Blog do André Rocha

Arquivo : zagallo

Corinthians e Grêmio na “retranca”? Então o Brasil de 1970 também fazia
Comentários Comente

André Rocha

Surpreendeu nas redes sociais e nos comentários dos posts deste blog acerca das vitórias de Corinthians e Grêmio sobre Palmeiras e Flamengo, respectivamente, as críticas aos vencedores por supostamente jogarem na “retranca”.

Além da natural vocação brasileira de desmerecer quem está vencendo, ainda mais se for o rival, chamou a atenção o total desconhecimento da maneira de atuar das equipes que ocupam o topo da tabela no Brasileiro. Como se fosse obrigatório chegar no Allianz Parque e na Arena da Ilha e encarar dois clássicos nacionais que já decidiram edições desta mesma competição de peito aberto.

O Corinthians, líder absoluto, tinha ainda menos motivos para se expor. Afinal, eram 13 pontos de vantagem sobre o rival. Já o Grêmio teve postura ofensiva até abrir o placar, depois recolheu as linhas para negar espaços e tentar aproveitar os cedidos pelo adversário. O nome disso é inteligência.

Ou capacidade de se adaptar ao que o jogo apresenta. É óbvio que os times da casa atacariam mais. Por estarem em seus estádios, acostumados com o gramado e empurrados por atmosferas favoráveis criadas pelas torcidas. No caso do oponente, jogar bem é aceitar o volume de quem ataca, mas controlar os espaços e negar as brechas para a infiltração que proporcionam a chance cristalina. As finalizações acontecem, mas sempre dificultadas pela marcação, o que facilita o trabalho do goleiro.

Com menos posse de bola, a solução ofensiva é ser prático e objetivo. Finalizar menos, porém melhor. Até pela liberdade desfrutada por quem cria e conclui, consequência dos espaços cedidos pelo mandante. Acontece em todo lugar do mundo, em qualquer partida equilibrada.

Mas Corinthians e Grêmio foram”condenados”. “Retranca”, ” joga por uma bola”, “futebol feio e chato”. Como se fosse o padrão das equipes de Fabio Carille e Renato Gaúcho e não algo circunstancial. O grande erro dos torcedores rivais, em geral é opinar sobre o time tendo como base apenas os dois confrontos com o seu clube de coração. O pior é que parte da imprensa também se comporta da mesma maneira.

Como ser “retrancado” com os dois ataques mais positivos? O Corinthians como o time mais efetivo nos passes e quarto em posse de bola. O Grêmio que ataca dentro ou fora de casa com volume de jogo e que aposta na ofensividade até de seus volantes, Michel e Arthur, que são verdadeiros meio-campistas, defendendo e atacando. Por estar em sua arena, partiu para cima do líder no duelo da 10ª rodada.

Se defender com todos os jogadores no próprio campo quando necessário for retranca, então a seleção brasileira de 1970, considerada a melhor de todos os tempos, também pode ser considerada assim.

Porque a ideia de Zagallo, depois do fracasso do escrete canarinho na Copa do Mundo de 1966, era bem simples: as seleções europeias, à época, só criavam problemas quando tinham espaços para trabalhar. Se o Brasil se fechasse eles se atrapalhariam, perderiam a bola e cederiam campo para o nosso talento sobressair ainda mais.

Se antes os três ou quatro atacantes ficavam na linha média sem funções defensivas apenas esperando o momento de receber a bola e partir para o ataque, em 1970 todos voltavam. Até Tostão, o centroavante móvel mais adiantado. Ainda que os principais responsáveis pelos desarmes, antecipações e interceptações fossem os quatro da última linha de defesa, Clodoaldo e, às vezes, Gérson, a concentração de jogadores em 35 metros, mesmo sem a compactação de hoje, criava problemas para os adversários.

Bola roubada, saída em velocidade. Os lances que ficaram na história, como os lançamentos de Gérson para Pelé e Jairzinho marcarem gols espetaculares, são em contra-ataques. Na velocidade e no ritmo possíveis há quase 40 anos e no calor do México. Mas essencialmente contragolpes.

Dos 19 gols marcados em seis partidas, oito foram construídos em típicos contragolpes. Seis destes nos jogos eliminatórios. Sem contar o lendário gol perdido por Pelé no drible de corpo no goleiro uruguaio Mazurkiewick . Também em transição ofensiva rápida. Mais dois de falta e dois construídos em cobranças de escanteio e de lateral.

