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Nos 500 jogos de Guardiola, o mais importante não são os números e títulos
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André Rocha

Pegando carona no levantamento dos colegas portugueses de “A Bola” sobre os 500 jogos de Guardiola como treinador, o último na vitória sobre o Bristol City por 3 a 2 que garantiu o Manchester City na final da Copa da Liga Inglesa, vale uma reflexão sobre a relevância do treinador catalão.

Os números, de fato, impressionam. São 368 vitórias, 78 empates e 54 derrotas. Marcou 1249 gols, sofreu 381. 18 títulos – 11 com o Barcelona, sete com o Bayern de Munique.

Para quem olha apenas o aproveitamento em oito temporadas e meia já é possível colocá-lo entre os melhores da história. Ainda que, de fato, tenha faltado ao menos uma conquista da Liga dos Campeões com o Bayern.

No entanto, o que torna Guardiola um treinador para a história é sua interferência no jogo. O esporte se transformou com o seu Barcelona e a evolução do comportamento de seus adversários para enfrentá-lo.

É isto que faz Rinus Michels vencer quase invariavelmente as eleições de melhor treinador de todos os tempos. Seu trabalho mais marcante, a Holanda de 1974, foi justamente o que não terminou com título. Mas a revolução de conceitos foi levada ao Barcelona por Johan Cruyff e Guardiola atualizou combinando com outros princípios de jogo.

Pressão, posse de bola, superioridade numérica, busca do homem livre. Time ataca preparado para roubar a bola assim que a perde e se defende pronto para sair em velocidade com mais jogadores que o adversário.

“Ladrão de ideias”. Sempre aberto ao aprendizado, se questionando. Em constante mutação para ser melhor e mais competitivo. Inquieto, inventivo. Genial.

Como qualquer profissional acerta e erra. Assume a responsabilidade pela eliminação do Bayern para o Real Madrid na semifinal da Liga dos Campeões 2013/14 ao ceder generosos espaços para Cristiano Ronaldo e o jogo de contragolpe de Carlo Ancelotti.

Algumas vezes se arriscou demais, como diante do Barcelona no Camp Nou, também na semifinal do torneio continental na temporada seguinte. Mesmo com muitos desfalques, começou com três defensores no mano a mano contra Messi, Suárez e Neymar para ter superioridade no meio-campo.  Corrigiu a insanidade ainda no primeiro tempo, mas seguiu buscando o ataque até ser punido pelo gênio argentino. Aquele mesmo que de um ponteiro habilidoso virou um craque completo nas mãos de Pep.

Melhorar atletas e equipes, eis o grande mérito de Guardiola mal compreendido, especialmente no Brasil. Terra das soluções fáceis, onde muitos tratam o treinador como um mero distribuidor de camisas em elencos milionários. O “engenheiro de obra pronta”.

Tudo que Guardiola não é. Basta olhar para o campo. No atual City, a base titular tem apenas duas novidades: Ederson e Walker. Peças importantes, sem dúvida. Mas é clara a evolução como equipe. Comandados assimilando melhor o estilo proposto e o comandante aprendendo com eles, com a Premier League. Jogo a jogo.

Partida a partida, Guardiola construiu um fantástico retrospecto. Conquistado treino a treino, a cada estudo de adversário, a cada partida que assiste e tenta aprender algo e aplicar no seu trabalho. Para ele, o Barcelona histórico já é passado. Quantos treinadores não se fixariam naquela fórmula tentando repetí-la para sempre desconsiderando os contextos e, principalmente, a ideia de que tudo evolui, se recombina e vira outra coisa.

Por isso é o melhor do seu tempo. Por isso conquistou o direito de buscar as melhores condições para exercer o seu ofício. Não a visão torta de muitos que dizem que só vão respeitá-lo no dia em que vencer num clube menos abastado e poderoso – e é claro que muitos, se um dia isto acontecer, inventarão outro “desafio” para atestar sua competência.

Alguém imagina um cirurgião renomado aceitando operar alguém num ambiente inóspito para mostrar que é mesmo bom no que faz ou um chef consagrado preparando um prato sofisticado numa cozinha suja e sem a devida aparelhagem?

Para o mundo, Guardiola ganhou esse status por conquistar a tríplice coroa em sua primeira temporada na nova função. Pelos impressionantes 78,8% de aproveitamento na carreira. Na prática, porém, ele é o melhor por estar em constante aprimoramento. Ao reciclar a si mesmo, reinventa o próprio futebol. Eis o mais importante, não os títulos e os números.

