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Corinthians e Grêmio na “retranca”? Então o Brasil de 1970 também fazia
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André Rocha

Surpreendeu nas redes sociais e nos comentários dos posts deste blog acerca das vitórias de Corinthians e Grêmio sobre Palmeiras e Flamengo, respectivamente, as críticas aos vencedores por supostamente jogarem na “retranca”.

Além da natural vocação brasileira de desmerecer quem está vencendo, ainda mais se for o rival, chamou a atenção o total desconhecimento da maneira de atuar das equipes que ocupam o topo da tabela no Brasileiro. Como se fosse obrigatório chegar no Allianz Parque e na Arena da Ilha e encarar dois clássicos nacionais que já decidiram edições desta mesma competição de peito aberto.

O Corinthians, líder absoluto, tinha ainda menos motivos para se expor. Afinal, eram 13 pontos de vantagem sobre o rival. Já o Grêmio teve postura ofensiva até abrir o placar, depois recolheu as linhas para negar espaços e tentar aproveitar os cedidos pelo adversário. O nome disso é inteligência.

Ou capacidade de se adaptar ao que o jogo apresenta. É óbvio que os times da casa atacariam mais. Por estarem em seus estádios, acostumados com o gramado e empurrados por atmosferas favoráveis criadas pelas torcidas. No caso do oponente, jogar bem é aceitar o volume de quem ataca, mas controlar os espaços e negar as brechas para a infiltração que proporcionam a chance cristalina. As finalizações acontecem, mas sempre dificultadas pela marcação, o que facilita o trabalho do goleiro.

Com menos posse de bola, a solução ofensiva é ser prático e objetivo. Finalizar menos, porém melhor. Até pela liberdade desfrutada por quem cria e conclui, consequência dos espaços cedidos pelo mandante. Acontece em todo lugar do mundo, em qualquer partida equilibrada.

Mas Corinthians e Grêmio foram”condenados”. “Retranca”, ” joga por uma bola”, “futebol feio e chato”. Como se fosse o padrão das equipes de Fabio Carille e Renato Gaúcho e não algo circunstancial. O grande erro dos torcedores rivais, em geral é opinar sobre o time tendo como base apenas os dois confrontos com o seu clube de coração. O pior é que parte da imprensa também se comporta da mesma maneira.

Como ser “retrancado” com os dois ataques mais positivos? O Corinthians como o time mais efetivo nos passes e quarto em posse de bola. O Grêmio que ataca dentro ou fora de casa com volume de jogo e que aposta na ofensividade até de seus volantes, Michel e Arthur, que são verdadeiros meio-campistas, defendendo e atacando. Por estar em sua arena, partiu para cima do líder no duelo da 10ª rodada.

Se defender com todos os jogadores no próprio campo quando necessário for retranca, então a seleção brasileira de 1970, considerada a melhor de todos os tempos, também pode ser considerada assim.

Porque a ideia de Zagallo, depois do fracasso do escrete canarinho na Copa do Mundo de 1966, era bem simples: as seleções europeias, à época, só criavam problemas quando tinham espaços para trabalhar. Se o Brasil se fechasse eles se atrapalhariam, perderiam a bola e cederiam campo para o nosso talento sobressair ainda mais.

Se antes os três ou quatro atacantes ficavam na linha média sem funções defensivas apenas esperando o momento de receber a bola e partir para o ataque, em 1970 todos voltavam. Até Tostão, o centroavante móvel mais adiantado. Ainda que os principais responsáveis pelos desarmes, antecipações e interceptações fossem os quatro da última linha de defesa, Clodoaldo e, às vezes, Gérson, a concentração de jogadores em 35 metros, mesmo sem a compactação de hoje, criava problemas para os adversários.

Bola roubada, saída em velocidade. Os lances que ficaram na história, como os lançamentos de Gérson para Pelé e Jairzinho marcarem gols espetaculares, são em contra-ataques. Na velocidade e no ritmo possíveis há quase 40 anos e no calor do México. Mas essencialmente contragolpes.

