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A “camisa de força” que tirou a Holanda da Copa e aposenta Arjen Robben
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André Rocha

ESCREVE FELIPE DOS SANTOS SOUZA (colunista de futebol holandês no site Trivela e criador do blog Espreme a Laranja, sobre o mesmo assunto)

Por muito tempo, a Holanda teve o status de ser “o país da tática”. Justo: um país cuja extensão territorial é seis vezes menor do que a do estado de São Paulo teve a sorte de ter dois papas, em Rinus Michels e Johan Cruyff. Papas que aprenderam tudo com quem deixou sementes – como os técnicos Vic Buckingham e Jack Reynolds, que treinaram Michels no Ajax.

Papas que tiveram contemporâneos de inteligência tática também avançada, no banco (Ernst Happel e Wiel Coerver, antíteses de Michels) e no campo (Ruud Krol e Willem van Hanegem). Papas que deixaram ideias, até para que fossem questionadas, como foram por Louis van Gaal, a grande nêmesis de Cruyff, campeoníssimo com o Ajax nos anos 1990 – jogando de modo totalmente diferente do Futebol Total dos ‘70. E acima de tudo, papas que mudaram conceitos no modo como o futebol é jogado.

Mas tudo isso acabou.

A ausência da Holanda na Euro 2016 já deixava sinais da defasagem tática que o país vive em campo. E a confirmação veio com a primeira ausência em Copas da Laranja desde 2002 – fora de uma sequência Euro-Copa pela primeira vez desde o torneio europeu de 1984 e o Mundial de 1986. Há muitos fatores que podem explicar a derrocada holandesa. Mas dentro de campo, o principal deles é o apego excessivo aos velhos cânones holandeses: o 4-3-3 com pontas e a incessante troca de passes para tentar manter a posse de bola.

Obviamente, tais hábitos não são problemas. Basta citar que, nos mais badalados times europeus, jogar com três atacantes tem sido até habitual, seja falando de Bale-Cristiano Ronaldo-Asensio ou de Neymar-Cavani-Mbappé. A diferença: não há como jogar com três atacantes se a velocidade dos setores de trás não ajudar na marcação.

Eis um dos males da seleção holandesa: a lentidão do 4-3-3 habitual é exasperante. Em regra, a equipe tenta atacar pelas pontas, usando principalmente os laterais – normalmente, Daley Blind pela esquerda e a aposta da vez pela direita (ora o ofensivo Kenny Tete, que começou bem no Lyon, ora o mais defensivo Daryl Janmaat). Porém, em geral, os adversários estão bem compostos defensivamente. Resultado: os laterais precisam recuar a bola para os zagueiros, que recuam para os goleiros, que recomeçam as jogadas… e assim sucessivamente.

Holanda contra França: com adversário bem posicionado, saída de bola fica prejudicada (imagem: reprodução Sky Sports)

Quando enfim surge um espaço para atacar, novamente há prejuízo. Claro que o meio-campo tenta ajudar, com a volta dos volantes (Strootman e Wijnaldum) para buscarem a bola. Todavia, isso não acontece com os atacantes, que não voltam para oferecerem opções de jogada. Janssen fica preso entre as linhas, sendo mais hábil para tentar o pivô do que para finalizar, quesito em que tem falhado. Resta Robben. Cuja jogada “padrão” está cada vez mais manjada: ao preparar o corte para a perna esquerda, geralmente já há um zagueiro em cima dele – e outro na cobertura. Sendo assim, com os atacantes sem espaço para movimentação, a Holanda fica sem ação ofensiva. E com um buraco aberto no meio, pela demora de Strootman e Wijnaldum na recomposição, a Holanda vira presa fácil para contra-ataques.

Qualquer perda de bola no meio-campo rende espaço para contra-ataques adversários (imagem: reprodução Sky Sports)

Na defesa, a marcação por zona está absolutamente desorganizada. Basta citar o gol de empate de Belarus, na penúltima rodada: uma inversão de jogo simples pegou Maksim Volodko livre na esquerda, sem marcação, para chegar à área e vazar Cillessen.