Que venham mais quinhentos jogos revolucionando o esporte bretão com o toque catalão.

 


A segunda revolução de Pep Guardiola
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André Rocha

Se o futebol evoluiu 25 anos desde 2008 nos aspectos táticos e no jogo coletivo deve muito a Pep Guardiola. Não que o catalão tenha criado algo absolutamente original – ele mesmo diz que é um mero “ladrão de ideias”. Mas combinando conceitos construiu um modelo de jogo no Barcelona que virou do avesso o esporte bretão.

Não só por sua filosofia, mas pela exigência de uma resposta de outras equipes e treinadores. José Mourinho montou sua “linha de handebol” com a Internazionale e fez o jogo defensivo ganhar inteligência e sofisticação sem precedentes na negação de espaços. Estava criada a dicotomia do futebol mundial.

Com o tempo, o jogo mais complexo foi gerando outros conflitos. Times com posse e protagonistas sendo domados por fortes bloqueios e contragolpes letais. Mas também equipes reativas sofrendo quando precisavam criar espaços e jogar no campo de ataque. A evolução cobrando conjuntos inteligentes, capazes de alternar propostas e ações de acordo com necessidade, adversário, contexto.

É o futebol por demanda, tratado neste blog com o Real Madrid bicampeão da Liga dos Campeões comandado por Zinedine Zidane como o exemplo mais bem sucedido liderando um movimento.

Guardiola sofreu em sua primeira temporada na Inglaterra. Sem a reformulação que desejava no elenco envelhecido e vendo suas ideias sem encaixe na dinâmica do futebol inglês. Em muitos jogos foi uma equipe de posse estéril e muito exposta no bate e volta muitas vezes insano da Premier League. Foi o primeiro ano sem conquistas. Ainda assim, conseguiu cumprir a meta básica de colocar os citizens novamente na Liga dos Campeões.

Renovação do grupo de jogadores, especialmente nas laterais com Walker, Mendy e Danilo. Ederson para encarar a missão de ser o goleiro excelente com a bola nos pés que Bravo não foi. Mais saúde para resistir às adaptações dos princípios inegociáveis do comandante depois de um ano mais aprendendo do que tentando impor sua visão de futebol.

O resultado até aqui na temporada 2017/18 é a segunda revolução de Guardiola. Futebol por demanda na veia, porém um pouco mais propositivo que o Real Madrid. Quer a bola para comandar o jogo, mas com leitura partida a partida.

Guardiola é um treinador de ligas. Não por acaso vai encaminhando com 15 pontos de vantagem na liderança o sétimo título nacional em nove temporadas. Trabalho baseado no foco na evolução contínua do desempenho para conquistar os resultados. Sem relaxamento. Por isso as muitas conquistas com enorme antecipação e vantagem, especialmente na Alemanha. Nas competições por pontos corridos uma noite ruim ou infeliz é menos danosa do que numa Champions.

Com o triunfo por 1 a 0 sobre o Newcastle, o time azul de Manchester chega à 18ª vitória seguida, recorde absoluto na Inglaterra, ficando a uma da sequência de 19 do Bayern de Munique em 2013/14…comandado por Guardiola. Vitória fora de casa, vantagem mínima. Mas com posse de bola que ficou quase sempre acima de 80% e terminou com 78%.  Vinte e uma finalizações contra seis. Fruto da disparidade técnica e também da eficiência dos visitantes no trabalho de pressionar logo após a perda da bola.

Uma das virtudes do futebol total do City. Total não pelo significado original, da Holanda de 1974, pela constante troca de funções dos jogadores. Mas pela capacidade de atacar os adversários de todas as maneiras. Circulando a bola de forma mais cadenciada ou veloz. Passes de lado para controlar ou verticais para furar as linhas de marcação. Com toques rasteiros ou jogo aéreo, na bola parada ou não.

O City é o time com mais posse, com maior índice de acerto nos passes, mas também que mais finaliza e vence os duelos pelo alto. Absoluto.

Se o Tottenham adianta a marcação com encaixes e até perseguições individuais para complicar a saída de bola, Ederson capricha nos passes longos e cria superioridade numérica já no campo de ataque. Se o Newcastle recua e estaciona um ônibus à frente da própria área no primeiro tempo no Saint Jame’s Park, Guardiola “aproveita” mais uma lesão de Kompany para mandar a campo Gabriel Jesus e recuar Fernandinho para ter mais um a qualificar o passe e manter o time com a bola. E atacando, finalizando, colocando três bolas nas traves do goleiro Elliot. Indo às redes na nona assistência de Kevin De Bruyne, destaque individual absoluto, para o 13º gol de Sterling.