Impossível falar em “jogo feio” com tantos talentos reunidos, sem contar o entrosamento construído em jogos e treinamentos para aquele Mundial. E a intenção, obviamente, não é fazer comparações individuais. Apenas a proposta de jogo, baseada em negar espaços e aproveitá-los no ataque. Prática do timaço de 1970 que Corinthians e Grêmio reproduzem com as devidas atualizações na intensidade e no desempenho atlético.

Por isso Vanderlei Luxemburgo não cansa de repetir, sempre que perguntado, que o Brasil de 1970 foi uma revolução mais influente que a Holanda de 1974. Porque antes recuar todos atrás da linha da bola era prática de times pequenos. Ou do “ferrolho” suíço de Karl Rappan na Copa de 1938. Nem os times e a seleção italiana recuavam até os atacantes no trabalho defensivo.

Se Zagallo tirou a vergonha da “retranca”, José Mourinho deu a ela ainda mais inteligência e coordenação nos movimentos no final da década passada. Exatamente para gerar uma resposta à atualização do “futebol total” de Rinus Michels nos anos 1970 criada por Pep Guardiola no Barcelona.

Se a ideia do jogo de posição do Barça era atacar em bloco com posse de bola, abrir dois pontas para esgarçar a marcação, aproveitar os espaços entre as linhas e minar as forças do adversário pressionando a marcação assim que perde a bola, Mourinho fechou sua Internazionale e depois o Real Madrid com os ponteiros recuando como laterais e os quatro homens da defesa bem próximos formando uma linha de seis. À frente dela, três meio-campistas e até o único atacante bloqueando a entrada da área e dificultando o trabalho dos criativos Xavi e Iniesta.

Bola recuperada, saída em velocidade com poucos toques para otimizar os 30% de posse que restavam. Se conseguisse criar duas oportunidades precisava matar o jogo. Algumas vezes conseguiu, outras não. Outros treinadores aprimoraram essa ideia na sequência e quem encontrou a resposta mais letal à proposta de Guardiola foi Carlo Ancelotti no Real Madrid que atropelou o Bayern de Munique comandado pelo catalão em 2014.

Ninguém à época chamou o time merengue de “retranqueiro”. Porque era a saída inteligente para o que o oponente apresentava. Corinthians e Grêmio realizaram o trabalho defensivo correto porque sabem se comportar. Vêm de trabalhos com uma linha de pensamento, uma filosofia. Ideias que Carille e Renato vão tentando aprimorar.

Identidade que tem sido mais valiosa que todo o dinheiro investido por Palmeiras e Flamengo em contratações de peso. Os jogadores entram em campo e sabem o que precisam fazer. Jogo a jogo, situação a situação. Defendendo e atacando conforme a necessidade.

Questão de leitura de jogo coletivo, algo que falta culturalmente ao brasileiro, que acredita no talento individual puro. Mesmo que Zagallo e seu time genial tenham dado uma aula há 47 anos. Pena que quase ninguém entendeu.


Seleção é reunir os melhores jogadores ou as peças que fazem o melhor time?
Comentários Comente

André Rocha

Em fevereiro de 1969, João Saldanha assumiu a seleção brasileira e anunciou a convocação definindo titulares e reservas. Eram as “Feras do Saldanha”: os melhores jogadores atuando no país, dois por posição. Base de Botafogo, Santos e Cruzeiro, as equipes mais fortes à época.

Conseguiu a classificação para o Mundial e formaria cerca de 80% do escrete campeão no ano seguinte no México. Com Zagallo sucedendo o polêmico Saldanha e fazendo pequenos ajustes. Ou seja, combinando as características dos jogadores para formar a equipe até hoje considerada a melhor de todos os tempos.

Na falta de um zagueiro mais técnico para jogar com Brito, improvisou Piazza. Barrou Marco Antonio, lateral esquerdo mais ofensivo, e encaixou Everaldo, que descia menos e liberava Carlos Alberto Torres do lado oposto. Rivellino no lugar de Paulo César Caju, por compor melhor o meio-campo com Clodoaldo e Gerson e deixar Pelé solto, se aproximando de Tostão e Jairzinho entrando em diagonal a partir da direita.

Outros tempos, de eliminatórias disputadas em poucos jogos apenas no ano anterior à Copa. A convocação servia como um teste em todas as instâncias, inclusive convivência, gestão de grupo, comportamento. Se tudo desse certo, o grupo da Copa estaria praticamente pronto.

Criou-se o senso comum de que selecionar seria seguir fielmente o significado do verbo: escolher. Os melhores. Por mérito, pelo que cada um desempenha em seu clube. Sem grandes preocupações com conjunto. Afinal, “as feras se entendem”.