Contra Belarus, Janmaat não fechou a direita. E Valadko ficou livre para o empate (imagem: reprodução Sky Sports)

E a Holanda não conseguiu criar alternativas de jogo para reagir. Um dado do jogo contra Belarus prova isso: a Laranja tentou sete chutes a gol durante o primeiro tempo. Em seis deles, Robben participou da jogada. Isto é: mesmo aos 33 anos, já perto da fase final da carreira, o atacante do Bayern ainda era indispensável. Era, porque ele se aposenta da seleção sem Mundial a disputar.

Portanto, já não deveria ser tão fundamental assim. Até porque a Holanda já teve, recentemente, uma prova de como rever conceitos táticos pode dar certo: a Copa de 2014. Jogando em seu estilo (4-3-3, bem aberta), num amistoso contra a França, em março daquele ano, a equipe de Louis van Gaal foi facilmente superada: o placar ficou no 2 a 0 para os Bleus, e poderia ter sido até maior, tal a superioridade dos mandantes em Saint-Denis.

Porém, no primeiro tempo daquele amistoso, Strootman – peça-chave no meio-campo de Van Gaal – lesionou um dos joelhos. Arriscou jogar no final de semana seguinte, defendendo a Roma pelo Campeonato Italiano, sobrecarregou o outro joelho e rompeu o ligamento cruzado. O volante estava fora da Copa. A partir daquele momento, Van Gaal teve de queimar as pestanas para achar um jeito de tornar a Holanda competitiva. Até porque ainda se acreditava na Espanha – e o Chile já dava claros sinais de evolução.

O treinador da seleção holandesa, então, engoliu em seco seu desejo de ofensividade. Entendeu: com o que tinha em mãos, ou protegia a defesa, ou a Holanda ficaria na primeira fase da Copa (palpite que muitos tinham, aliás). Daí, a preferência pelo 5-3-2, com três zagueiros e Nigel de Jong como o “cão de guarda” habitual no meio-campo. Com um tanto de dedicação e outro tanto de sorte – quem diria que Robben teria alguns dos melhores dias de sua carreira no Brasil? -, a Holanda conseguiu um terceiro lugar surpreendente e elogiável.

A lição estava dada. Mas nenhum dos sucessores quis segui-la: nem Guus Hiddink, nem Danny Blind, nem Dick Advocaat. Seguiu-se o 4-3-3, os pontas, a aposta no que os holandeses chamam “toevalsspel”, o jogo da coincidência. Trocando em miúdos: acreditar que, a qualquer momento, uma arrancada de Robben poderá definir as coisas.

Não pode mais. Pelo menos sem uma organização, não pode. E por causa de um orgulho tático que já não tem mais razão de ser, a Holanda ficou fora da Euro e da Copa do Mundo. Com uma geração de jogadores de nível mediano, e um campeonato de nível técnico trágico (PSV e Ajax foram eliminados nas fases preliminares dos torneios europeus, e o Feyenoord teve duas atuações terríveis na Liga dos Campeões), é a hora exata para uma das seleções mais tradicionais do mundo se reformular. Aprender não só a criar jogadores mais capacitados para as exigências atuais do futebol, mas também saber que o 4-3-3 é apenas uma possível opção, não a única.

É isso. Ou então, viver de passado. O pior é que nem é possível falar em “passado de glórias”, já que a Holanda só tem a Euro 1988 em sua galeria.

ESCREVEU FELIPE DOS SANTOS SOUZA


Sarrià, 35 anos: a velha mania brasileira de achar que perdeu pra si mesmo
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André Rocha

 

As seleções brasileiras nas Copas de 1930 e 1934 foram “improvisadas”, não eram propriamente um grupo com os melhores jogadores do país. Em 1938 a Itália fascista de Mussolini venceu a semifinal por conta da ausência de Leônidas da Silva, “poupado” pelo treinador Ademar Pimenta. O “Maracanazo” de 1950 está eternamente na conta do goleiro Barbosa. Em 1954 e 1966 foi a desorganização. Na Copa da Alemanha depois do tri “amarelamos” contra a Holanda.

