha

Arquivo : atleticodemadri

Se fosse só dinheiro, Palmeiras ou Flamengo estariam no lugar do Grêmio
Comentários Comente

André Rocha

Transformação curiosa ocorreu depois do apito final do Mundial de Clubes em Abu Dhabi. Os mesmos que viam o Grêmio com condições de jogar de igual para igual e vencer o Real Madrid, que nas comparações posição por posição – algo cada vez mais sem sentido em um futebol cada vez mais coletivo – faziam projeções equilibradas (6×6, incluindo Renato Gaúcho melhor treinador que Zidane), de repente passaram a questionar o abismo de qualidade entre os clubes da Europa e os demais e sugerir até a mudança na fórmula de disputa da competição.

Entre os motivos apresentados, o mais presente é o poderio financeiro. Inegável, obviamente. Mas a própria temporada no Brasil mostrou que futebol não se faz só com dinheiro. Se fosse assim, Palmeiras ou Flamengo, que também disputaram a Libertadores, estaria no lugar do Grêmio. Nem é preciso apelar para a frieza dos números para provar a distância nos valores das receitas. E se colocarmos no bolo os demais clubes sul-americanos a vantagem é ainda maior. Mas só voltamos a vencer agora, depois de três anos sequer chegando à decisão.

Há muita competência na supremacia recente na Europa de Barcelona e Real Madrid. Passa por Messi e Cristiano Ronaldo, mas não só eles. São clubes que sabem vender sua marca para o mundo, construir uma identidade. A ponto de conquistar a preferência de jovens como Vinicius Júnior em detalhes como a força do time no videogame. Se outro time iguala a proposta, o menino prefere os gigantes espanhois.

Porque construíram times que estão entre os melhores da história dos clubes. Mas também já torraram muito dinheiro sem conseguir formar uma equipe competitiva. Basta lembrar o Real galáctico do início do século, ou mesmo o do primeiro ano da Era Cristiano Ronaldo, que não conseguiu superar as oitavas de final da Liga dos Campeões.

A resposta precisa vir no campo. Mesmo nesta fase gloriosa da dupla, em 2014 falharam na liga nacional e viram o Atlético de Madri campeão espanhol. Assim como o Bayern de Munique, soberano na Alemanha, viu o Borussia Dortmund de Jurgen Klopp ser bicampeão com orçamento bem inferior. Para não falar do Leicester City na Inglaterra no ano passado.

Por mais que o Grêmio tenha mostrado um futebol ofensivo e atual em 2017, ainda é um mero rascunho diante das equipes mais qualificadas do planeta. O Real, com a cabeça no Barcelona e freio de mão puxado, conseguia numa rápida ação de perder e pressionar retomar com facilidade. A circulação da bola é mais inteligente, fluida. Há mais leitura de jogo coletivo. Basta ver Modric em campo. A bola mal saiu de seus pés e o croata já se transforma em opção de passe no espaço certo.

Aqui a visão é ainda simplista: quem tem dinheiro compra os melhores e vence. Uma noção de futebol fragmentada e muito focada no individual. Só se falou na atuação ruim de Luan. Mas sua movimentação entre as linhas defensivas do adversário por aqui é mais facilmente bloqueada por quem está acostumado a enfrentar Messi, Neymar, De Bruyne e outros craques.

Por isso e tantos outros motivos o Kashima Antlers foi um adversário mais perigoso para o Real Madrid no ano passado. Vitória por 4 a 2, mas só na prorrogação. Arthur fez falta ao Grêmio, sim. Mas nunca saberemos se ele seria outro a sentir os efeitos deste abismo, ainda mais no setor de Casemiro, Modric, Kroos e Isco.

Nosso último título mundial veio pela feliz coincidência de termos o Corinthians de Tite, time mais sólido e organizado desta década, enfrentando o Chelsea que não era o melhor europeu nem quando venceu a Liga dos Campeões, estava em declínio sob o comando de Rafa Benítez e, ainda assim, fez do goleiro Cássio o melhor em campo. Méritos inegáveis dos brasileiros, mas o contexto há cinco anos ajudou.

Não adianta pregar ódio ao futebol moderno, ao menos dentro de campo. O esporte se transformou e não há como fugir. Precisamos evoluir na mentalidade, ter humildade. Não rir do nível técnico de outras ligas, especialmente a francesa, quando a nossa é desprezada pelo mundo. Por mais eurocentrista que seja o povo do Velho Continente, é ridículo que eles saibam tão pouco do Grêmio tricampeão sul-americano.