Dos 19 gols marcados em seis partidas, oito foram construídos em típicos contragolpes. Seis destes nos jogos eliminatórios. Sem contar o lendário gol perdido por Pelé no drible de corpo no goleiro uruguaio Mazurkiewick . Também em transição ofensiva rápida. Mais dois de falta e dois construídos em cobranças de escanteio e de lateral.

Impossível falar em “jogo feio” com tantos talentos reunidos, sem contar o entrosamento construído em jogos e treinamentos para aquele Mundial. E a intenção, obviamente, não é fazer comparações individuais. Apenas a proposta de jogo, baseada em negar espaços e aproveitá-los no ataque. Prática do timaço de 1970 que Corinthians e Grêmio reproduzem com as devidas atualizações na intensidade e no desempenho atlético.

Por isso Vanderlei Luxemburgo não cansa de repetir, sempre que perguntado, que o Brasil de 1970 foi uma revolução mais influente que a Holanda de 1974. Porque antes recuar todos atrás da linha da bola era prática de times pequenos. Ou do “ferrolho” suíço de Karl Rappan na Copa de 1938. Nem os times e a seleção italiana recuavam até os atacantes no trabalho defensivo.

Se Zagallo tirou a vergonha da “retranca”, José Mourinho deu a ela ainda mais inteligência e coordenação nos movimentos no final da década passada. Exatamente para gerar uma resposta à atualização do “futebol total” de Rinus Michels nos anos 1970 criada por Pep Guardiola no Barcelona.

Se a ideia do jogo de posição do Barça era atacar em bloco com posse de bola, abrir dois pontas para esgarçar a marcação, aproveitar os espaços entre as linhas e minar as forças do adversário pressionando a marcação assim que perde a bola, Mourinho fechou sua Internazionale e depois o Real Madrid com os ponteiros recuando como laterais e os quatro homens da defesa bem próximos formando uma linha de seis. À frente dela, três meio-campistas e até o único atacante bloqueando a entrada da área e dificultando o trabalho dos criativos Xavi e Iniesta.

Bola recuperada, saída em velocidade com poucos toques para otimizar os 30% de posse que restavam. Se conseguisse criar duas oportunidades precisava matar o jogo. Algumas vezes conseguiu, outras não. Outros treinadores aprimoraram essa ideia na sequência e quem encontrou a resposta mais letal à proposta de Guardiola foi Carlo Ancelotti no Real Madrid que atropelou o Bayern de Munique comandado pelo catalão em 2014.

Ninguém à época chamou o time merengue de “retranqueiro”. Porque era a saída inteligente para o que o oponente apresentava. Corinthians e Grêmio realizaram o trabalho defensivo correto porque sabem se comportar. Vêm de trabalhos com uma linha de pensamento, uma filosofia. Ideias que Carille e Renato vão tentando aprimorar.

Identidade que tem sido mais valiosa que todo o dinheiro investido por Palmeiras e Flamengo em contratações de peso. Os jogadores entram em campo e sabem o que precisam fazer. Jogo a jogo, situação a situação. Defendendo e atacando conforme a necessidade.

Questão de leitura de jogo coletivo, algo que falta culturalmente ao brasileiro, que acredita no talento individual puro. Mesmo que Zagallo e seu time genial tenham dado uma aula há 47 anos. Pena que quase ninguém entendeu.


A força mental e a confiança de que tudo vai dar certo do Real Madrid
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André Rocha

Se desta vez o sorteio da Liga dos Campeões não foi “generoso” colocando o Bayern de Munique de Carlo Ancelotti no caminho, o contexto acabou dando dois presentes para o Real Madrid no jogo de ida das quartas-de-final em Munique. Primeiro a ausência de Lewandowski, artilheiro da Bundesliga com 26 gols. Uma lesão no ombro tirou o centroavante e referência da equipe de Carlo Ancelotti.