Em 1978 não houve derrota, então foi “campeão moral”. Mas se o Falcão tivesse sido convocado…Em 1986 a culpa foi do Zico com o joelho em frangalhos. Em 1990 e 2010 o responsável pelo fracasso foi o Dunga, dentro e fora de campo. A convulsão de Ronaldo impossibilitou a conquista em 1998 – para muitos foi a Copa “vendida” para a França. Há três anos, um simples “apagão” no Mineirão.

Para muitos brasileiros, em condições normais de temperatura e pressão, a seleção de Tite iria para o Mundial da Rússia apenas buscar sua 19ª taça. Porque o Brasil sempre perdeu apenas para si mesmo. Quando venceu foi por méritos totais. Ou não mais que a obrigação.

Ninguém lembra da dura semifinal contra a França em 1958 que acabou facilitada pela fratura do zagueiro Jonquet que deixou a forte seleção de Just Fontaine e Raymond Kopa fragilizada pela impossibilidade de fazer substituições. Nem dos apitos amigos em 1962 e 2002 contra Espanha e Bélgica, respectivamente. Em 1994, Branco nos tirou do sufoco nas quartas-de-final contra a Holanda numa falta cavada em que colocou a mão na cara do adversário. Mas aí é a velha “malandragem” tupiniquim.

Em 1982 foi culpa do Cerezo que entregou a bola para Paolo Rossi no segundo gol, do Telê Santana que não tinha um ponta pela direita e Cabrini desceu livre para cruzar na cabeça do algoz brasileiro no gol que abriu o placar . Junior vacilou não deixando Rossi impedido no tento derradeiro dos lendários 3 a 2 no Sarrià. Há 35 anos.

Esquecem, mais uma vez, que havia uma camisa bicampeã mundial vestindo a base da equipe, com o mesmo Enzo Bearzot no comando, que foi a única a vencer a anfitriã Argentina quatro anos antes. Que ficou em quarto no Mundial por detalhes, tanto na derrota para a Holanda que custou a vaga na final quanto nos gols de Nelinho e Dirceu na decisão do terceiro lugar. Em disputas equilibradíssimas.

Time do “regista” Antognioni, meio-campista que jogava com classe e marcou o quarto gol, anulado por impedimento inexistente. De Bruno Conti, ponta direita canhoto e articulador com técnica refinada. Do onipresente Tardelli no meio, indo e voltando. Do versátil Oriali, que foi atuar na lateral direita para que Gentile fosse perseguir Zico no campo todo, assim como fizera com Maradona.

De Gaetano Scirea, um dos melhores líberos de todos os tempos. De Cabrini, o lateral apoiador que apareceu bem no primeiro gol, mas depois sofreu com a movimentação brasileira pelo seu setor. Um dos motivos de críticas depois do revés, mas que confundiu e tirou o encaixe pensado por Bearzot. A ideia era que Cabrini cuidasse de Sócrates e Graziani, o ponta esquerda, voltasse com Leandro. Por ali saíram os gols de Sócrates e Falcão.

Porque a Azzurra também errou. Na defesa deixando Zico e Serginho livres para concluir à frente de Dino Zoff, mas o centroavante finalizou bisonhamente. O camisa dez brasileiro ainda sofreu pênalti tendo sua camisa rasgada. Marcação implacável? Só no segundo tempo. E Zico reclama até hoje que os companheiros pararam de procurá-lo, por estar sempre vigiado.

Rossi marcou três, porém o mais fácil ele perdeu, totalmente livre no segundo tempo, com a bola à feição no tradicional “contropiede” italiano. Com Bergomi no lugar de Collovati e a entrada de Paulo Isidoro na vaga de Serginho, Sócrates foi para o centro do ataque e a retaguarda italiana se confundiu para fazer a sobra com Scirea.

Jogaço duríssimo até a cabeçada de Oscar na cobrança de falta de Eder que Zoff pegou na maior defesa sem rebote da história das Copas. Mérito total do goleiro veterano. Assim como a Itália cumpriu sua melhor atuação naquela Copa na Espanha. Depois, com a confiança no topo, passou por cima da Polônia sem o craque Boniek na semifinal e atropelou na decisão no Santiago Bernabéu a Alemanha estropiada pelo esforço hercúleo diante da França.