Nas vitórias mais sofridas, como a virada fora de casa sobre o Huddersfiled por 2 a 1 ou na pressão do Newcastle na reta final, pragmatismo e concentração para buscar ou administrar o resultado. Com linhas recuadas e ligações diretas. Nenhum romantismo na conquista dos três pontos. A preferência pelo espetáculo, mas só quando é possível. A competição vem primeiro.

Posse, perde e pressiona, busca das entrelinhas e da superioridade numérica no setor em que está a bola. Guardiola não mudou a essência. Mas vai se transformando ao longo do tempo, das experiências. Aprendendo com vitórias e derrotas.

O treinador é exigente com si mesmo e o mundo segue essa cobrança, querendo vitórias, títulos e espetáculos. Principalmente que continue liderando as transformações no futebol. Com o City vai fazendo história e interferindo no jogo mais uma vez. Com fome, mas também inteligência. O melhor time da Europa e do planeta no presente, mas também sinalizando o futuro.

(Estatísticas: WhoScored)

 

 


Campeonato inglês com cheiro de volta para Manchester. Pep ou Mou?
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André Rocha

Fica claro a cada partida do campeão Chelsea, inclusive no empate sem gols contra o Arsenal no Stamford Bridge, que Antonio Conte não encontrou em Morata uma reposição para Diego Costa no que o brasileiro naturalizado espanhol fazia de melhor, além dos gols: a capacidade de reter na frente as ligações diretas e passes longos.

O 5-4-1 esvazia o meio-campo e não sustenta construção de jogo com posse de bola. Sem Hazard, que volta para ajudar na articulação, fica ainda mais complicado. Por isso a superioridade do Arsenal de Arsene Wenger, que emulou o desenho tático do rival londrino e teve em Xhaka e Ramsey meio-campistas que combinaram qualidade técnica e dinâmica melhor que Kanté e Fábregas – apesar do passe precioso do espanhol para o compatriota Pedro perder à frente de Cech na melhor chance do jogo, ainda no primeiro tempo.

Com Liverpool e Tottenham oscilando mais que o esperado e o Newcastle não mostrando força até aqui para repetir a surpresa do Leicester em 2016, a Premier League começa a ganhar um aroma bem conhecido da Premier League nos últimos dez anos. Mesmo com apenas cinco rodadas.

Desde 2007, quando o Chelsea não foi campeão a taça rumou para Manchester. O United de Alex Ferguson faturou cinco, o City conquistou dois. Agora, não é exatamente a tradição que parece pesar a favor das equipes da cidade, mas a força de seus elencos e, principalmente, a capacidade de seus treinadores.

Pep Guardiola já sinaliza que o “curso” de um ano de campeonato inglês foi útil para o aprendizado. Entender o ritmo, o jogo físico, o “bate-volta” e tentar se adaptar. Jogo a jogo, demanda a demanda. Por isso a variação no desenho tático com linha de quatro ou cinco defensores, porém mantendo a ideia de jogo.

Abrir o campo com os novos laterais/alas Walker e Mendy, controlar o jogo no meio-campo alternando posse e aceleração com De Bruyne e David Silva e garantindo presença de área e poder de finalização mantendo Aguero e Gabriel Jesus no ataque, ainda que o brasileiro parta da ponta para dentro.

Como nos 6 a 0 sobre o Watford fora de casa, mas protagonista em campo atacando com volume, mas sabendo usar as jogadas aéreas com bola parada ou rolando e também explorar os espaços às costas da retaguarda adversária. Um City híbrido e inteligente. Um Guardiola mais conectado à lógica da liga mais forte do mundo.

Algo que o tricampeão Mourinho conhece tão bem. Por isso os Red Devils sob seu comando iguala a campanha do rival local: quatro vitórias e um empate, dezesseis gols marcados e dois sofridos. Mas trajetória construída de maneira bem diferente.

Um estilo baseado na força física e nas jogadas aéreas, ao menos até abrir vantagem. Depois muita velocidade nas transições e fôlego nos minutos finais, como nos 3 a 0 sobre o Everton no reencontro com Wayne Rooney dentro do Old Trafford, matando o jogo com os gols de Mkhitaryan e Lukaku depois do golaço de Valencia logo no início da partida.