Ainda assim, o time bávaro fez bom primeiro tempo. Com Arturo Vidal recuando próximo aos zagueiros para qualificar a saída de bola e acionando o lado direito como o setor forte. Porque os merengues se defendiam em duas linhas de quatro, com Bale voltando à direita e Toni Kroos abrindo pela esquerda. Mas o alemão era lento no movimento e deixava Marcelo sozinho contra Lahm e Robben.

Mesmo com Thomas Muller desconfortável no centro do ataque e uma atuação bem abaixo da média na temporada de Thiago Alcântara, havia volume e presença ofensiva. Vidal apareceu bem ao se antecipar a Nacho, substituto do lesionado Pepe na zaga, e acertar um “tiro” de cabeça que Keylor Navas não impediu.

Mas houve o pecado capital em disputa tão parelha. O segundo “presente” que o Real recebeu: um pênalti inexistente contra, já que não houve toque no braço de Carvajal depois do chute de Ribéry. Vidal isolou. E o Bayern murchou já no final do primeiro tempo. O paradoxo do futebol: se o árbitro Nicola Rizzoli não tivesse errado talvez o time alemão não sentisse tanto a chance desperdiçada de fazer 2 a 0 e abrir vantagem confortável.

Voltou na segunda etapa desorientado. É possível que a falta de adversários à altura na Bundesliga atrapalhe nesses momentos de dificuldade. O  Real, porém, também voltou mais aceso, congestionando o setor esquerdo com Casemiro e Sergio Ramos atentos na cobertura.

Acima de tudo, a equipe de Zidane é muito forte mentalmente. Atual campeã do torneio, líder da liga espanhola. Não é um primor coletivamente, mas todos sabem o que precisam fazer: os laterais defendem e apoiam abertos para espaçar a marcação, os meio-campistas trabalham a bola, o trio de ataque acelera e se procura para tabelas. Futebol simples e eficiente, respaldado no talento.

Como é Cristiano Ronaldo, que apareceu e fez a diferença já aos dois minutos completando passe de Carvajal. Especialmente depois da expulsão de Javi Martínez, por duas faltas seguidas punidas com cartões, o que era uma oscilação emocional virou desmanche e o Real passeou.

Recuperou a posse de bola (terminou com 51%) e finalizou nada menos que 16 vezes em pouco mais de 45 minutos, contra duas do time da casa. O centésimo gol de Ronaldo na Champions podia ter vindo na conclusão que Neuer tirou com o braço lembrando uma manchete de vôlei.

Mas o português não perde a concentração e, segundos depois, finalizou de novo e a bola passou entre as pernas de Neuer. Cem gols em competições europeias de clubes – 98 na Champions e dois pela Supercopa. Fenômeno, mesmo sem um desempenho tão notável nesta edição quanto nas últimas.

Ainda houve um gol bem anulado de Sergio Ramos. Mas a virada em Munique parece ter definido o confronto. Porque o Real Madrid de Zidane tem qualidade e entrosamento, mas também a confiança de que tudo vai dar certo. É quase impossível que dê tudo tão errado no Santiago Bernabéu.

(Estatísticas: UEFA)

 


Quartas da Champions: duelos de gigantes e entre semelhantes
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André Rocha

ATLÉTICO DE MADRID x LEICESTER CITY – Dureza para os dois times. Para o Atlético porque entra como favorito absoluto, obrigado a propor jogo e dar o contragolpe. Para o Leicester também, já que será azarão, mas não tanto como se encarasse um gigante como Bayern, Barcelona e Real Madrid.

Interessante para ver essa versão do time de Simeone, que ocupa o campo de ataque e valoriza mais a posse de bola no ritmo de Saúl Ñíguez, mas sem deixar de ser compacto e concentrado, diante do campeão inglês que só joga em velocidade, vai entregar tudo no trabalho defensivo para definir em casa com o melhor de Vardy e Mahrez.