Por isso a festa de título no apito final de Abraham Klein no dia 5 de julho. A Itália havia eliminado o melhor futebol daquele torneio até então. Que não é esquecido até hoje. Que provocou aplausos a Telê Santana na sala de imprensa e elogios do vencedor Bearzot. Também o prêmio de segundo melhor jogador da competição a Falcão.

Mas não perdeu para si mesmo. A Itália venceu. Talvez fosse derrotada em outros dez confrontos. Talvez não. Nunca saberemos. No Sarrià superou as desconfianças de uma primeira fase de empates contra Peru, Polônia e Camarões para alcançar um de seus mais celebrados êxitos. Porque foi melhor.

Como tantas outras seleções que nos superaram em Copas. Desde a Itália bicampeã nos anos 1930, passando pelo Uruguai de Obdulio Varela, a Hungria em 1954, mesmo sem Puskas. Portugal de Eusébio, Holanda de Cruyff e de Sneijder, Argentina de Menotti, a França de Platini e de Zidane, a Argentina de Maradona e Caniggia. A Alemanha dos 7 a 1. Com exceção de 1966 e 1986, todos que eliminaram o Brasil foram, no mínimo, finalistas.

Não é pouco, nem merece ser subestimado como a Itália. Não foi a vitória do pragmatismo sobre a arte irresponsável, o futebol “bailarino”. O Brasil de Telê tinha os dez homens na defesa quando sofreu o terceiro gol e foi buscar o empate na jogada aérea. Não houve catenaccio, retranca, futebol covarde. A Azzurra fez uma partida combinando seu estilo e a necessidade do resultado.

O Brasil não contrariou suas características, mas quando empatou pela segunda vez com Falcão percebeu que devia ser mais cuidadoso. E foi, não sofreu gol em contra-ataque. Telê podia ter trocado Waldir Peres por Paulo Sérgio, Luisinho por Edinho e Serginho por Dinamite ao longo do Mundial. Mas não foi derrotado apenas por conta de seus elos fracos.

Havia um rival valoroso, com entrega, técnica e estratégia. O Brasil perdeu para a melhor seleção daquele mês de verão na Espanha em 1982. O resto é nossa presunção de onipotência quando o assunto é futebol. Uma velha e tola mania.


O ponto em comum entre Pep Guardiola e a seleção brasileira de 1982
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André Rocha

Foto: Reprodução ESPN Brasil

Em entrevista ao repórter João Castelo-Branco, da ESPN Brasil, Pep Guardiola mostrou-se feliz e honrado, até emocionado, ao ser informado que, na gravação de um documentário sobre os 35 anos da derrota da seleção brasileira para a Itália em 1982, todos os jogadores daquela geração afirmaram que veem no futebol atual as equipes do treinador catalão com algo do time comandado por Telê Santana.

“É, provavelmente, o maior título que um treinador pode conquistar. As pessoas estão muito enganadas em pensar que só é título quando se ergue a taça. Não há coisa mais bonita que ver que uma geração de jogadores que jogou bola como esse Brasil de 1982 pode dizer coisas boas de uma pessoa ou dos times que ela treinou”, afirmou Pep em entrevista exclusiva.

No entanto, ao ser questionado duas vezes pelo entrevistador se aquele time foi uma influência na maneira de armar suas equipes, novamente foi político ao elogiar e concordar sobre o impacto que ela lhe causou, mas sem citá-la como referência em tática, estratégica ou modelo de jogo.

Impressão que vai ao encontro do que disse Martí Perarnau, autor dos livros “Guardiola Confidencial” e “A Metamorfose”, quando perguntado por este blogueiro se Guardiola tinha a escola brasileira como modelo:

“É verdade que depois de dois anos seguidos conversando com Guardiola sobre todo tipo de futebol, nunca houve um comentário de que o Brasil fosse uma referência tática para ele. Conversamos, sim, sobre aquela maravilhosa seleção de 1982, mas da mesma forma que qualquer um faz: aquela maravilha de Sócrates e companhia, uma pena que perdessem pelo que significou aquela derrota depois. Nada mais do que isso.”

De fato, basta uma pesquisa em entrevistas do treinador para perceber que suas referências são Marcelo Bielsa, Van Gaal, César Luis Menotti, Arrigo Sacchi, Juan Manuel Lillo e Johan Cruyff.