Que os clubes peitem a CBF, que só quer saber de vender a imagem da seleção brasileira. Que os profissionais se qualifiquem, aceitem que precisam aprender e não podem mais deixar tudo por conta do talento individual. Que os times criem uma identidade e a desenvolvam desde as divisões de base.  Que tomemos decisões mais técnicas e menos políticas e manchadas por corrupção em todos os níveis. Mais meritocracia e menos grife na hora de contratar. E, principalmente, que deixemos esse mimimi “ah, eles são ricos e nós os pobres neste mundo injusto e cruel!”

Ninguém vai revogar a Lei Bosman e dificilmente o real valerá mais que o euro ou o dólar. Ainda assim, podemos fazer melhor, sermos mais competitivos. Dar trabalho e não passar a vergonha de apenas uma finalização gremista na decisão do Mundial com o Real em ritmo de treino na maior parte do tempo. É muito pouco.

Não adianta encher a boca para falar dos cinco títulos em Copas do Mundo e esquecer que a grandeza do futebol de um país se mede pela força de seus clubes. A nós, jornalistas, cabe a tarefa de cobrar e conscientizar e não jogar para a galera um mundo fantasioso de “eles não são isso tudo!” e “isso aqui é Brasil!” É sedutor falar ou escrever o que o torcedor quer ouvir/ler, mas em nada contribui para o desenvolvimento do esporte.

Que o passeio do Real não seja minimizado pelo placar magro. O Grêmio teve dignidade, mas jogou mal. Porque o adversário é superior e não deixou, mas também porque as ideias para fazer melhor ainda são pobres. Não é só dinheiro, definitivamente. Só não vê quem não quer.


Neymar no PSG: a tática e os desafios da maior contratação da história
Comentários Comente

André Rocha

Neymar não vale 222 milhões de euros. Ninguém vale, como bem disse Zinedine Zidane, que já foi a maior contratação da história. Tempos de um mercado menos insano. Mas o Barcelona estipulou este valor astronômico de multa rescisória para se proteger e o Paris Saint-Germain pagou para ver.

E quer ver um craque para mudar de patamar, dentro e fora do campo. Fazendo gols e vendendo imagem. Camisas, produtos. Tudo. Comprando a briga de transformar o time francês definitivamente numa potência europeia.

Para isso o clube já sinaliza que o time montado pelo espanhol Unai Emery jogará em função de seu astro maior. O novo camisa dez partindo do lado esquerdo, fazendo dupla com o jovem lateral espanhol Yuri Berchiche, contratado à Real Sociedad. Com liberdade, porém, para circular por todo o ataque. Servindo os companheiros, mas também finalizando. Sem o sacrifício de defender e ser mais assistente de Messi e Suárez.

Com o desenho tático podendo variar entre o 4-3-3, o 4-2-3-1 e até o 4-4-2. Opções não faltam, como Matuidi, Draxler, Di María e Lucas Moura para se juntar ao brasileiro e Edison Cavani, o artilheiro da equipe na última temporada com 49 gols em 50 jogos. Mas, se preciso, até o uruguaio pode ajudar na recomposição e dar liberdade a Neymar, que funciona até como um atacante mais móvel, solto na frente.

Sair um pouco do lado esquerdo pode torná-lo ainda mais imprevisível, sem o vício de cortar da esquerda para dentro com o pé direito. Algo que pode, inclusive, ser útil para fazer Tite pensar em alternativas e tornar a seleção brasileira menos presa ao 4-1-4-1 que vem funcionando nas Eliminatórias. Assim como fez no Real Madrid com Cristiano Ronaldo, Di María pode ser o meia que compõe o setor esquerdo e permite que o ponteiro seja ainda mais atacante e decisivo.

Uma das muitas possibilidades de Unai Emery na montagem do PSG com Neymar: 4-3-3 que pode variar para o 4-4-2 com Neymar se juntando a Cavani na frente e Di María repetindo o que fez com Cristiano Ronaldo no Real Madrid: compondo o lado esquerdo para deixar o brasileiro com liberdade total (Tactical Pad).

A equipe francesa pode alternar também os ritmos, cadenciando com Verratti ou acelerando com Neymar. Com tantos jogadores versáteis e de movimentação, é possível criar ações de ataque que surpreendam na inversão de lado e encontrem Daniel Alves com liberdade pela direita para buscar a linha de fundo ou mesmo finalizar. É outro trunfo de Emery, além da experiência e do currículo vitorioso do lateral brasileiro.

O primeiro desafio é recuperar a hegemonia na França, ainda que o campeão Monaco, pelo menos até agora, não tenha perdido Fabinho e Mbappé na carona das saídas de Bernardo e Mendy para o Manchester City, Bakayoko para o Chelsea. o treinador português Leonardo Jardim ainda ganhou o meia belga Tielemans e o zagueiro holandês Kongolo. Com lucro superior a 100 milhões de euros nas transferências, talvez não precise perder mais ninguém nesta janela.