FAVORITO – Atlético de Madrid

BORUSSIA DORTMUND x MONACO – Duelo de intensidade máxima e vocação ofensiva, com times se arriscando dentro e fora de casa. Porém sem tanto controle de jogo. Ou seja, quem abrir vantagem na ida sofrerá se quiser administrá-la na volta.

Dembelé e Aubameyang contra Bernardo Silva e Mbappé. Thomas Tuchel versus Leonardo Jardim. Confronto sem a pompa dos duelos de gigantes, mas que promete demais. Muitos gols. Time alemão leva pequena vantagem pela cancha maior na competição.

FAVORITO – Borussia Dortmund

BAYERN DE MUNIQUE X REAL MADRID – Simplesmente 16 títulos em campo. Carlo Ancelotti, o mentor e campeão de “la decima”, contra Zidane, o aprendiz e atual vencedor. Dois times com camisa e experiência. Mas é difícil imaginar alguma novidade tática, já que são treinadores mais administradores que construtores.

Mesmo que a marcação individual tenha ficado para trás, é impossível não imaginar duelos como Bale x Alaba e a luta no meio-campo com Casemiro, Modric, Kroos de um lado; Xabi Alonso, Vidal e Thiago Alcântara do outro. Mais Robben contra Marcelo. Quem controlar a posse não leva vantagem necessariamente. Aposta na “sede” dos bávaros de recuperar o domínio europeu e no retrospecto positivo no confronto.

FAVORITO – Bayern de Munique

BARCELONA X JUVENTUS – A reedição da final da temporada 2014/15. Mas desta vez com o time catalão sem a consistência da última conquista e a equipe que domina a Itália há tempos mais cascuda e querendo revanche da decisão no Estádio Olímpico de Berlim.

A Juve parece ter uma formação mais equilibrada, com Mandzukic sendo o centroavante que infiltra pela esquerda para se juntar a Higuaín e Dybala no centro e receber as bolas de Cuadrado e Daniel Alves, que conhece muito bem o adversário. Mas o Barça, apesar das oscilações e dos problemas defensivos, tem o tridente genial e a sensação de que pode tudo depois dos 6 a 1 sobre o PSG.

FAVORITO – Barcelona

 

 


O Bayern e Ancelotti não aprendem: para o Atlético de Simeone, menos é mais
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André Rocha

As cinco temporadas de Diego Simeone no Atlético de Madrid construíram o melhor sistema defensivo da Europa e do mundo.

Uma organização impressionante, com linhas compactas, movimentos precisos e muita concentração na execução de um plano de jogo assimilado por uma base que ajuda os atletas que chegam e se adaptam de forma mais rápida e segura.

Mas o mais importante é que saber o que fazer em campo transfere confiança para jogar. O título espanhol em 2014, a Liga Europa em 2012 e as duas finais de Liga dos Campeões contra o Real Madrid, com reveses nos detalhes, fazem com que em 2016 a equipe tenha personalidade para enfrentar qualquer adversário.

Inclusive o poderoso Bayern de Munique, batido na semifinal da última edição do torneio continental. Com Guardiola buscando todo tipo de variação tática e mudanças de posicionamento para quebrar as linhas de marcação. Agora Carlo Ancelotti tentou superar com uma ideia mais simples, menos móvel.

Só que é o Atlético o especialista em transformar o menos em mais. Os bávaros fizeram um jogo engessado, com Muller subaproveitado na ponta direita, Ribéry com Alaba pela esquerda em jogada mapeada desde os tempos de Jupp Heynckes. Posse de bola de 63% durante todo o tempo, mas quase sempre inócua.

Para piorar, o Atlético continua prático e pragmático, mas adicionou qualidade, especialmente no meio-campo. Se perdeu Arda Turan para o Barcelona, ganhou o ótimo Saúl Níguez e encaixou Yannick Carrasco como “winger” numa linha de quatro que marca e joga pelo centro com Gabi e Koke. Muita técnica.

