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Nem Deus, nem farsa. Pep Guardiola é apenas o melhor em 10 anos de carreira
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André Rocha

Foto: Laurence Griffiths/Getty Images

Há muita romantização em torno da figura de Pep Guardiola. Alimentada por uma certa carga dramática e poética de Martí Perarnau em seus livros sobre o treinador, ainda que ele também desconstrua alguns mitos. Especialmente o de que é um esteta que despreza os resultados em nome da arte de jogar futebol.

A conquista da Premier League pelo Manchester City é o sétimo título em campeonatos nacionais por pontos corridos. Ou oitavo, se considerarmos a primeira experiência no Barcelona B campeão da terceira divisão espanhola. Em dez anos de carreira, com o hiato em 2012/13.

Com as duas Ligas dos Campeões que conquistou no Barça, o currículo construído até aqui é invejável. 23 títulos no total. José Mourinho tem 18 anos de carreira, Jurgen Klopp um a menos que o português, Carlo Ancelotti há 23 no comando técnico, 16 a menos que Jupp Heynckes. Antonio Conte tem uma temporada a mais que Guardiola. Mas nenhum chega perto na média de conquistas por temporada. Zidane com suas duas Champions e a liga espanhola pelo Real Madrid é quem parece competir nos resultados imediatos. Mas há um fator preponderante além dos títulos que separa Pep de seus pares: a influência na evolução do jogo.

Ele mesmo admite não ter inventado nada, só recombinado ideias. Mas basta um olhar mais atento à prática do esporte nos últimos dez anos para notar a mão do catalão. Tanto na proposta que virou a sua marca, com o jogo de posição através da construção desde a defesa com passes buscando a superioridade numérica no setor em que está a bola e a pressão sufocante após a perda, como nas respostas dos adversários.

A partir do “ônibus” de Mourinho até o caos de intensidade e pressão de Klopp. O maior mérito de Guardiola foi gerar ainda mais inquietação e busca de novas soluções em um esporte que se transforma o tempo todo. Com ele o futebol evoluiu 30 anos em dez. Eis o ponto de sua genialidade.

Talento que incomoda. Talvez por não fazer parte da elite do futebol mundial em termos de seleções: Brasil, Alemanha, Itália e Argentina. O que os gigantes teriam a aprender com um cara da Catalunha? Os tradicionalistas ou puristas preferem o jogo mais lúdico, menos intenso. Outros o mais físico, de choque. Ou simplesmente o costume no futebol de torcer pelo lado mais fraco.

Mas Guardiola não é infalível, longe disso. A obsessão pela vitória tem atrapalhado na Liga dos Campeões. Os relatos de Perarnau em seus livros descrevem um homem atormentado, dando voltas e voltas em torno do próprio time e do oponente em busca de algo diferente para surpreender. Não tem dado certo e já são cinco eliminações seguidas. Na maioria das vezes contando com o melhor jogo coletivo do continente.

Mas pecando em escalações e estratégias, passando do ponto, tirando naturalidade e carregando tensão em seus comandados. Sucumbindo diante de Cristiano Ronaldo, do “pupilo” Messi, da fortaleza defensiva de Simeone, do “one hit wonder” do Monaco e do “maluco beleza” Klopp.

Algo para melhorar, aprender. E Guardiola é louco por aprendizado e crescimento profissional. Não é e nunca foi um homem acomodado e “engenheiro de obra pronta” como acusam seus “haters”. Basta um resgate histórico feito com honestidade para posicionar as coisas.

Ele chegou ao comando do time principal do Barcelona depois de temporadas fracassadas de Frank Rijkaard. Elenco desgastado e envelhecido. Deco e Ronaldinho Gaúcho saíram e ele reconstruiu a equipe que tinha, sim, algumas estrelas. Mas não para automaticamente se transformar em uma equipe histórica, a melhor que este blogueiro viu em ação acompanhando futebol há mais de três décadas.

É óbvio que Guardiola estava bem confortável em Barcelona. Conhecia o clube e o que fez foi apenas acrescentar ou resgatar elementos da filosofia implementada por Johan Cruyff. Potencializou todos os talentos e criou uma simbiose quase perfeita. Natural que as grandes conquistas tenham sido em seu “berço” logo no início de sua trajetória no ofício de liderar fora de campo.

Mas ao analisar sua partida para Munique é preciso contextualizar o momento do acerto. Final de 2012. A realidade do Bayern era a perda da hegemonia nacional para o Borussia Dortmund de Klopp, então bicampeão nacional, e a derrota dura nos pênaltis para o Chelsea na final da Champions em casa. Heynckes questionado e partindo para a aposentadoria. O clube queria reciclar sua maneira de praticar o esporte e, claro, voltar a vencer.

O primeiro semestre de 2013, porém, apresentou o cenário de um time bávaro faturando a tríplice coroa e se impondo como o modelo. Guardiola chegou como contracultura e sofreu uma resistência maior do que a esperada. Aquilo citado acima: os alemães ganharam tudo sem Pep, por que teriam que se curvar a ele?

Direção, jogadores e o responsável pelo comando técnico acabaram aprendendo juntos e cresceram. Sobraram na Bundesliga, também pelo enfraquecimento do rival Dortmund que perdeu as maiores estrelas justamente para o Bayern. Viraram referência de futebol bem jogado no planeta e influenciaram diretamente no estilo da Alemanha campeã mundial, assim como o Barcelona fizera com a Espanha quatro anos antes.

Agora o Manchester City. Clube menos tradicional em uma liga bem mais parelha, embora não superior em técnica e tática à espanhola. Sofrimento na primeira temporada pela total falta de controle das partidas através da posse. Também por conta de um elenco envelhecido e desalinhado às ideias do treinador. Era preciso aprender e se adaptar. Com o Chelsea de Conte tomando a liderança e disparando, os detratores foram implacáveis: “Acabou a moleza dos campeonatos de um time só!”

Pois Guardiola fez sua equipe reinar absoluta em 2017/18. Conquista com cinco rodadas de antecedência, apenas duas derrotas. Números e desempenho impressionantes. E ainda faturando a Copa da Liga de carona.

Sim, gastando mais do que os outros. Mas rendendo bem acima na média do que a diferença entre os orçamentos. Tornando o time mais objetivo quando necessário e circulando a bola com mais velocidade. Na base titular com apenas dois acréscimos em relação à temporada passada: Ederson no gol e Walker na lateral. No mais, quase sempre um 4-3-3 com jogadores amadurecidos dentro da ideia de jogo. Especialmente De Bruyne, o melhor na média de atuações.