De qualquer forma, Jardim não contará com um de seus maiores aliados na última temporada: o fator surpresa. Já entra na Ligue 1 como o time a ser batido. Também ganha concorrentes além do surpreendente Nice de Mario Balotelli, terceiro colocado na última edição. O Lille de Marcelo Bielsa pode incomodar, mesmo com a “loucura” do argentino exaurindo as forças físicas e mentais do elenco no final da temporada e jogando fora qualquer chance de disputar efetivamente o título.

Claudio Ranieri, veterano italiano que comandou o Leicester City no seu conto de fada inglês, chega ao Nantes. O Olympique de Marseille renovou com Rudi Garcia, o Saint-Etienne foi atrás do espanhol Oscar García, ex-Red Bull Salzburg, para tentar recuperar o protagonismo perdido na história como o mais vencedor do país. O Lyon negociou o artilheiro Lacazette ao Arsenal e contratou Bertrand Traoré ao Chelsea. Deve pleitear no máximo uma vaga na Liga Europa.

Equipes para tentar equilibrar no aspecto tático uma disputa que tende a ser novamente desigual a favor do PSG no talento. Mesmo que a prioridade seja a Liga dos Campeões. Ou obsessão. Para desbancar o domínio do Real Madrid de Zidane e Cristiano Ronaldo. Além do atual bicampeão, a Europa apresenta ainda Bayern de Munique e Barcelona, mesmo com o baque da perda de uma peça do seu tridente sul-americano espetacular e sem muita margem para gastar o muito que recebeu, à frente no protagonismo.

Antes desta trinca de campeões das últimas quatro temporadas, ainda há fortes concorrentes, como Juventus e Atlético de Madri, os vice-campeões. Além de Chelsea e o Manchester United que retornam à Champions e o promissor Manchester City de Pep Guardiola. Disputa dura que a presença de Neymar torna mais acessível, porém não menos cruel. Ainda mais num torneio eliminatório guiado por sorteio. O cruzamento prematuro com um favorito, uma noite ruim e o sonho pode ruir.

Neymar chega a Paris para se unir a Daniel Alves e tornar o ambiente mais positivo e confiante. Mudar de tamanho para não se apequenar como na traumática eliminação para o Barcelona. Arbitragem à parte, foi a noite em que o PSG viu o craque brasileiro suplantar Messi, o gênio de uma era, e construir o que parecia impossível.

O protagonista e candidato a Bola de Ouro, a maior contratação da história do esporte que eles querem escrevendo capítulos inéditos, os mais vencedores de um clube com menos de meio século que ousa desafiar com seus milhões de euros os gigantes do futebol mundial.

 


Semifinal confirma: Real Madrid é maior porque o Atlético se apequena
Comentários Comente

André Rocha

A impressão mais forte do jogo de volta da semifinal da Liga dos Campeões no Vicente Calderón é de que Simeone e seus jogadores planejaram e executaram uma pressão inicial para tentar descontar a desvantagem de três gols, mas não contavam com duas bolas na rede em 16 minutos.

Primeiro Saúl Ñíguez na jogada aérea, depois Griezmann cobrando (mal) o pênalti de Varane sobre Fernando Torres. Era hora de incendiar o estádio e aproveitar o rival tonto para igualar o confronto ainda no primeiro tempo.

O resultado prático foi o Atlético de Madri repetindo a estratégia que deu tão errado no Bernabéu: recolheu a equipe, compactou as duas linhas de quatro, marcou com Griezmann e Torres no próprio campo e aceitou a posse do time merengue sem adiantar mais a marcação.

Para piorar, a postura juvenil da retaguarda, quase sempre tão sólida e intensa no combate, permitindo a jogada individual pela esquerda de Benzema, que serviu Kroos e, no rebote do chute do meia alemão, o gol de Isco. Novamente o elo entre o trio de meio-campistas e a dupla de ataque num 4-3-1-2.

A disputa acabou ali. A massa manteve o apoio, mas sem pulsar, sem ferver. Para quem precisava atacar e criar, os 70% de aproveitamento nos passes dificultavam o domínio para buscar outros três gols. E o paradoxo: o Atlético cometeu 23 faltas contra sete do Real. Mas quando foi preciso parar Benzema, Giménez, Savic e Godín falharam.

Letal. Porque o Real Madrid é o maior da capital também pelo apequenamento do rival em momentos decisivos. Duas finais, mais duas eliminações. Em todas a camisa pesou. Algo que parece lenda, mas se manifesta em momentos como o gol de Sergio Ramos no ato final no estádio da Luz em 2014, na chance desperdiçada pelo time de Simeone de definir em 120 minutos no Giuseppe Meazza, dois anos depois. Fora o pênalti perdido por Griezmann.