A definição das jogadas continua rápida, sem maior cuidado com a posse. Só que é mais refinada e inteligente. Como no gol de Carrasco. A mais feliz das sete finalizações dos colchoneros no primeiro tempo. Sem recorrer tanto às jogadas aéreas procurando Godín. O Bayern concluiu apenas quatro, metade na direção da meta de Oblak. Pouco ou quase nada serviu os 87% de efetividade nos passes.

Na segunda etapa, Ancelotti tentou mudar as características na frente com Robben na vaga de Muller, Kimmich no lugar de Thiago Alcântara, que podia ter sido expulso por faltas seguidas já com amarelo. Ainda Mats Hummels substituindo Boateng. Avançou as linhas, buscou a pressão. Mas ainda previsível.

Simeone confia tanto em seus jogadores que arriscou Gameiro no lugar de Carrasco. Griezmann recuou para fazer a função pela esquerda e o compatriota ficou na frente com Torres. Ou marcando no próprio campo, com os dez jogadores ocupando não mais que trinta metros para negar espaços ao oponente.

Depois “Cholo” trocou Torres por Nico Gaitán, retornando o francês para o ataque. Griezmann teve a chance de definir o jogo, mas, assim como na última final continental, cobrou o pênalti tosco cometido por Vidal em Filipe Luís no travessão.

Nem foi preciso. O Bayern não teve ideias ou alguma surpresa para descoordenar o que é tão bem treinado. Carlo Ancelotti segue sem vencer no Vicente Calderón, sina desde os tempos de Real Madrid. Porque o técnico e sua equipe ainda não aprenderam a fazer mais e melhor para superar um Atlético que não precisa de muito para se impor e vencer.

Para Simeone, menos é sempre mais.

(Estatísticas: UEFA)

 


No novo Bayern de Carlo Ancelotti, Muller será Cristiano Ronaldo. Entenda
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André Rocha

É injusto afirmar que o Bayern de Munique na passagem de bastão de Guardiola para Carlo Ancelotti será um time essencialmente pragmático levando em conta a atuação na Supercopa da Alemanha.

Porque o time bávaro comandado pelo catalão já sofreu e jogou nos contragolpes em Dortmund contra o Borussia. Inclusive com cinco na defesa e abrindo mão da bola diante da pressão das equipes de Jurgen Klopp e Thomas Tuchel.

Mesmo enfrentando um Dortmund sem Gundogan, Mkhitaryan e Hummels, agora no time de Munique. Ainda não podendo contar com Gotze e Schurrle, que ficaram no banco. Nunca é fácil enfrentar um time que, independentemente da formação, sempre tenta combinar posse de bola, velocidade na transição ofensiva e pressão na saída adversária.

O Bayern respondeu com maturidade. Também equilíbrio, marca de Ancelotti em suas equipes que sempre tentam combinar qualidade técnica e praticidade. O italiano não é um gênio criador como Guardiola. Prefere administrar dentro e fora de campo. Observador e inteligente, transita entre os dois mundos: o da posse e o do jogo reativo.

No Signal Iduna Park enfrentou a Muralha Amarela colocando em campo o que tinha de melhor à disposição. Javi Martinez foi soberbo na vaga de Boateng na zaga ao lado de Hummels. Lahm de volta à lateral, sem as funções de articulador dos tempos de Guardiola.

No desenho tático, trouxe uma variação que deu certo no Real Madrid: do 4-3-3 para o 4-4-2 sem a bola. Cristiano Ronaldo era o ponta que virava atacante na recomposição com o centroavante (Benzema) para guardar energias visando os contragolpes. Ideia de Paulo Bento na seleção portuguesa que disputou a Eurocopa em 2012.

No Bayern é Muller quem abre pela direita quando a equipe ataca e fica à frente com Lewandowski. No Real, Di Maria, depois James Rodríguez, abria para fechar o corredor esquerdo e Bale voltava do lado oposto para formar a linha de quatro. Agora Vidal sai do meio para a direita e Ribéry retorna à esquerda com Xabi Alonso e Thiago Alcântara centralizados.