Sem grande preocupação com a posse de bola, apostando sempre nos ataques verticais. Na ausência de Pogba, lesionado, Fellaini é mais um para cortar ou completar cruzamentos. Juan Mata é o ponta articulador que garante mobilidade e criação de espaços diante de adversários fechados. Um 4-2-3-1 compacto, rápido, intenso.

A retaguarda ainda não inspira confiança, mas foi vazada apenas no empate contra o Southampton. Graças às intervenções do goleiro De Gea. A do City também precisa de ajustes e sofre menos porque consegue manter a bola mais longe da meta de Ederson.

É muito cedo para qualquer prognóstico, ainda mais com tanto equilíbrio de forças e as equipes mais poderosas envolvidas em torneios continentais, fora as copas nacionais sempre desgastantes. Mas já é possível sentir um cheiro de Manchester voltando ao domínio na Inglaterra.

Ou um novo duelo Pep x Mou para atrair os olhos do mundo.


Dupla Jesus-Aguero, Danilo e Mendy. Guardiola parece ter achado melhor City
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André Rocha

A expulsão de Sadio Mané ainda no primeiro tempo após entrada imprudente e violenta sobre o goleiro Ederson praticamente definiu o jogo no Etihad Stadium. Mas o Manchester City já era superior ao Liverpool, inclusive no placar – 1 a 0, gol de Kun Aguero completando passe preciso em profundidade de Kevin De Bruyne.

O belga foi um dos destaques da formação que Pep Guardiola mandou a campo. Com Danilo como lateral-zagueiro pela direita, como Azpilicueta no Chelsea de Antonio Conte. Liberando Walker como ala, acelerando as coberturas e qualificando a saída de bola. Fora a versatilidade para mudar o desenho sem mexer nas peças.

No segundo tempo o brasileiro inverteu o lado e foi praticamente outro meio-campista no auxílio a Fernandinho. Dando suporte a Mendy que voava à esquerda para cima de Trent Alexander-Arnold, fragilizado na lateral direita da equipe de Jurgen Klopp, que de início tentou adiantar linhas e duelar pela posse de bola na execução de seu 4-3-3 sem Philippe Coutinho até no banco.

Perdeu capacidade de criação e flexibilidade. Eram três meio-campistas sem tanta qualidade no passe, dois ponteiros velozes e Firmino girando e tentando abrir espaços. Por isso teve a grande oportunidade na partida com Salah em contragolpe cedido pelo City mesmo com 1 a 0 no placar.

Efeito colateral da confiança em uma maneira de jogar que parece ter encontrado a melhor formação. O 5-3-2 que se transforma em 3-1-4-2 na retomada. Trabalhando a posse, pressionando no campo de ataque. Movimentando a dupla de ataque e abrindo o campo com os alas.

Passeio na segunda etapa com o segundo de Jesus cedido por Aguero depois de passe em profundidade letal de Fernandinho. O primeiro do atacante brasileiro saiu de cabeça, logo após a expulsão, em nova assistência do meia De Bruyne. Cruzamento cirúrgico da esquerda. O belga foi outro destaque individual em uma bela atuação coletiva.

Fica a dúvida em relação ao comportamento desta equipe diante de adversários bem fechados e com linhas compactas, de “handebol”. Porque induz o jogo posicional a abrir a jogada e fazer o cruzamento buscando a dupla de atacantes. Com espaços fica mais fácil alternar por dentro e pelo flanco.

Por isso Sané, que entrou na vaga de Jesus, também deu espetáculo com dois gols. O último golaço nos acréscimos para fechar em 5 a 0. Antes completou mais um centro de Mendy no passeio pelo setor esquerdo. Num universo de 66% de posse de bola e 12 finalizações, nove no alvo. A mira também estava afiada.

Placar histórico, que só não é a maior dos citizens no confronto porque em 1936 houve um 6 a 0.  Mais importante que o número de gols, porém, foi o desempenho. Guardiola parece ter encontrado o melhor caminho para enfim se impor na Premier League.

(Estatísticas: BBC)


Yaya Touré é dispensável para Guardiola. De novo. Entenda o porquê
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André Rocha

yaya-toure-pep-guardiola-man-city

O Manchester City anunciou nesta sexta-feira que Yaya Touré está fora da lista dos inscritos para a fase de grupos da Liga dos Campeões. Já havia acontecido nos playoffs contra o Steaua Bucarest.

Previsível, já que Pep Guardiola tratara o marfinense como dispensável no Barcelona desde que assumiu o time principal em 2008 até o final da temporada 2009/2010, com Busquets titular absoluto e Yaya Touré, contratado no fim da Era Rijkaard, participando de poucos minutos.