Corte para 2017. Tempos de futebol cada vez mais coletivo, estudado, pensado. Agora com datas FIFA em que a seleção se reúne para disputar eliminatórias, amistosos. Com a Copa do Mundo ainda a cada quatro anos, mas agora também a disputa continental e a Copa das Confederações com o mesmo intervalo.

Nas eliminatórias, o grupo de convocados se reúne, fica junto por cerca de dez dias, joga e retorna para a rotina dos clubes. Com cortes por lesões, afastamentos por não jogar regularmente e outras dificuldades.

A tarefa do selecionador é complexa: ele tem a base formada para garantir entrosamento, mas mesmo bem sucedida precisa estar aberta a quem estiver com desempenho acima da média. Tem que se preocupar também com o vestiário, ter atletas de sua confiança. Mas sem prejuízo técnico.

Taticamente, a convicção de que se deve convocar os mais qualificados e só então definir sistema e modelo de jogo de acordo com os atletas já não é tão sólida. Porque o jogador pode não estar no auge, ou outro da mesma posição estar voando. E a proposta de jogo precisa estar assimilada.

Mas dentro do organismo que é uma equipe de futebol, a combinação de características é bem mais importante que em 1970. Com sintonia, jogando de memória, melhor ainda. Não por acaso as duas últimas campeãs mundiais, Espanha e Alemanha, tinham como base os três times mais poderosos do planeta: Barcelona, Real Madrid e Bayern de Munique.

Em 1982, Telê Santana preferiu não utilizar mais jogadores do Flamengo que em maio daquele ano era o último campeão estadual, brasileiro, sul-americano e intercontinental. Sem Careca e Reinaldo e não tão confiante assim em Serginho e Roberto Dinamite, podia ter dado oportunidade a Nunes. Centroavante limitado, mas que se entendia com Zico, Leandro e Júnior no olhar e, o principal, sabia abrir espaços para os meio-campistas procurando os flancos. Preferiu o Chulapa.

Jogador “de grupo” é importante, mas com critério. Para evitar a saia justa de 1998: Cafu suspenso para a semifinal contra a Holanda e a lateral direita caindo no colo de Zé Carlos, que estava na França muito mais pela carência na posição e por arrancar gargalhadas dos colegas imitando porco, galinha e passarinho…

No Brasil de Tite há um ainda contestado homem de confiança: Paulinho. Tomando como base o Corinthians campeão brasileiro de 2015, referência para Tite, ele é Elias. Ou seja, o meia da linha de quatro à frente do volante no 4-1-4-1 que mais defende e infiltra que organiza, missão esta de Renato Augusto. Numa ponta um meia articulador – antes Jadson, agora Philippe Coutinho – e na outra um atacante que infiltre em diagonal, mais agudo. No Corinthians Malcom, na seleção um imenso “upgrade” com Neymar.

Pela necessidade imediata de desempenho e resultado quando assumiu, Tite fez o simples: com a estrutura tática na cabeça, pinçou jogadores que executassem as funções avaliando qualidade no campo e equilíbrio fora dele. Aposta certeira em Gabriel Jesus no comando do ataque. Paulinho fundamental no auxílio a Fernandinho no cerco a Messi no Mineirão e ainda foi às redes no último gol dos 3 a 0.

Nas laterais, sim, apostou no talento. Prefere trabalhar Daniel Alves e Marcelo na sua linha de defesa “posicional” à italiana do que investir em laterais mais defensivos. Entre Filipe Luís e Marcelo preferiu o jogador do Real Madrid. Mas insiste com Fagner na reposição pela direita. Por pura confiança no defensor que já viveu fases melhores. Com Tite.

O treinador vai encaixando as melhores peças no quebra-cabeças. Respondendo à pergunta do título do post: um pouco dos dois. Escolher o atleta mais capacitado e imaginá-lo dentro da engrenagem. Com sabedoria e sempre pensando no coletivo.

Nesta sequência das Eliminatórias contra Uruguai e Paraguai, o Brasil deve confirmar a vaga no Mundial da Rússia. A próxima etapa será de polimento e testes, inclusive em amistosos contra as mais fortes seleções do planeta, como quer a comissão técnica.

Tudo para chegar à convocação final e pesar igualmente: o trabalho realizado, o momento de cada jogador, a convivência em grupo e a confiança do treinador. Provavelmente não serão “as feras do Tite”, haverá dois ou três nomes contestados como em qualquer lista. Que serão lembrados se o hexa não vier.

Mas podem no conjunto de virtudes e defeitos formar um Brasil forte para buscar em 2018 o que não conseguiu em casa.


< Anterior | Voltar à página inicial | Próximo>