De novo os críticos reduzem o feito como se o Inglês de uma temporada para outra tivesse se transformado numa Bundesliga ou Ligue 1. A única semelhança é que um time reinou absoluto. O melhor, disparado. 88% de aproveitamento, ataque mais positivo e defesa menos vazada. Líder em posse de bola, acerto de passes, finalizações. Incríveis 28 vitórias em 33 partidas. Na liga mais parelha e dos jogos malucos.

Para ratificar a distância, os simbólicos 3 a 1 sobre o forte Tottenham em Wembley depois da traumática eliminação na Champions para o Liverpool, enquanto o United de Mourinho perdeu vergonhosamente em casa para o lanterna West Bromwich. A matemática apenas confirmava o óbvio.

Mais uma conquista para a década de Guardiola. Genial, sim. Mas com muito a amadurecer e corrigir. Ainda é jovem, embora a fisionomia cansada já revele sinais do enorme desgaste mental. Vai ganhar minutos, rodagem, enfrentar novos cenários. Crescer.

Nem Deus, nem uma farsa. Humano, porém na justa primeira prateleira pela contribuição ao jogo respaldada por resultados consistentes. Como nenhum outro, ao menos por enquanto. Tão bom que até quem o detesta exige o impossível que parece menos improvável para ele: vencer tudo e com o “plus” do espetáculo.

Amado e odiado. Simplesmente por ser o melhor entre seus contemporâneos. Nada mais, nem menos.


Por que Guardiola valoriza tanto a liga e o que o Arsenal quer com Wenger?
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André Rocha

Mais um 3 a 0 longe em Londres sobre o Arsenal. O primeiro em Wembley rendeu o título da Copa da Liga Inglesa, o primeiro de Pep Guardiola no comando do Manchester City. Agora no Emirates Stadium ratifica a liderança absoluta com 16 pontos de vantagem. Praticamente impossível tirar essa vantagem em dez rodadas, ainda mais com os citizens encarando Chelsea e United no seu estádio. Só não dá para garantir porque é futebol.

Ainda que bola não falte à equipe que sobra no país e joga o futebol mais consistente da Europa. Cada vez mais versátil, capaz de fazer gols como o de Aguero completando lançamento longo do goleiro Ederson ou de David Silva nesta segunda partida finalizando bela troca de passes. Time letal com ou sem posse, pressionando a saída de bola rival e sabendo acelerar dentro do padrão do futebol jogado na Inglaterra. Guardiola conseguiu em 100 jogos como treinador do clube.

A cada rodada mais absoluto. 24 vitórias, três empates e ainda a derrota solitária para o Liverpool. 89% de aproveitamento. Melhor ataque com incríveis 82 gols, 17 a mais que o dos Reds. Defesa menos vazada com 20 junto com os Red Devils de Mourinho. Líder em posse, mas também em vitórias no jogo aéreo, finalizações e qualidade nos passes. Completo.

Porque Guardiola valoriza a liga, como confirmou esta semana em entrevista que a prioridade nesta temporada é a Premier League. Exatamente por não permitir que uma noite ruim elimine a melhor equipe. É a certeza da premiação do trabalho bem feito. Jogo a jogo, estudo a estudo do adversário. Não por acaso vai para a sétima conquista em nove disputas nacionais com Barcelona, Bayern de Munique e agora com o City. Fazendo o time evoluir e o desempenho construir resultados. Como deve ser.

Como Arsène Wenger não faz mais no Arsenal. Sexto colocado, oito pontos atrás do Chelsea, o quinto. Fora até da zona de classificação para a Liga Europa. Por mais que doe criticar o homem que ajudou a resgatar o Arsenal e evoluir o jogo na Inglaterra, o tempo passou para o francês. O olho clínico para jovens talentos, a vocação ofensiva e o estilo empolgante ficaram pelo caminho e a direção do clube não percebeu que os Gunners não podiam sonhar tão pequeno.

A realidade é que o Arsenal hoje é um clube morno, mesmo para o padrão europeu de manutenção do trabalho de treinadores/managers. Não entra mais na rota dos grandes jogadores, ainda que tenha trazido nomes como Lacazetti e Aubameyang. Mas a falta de ambição e a manutenção numa “zona morta” sem mudanças apequenaram um gigante inglês que se contenta com as copas nacionais e luta por vaga na Champions. Ultimamente sem sucesso. Está acima de qualquer questão técnica ou tática. Um olhar mais atento para o campo é suficiente para perceber que não vai a lugar algum.

Com os cinco times do país com chances de chegar às quartas da Liga dos Campeões o abismo fica claro. Diante do City de Guardiola mais ainda. Afinal, o que o Arsenal ainda quer com Wenger?

(Estatísticas: WhoScored.com)


Vá se preparando! Vem aí o Brasil de Tite com jogo de posição e no 2-3-5
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André Rocha

Foto: EPA

Tite concedeu as últimas entrevistas exclusivas antes da convocação para os amistosos contra Rússia e Alemanha em março. Depois vai se concentrar no trabalho e só ouviremos o treinador em coletivas até a Copa.

Em todas foi possível pescar algo das ideias do comandante da seleção. Está mais que clara sua obsessão por furar linhas de cinco depois de bater no muro da Inglaterra em Wembley. Este blog se dá o direito de recordar que foi o primeiro espaço a alertar para a dificuldade que seria enfrentar as retrancas “handebol”  – leia ou lembre AQUI.

A boa notícia é que Tite já tem um norte a seguir: o jogo de posição. Ou localização. Um conceito complexo de futebol que tem origem na escola holandesa e Pep Guardiola virou o grande expoente e disseminador atualizando o que lhe foi ensinado por Johan Cruyff quando foi seu técnico no Barcelona nas décadas de 1980/90.

É complexo, mas tem lógica. Desde que passou a existir o time grande e o pequeno no futebol surgiu o duelo ataque x defesa. A equipe com mais recursos e/ou tradição é obrigada a ocupar o campo adversário porque o menor, por opção ou instinto, vai se retrancar concentrando jogadores para proteger a própria meta.

O jogo de posição procura dar inteligência e ordem na hora de atacar. O que você precisa para enfrentar uma retranca?