No contragolpe, o francês acionou Lewandowski às costas da defesa, Muller fechou em diagonal e Vidal recebeu pela direita para abrir o placar. Depois Muller fechou os 2 a 0 que garantiu a sexta conquista do torneio de jogo único para o Bayern na bola parada.

Flagrante do início do contragolpe do primeiro gol: Ribéry vai acionar Lewandowski, Muller, que está mais adiantado, infiltra e Vidal se descola da linha de quatro no meio para aparecer pela direita e finalizar (reprodução ESPN Brasil).

Flagrante do início do contragolpe do primeiro gol: Ribéry vai acionar Lewandowski, Muller, que está mais adiantado, infiltra e Vidal se descola da linha de quatro no meio para aparecer pela direita e finalizar (reprodução ESPN Brasil).

Contra-ataque e jogada aérea. Duas armas do novo Bayern que compensaram as 20 finalizações do Dortmund contra apenas nove dos visitantes, que tiveram apenas 45% de posse.

Assim deve ser o gigante alemão sob o comando de Ancelotti. Menos mutante, mas com uma variação marcante. Muller será Cristiano Ronaldo, ao menos taticamente. Não por acaso, o novo chefe autorizou um prolongamento das férias e exigiu a permanência de Muller na equipe de Munique.

O Bayern espera repetir o Real Madrid e voltar a vencer a Liga dos Campeões com o técnico tricampeão continental.

No Real Madrid, versão 2014/15, Bale voltava à direita e James Rodríguez fechava o corredor esquerdo para liberar Cristiano Ronaldo. Ancelotti agora leva a ideia para o Bayern de Munique (reprodução ESPN Brasil).

No Real Madrid, versão 2014/15, Bale voltava à direita e James Rodríguez fechava o corredor esquerdo para liberar Cristiano Ronaldo. Ancelotti agora leva a ideia para o Bayern de Munique (reprodução ESPN Brasil).


Real Madrid precisa mesmo de um Zidane – o meia, nem tanto o técnico novato
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André Rocha

Fim da contagem regressiva. Porque o mundo sabia no anúncio de Rafael Benítez como treinador do Real Madrid em junho que era questão de (pouco) tempo.

A demissão de Carlo Ancelotti por conta de uma tríplice coroa do rival Barcelona talvez tenha sido o maior erro de Florentino Pérez como presidente do clube. Talvez maior do que dispensar Makelele e contratar David Beckam em 2003.

Porque Rafa Benítez não podia entregar o futebol vistoso desejado pelos madridistas. O perfil é pragmático. Pior: o 4-2-3-1 quase imutável de suas equipes também não se encaixa na equipe merengue. O técnico bem que tentou posicionar Bale centralizado, James Rodríguez à direita, Cristiano Ronaldo pela esquerda e Benzema enfiado. A ideia morreu ainda no primeiro tempo dos 4 a 0 do Barcelona no Santiago Bernabéu – Bale foi recompor pela esquerda deixando o português mais adiantado.

Numa última tentativa de salvar o emprego, Benítez abriu mão de suas convicções e reposicionou a equipe como nos tempos de Ancelotti: 4-3-3 se transformando em duas linhas de quatro no momento defensivo com Bale recuando à direita e James abrindo pela esquerda.

Flagrante da variação tática do Real Madrid sem a bola: 4-3-3 para o 4-4-2 com Bale voltando pela direita. Ideia de Carlo Ancelotti copiada por Rafa Benítez (reprodução ESPN Brasil).

Flagrante da variação tática do Real Madrid sem a bola: 4-3-3 para o 4-4-2 com Bale voltando pela direita. Ideia de Carlo Ancelotti copiada por Rafa Benítez (reprodução ESPN Brasil).