Desta vez, na sequência do segundo gol. Se havia uma chance, era a de nocautear um oponente vivido e vencedor, mas assustado na casa do rival. Os colchoneros falharam mais uma vez.

O Real Madrid está na final para buscar a 12ª taça, o primeiro bicampeonato europeu depois do Milan 1989-90. Em Cardiff, jogo único e a tensão comum em finais, a experiência recente da maioria dos comandados de Zidane pode pesar. A tradição também.

Mas a Juventus parece mais concentrada e equilibrada em seu modelo de jogo. Sem contar a trajetória com mais folga na liga italiana para confirmar o hexa, enquanto o Real tem um Barcelona no retrovisor e a pressão de voltar a ser campeão espanhol depois de cinco anos.

Pode fazer diferença. Mas é uma decisão muito igual. Talvez definida nos pênaltis mais uma vez. Que três de junho chegue logo!

 


Argel e Muricy: futebol de resultados pouco oferece além do placar final
Comentários Comente

André Rocha

O Internacional de Argel Fucks saiu vaiado do Beira-Rio depois do pênalti perdido por Paulão – ou defendido pelo goleiro Danilo, o melhor da Chapecoense – até deixar o campo. Pouco ou nada valeram os 61% de posse de bola e as onze finalizações.

Porque na necessidade de propor o jogo e diante de uma resistência maior que as equipes de menor investimento do Rio Grande do Sul, a bola circulou mais entre os jogadores da última linha de defesa e o volante Fernando Bob. Time jovem, campeão gaúcho, promissor. Mas sem ideias, sem gols. À imagem e semelhança de seu treinador. Sem vitória na estreia do Brasileiro.

Muricy Ramalho foi taxativo no Raulino de Oliveira depois do triunfo sobre o Sport: “Nós fomos ousados em muitos jogos e perdemos todos. Todo mundo acha bonito como o Flamengo joga, e jogam nos nossos erros. Agora não. Agora vamos jogar para ganhar.”

Ou seja, toda a filosofia inspirada no Barcelona vendida pelo técnico depois de voltar da Europa e comprada pelo Flamengo como solução não existe mais. O 4-3-3 com posse de bola e busca de protagonismo e uma nova estética deu lugar a um time mais reativo e pragmático.

Decisão legítima. Nos casos de Leicester City na Premier League e Atlético de Madri na Liga dos Campeões, por exemplo, a proposta é totalmente compreensível pelo contexto, enfrentando gigantes com orçamentos quase ilimitados. Aí é preciso se doar até a última gota de suor, além das forças. Vencer é o grande feito. Sem complexo de vira-latas. Se fosse a Chapecoense ou o Audax por aqui a lógica seria a mesma.

Para dois gigantes brasileiros, na disputa nacional é pouco. Uma opção do jogo, sim. Só perde o direito de pedir tempo para implementar um modelo, um padrão. O futebol de resultados é fast-food, imediatista. Precisa aceitar, como efeito colateral, a roda viva e a avaliação jogo a jogo do trabalho do treinador. Tem que lidar com as vaias no empate e na derrota. Sem ideologia ou algo mais subjetivo.

Exatamente porque tem pouco a oferecer além do placar final.

(Estatísticas: Footstats)


A sorte de Simeone e o fracasso de Guardiola, não vexame
Comentários Comente

André Rocha

Que o Atlético de Madri tem o sistema defensivo mais eficiente da Europa não resta nenhuma dúvida. Linhas compactas e bem coordenadas, concentração absoluta e a fibra que dá liga e faz tudo acontecer no time de Diego Simeone.

Está novamente na final da Liga dos Campeões e trabalhou para isso. Mas na Allianz Arena teve mais sorte que juízo. Ou competência. Sim, sorte.

Porque não há como elogiar um trabalho de bloqueio que permite nada menos que 34 finalizações do adversário, 12 na direção da meta de Oblak. Incluindo os gols de Xabi Alonso, que também foi feliz no desvio de Giménez, e Lewandowski, além do pênalti cobrado por Muller e defendido pelo arqueiro colchonero.

O Bayern de Munique amassou com volume de jogo impressionante. 68% de posse, mas desta vez com contundência. Douglas Costa e Ribéry cortando para dentro com pés invertidos procurando Muller e Lewandowski e os laterais Lahm e Alaba abrindo e esgarçando a marcação. Domínio absoluto.

Mas sangrou e perdeu a vaga no contragolpe letal de Fernando Torres acionando Griezmann. Gol “qualificado”. Podia ter penado mais no pênalti inexistente que Torres bateu e Neuer também pegou. O velho risco de ser pego com linhas adiantadas e zaga aberta. Tão perigoso quanto esperar atrás e permitir tanta pressão do oponente.