Primeiro uma saída de bola com qualidade para se instalar no campo de ataque sem correr o risco de um erro de passe pegar o time saindo e, consequentemente, desarrumado e exposto. Para isso, o goleiro com técnica de passador é fundamental para auxiliar e ser um homem a mais na construção. Tite tem Alisson e Ederson, excepcionais.

Uma vez no campo adversário, qual a necessidade? Jogadores próximos, criar superioridade numérica no setor em que está a bola, iniciar a jogada de um lado e terminar do outro. Tudo para iludir um time com nove ou dez homens de linha em cerca de cinquenta metros.

O que é a amplitude? Ter jogadores bem abertos para que o oponente não fique confortável bloqueando a zona mais perigosa que é a central. Alargar o campo também abre mais brechas para infiltrar.

Aí entra a profundidade, que não é só chegar à linha de fundo pelos flancos. Mais importante é entrar no espaço às costas da defesa para finalizar. Pelo meio ou através das diagonais. Sem isso só restariam os chutes de média e longa distância, outra arma poderosa contra ferrolhos.

Para criar, o jogo entrelinhas. Nada mais do que os jogadores procurarem os espaços entre os setores do adversário para receber a bola com liberdade, sem pressão. Especialmente os meio-campistas mais criativos para encontrar liberdade e dar o passe qualificado para a assistência ou a finalização. Aquilo que Messi faz como ninguém e Neymar vem desenvolvendo no PSG.

E como se defender? Bem, se o time está com praticamente todos os jogadores no outro lado, bem longe da própria meta, você tem que matar a origem do contragolpe. Aí entra o “perde e pressiona” que começa com o jogador que perdeu a bola ou quem estiver mais próximo dela. Abafar para não ser surpreendido.

Se o time toca, roda a bola e pressiona para recuperá-la rapidamente, a tendência é ter mais posse que o adversário. Ou seja, é uma consequência natural e não um fim em si mesma. Por isso Guardiola disse detestar o “tiki-taka”. Porque no jogo de posição, como vimos, tudo tem um porquê.

Dito tudo isso, não deixa de ser irônico que tantos no Brasil acreditem que o treinador catalão copia o futebol brasileiro. Aquele que sempre abriu retrancas no drible, no improviso. Tudo que Guardiola não quer. Ou apenas no lugar certo.

A sofisticação no ato de atacar gerou como resposta a inteligência na hora de defender. José Mourinho tirou o estigma da vergonha da retranca. Para parar o Barça histórico, linhas praticamente chapadas com no mínimo oito jogadores bloqueando os espaços certos. Se o objetivo final do jogo de posição é infiltrar na área, nada mais lógico que distribuir jogadores na região mais perigosa para evitar. Por isso a linha de cinco.

Que pode virar até de sete quando essa linha fica mais estreita, com jogadores mais próximos, e os dois meias ou ponteiros voltam pelos lados como laterais. É a hora em que vira linha de handebol.

O Brasil voltou a figurar na lista de favoritos com a recuperação comandada por Tite. E exatamente por esse favoritismo que o treinador brasileiro precisou estudar e introduzir conceitos antes pouco explorados. Não é por acaso que antes Carlo Ancelotti fosse sua referência e hoje seja Guardiola e o Manchester City.

Está claro que o time base terá que ser alterado com essa mudança de paradigma. Daniel Alves e Marcelo são laterais construtores, palavras de Tite. Ou seja, organizam mais e tendem a procurar o centro, não atacam tão abertos. Paulinho infiltra por dentro. Philippe Coutinho sai da direita para o meio. Neymar pela esquerda também corta para o pé direito. Gabriel Jesus é atacante de infiltrar nos espaços às costas da defesa. Que espaço numa linha de cinco?

Foi o problema contra a Inglaterra. O antídoto, ao menos na primeira fase contra Suíça, Costa Rica e Sérvia? Um sistema ultraofensivo que remete aos primórdios do futebol: o 2-3-5. Ou “pirâmide”. A antítese da linha de cinco atrás. Ou melhor, a inversão. Cinco no ataque. Na prática, é o adiantar e reorganizar as linhas do 4-1-4-1/4-3-3. Guardiola aplicou em todas as suas equipes sempre que enfrentou defesas mais fechadas.

Funciona assim: os dois zagueiros ocupam a linha média. Mais à frente, laterais atacando mais por dentro, como meio-campistas. No Bayern de Munique, Lahm e Alaba. Tite terá os dois melhores do mundo: Daniel Alves e Marcelo. Criando e também sendo os primeiros a ajudar os zagueiros no caso da surpresa de um contra-ataque.

Fazendo companhia a um volante, ou médio, com papel fundamental: é o homem da distribuição das jogadas, da inversão de lado, do desafogo, da opção de volta da bola para concatenar outro ataque. O titular é Casemiro, mas pode vir a ser Fernandinho, mais habituado a executar o jogo de posição como primeiro articulador.

Na frente, cinco jogadores. Que não funcionam em linha, é claro. Dois ponteiros para dar a amplitude citada acima, já que os laterais atacarão por dentro. Na seleção pode ser um pouco diferente: pela direita, Willian, que dentro desta ideia parece cada vez mais titular, bem aberto e Daniel Alves por dentro. Do lado oposto, Marcelo pode aparecer pelo flanco porque será um desperdício Neymar ficar isolado como um ponta para participar menos do jogo e dar o último passe. Precisa ter liberdade.

Porque a ideia central desta proposta é a bola chegar ao jogador posicionado e não o contrário. Ainda que haja movimentos de ida e volta, como os meias por dentro. Philippe Coutinho parece certo como um desses homens buscando espaços entre as linhas. Aberto como ponta, sem procurar o centro, vai ficar ainda mais deslocado, desconfortável. Deve ficar com a vaga de Renato Augusto, que perdeu espaço e confiança de Tite. O outro seria Paulinho, mas a dificuldade para participar do controle do jogo com a bola que mostra no Barcelona tende a dificultar a manutenção da titularidade. A menos que Tite sacrifique a criatividade em nome da força e do timing para aparecer na frente.

Por isso a busca do “ritmista”. O outro meia que fará a bola chegar na frente com qualidade. Acelerando e desacelerando, ditando o ritmo. Se não tem alguém com as características de David Silva em alto nível, o treinador procura esse jogador em Diego, Lucas Lima, Fred (Shakhtar Donetsk) ou Jadson. Também pode ser Arthur do Grêmio. Por erros na nossa formação de meio-campistas este deve ser o nosso grande “gargalo” na Copa do Mundo.