Mas é na Holanda que se encontra o ponto de encontro entre o Brasil de 1982 e Pep Guardiola: Rinus Michels e a sua seleção vice-campeã da Copa na Alemanha em 1974.

Porque Guardiola foi jogador de Cruyff no “Dream Team” do Barcelona no início dos 1990. Sempre teve o treinador como mestre. A maioria de suas ideias e de seus conceitos vêm da escola holandesa: pressão, movimentação, busca da superioridade numérica, qualidade na saída de bola e triangulações.

As mesmas que influenciaram Telê Santana em 1982. Pouco antes do início da segunda fase da Copa do Mundo contra Argentina e Itália, o treinador afirmou em entrevista ao Jornal do Brasil: “Temos um toque de bola e deslocamentos que desnorteiam os adversários, como a Holanda fez em 1974. Mas temos, acima de tudo, o que eles não tinham: a malícia, o toque perfeito e principalmente a criatividade”.

Não era raro ver a seleção brasileira no Mundial da Espanha fazendo pressão no campo adversário, recuando Falcão para qualificar ainda mais a saída desde a defesa e com muitos deslocamentos. A opção de Telê por não ter um ponta pela direita criou um problema defensivo que não foi corrigido – e o primeiro gol de Paolo Rossi no Sarriá deixa isso bem claro.

Por outro lado, nos jogos contra Argentina e Itália, a movimentação de Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico pelo setor renderam três dos cinco gols marcados. Primeiro Zico lançando, Falcão infiltrando como ponta e cruzando para Serginho marcar o segundo nos 3 a 1 sobre a Argentina. Diante da Itália, Zico limpou Gentile e lançou Sócrates às costas de Cabrini no primeiro; Falcão recebe, Cerezo passa como lateral, o meio-campista da Roma corta para dentro e marca um dos mais belos e emocionantes gols da história das Copas.

Sem contar as tabelas e triangulações em todo o campo. Com Éder aberto pela esquerda e Junior apoiando por dentro. O mesmo com Leandro do lado oposto com qualquer um do “quadrado mágico” no meio-campo que, na prática, formava um 4-2-3-1 meio “torto”, já que Éder era um ponteiro que recuava bastante para participar da articulação das jogadas. Futebol moderno dentro do contexto da época.

Mas perdeu. Para a Itália comandada por Enzo Bearzot, que também via influência da vice-campeã mundial de 1974 no time canarinho: “O futebol dos brasileiros está cada vez mais se aperfeiçoando. Parece a Holanda, com todos os jogadores trabalhando para o conjunto, sem destaque individual”, exaltou o treinador.

A última grande revolução do futebol mundial. O time de Rinus Michels comandado em campo por Cruyff. Com Krol, Neeskens, Van Hanegem, Rep e Rensenbrink. Do “arrastão” com dez jogadores correndo na direção do adversário com a bola. Da “pelada organizada”, como definiu João Saldanha pelo fato dos jogadores não atuarem fixos em suas posições. Craques técnicos e táticos, executando múltiplas funções.

O maior deles, Johan Cruyff, modelo para Guardiola. Treinado por Michels, exemplo para Telê. Eis a interseção, a conexão. Mais que isso, só a arrogância de ter certeza que tudo de bom que se faz no futebol mundial em todos os tempos foi invenção nossa.

Não foi, não é. Guardiola quer brasileiros no seu ataque para desequilibrar: pediu Neymar no Barcelona, levou Douglas Costa para o Bayern de Munique e hoje cobre Gabriel Jesus de elogios. Mas quer todo esse talento no último terço do campo.

Os alicerces de seu jogo vêm de outros pontos do mundo. Porque não se joga bola só por essas terras. Por mais que o Brasil de 1982 seja uma deliciosa lembrança.

 


Eder consagrou CR7. Lembre outros coadjuvantes que eternizaram gênios
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André Rocha

Cristiano Ronaldo mudou de patamar na história do futebol com a conquista da Eurocopa. Ficou maior. Se Messi não mais jogar pela seleção argentina, este título do português pode colocá-lo acima do seu grande rival nos tantos rankings e eleições individuais que aparecem por aí e sempre existirão.