Pep Guardiola fracassou em Munique. Porque a ideia era afirmar um estilo de jogo e construir uma dinastia. O técnico vai para Manchester comandar o City sem cumprir as duas metas. O time que deixa para Carlo Ancelotti tem posse, porém trabalha muito mais com cruzamentos e presença física na área que o Barcelona histórico.

Não impôs sua filosofia, mas sinaliza amadurecimento profissional, pelo respeito às características dos jogadores. Guardiola carrega o mundo e o peso do currículo impressionante nas costas, mas tem apenas sete temporadas no comando de grandes equipes. Parece ter nascido sabendo tudo, mas é só impressão. Há muito a aprender.

Nas duas primeiras semifinais de Champions frustradas com os bávaros, Guardiola e sua equipe sucumbiram diante de Cristiano Ronaldo e Messi, os dois gigantes desta era. Agora está eliminado por outro time histórico, mas no detalhe. No gol que faltou. Mas não deixou de ser construído. Fracasso sim, não vexame.

A rigor, Simeone não ganhou o duelo tático de 180 minutos, mas está na decisão. Contra o City levará a aura de favorito pela história. Diante do Real, a chance de vingar a derrota há duas temporadas. Certamente o treinador argentino prefere a segunda opção, pela chance de mobilizar ainda mais seus soldados. Só espera desta vez não ter um Sergio Ramos no meio do caminho.

Porque a sorte também faz parte da vitória nas batalhas. Como será o duelo final em Milão?

(Estatísticas: UEFA)


A pintura de Saúl no Atlético “de Libertadores” e a dura missão do Bayern
Comentários Comente

André Rocha

A estratégia de Diego Simeone diante de um time de posse de bola novamente funcionou no Vicente Calderón. Assim como contra o Barcelona, iniciou abafando, aproveitando a atmosfera da torcida em êxtase.

Sem a bola, marcação adiantada e pressão. Na transição ofensiva, time descendo em bloco, mas sem valorizar muito a posse. Para não errar e ceder espaços à equipe mais qualificada, a jogada é definida rapidamente.

Menos quando Saúl Ñíguez colou a bola no pé esquerdo, limpou Thiago Alcântara, Bernat, Xabi Alonso e Alaba para bater com efeito e marcar um dos mais belos gols desta edição da Liga dos Campeões. Obra de arte que contradiz as teses reducionistas de “time de Libertadores, que não joga, truculento”. Uma equipe apenas violenta não investiria em um jovem tão talentoso quanto Saúl.

Atlético de Madri com linhas adiantadas no início, descendo em bloco. Mas sem reter a bola, definindo logo a jogada sobre um Bayern mais cauteloso num 4-1-4-1. Até o golaço de Saúl (Tactical Pad).

Atlético de Madri com linhas adiantadas no início, descendo em bloco. Mas sem reter a bola, definindo logo a jogada sobre um Bayern mais cauteloso num 4-1-4-1. Até o golaço de Saúl (Tactical Pad).

Com a vantagem logo aos dez minutos veio a segunda parte do plano de jogo de Simeone: linhas compactas à frente da meta de Oblak negando espaços. Jogadores concentrados no posicionamento e nos confrontos diretos com rivais mais habilidosos. Desta vez mais no 4-4-2 que no 4-1-4-1.

Pep Guardiola respondeu com um Bayern ainda controlando a bola, porém muito mais intenso, vertical, explorando os cruzamentos procurando Lewandowski. No segundo tempo, desmontou o 4-1-4-1 que visava preencher mais o meio-campo e avançou com Muller e Ribéry.

Quando Benatia entrou na zaga e Alaba foi fazer a lateral esquerda, ofensivamente o time bávaro lembrou muito o da tríplice coroa, comandado por Jupp Heynckes na lendária temporada 2012/13. Na formação e no estilo.

Amassou os colchoneros com mais de 70% de posse (69% nos 90 minutos) e volume de jogo sufocante, com troca de passes, mas também jogadas aéreas. Bola no travessão com Alaba, Oblak fazendo grandes defesas em cabeçada de Javi Martinez e chute de Vidal.

Dezenove finalizações contra onze – sete a cinco no alvo. Podia ter virado. Mas quase saiu com os 2 a 0 que eliminou o Barca. Faltou “El Nino” Torres acertar o chute que carimbou a trave de Neuer num contragolpe em altíssima velocidade. Para lembrar que esse Atlético nunca se desmancha mentalmente.

Na segunda etapa, os bávaros amassaram com as substituições de Guardiola. Os colchoneros sofreram, mas resistiram e quase ampliaram em contragolpe com Fernando Torres (Tactical Pad).