No centro do ataque, Gabriel Jesus como jogador do último toque como funciona no City, e a adaptação ao estilo é uma vantagem, ou Firmino abrindo espaços, recuando para tabelar com os meio-campistas e permitindo as infiltrações em diagonal dos ponteiros. Ou mesmo os dois numa proposta ainda mais ousada para ter dois finalizadores.

Uma das formações possíveis no 2-3-5 para colocar em prática o jogo de posição: Willian e Neymar nas pontas para dar amplitude, mas com o camisa dez ganhando liberdade para circular e Marcelo atacando pelo flanco esquerdo. Fernandinho seria o titular como o volante por dominar os conceitos no Manchester City de Guardiola, grande referência de Tite na montagem da seleção para furar linha de cinco na defesa (Tactical Pad).

Sim, parece tarde para tamanha revolução. Muitos conceitos para poucos jogos e treinamentos. Mas é isto ou bater no muro como em Wembley. A boa notícia é que boa parte dos jogadores já praticou o jogo de posição nos seus clubes em algum momento. A questão é fazer juntos.

Arriscado demais? Tudo pode ruir numa saída rápida de contra-ataque? Claro, mas o Brasil sempre correu este risco em Copas. Quem se abre contra a camisa cinco vezes campeã mundial? A Holanda, que não estará na Rússia, a Argentina pela rivalidade e, talvez, Espanha e França. A grande maioria espera para surpreender. Então nenhum país precisa mais dominar o jogo de posição que o nosso.

Tite sabe disso e deve estar sendo duro se desapegar de certas convicções. Mas segue debruçado sobre os conceitos, os mais avançados na prática do esporte na atualidade, que já vêm sendo abordados nas entrevistas do técnico – e já há quem reclame dele estar “abrindo o jogo”, como se as outras seleções, ao menos as grandes, não tivessem equipes de análise de desempenho com softwares avançados para observar isso no campo, onde mais importa.

Até o início do Mundial serão transferidos para os debates sobre futebol na TV, no rádio, na internet. Já é possível vislumbrar, sem exageros, o maior embate ideológico da história do nosso jornalismo esportivo.

De um lado os que estão conectados ao futebol atual jogado nos principais centros do mundo, com seus excessos e preciosismos na maneira de comunicar ou não, e os que renegam tudo por saudosismo, pensamento conservador, preguiça ou seja lá o que for e menosprezam reduzindo tudo a modismos, neologismos, invenções, etc.

No final, como tudo no futebol brasileiro, o resultado é que vai falar mais alto. Se vier o hexa será a chance do país dar um salto conceitual com a valorização do estudo e da evolução. Se perder, e como perder, virá o discurso de sempre que ajuda a travar o desenvolvimento do esporte por aqui.

Portanto, vá se preparando! O Brasil de Tite, ainda que mais por necessidade que convicção, vai sacudir e virar do avesso as estruturas do nosso jogo.

 

 

 


Bayern de Heynckes merece respeito, mas será difícil repetir feito de 2013
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André Rocha

A expulsão de Domagoj Vida aos 16 minutos obviamente tornou ainda mais desigual o confronto na Allianz Arena e o Besiktas de Vágner Love não tinha como resistir. Com os 5 a 0 construídos com o primeiro gol, de Thomas Muller, no final do primeiro tempo e mais quatro no segundo  – outro do camisa 25, dois de Lewandowski e um de Coman – o Bayern de Munique encaminhou a vaga nas quartas de final da Liga dos Campeões.

Mais que isso, aumenta a série de vitórias para 14 desde a derrota por 2 a 1 para o Borussia Monchengladbach. A única de Jupp Heynckes desde que deixou a aposentadoria aos 72 anos para suceder Carlo Ancelotti até o final da temporada – até aqui sem chances de renovação de contrato.

No total, 22 triunfos, um único revés e só um empate , contra o Leipzig pela Copa da Alemanha, mas com classificação na disputa por pênaltis. 63 gols marcados, quase três por jogo, e 17 sofridos, menos de um por partida. Impressionantes 93% de aproveitamento que aumentam a esperança de repetir a tríplice coroa de 2012/2013. Com um time inesquecível para os bávaros e marcante para o futebol mundial, mesmo que por apenas uma temporada.

Porque foi o “pai” do futebol por demanda. O time alemão era um camaleão, perfeitamente adaptável às necessidades de cada jogo. Sabia jogar na paciência com posse ou na fúria com agressividade e muita velocidade. Atropelou o Barcelona na semifinal da Liga dos Campeões com 7 a 0 no agregado e menos de 40% de posse de bola na média.

A equipe atual também é fléxivel. Pode trocar passes no ritmo de James Rodríguez ou abusar das jogadas pelos flancos, como na segunda etapa para cansar e abrir o Besiktas: Robben e Coman nas pontas fazendo duplas com Kimmich e Alaba procurando Muller e Lewandowski na área.

Na Bundesliga sobra com 19 pontos de vantagem no topo da tabela e liderando em posse, acerto de passes e finalizações. No torneio continental é top 5 em tempo com a bola, aproveitamento nos passes e vitórias no jogo aéreo. Também lidera nas finalizações.

No duelo mais forte até aqui, impôs os mesmos 3 a 1 sobre o PSG que o Real aplicou na semana passada. Ainda que os dois estivessem classificados, o jogo foi tratado como teste importante e o time alemão mostrou força. Tolisso foi destaque e ontem começou no banco entrando na segunda etapa. O elenco é robusto.

No entanto, mesmo com todos os predicados listados acima, a missão agora é mais complicada do que há cinco anos.

Primeiro porque não existe a “fome” daquela época. O Bayern havia perdido na temporada anterior a final da Champions em casa para o Chelsea nos pênaltis e sofreu com o Borussia Dortmund de Jurgen Klopp bicampeão alemão. Havia motivação também nos jogadores que formavam a base da seleção em busca da conquista que consagraria essa geração. No ano anterior, eliminação na semifinal da Eurocopa para a Itália.