Se com 25 anos não era considerado útil, que dirá aos 33. Não que Touré tenha dificuldades de se encaixar no jogo de posição – em resumo, a ocupação do campo de ataque e troca de passes até encontrar uma brecha no último terço de campo.

O City com Pellegrini já trabalhava desta forma nas partidas contra times de menor investimento na Inglaterra e o camisa 42 mostrava desempenho, como volante ou meia centralizado num 4-2-3-1.

O meio-campista africano costuma dizer que o técnico catalão nunca foi muito transparente quanto à sua resistência em utilizá-lo. “Guardiola não confiava em mim. Sempre que falávamos, ele me deixava sem resposta e era pouco claro nas justificativas para me deixar fora da equipe”, afirmou em 2011 à rádio catalã ONA FM.

O treinador já deixou claro que via em Sergio Busquets muitas de suas próprias características quando jogador, campeão da Liga dos Campeões em 1992 no “Dream Team” comandado por Joahn Cruyff.

Um volante facilitador, inteligente no posicionamento e na movimentação, sempre dando opção para a construção do jogo e simplificando os passes para fazer a bola circular com mais rapidez. Craque “invisível”. Guardiola deixava a armação para o líbero holandês Ronald Koeman, hoje treinador do Everton. Busquets acionava Xavi, agora ativa Messi, Rakitic e Iniesta.

Tem a ver com ciência também. Guardiola prefere meio-campistas com o centro gravitacional mais baixo, como está descrito no livro “O Barça: todos os segredos do melhor time do mundo”, de Sandro Modeo. Ou seja, menos altos e mais ágeis. Para facilitar a saída de bola e acelerar o jogo para os atacantes perto da área do oponente.

Por incrível que pareça, Busquets mesmo com 1,89 m, um centímetro mais alto que Yaya, é mais dinâmico. Toca mais de primeira. Até por ser formado nas canteras do clube, doutrinado dentro da filosofia desenvolvida há décadas.

Yaya tem técnica, porém é um pouco menos rápido. Tanto para se movimentar e abrir uma linha de passe quanto para dominar e passar. Com o avançar da idade, natural que isto se acentue ainda mais.

No City, Fernandinho, Gundogan e Fabian Delph podem dar uma melhor resposta ao que Guardiola se propõe. A Touré resta esperar oportunidades na Premier League e, fora de campo, ajudar os mais jovens a compreender as ideais do técnico.

A questão é se, mesmo maduro e na reta final da carreira, o jogador aceitará esse papel de reserva, coadjuvante e “auxiliar” exatamente do comandante que nunca o considerou, de fato, essencial.

“Conheço Yaya desde os tempos de Barcelona, o quão ele ama jogar futebol, sei perfeitamente das suas qualidades, mas ele sabe por que não esteve na lista”, elogiou Guardiola.

Assim como no “Caso Hart”, podia haver mais respeito pela história do atleta, especialmente no City. Mesmo com a chance de ser útil, em tese, nos duelos com o time catalão na primeira fase do torneio continental. Pelo conhecimento da essência do modelo de jogo e por causa da motivação natural de enfrentar um time do qual foi dispensado.

Se o técnico não fosse Guardiola. Com ele, as chances de Touré são mínimas.


Guardiola + orçamento bilionário = sucesso no Manchester City. Será?
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André Rocha

Guardiola_Bayern_City

Pep Guardiola seguiu o caminho mais lógico em sua primeira e tão sonhada aventura na Premier League. Vai para o Manchester City trabalhar novamente com os gestores Ferran Soriano e Txiki Begirinstain. Trio que ajudou a reconstruir e consolidar o Barcelona no topo do planeta bola.

Além do belíssimo salário, um orçamento bilionário, quase ilimitado proporcionado pelo sheik dono do clube e liberdade total para comandar o futebol. Sem a filosofia bem definida do Barcelona nem as diferentes ideias e tradições no Bayern de Munique.

Guardiola parece ser o único capaz de convencer Messi a deixar Barcelona, já que o dinheiro por lá também é farto para o argentino que é tratado como rei e tem um porto seguro para seu estilo mais discreto.

Tudo conspira a favor do projeto do City: Guardiola, o técnico que revolucionou o esporte nesta década, comandando craques com respaldo de ótimos gestores e estrutura top. A fórmula perfeita? Talvez não.