Porque comparar é um hábito milenar do ser humano, até para criar modelos, padrões e organizar os pensamentos, se situar.

Só que estamos falando de um esporte coletivo. Não há vitória solitária. A frase “Cristiano Ronaldo ganhou a Eurocopa” passa pelo gol de Eder na decisão. Ou o de Traustason, da Islândia contra a Áustria, que jogou o hesitante Portugal da fase de grupos no chaveamento mais acessível, saindo da rota de Itália e Alemanha antes da final.

Os livros estão repletos de casos de coadjuvantes que salvaram gênios da bola eternizados por suas grandes vitórias. Vamos lembrar:

1 – Pelé/Clodoaldo

Copa de 1970, semifinal contra o Uruguai.  Tensão pelo confronto com o algoz em 1950. Gol de Cubilla em falhas de Brito e Félix, primeiro tempo se arrastando para o final e a lendária seleção brasileira a ponto de se desmanchar mentalmente. Atuação sem brilho do Rei, o grande destaque individual no México.

Gerson, meia-armador e organizador da equipe, está bem vigiado e não consegue abastecer o ataque. Em uma conversa rápida com os companheiros surge a ideia: trocar com Clodoaldo e passar a ser volante, atraindo a marcação e desarrumando o meio-campo adversário.

O camisa cinco se lança ao ataque, recebe lançamento de Tostão e marca o gol de empate que seria a senha para a virada espetacular no segundo tempo, com atuação mágica de Pelé, que quase marcou um gol antológico, fintando o goleiro Mazurkiewicz sem tocar na bola e por pouco não surpreendeu o goleiro numa saída de bola equivocada.

Caminho aberto para o tri e a consagração do camisa dez. Graças ao companheiro menos badalado do Santos.

2 – Maradona/Olarticoechea

A lembrança marcante como coadjuvante do “Pibe” é de Burruchaga marcando o gol do título sobre a Alemanha na decisão no Estadio Azteca. Mas sem a presença do ala pela esquerda de nome esquisito, talvez a história do jogo mais emblemático da conquista da Argentina em 1986 tivesse sido diferente.

Na memória do planeta, um gol de mão e outro simplesmente o mais espetacular de todas as Copas. Maradona, o herói do triunfo que transcendeu o futebol como vingança por conta da Guerra das Malvinas. Só que o jogo não acabou com o segundo toque de Diego para as redes inglesas.

John Barnes entrou aos 29 minutos do segundo tempo. Em 1984 havia marcado um golaço no Maracanã enfileirando brasileiros na vitória inglesa por 2 a 0. Um ponta talentoso, mas descartado por ser negro. Fez a jogada do gol de Lineker, o sexto do artilheiro daquele Mundial. E faria o do empate, em nova arrancada de Barnes, não fosse o toque salvador de Olarticoecha, tirando do camisa dez inglês que já havia se desmarcado do zagueiro Ruggeri.

O detalhe: quem perdeu a bola na intermediária que gerou esse contragolpe foi…Maradona. Já exausto, assim como seus companheiros. Com o empate, como seria a prorrogação? Não houve. Porque Olarticoecha salvou o “Dios” argentino.

3 – Zidane/Blanc

Zinedine Zidane não perdeu a cabeça e foi expulso apenas na tão tola quanto lendária cabeçada no peito de Materazzi na final da Copa de 2006.

Em 1998, na vitória tranquila por 4 a 0 sobre a Arábia Saudita ainda na segunda partida da fase de grupos pisou em um adversário sem nenhuma necessidade e levou o cartão vermelho. Suspenso por dois jogos.

Ou seja, ficou de fora do duelo contra o Paraguai de Chilavert e Gamarra nas oitavas-de-final. Um dos sistemas defensivos mais sólidos e organizados daquela Copa. Zidane viu sua seleção rondar a área, sofrer e ser obrigada a já na primeira disputa eliminatória jogar uma prorrogação com “morte súbita”.