Agora há um título mundial no currículo dos que seguem no clube, mais um pentacampeonato nacional caminhando para um inédito hexa. Heynckes também não conta com dois pilares fantásticos: Lahm e Schweinsteiger. Praticamente insubstituíveis. Sem contar a ausência do lesionado Neuer, mesmo com as boas atuações do goleiro Sven Ulreich.

Mas principalmente por não haver no país um rival tão forte como era o Dortmund. Vice alemão com 25 pontos a menos, mas finalista da Liga dos Campeões. Ou seja, alguém para medir forças e subir o nível. Agora não existe este opositor, tanto que não há outro alemão disputando o mata-mata. A falta de concorrência tem atrapalhado quando o principal torneio de clubes do planeta afunila.

Ainda assim é bom respeitar o velho Heynckes e sua química com a equipe de Munique. De novo sem alarde e o poder midiático dos tempos de Pep Guardiola, mas com camisa e qualidade para desafiar qualquer um na Europa. Quem sabe para consagrar de novo a aposentadoria do treinador?

(Estatísticas: WhoScored.com)

 


Nos 500 jogos de Guardiola, o mais importante não são os números e títulos
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André Rocha

Pegando carona no levantamento dos colegas portugueses de “A Bola” sobre os 500 jogos de Guardiola como treinador, o último na vitória sobre o Bristol City por 3 a 2 que garantiu o Manchester City na final da Copa da Liga Inglesa, vale uma reflexão sobre a relevância do treinador catalão.

Os números, de fato, impressionam. São 368 vitórias, 78 empates e 54 derrotas. Marcou 1249 gols, sofreu 381. 18 títulos – 11 com o Barcelona, sete com o Bayern de Munique.

Para quem olha apenas o aproveitamento em oito temporadas e meia já é possível colocá-lo entre os melhores da história. Ainda que, de fato, tenha faltado ao menos uma conquista da Liga dos Campeões com o Bayern.

No entanto, o que torna Guardiola um treinador para a história é sua interferência no jogo. O esporte se transformou com o seu Barcelona e a evolução do comportamento de seus adversários para enfrentá-lo.

É isto que faz Rinus Michels vencer quase invariavelmente as eleições de melhor treinador de todos os tempos. Seu trabalho mais marcante, a Holanda de 1974, foi justamente o que não terminou com título. Mas a revolução de conceitos foi levada ao Barcelona por Johan Cruyff e Guardiola atualizou combinando com outros princípios de jogo.

Pressão, posse de bola, superioridade numérica, busca do homem livre. Time ataca preparado para roubar a bola assim que a perde e se defende pronto para sair em velocidade com mais jogadores que o adversário.

“Ladrão de ideias”. Sempre aberto ao aprendizado, se questionando. Em constante mutação para ser melhor e mais competitivo. Inquieto, inventivo. Genial.

Como qualquer profissional acerta e erra. Assume a responsabilidade pela eliminação do Bayern para o Real Madrid na semifinal da Liga dos Campeões 2013/14 ao ceder generosos espaços para Cristiano Ronaldo e o jogo de contragolpe de Carlo Ancelotti.

Algumas vezes se arriscou demais, como diante do Barcelona no Camp Nou, também na semifinal do torneio continental na temporada seguinte. Mesmo com muitos desfalques, começou com três defensores no mano a mano contra Messi, Suárez e Neymar para ter superioridade no meio-campo.  Corrigiu a insanidade ainda no primeiro tempo, mas seguiu buscando o ataque até ser punido pelo gênio argentino. Aquele mesmo que de um ponteiro habilidoso virou um craque completo nas mãos de Pep.

Melhorar atletas e equipes, eis o grande mérito de Guardiola mal compreendido, especialmente no Brasil. Terra das soluções fáceis, onde muitos tratam o treinador como um mero distribuidor de camisas em elencos milionários. O “engenheiro de obra pronta”.

Tudo que Guardiola não é. Basta olhar para o campo. No atual City, a base titular tem apenas duas novidades: Ederson e Walker. Peças importantes, sem dúvida. Mas é clara a evolução como equipe. Comandados assimilando melhor o estilo proposto e o comandante aprendendo com eles, com a Premier League. Jogo a jogo.

Partida a partida, Guardiola construiu um fantástico retrospecto. Conquistado treino a treino, a cada estudo de adversário, a cada partida que assiste e tenta aprender algo e aplicar no seu trabalho. Para ele, o Barcelona histórico já é passado. Quantos treinadores não se fixariam naquela fórmula tentando repetí-la para sempre desconsiderando os contextos e, principalmente, a ideia de que tudo evolui, se recombina e vira outra coisa.

Por isso é o melhor do seu tempo. Por isso conquistou o direito de buscar as melhores condições para exercer o seu ofício. Não a visão torta de muitos que dizem que só vão respeitá-lo no dia em que vencer num clube menos abastado e poderoso – e é claro que muitos, se um dia isto acontecer, inventarão outro “desafio” para atestar sua competência.

Alguém imagina um cirurgião renomado aceitando operar alguém num ambiente inóspito para mostrar que é mesmo bom no que faz ou um chef consagrado preparando um prato sofisticado numa cozinha suja e sem a devida aparelhagem?

Para o mundo, Guardiola ganhou esse status por conquistar a tríplice coroa em sua primeira temporada na nova função. Pelos impressionantes 78,8% de aproveitamento na carreira. Na prática, porém, ele é o melhor por estar em constante aprimoramento. Ao reciclar a si mesmo, reinventa o próprio futebol. Eis o mais importante, não os títulos e os números.

Que venham mais quinhentos jogos revolucionando o esporte bretão com o toque catalão.

 


A segunda revolução de Pep Guardiola
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André Rocha

Se o futebol evoluiu 25 anos desde 2008 nos aspectos táticos e no jogo coletivo deve muito a Pep Guardiola. Não que o catalão tenha criado algo absolutamente original – ele mesmo diz que é um mero “ladrão de ideias”. Mas combinando conceitos construiu um modelo de jogo no Barcelona que virou do avesso o esporte bretão.

Não só por sua filosofia, mas pela exigência de uma resposta de outras equipes e treinadores. José Mourinho montou sua “linha de handebol” com a Internazionale e fez o jogo defensivo ganhar inteligência e sofisticação sem precedentes na negação de espaços. Estava criada a dicotomia do futebol mundial.