Na segunda etapa, os bávaros amassaram com as substituições de Guardiola. Os colchoneros sofreram, mas resistiram e quase ampliaram em contragolpe com Fernando Torres (Tactical Pad).

Por isso o Bayern terá que ser um rolo compressor na Allianz Arena. Dentro e fora de campo, com sua torcida também apaixonada. Apuro técnico e variações táticas como pede Guardiola, mas também as tradicionais abnegação e persistência alemãs. Como na virada sobre a Juventus nas oitavas. Ou com mais intensidade.

Porque é semifinal de Champions. Porque é dura a missão de dobrar o time de Simeone, que provou sua força em mais uma noite mágica em Madri. Na capacidade de competir, mas também na pintura de Saúl.

(Estatísticas: UEFA)


Mais um feito dos herois de Simeone sobre o Barcelona que “virou o fio”
Comentários Comente

André Rocha

O maior desafio para se manter no topo em alto nível na Europa é o estudo obsessivo dos adversários buscando anular virtudes e explorar deficiências. Principalmente a dificuldade de preservar a “fome” para superar a exaustão física e mental, além do natural relaxamento.

Não por acaso, o último bicampeão europeu foi o Milan, de 1988 a 1990. Nem o Real Madrid galáctico, nem o Barcelona de Guardiola.

O de Luis Enrique “virou o fio”. A preparação que fez o time voar na reta final da temporada passada falhou em algum momento. Também porque o sucesso e as conquistas fizeram a equipe catalã disputar mais jogos, inclusive um Mundial Interclubes.

De repente o time que parecia imbatível e o trio MSN já sendo citado como o melhor ataque da história travaram. Pararam. Cansaram. Perderam intensidade na marcação adiantada e por pressão, mobilidade e brilho na frente. A mágica desapareceu.

Só restou a posse de bola. 72% no Vicente Calderón. Inócua. Ou só ameaçou num abafa final, rodando a pelota e levantando na área. Pode lamentar o pênalti no centro de Iniesta que Gabi cortou com o braço dentro da área. O árbitro Nicola Rizzoli viu fora. Muito pouco diante dos heróis de Diego Simeone.

O Atlético de concentração absoluta na execução do seu plano de jogo. Primeiro tempo no 4-4-2, segunda etapa no 4-1-4-1. Compactação, vergonha zero de dar de bico para se livrar do perigo, pressão para tentar evitar o passe limpo do oponente. Transição ofensiva em alta velocidade e jogadas aéreas. Assim como o tocante clima de comunhão com a torcida em Madri.

Atlético de Madri compacto em duas linhas de quatro no primeiro tempo, adiantando a marcação, concentrado para travar a posse de bola do Barcelona e procurando Griezmann para definir na frente (Tactical Pad).

Atlético de Madri compacto em duas linhas de quatro no primeiro tempo, adiantando a marcação, concentrado para travar a posse de bola do Barcelona e procurando Griezmann para definir na frente (Tactical Pad).

Para decidir, Antoine Griezmann. Jogando como a referência na frente com a ausência de Fernando Torres. Primeiro completando de cabeça o centro de Saúl, outro destaque. No final cobrando pênalti de Iniesta em bela jogada de Filipe Luís. Agora são seis gols na Liga dos Campeões, 29 na temporada que da expectativa de nova tríplice coroa do Barça pode ser deste incrível time colchonero.

Simeone pensa jogo a jogo. E compete segundo a segundo, gota a gota de suor. Sim, muitas vezes exagera nas faltas e provocações. Mas mudam as peças, o espírito permanece. Está novamente nas semifinais da principal competição de clubes do planeta e de novo pode ser o “intruso” na liga nacional fadada até financeiramente a ser dominada por Barcelona e Real Madrid.

Protagonistas de mais um grande feito. Mas nem precisaram de uma atuação perfeita para repetir 2014 e mandar o gigante e favorito para casa nas quartas-de-final.

É bem provável que Luis Enrique não esperasse a queda de rendimento de sua equipe. Mas sabia desde o início que o Atlético seria o pior adversário possível. E foi.

No 4-1-4-1, se entrincheirou para defender as muitas bolas levantadas pelo Barça e esperou o momento do contragolpe letal, que saiu dos pés de Filipe Luís e terminou no pênalti convertido por Griezmann (Tactical Pad).

No 4-1-4-1, se entrincheirou para defender as muitas bolas levantadas pelo Barça e esperou o momento do contragolpe letal, que saiu dos pés de Filipe Luís e terminou no pênalti convertido por Griezmann (Tactical Pad).