Um gol paraguaio e o camisa dez que pulverizaria o Brasil na decisão e entraria para o olimpo da bola iria para casa. Mas Laurent Blanc – sim, o ex-técnico do Paris Saint-Germain e ótimo zagueiro – fez o primeiro “golden goal” da história das Copas e salvou a pele de seu compatriota. Oito anos depois, Zizou não teve a mesma sorte e a Itália venceu nos pênaltis.

4 – Beckenbauer/Vogts

Até a decisão da Copa de 1974 em Munique, o craque do torneio era Johan Cruyff, gênio do “Carrossel Holandês”, a última grande revolução do esporte arquitetada fora do campo por Rinus Michels.

No primeiro minuto da final, justificou o status com uma arrancada desde a defesa  – era o último homem quando recebeu a bola! – e ser derrubado por Schwarzenbeck. Pênalti convertido por Neeskens. O primeiro a ser driblado foi Bert Vogts. Lateral direito de origem, mas que por ser um abnegado e incansável marcador foi designado para perseguir o falso centroavante holandês por todos os campos.

Mais ou menos o que Gentile faria com Zico e Maradona oito anos depois. Tempos de marcação individual. Deu certo. Vogts anulou Cruyff, facilitou a vida do líbero Franz Beckenbauer, que liderou sua seleção para a virada por 2 a 1 e consagrou o “Kaiser” com seu único título mundial como jogador.

Em 1990 seria o segundo, depois de Zagallo, a ser campeão como jogador e treinador. Talvez a história tivesse sido bem menos generosa com Beckenbauer se não fosse a dedicação de Vogts no cerco a Cruyff.

5 – Romário/Branco

Quando se fala de grandes atuações individuais em Copas do Mundo, as lembranças recaem sobre Maradona em 1986, Garrincha em 1962 e Romário em 1994, tal a dependência da seleção brasileira treinada por Carlos Alberto Parreira.

Nos Estados Unidos, o camisa onze foi protagonista em praticamente todas as partidas. Na final contra a Itália perdeu gol feito, mas carregava o mundo nas costas naquela tarde tórrida no Rose Bowl. Foi corajoso na decisão por pênaltis ao pedir para bater sem ser um dos cobradores escolhidos.

Mas, a rigor, a sólida equipe só se viu fragilizada em um único momento daquela Copa: as quartas-de-final contra a Holanda: 2 a 0, com golaço de Romário, que virou 2 a 2 em poucos minutos por total desconcentração da defesa. Os 24 anos sem títulos pesaram como nunca. Time desorganizado e exposto.

Até Branco cavar uma falta em um lance que mais pareceu infração do lateral esquerdo, que largou a mão no rosto de um adversário. Cobrança forte e precisa, choro do gaúcho que superou problemas físicos para substituir Leonardo, expulso nas oitavas contra os Estados Unidos.

Romário fez contorcionismo para sair da bola. Imaginem se ela explodisse nas costas do Baixinho e fosse para fora…

Nunca saberemos. Porque o futebol é imprevisível como a vida. E nas pequenas vitórias do cotidiano dependemos de tanta gente…Assim como os gênios da bola precisaram de companheiros menos famosos para ocuparem seus tronos. Vale a lembrança.

 


Adeus, Cruyff! Duas frases do gênio holandês que resumem o futebol atual
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André Rocha

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A revolução da Holanda de 1974 tinha nome. Estrela por entender como ninguém a essência do futebol coletivo. O representante em campo do mentor Rinus Michels, que armava sua seleção no 4-3-Cruyff-2. Com movimentação, compactação, marcação pressão e posse de bola.

Johan Cruyff perde a luta contra o câncer. Mas parte deixando tantos legados que não cabem em um post. O maior deles: pensar o esporte, o jogo.

Em homenagem a um dos maiores da história, seguem duas frases que resumem o futebol atual, que carrega as impressões digitais de Pep Guardiola e do Barcelona, dois “filhos” do holandês, que comandou o “Dream Team” catalão nos anos 1990:

– “No meu time, o goleiro é o primeiro atacante e o atacante, o primeiro defensor”;

– “Em uma partida de futebol os jogadores tem a posse de bola por no máximo 3 minutos, então o mais importante é o que fazer nos 87 em que você não tem a bola”.

 

Típico Cruyff. Vá em paz! Mas vai fazer falta.

 


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