Com o tempo, o jogo mais complexo foi gerando outros conflitos. Times com posse e protagonistas sendo domados por fortes bloqueios e contragolpes letais. Mas também equipes reativas sofrendo quando precisavam criar espaços e jogar no campo de ataque. A evolução cobrando conjuntos inteligentes, capazes de alternar propostas e ações de acordo com necessidade, adversário, contexto.

É o futebol por demanda, tratado neste blog com o Real Madrid bicampeão da Liga dos Campeões comandado por Zinedine Zidane como o exemplo mais bem sucedido liderando um movimento.

Guardiola sofreu em sua primeira temporada na Inglaterra. Sem a reformulação que desejava no elenco envelhecido e vendo suas ideias sem encaixe na dinâmica do futebol inglês. Em muitos jogos foi uma equipe de posse estéril e muito exposta no bate e volta muitas vezes insano da Premier League. Foi o primeiro ano sem conquistas. Ainda assim, conseguiu cumprir a meta básica de colocar os citizens novamente na Liga dos Campeões.

Renovação do grupo de jogadores, especialmente nas laterais com Walker, Mendy e Danilo. Ederson para encarar a missão de ser o goleiro excelente com a bola nos pés que Bravo não foi. Mais saúde para resistir às adaptações dos princípios inegociáveis do comandante depois de um ano mais aprendendo do que tentando impor sua visão de futebol.

O resultado até aqui na temporada 2017/18 é a segunda revolução de Guardiola. Futebol por demanda na veia, porém um pouco mais propositivo que o Real Madrid. Quer a bola para comandar o jogo, mas com leitura partida a partida.

Guardiola é um treinador de ligas. Não por acaso vai encaminhando com 15 pontos de vantagem na liderança o sétimo título nacional em nove temporadas. Trabalho baseado no foco na evolução contínua do desempenho para conquistar os resultados. Sem relaxamento. Por isso as muitas conquistas com enorme antecipação e vantagem, especialmente na Alemanha. Nas competições por pontos corridos uma noite ruim ou infeliz é menos danosa do que numa Champions.

Com o triunfo por 1 a 0 sobre o Newcastle, o time azul de Manchester chega à 18ª vitória seguida, recorde absoluto na Inglaterra, ficando a uma da sequência de 19 do Bayern de Munique em 2013/14…comandado por Guardiola. Vitória fora de casa, vantagem mínima. Mas com posse de bola que ficou quase sempre acima de 80% e terminou com 78%.  Vinte e uma finalizações contra seis. Fruto da disparidade técnica e também da eficiência dos visitantes no trabalho de pressionar logo após a perda da bola.

Uma das virtudes do futebol total do City. Total não pelo significado original, da Holanda de 1974, pela constante troca de funções dos jogadores. Mas pela capacidade de atacar os adversários de todas as maneiras. Circulando a bola de forma mais cadenciada ou veloz. Passes de lado para controlar ou verticais para furar as linhas de marcação. Com toques rasteiros ou jogo aéreo, na bola parada ou não.

O City é o time com mais posse, com maior índice de acerto nos passes, mas também que mais finaliza e vence os duelos pelo alto. Absoluto.

Se o Tottenham adianta a marcação com encaixes e até perseguições individuais para complicar a saída de bola, Ederson capricha nos passes longos e cria superioridade numérica já no campo de ataque. Se o Newcastle recua e estaciona um ônibus à frente da própria área no primeiro tempo no Saint Jame’s Park, Guardiola “aproveita” mais uma lesão de Kompany para mandar a campo Gabriel Jesus e recuar Fernandinho para ter mais um a qualificar o passe e manter o time com a bola. E atacando, finalizando, colocando três bolas nas traves do goleiro Elliot. Indo às redes na nona assistência de Kevin De Bruyne, destaque individual absoluto, para o 13º gol de Sterling.

Nas vitórias mais sofridas, como a virada fora de casa sobre o Huddersfiled por 2 a 1 ou na pressão do Newcastle na reta final, pragmatismo e concentração para buscar ou administrar o resultado. Com linhas recuadas e ligações diretas. Nenhum romantismo na conquista dos três pontos. A preferência pelo espetáculo, mas só quando é possível. A competição vem primeiro.

Posse, perde e pressiona, busca das entrelinhas e da superioridade numérica no setor em que está a bola. Guardiola não mudou a essência. Mas vai se transformando ao longo do tempo, das experiências. Aprendendo com vitórias e derrotas.

O treinador é exigente com si mesmo e o mundo segue essa cobrança, querendo vitórias, títulos e espetáculos. Principalmente que continue liderando as transformações no futebol. Com o City vai fazendo história e interferindo no jogo mais uma vez. Com fome, mas também inteligência. O melhor time da Europa e do planeta no presente, mas também sinalizando o futuro.

(Estatísticas: WhoScored)

 

 


Campeonato inglês com cheiro de volta para Manchester. Pep ou Mou?
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André Rocha

Fica claro a cada partida do campeão Chelsea, inclusive no empate sem gols contra o Arsenal no Stamford Bridge, que Antonio Conte não encontrou em Morata uma reposição para Diego Costa no que o brasileiro naturalizado espanhol fazia de melhor, além dos gols: a capacidade de reter na frente as ligações diretas e passes longos.

O 5-4-1 esvazia o meio-campo e não sustenta construção de jogo com posse de bola. Sem Hazard, que volta para ajudar na articulação, fica ainda mais complicado. Por isso a superioridade do Arsenal de Arsene Wenger, que emulou o desenho tático do rival londrino e teve em Xhaka e Ramsey meio-campistas que combinaram qualidade técnica e dinâmica melhor que Kanté e Fábregas – apesar do passe precioso do espanhol para o compatriota Pedro perder à frente de Cech na melhor chance do jogo, ainda no primeiro tempo.

Com Liverpool e Tottenham oscilando mais que o esperado e o Newcastle não mostrando força até aqui para repetir a surpresa do Leicester em 2016, a Premier League começa a ganhar um aroma bem conhecido da Premier League nos últimos dez anos. Mesmo com apenas cinco rodadas.

Desde 2007, quando o Chelsea não foi campeão a taça rumou para Manchester. O United de Alex Ferguson faturou cinco, o City conquistou dois. Agora, não é exatamente a tradição que parece pesar a favor das equipes da cidade, mas a força de seus elencos e, principalmente, a capacidade de seus treinadores.