(Estatísticas: UEFA)


Com histórias diferentes, Bayern e Barcelona abrem vantagem. Mas deveram
Comentários Comente

André Rocha

Diego Simeone surpreendeu com formação ofensiva para o jogo de ida no Camp Nou, com Griezman, Fernando Torres e Carrasco na frente.

No fundo, porém, apenas replicou sistema e estratégia do Real Madrid no sábado: 4-1-4-1 com Gabi entre as linhas de quatro para negar espaços, alternando marcação adiantada e compactando setores à frente da própria área.

Com Messi caindo à direita no início, o Atlético mudou para duas linhas de quatro, com Saul Ñiguez abrindo pela direita e Griezmann adiantado. Mas durou pouco, inexplicavelmente. O argentino voltou a procurar o centro e a equipe de Madri retornou ao sistema inicial.

Com times completos, Atlético de Madri alternou o 4-1-4-1 com duas linhas de quatro e Griezmann na frente, sempre em função de Messi, que iniciou à direita e depois se fixou no meio e facilitou a marcação novamente (Tactical Pad).

Com times completos, Atlético de Madri alternou o 4-1-4-1 com duas linhas de quatro e Griezmann na frente, sempre em função de Messi, que iniciou à direita e depois se fixou no meio e facilitou a marcação novamente (Tactical Pad).

Também começou a sair para o jogo. Trocando passes e aproveitando que o Barca adiantava linhas, mas não fazia pressão no adversário com a bola. Koke teve liberdade para servir Torres aos 25 minutos. Personagem pelo gol e pela tola expulsão dez minutos depois.

O leitor pode questionar o rigor do árbitro Felix Brych na entrada sobre Busquets, mas não a imprudência do atacante na seqüência de faltas. O erro do juiz foi não aplicar o mesmo critério com Busquets, Suárez e outros dos dois times ao longo de um jogo tenso e duro. Mas sem teorias da conspiração.

Depois de muitos protestos, Simeone reagrupou sua equipe num 4-4-1 com Griezmann adiantado. Ou dando o primeiro combate na própria intermediária. A senha para um duelo ataque x defesa de quase sessenta minutos. O “ônibus” colchonero lembrou a Internazionale em 2010 e o Chelsea em 2012.

Mas desta vez havia Luis Suárez. Nem tanto pela atuação – assim como contra o Real, ficou devendo em desempenho. Mas transformou em bolas nas redes de Oblak o domínio de 68% de posse de bola, 19 finalizações contra sete (5 a 2 no alvo).

Fruto da circulação de bola com inversões, toques curtos e jogadas individuais para fazer valer o homem a mais. Desta vez Luis Enrique usou as três substituições: Rafinha Alcântara, Sergi Roberto e Arda Turan formando nova trinca de meio-campistas. Destaque para os laterais Daniel Alves e Jordi Alba, que serviram Suárez nos gols. 45 no mesmo número de jogos na temporada.

Atlético entrincheirado num 4-4-1 tentou conter o Barça que se instalou no campo de ataque com substituições no meio-campo. Virou com Suárez e poderia ter ampliado (Tactical Pad).

Atlético entrincheirado num 4-4-1 tentou conter o Barça que se instalou no campo de ataque com substituições no meio-campo. Virou com Suárez e poderia ter ampliado (Tactical Pad).

Mas ficou a impressão de que era possível aproveitar melhor a vantagem numérica e ferir mais o Atlético que será forte no Vicente Calderón.

Assim como o Benfica também saiu vivo da Allianz Arena. Apesar do gol de Vidal aos dois minutos que parecia o prenúncio de uma goleada histórica, lembrando os 6 a 1 que o rival Porto sofreu na temporada passada.

A diferença foi que o time luso recuou quando foi empurrado pelo volume por vezes sufocante do time alemão, mas nunca se amedrontou ou abdicou de jogar.

Guardiola repetiu o ataque do início contra a Juventus: Douglas Costa à direita e Ribéry pela esquerda. Pontas com pés invertidos, mas tentando abrir o jogo e dar profundidade. Nem sempre conseguiam, até pela tendência de cortar para dentro.

A mudança significativa foi o meio-campo mais leve e intenso com Vidal e Thiago Alcântara articulando e aparecendo como elementos surpresa. No primeiro tempo, muita pressão na perda da bola que atrapalhava a transição ofensiva dos encarnados. Jonas era mais marcador que criador, atrás do centroavante Mitroglou. Nem sinal do goleador da Europa com 30 gols.

Ainda assim, o Benfica cumpriu o “manual” contra os times da posse de bola: pressão nos tiros de meta, nas bolas recuadas para o goleiro e nas cobranças de laterais no campo de defesa para tentar impedir o passe “limpo” de trás. Quando ultrapassado, recompõe em linhas muitos próximas.