No último jogo, empate com o Valencia em 2 a 2, Kovacic fez a função do colombiano. Praticamente como um volante pela esquerda, liberando o apoio de Marcelo. Ideias até interessantes, mas faltava coordenação. A equipe adiantava a marcação e se essa pressão não surtisse efeito a última linha de defesa ficava exposta e com muitos espaços às costas.

Na frente, a dependência das individualidades. Como no belo gol de Benzema, em linda combinação: toque de letra de Bale, Ronaldo só preparando com sutileza. Lampejo. Espasmo.

Zidane_tecnico

Acabou. Quase sete meses de penúria. A solução? Zinedine Zidane. Primeira experiência no Real Castilla, não muito bem sucedida. Em novembro, com os primeiros rumores de demissão de Benítez, disse que não estava pronto. Pouco mais de um mês depois assume um enorme desafio, maior que o de Pep Guardiola no Barca em 2008.

E as comparações devem parar por aí. Guardiola sempre foi líder, inquieto, estudioso, questionador. Um construtor de jogo, de filosofia. Revolucionou o futebol mundial. Zidane foi um dos maiores e melhores meias de todos os tempos. Elegante, refinado. Decisivo quando necessário. Liderança técnica. Mas silenciosa, calma. Tem muito mais o perfil de administrador de elencos, como Carlo Ancelotti, de quem foi auxiliar.

No comando técnico, deve repetir Benítez e tentar resgatar as ideias do treinador campeão de “La Décima” em 2014. Time que alterna posse de bola com transições rápidas. Ora jogo posicional, ora contragolpes letais. Só que o italiano se prepara para levar todo sua experiência e versatilidade para o Bayern de Munique. Zidane é apenas um treinador iniciante.

O Real Madrid até precisa de um Zidane, mas para armar o time pela esquerda. Trabalhando com Kroos e Modric, liberando as ultrapassagens de Marcelo, lançando trio “BBC”. Acelerando e desacelerando, ditando o ritmo.

Como fazia no seu auge, de 2001 a 2003 – campeão espanhol e da nona Liga dos Campeões. Recebia dos volantes, cortava para dentro abrindo o corredor para Roberto Carlos e acionando Raúl e Morientes, depois Ronaldo Fenômeno. Ainda voltava colaborando na recomposição.

No auge, Zidane saía da esquerda para articular no meio, abrir o corredor para Roberto Carlos e procurando Raúl e Ronaldo (Tactical Pad).

No auge, Zidane saía da esquerda para articular no meio, abrir o corredor para Roberto Carlos e procurando Raúl e Ronaldo (Tactical Pad).

Com Vanderlei Luxemburgo em 2005, chegou a atuar como volante-meia pela esquerda num 4-3-1-2: Gravesen plantado, Beckham à direita e Raúl na ligação com Ronaldo e Owen. Assim goleou o Barcelona de Ronaldinho por 4 a 2 e chegou a disputar o título espanhol, mas já era tarde.

Sob o comando de Vanderlei Luxemburgo, um losango no meio com Zidane pela esquerda, ajudando na recomposição e dividindo a armação com Beckham (Tactical Pad).

Sob o comando de Vanderlei Luxemburgo, um losango no meio com Zidane pela esquerda, ajudando na recomposição e dividindo a armação com Beckham (Tactical Pad).

No Real atual, a dinâmica de Di Maria se encaixou bem na função inicialmente. Mas faltava inventividade para criar espaços. James Rodríguez foi contratado para armar o jogo, porém falta consistência, regularidade. Agora sobra até confusão com a polícia.

A má notícia é que Zinedine Zidane se despediu dos campos com cabeçada em Materazzi numa final de Copa do Mundo em 2006. Agora sua função é pensar em estratégias, sistemas táticos, modelos de jogo. Para outros executarem.

É incógnita. Uma aposta de risco. Ou o ídolo para servir como escudo de Florentino Pérez, que tenta consertar o erro do início da temporada. Será capaz?


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