Pep Guardiola já sinaliza que o “curso” de um ano de campeonato inglês foi útil para o aprendizado. Entender o ritmo, o jogo físico, o “bate-volta” e tentar se adaptar. Jogo a jogo, demanda a demanda. Por isso a variação no desenho tático com linha de quatro ou cinco defensores, porém mantendo a ideia de jogo.

Abrir o campo com os novos laterais/alas Walker e Mendy, controlar o jogo no meio-campo alternando posse e aceleração com De Bruyne e David Silva e garantindo presença de área e poder de finalização mantendo Aguero e Gabriel Jesus no ataque, ainda que o brasileiro parta da ponta para dentro.

Como nos 6 a 0 sobre o Watford fora de casa, mas protagonista em campo atacando com volume, mas sabendo usar as jogadas aéreas com bola parada ou rolando e também explorar os espaços às costas da retaguarda adversária. Um City híbrido e inteligente. Um Guardiola mais conectado à lógica da liga mais forte do mundo.

Algo que o tricampeão Mourinho conhece tão bem. Por isso os Red Devils sob seu comando iguala a campanha do rival local: quatro vitórias e um empate, dezesseis gols marcados e dois sofridos. Mas trajetória construída de maneira bem diferente.

Um estilo baseado na força física e nas jogadas aéreas, ao menos até abrir vantagem. Depois muita velocidade nas transições e fôlego nos minutos finais, como nos 3 a 0 sobre o Everton no reencontro com Wayne Rooney dentro do Old Trafford, matando o jogo com os gols de Mkhitaryan e Lukaku depois do golaço de Valencia logo no início da partida.

Sem grande preocupação com a posse de bola, apostando sempre nos ataques verticais. Na ausência de Pogba, lesionado, Fellaini é mais um para cortar ou completar cruzamentos. Juan Mata é o ponta articulador que garante mobilidade e criação de espaços diante de adversários fechados. Um 4-2-3-1 compacto, rápido, intenso.

A retaguarda ainda não inspira confiança, mas foi vazada apenas no empate contra o Southampton. Graças às intervenções do goleiro De Gea. A do City também precisa de ajustes e sofre menos porque consegue manter a bola mais longe da meta de Ederson.

É muito cedo para qualquer prognóstico, ainda mais com tanto equilíbrio de forças e as equipes mais poderosas envolvidas em torneios continentais, fora as copas nacionais sempre desgastantes. Mas já é possível sentir um cheiro de Manchester voltando ao domínio na Inglaterra.

Ou um novo duelo Pep x Mou para atrair os olhos do mundo.


Dupla Jesus-Aguero, Danilo e Mendy. Guardiola parece ter achado melhor City
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André Rocha

A expulsão de Sadio Mané ainda no primeiro tempo após entrada imprudente e violenta sobre o goleiro Ederson praticamente definiu o jogo no Etihad Stadium. Mas o Manchester City já era superior ao Liverpool, inclusive no placar – 1 a 0, gol de Kun Aguero completando passe preciso em profundidade de Kevin De Bruyne.

O belga foi um dos destaques da formação que Pep Guardiola mandou a campo. Com Danilo como lateral-zagueiro pela direita, como Azpilicueta no Chelsea de Antonio Conte. Liberando Walker como ala, acelerando as coberturas e qualificando a saída de bola. Fora a versatilidade para mudar o desenho sem mexer nas peças.

No segundo tempo o brasileiro inverteu o lado e foi praticamente outro meio-campista no auxílio a Fernandinho. Dando suporte a Mendy que voava à esquerda para cima de Trent Alexander-Arnold, fragilizado na lateral direita da equipe de Jurgen Klopp, que de início tentou adiantar linhas e duelar pela posse de bola na execução de seu 4-3-3 sem Philippe Coutinho até no banco.

Perdeu capacidade de criação e flexibilidade. Eram três meio-campistas sem tanta qualidade no passe, dois ponteiros velozes e Firmino girando e tentando abrir espaços. Por isso teve a grande oportunidade na partida com Salah em contragolpe cedido pelo City mesmo com 1 a 0 no placar.

Efeito colateral da confiança em uma maneira de jogar que parece ter encontrado a melhor formação. O 5-3-2 que se transforma em 3-1-4-2 na retomada. Trabalhando a posse, pressionando no campo de ataque. Movimentando a dupla de ataque e abrindo o campo com os alas.

Passeio na segunda etapa com o segundo de Jesus cedido por Aguero depois de passe em profundidade letal de Fernandinho. O primeiro do atacante brasileiro saiu de cabeça, logo após a expulsão, em nova assistência do meia De Bruyne. Cruzamento cirúrgico da esquerda. O belga foi outro destaque individual em uma bela atuação coletiva.

Fica a dúvida em relação ao comportamento desta equipe diante de adversários bem fechados e com linhas compactas, de “handebol”. Porque induz o jogo posicional a abrir a jogada e fazer o cruzamento buscando a dupla de atacantes. Com espaços fica mais fácil alternar por dentro e pelo flanco.

Por isso Sané, que entrou na vaga de Jesus, também deu espetáculo com dois gols. O último golaço nos acréscimos para fechar em 5 a 0. Antes completou mais um centro de Mendy no passeio pelo setor esquerdo. Num universo de 66% de posse de bola e 12 finalizações, nove no alvo. A mira também estava afiada.

Placar histórico, que só não é a maior dos citizens no confronto porque em 1936 houve um 6 a 0.  Mais importante que o número de gols, porém, foi o desempenho. Guardiola parece ter encontrado o melhor caminho para enfim se impor na Premier League.

(Estatísticas: BBC)


Yaya Touré é dispensável para Guardiola. De novo. Entenda o porquê
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André Rocha

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O Manchester City anunciou nesta sexta-feira que Yaya Touré está fora da lista dos inscritos para a fase de grupos da Liga dos Campeões. Já havia acontecido nos playoffs contra o Steaua Bucarest.

Previsível, já que Pep Guardiola tratara o marfinense como dispensável no Barcelona desde que assumiu o time principal em 2008 até o final da temporada 2009/2010, com Busquets titular absoluto e Yaya Touré, contratado no fim da Era Rijkaard, participando de poucos minutos.

Se com 25 anos não era considerado útil, que dirá aos 33. Não que Touré tenha dificuldades de se encaixar no jogo de posição – em resumo, a ocupação do campo de ataque e troca de passes até encontrar uma brecha no último terço de campo.