Faltou contundência ao Bayern, sobrou disciplina e concentração aos visitantes, que podem reclamar de um toque de braço de Lahm que pela nova orientação às arbitragens poderia ter sido marcado pênalti na primeira etapa.

Bayern com muito volume de jogo, mas sem a contundência de outros jogos; Benfica nunca abdicou do jogo e tentou pressionar na frente sempre que possível, mas Jonas foi mais marcador que atacante na primeira etapa  (Tactical Pad).

Bayern com muito volume de jogo, mas sem a contundência de outros jogos; Benfica nunca abdicou do jogo e tentou pressionar na frente sempre que possível, mas Jonas foi mais marcador que atacante na primeira etapa (Tactical Pad).

O Benfica competiu. Com 36% de posse, finalizou dez vezes contra 15. Só uma na direção da meta de Neuer. De Jonas, que o goleiro alemão salvou. Os bávaros mandaram cinco no alvo. Com 89% de acerto nos passes, controlaram o jogo no campo de ataque.

Mas produziu pouco, porque a precisão técnica não foi a de outras jornadas. Na frente entraram Coman e Gotze nas vagas de Douglas Costa e Muller. Atrás, Javi Martinez no lugar de Kimmich para aumentar a estatura da defesa, mas andou se atrapalhando. Também contra Raul Jimenez e Sálvio, a dupla ofensiva que entrou em seguida. Assim como Samaris, que adiantou Sanches – aposta de Rui Vitória para criar no final. Sem sucesso.

Bayern tentou ser mais contundente com as substituições, mas o time português soube conter o volume e não deixou de atacar (Tactical Pad).

Bayern tentou ser mais contundente com as substituições, mas o time português soube conter o volume e não deixou de atacar (Tactical Pad).

Em Lisboa, Jonas fará muita falta. Mas a disputa da vaga na semifinal está em aberto. Com favorito intacto, porém. Assim como em Madri. Mais pelo poder das equipes e a capacidade de propor o jogo em qualquer campo do que pelas vantagens construídas.

As potências mundiais ficaram devendo.

(Estatísticas: UEFA)


Diego Simeone, o técnico que o mundo gostaria de ter
Comentários Comente

André Rocha

O Atlético de Madri sofreu e não conseguiu ir às redes contra o PSV nas oitavas de final da Liga dos Campeões. Com um jogador a mais por 23 minutos, mais os descontos, em Eindhoven após a expulsão do uruguaio Gastón Pereio.

Mais 120 minutos no Vicente Calderón. Penou contra o 5-4-1 armado por Phillip Cocu que se defendia bem e saía rápido no toque de Propper e Guardado no meio acionando pelos flancos Van Ginkel e Locadia, que acertou a trave de Oblak.

A execução do 4-4-2 só funcionou na primeira etapa no passe de Koke para Griezmann que fez Zoet brilhar mais uma vez no confronto. Fernando Torres entrou bem e contribuiu para as 24 finalizações do time espanhol contra nove dos holandeses.

Sem o Radamel Falcao de 2012 e o Diego Costa de 2014 como referência na frente, Diego Simeone não tem o time letal de outros tempos, por isso mantém a compactação e a intensidade, porém investe um pouco mais em posse de bola. Trabalhando para Griezmann definir.

O francês só conseguiu acertar sua cobrança na decisão por pênaltis. Tensão absoluta no estádio com a sequência de bolas nas redes de Oblak e Zoet. Saúl Ñiguez bateu mal, o goleiro holandês tocou. Mas entrou.

A torcida em desespero se calou. Até Narsingh caminhar para a cobrança e Simeone clamar com gestos e gritos por vibração, comprometimento e cumplicidade para criar novamente uma atmosfera favorável. Talvez não tenha influenciado o adversário a chutar forte no travessão.

Mas foi a senha para Juanfran, já com a massa em êxtase, garantir o Atlético de Madri novamente nas quartas-de-final na principal competição de clubes do planeta. Terceira vez consecutiva. Sem a qualidade e o poder de decisão de outros tempos, mas ainda competitivo.

Desde 2011 em outro patamar. Campeão de Liga Europa, Copa do Rei, Campeonato Espanhol. A segundos e uma cabeçada de Sergio Ramos da Champions. Duelando com o melhor Barcelona da história e o Real Madrid de Cristiano Ronaldo. Exemplo de concentração, superação e fibra. Tática, estratégia e espírito. Às vezes confunde garra com truculência. Não é bonito, mas deve ser ótimo de torcer.

Com Diego Simeone, que pode não ser o melhor treinador do planeta. Mas é o técnico que todo o mundo gostaria de ter.

 


< Anterior | Voltar à página inicial | Próximo>