O City com Pellegrini já trabalhava desta forma nas partidas contra times de menor investimento na Inglaterra e o camisa 42 mostrava desempenho, como volante ou meia centralizado num 4-2-3-1.

O meio-campista africano costuma dizer que o técnico catalão nunca foi muito transparente quanto à sua resistência em utilizá-lo. “Guardiola não confiava em mim. Sempre que falávamos, ele me deixava sem resposta e era pouco claro nas justificativas para me deixar fora da equipe”, afirmou em 2011 à rádio catalã ONA FM.

O treinador já deixou claro que via em Sergio Busquets muitas de suas próprias características quando jogador, campeão da Liga dos Campeões em 1992 no “Dream Team” comandado por Joahn Cruyff.

Um volante facilitador, inteligente no posicionamento e na movimentação, sempre dando opção para a construção do jogo e simplificando os passes para fazer a bola circular com mais rapidez. Craque “invisível”. Guardiola deixava a armação para o líbero holandês Ronald Koeman, hoje treinador do Everton. Busquets acionava Xavi, agora ativa Messi, Rakitic e Iniesta.

Tem a ver com ciência também. Guardiola prefere meio-campistas com o centro gravitacional mais baixo, como está descrito no livro “O Barça: todos os segredos do melhor time do mundo”, de Sandro Modeo. Ou seja, menos altos e mais ágeis. Para facilitar a saída de bola e acelerar o jogo para os atacantes perto da área do oponente.

Por incrível que pareça, Busquets mesmo com 1,89 m, um centímetro mais alto que Yaya, é mais dinâmico. Toca mais de primeira. Até por ser formado nas canteras do clube, doutrinado dentro da filosofia desenvolvida há décadas.

Yaya tem técnica, porém é um pouco menos rápido. Tanto para se movimentar e abrir uma linha de passe quanto para dominar e passar. Com o avançar da idade, natural que isto se acentue ainda mais.

No City, Fernandinho, Gundogan e Fabian Delph podem dar uma melhor resposta ao que Guardiola se propõe. A Touré resta esperar oportunidades na Premier League e, fora de campo, ajudar os mais jovens a compreender as ideais do técnico.

A questão é se, mesmo maduro e na reta final da carreira, o jogador aceitará esse papel de reserva, coadjuvante e “auxiliar” exatamente do comandante que nunca o considerou, de fato, essencial.

“Conheço Yaya desde os tempos de Barcelona, o quão ele ama jogar futebol, sei perfeitamente das suas qualidades, mas ele sabe por que não esteve na lista”, elogiou Guardiola.

Assim como no “Caso Hart”, podia haver mais respeito pela história do atleta, especialmente no City. Mesmo com a chance de ser útil, em tese, nos duelos com o time catalão na primeira fase do torneio continental. Pelo conhecimento da essência do modelo de jogo e por causa da motivação natural de enfrentar um time do qual foi dispensado.

Se o técnico não fosse Guardiola. Com ele, as chances de Touré são mínimas.


Guardiola + orçamento bilionário = sucesso no Manchester City. Será?
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André Rocha

Guardiola_Bayern_City

Pep Guardiola seguiu o caminho mais lógico em sua primeira e tão sonhada aventura na Premier League. Vai para o Manchester City trabalhar novamente com os gestores Ferran Soriano e Txiki Begirinstain. Trio que ajudou a reconstruir e consolidar o Barcelona no topo do planeta bola.

Além do belíssimo salário, um orçamento bilionário, quase ilimitado proporcionado pelo sheik dono do clube e liberdade total para comandar o futebol. Sem a filosofia bem definida do Barcelona nem as diferentes ideias e tradições no Bayern de Munique.

Guardiola parece ser o único capaz de convencer Messi a deixar Barcelona, já que o dinheiro por lá também é farto para o argentino que é tratado como rei e tem um porto seguro para seu estilo mais discreto.

Tudo conspira a favor do projeto do City: Guardiola, o técnico que revolucionou o esporte nesta década, comandando craques com respaldo de ótimos gestores e estrutura top. A fórmula perfeita? Talvez não.

A começar pela personalidade do gênio catalão. Perfeccionista, que assume a pressão e todas as responsabilidades. Dá tudo de si e cobra o máximo de todos. Discute desde o nutricionista até onde o seu jogador esteve na noite passada. Em um elenco de estrelas, mesmo escolhidas a dedo, pode gerar um enorme desgaste.

Inclusive pelos jogadores que hoje estão no lado azul de Manchester. Certamente muitos ficarão – até pelos longos contratos e o fairplay financeiro, mesmo com os dribles habituais dos clubes milionários – e já devem estar sofrendo a influência de Yaya Touré. Descartado por Guardiola no Barcelona em 2010 e que não esconde a mágoa por ter ficado de fora de um dos melhores times da história do esporte. Ainda que Busquets seja mais jogador que o marfinense.

Entrar neste vestiário não será tarefa simples. Até pelo carinho de todos com Manuel Pellegrini, que assim como Jupp Heynckes no Bayern pode, sim, deixar o clube com títulos relevantes. Inclusive a tão sonhada Liga dos Campeões, um legado que encostaria Guardiola na parede antes mesmo de assumir.

Outro ponto que merece atenção: o treinador catalão venceu a briga com o departamento médico do Bayern e quase todos os profissionais foram trocados. O elenco, porém, segue acumulando baixas por lesões, muitas musculares. Não estaria exigindo demais e estourando os atletas nesta busca insana pela perfeição em um modelo de jogo tão complexo? Será assim também no City?

Incógnita. Até pela competitividade crescente na Inglaterra. Onde não há o abismo de forças na Espanha e na Alemanha. Que já conta com o algoz Jurgen Klopp no Liverpool e pode ter o retorno de José Mourinho, quem sabe no rival da cidade, o United?

O projeto do City tem como meta óbvia a conquista da Liga dos Campeões até o fim do contrato do treinador/manager. Duelando com Barcelona, Real Madrid e o próprio Bayern, agora com Carlo Ancelotti, tricampeão europeu. A última conquista com o Real que pulverizou o próprio time alemão na semifinal com o “antídoto” até hoje considerado o mais perfeito ao jogo de posição.

Haverá pernas, união e força mental para sustentar o talento? O orçamento pode não ter limites, mas não compra a garantia de sucesso. Nem de Guardiola.