A começar pela personalidade do gênio catalão. Perfeccionista, que assume a pressão e todas as responsabilidades. Dá tudo de si e cobra o máximo de todos. Discute desde o nutricionista até onde o seu jogador esteve na noite passada. Em um elenco de estrelas, mesmo escolhidas a dedo, pode gerar um enorme desgaste.

Inclusive pelos jogadores que hoje estão no lado azul de Manchester. Certamente muitos ficarão – até pelos longos contratos e o fairplay financeiro, mesmo com os dribles habituais dos clubes milionários – e já devem estar sofrendo a influência de Yaya Touré. Descartado por Guardiola no Barcelona em 2010 e que não esconde a mágoa por ter ficado de fora de um dos melhores times da história do esporte. Ainda que Busquets seja mais jogador que o marfinense.

Entrar neste vestiário não será tarefa simples. Até pelo carinho de todos com Manuel Pellegrini, que assim como Jupp Heynckes no Bayern pode, sim, deixar o clube com títulos relevantes. Inclusive a tão sonhada Liga dos Campeões, um legado que encostaria Guardiola na parede antes mesmo de assumir.

Outro ponto que merece atenção: o treinador catalão venceu a briga com o departamento médico do Bayern e quase todos os profissionais foram trocados. O elenco, porém, segue acumulando baixas por lesões, muitas musculares. Não estaria exigindo demais e estourando os atletas nesta busca insana pela perfeição em um modelo de jogo tão complexo? Será assim também no City?

Incógnita. Até pela competitividade crescente na Inglaterra. Onde não há o abismo de forças na Espanha e na Alemanha. Que já conta com o algoz Jurgen Klopp no Liverpool e pode ter o retorno de José Mourinho, quem sabe no rival da cidade, o United?

O projeto do City tem como meta óbvia a conquista da Liga dos Campeões até o fim do contrato do treinador/manager. Duelando com Barcelona, Real Madrid e o próprio Bayern, agora com Carlo Ancelotti, tricampeão europeu. A última conquista com o Real que pulverizou o próprio time alemão na semifinal com o “antídoto” até hoje considerado o mais perfeito ao jogo de posição.

Haverá pernas, união e força mental para sustentar o talento? O orçamento pode não ter limites, mas não compra a garantia de sucesso. Nem de Guardiola.


Mourinho x Guardiola na Inglaterra? Ótimo para a liga, nem tanto para eles
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André Rocha

Jose_Mourinho_Pep_Guardiola-Reuters

Pep Guardiola não seguirá no Bayern de Munique, que terá Carlo Ancelotti para a temporada 2016/17. José Mourinho demitido no Chelsea pela campanha pífia na defesa do título no inglês.

Rumores do catalão sucedendo Mourinho nos Blues. Ou no City. Já o português pode seguir na Inglaterra, mas no Manchester United – Van Gaal balança com a eliminação na Liga dos Campeões e o mau momento na Premier League.

Podemos ter de volta em um mesmo país o duelo que mudou o futebol desde 2010: Guardiola x Mourinho. A revolução contra a reação. Posse versus transição. Ataque de posição contra o “ônibus”. Dois mundos que sequer se tangenciam, apenas colidem.

Inclusive fora de campo, com os “jogos mentais” de Mourinho e a tensão de Guardiola, absorvido pela essência do jogo. Foi Pep quem abandonou o barco em 2012, exausto com os duelos entre Barcelona x Real Madrid. Também derrotado na última temporada.

Só que o futebol seguiu evoluindo. Muito por conta deste antagonismo, que induziu treinadores a tentar buscar o melhor dessas duas filosofias que, no fundo, são complementares.

Ancelotti conseguiu dosar posse e transição rápida no Real Madrid de “La Decima”. Luis Enrique aprimorou ainda mais a ideia no Barcelona com a troca de passes no DNA, mas também trabalhando bola parada, contragolpes e força nos duelos individuais com o acréscimo de Suárez e Neymar.

A inserção na intensidade do futebol inglês pode ser ótima para Guardiola. Assim como a competitividade que não encontrava na Alemanha. No Bayern, o desafio ainda é vencer a Champions. Nas outras temporadas, perdeu exatamente para as duas máquinas citadas no parágrafo anterior. O time bávaro, desfalcado pelos problemas físicos que o departamento médico não consegue minimizar, caiu diante do melhor de Cristiano Ronaldo e Messi.

Também um paradoxo. O caminho mais tranquilo na Bundesliga permitiu dosar melhor o elenco e sentir menos as ausências até a semifinal do torneio continental. Mas exatamente a falta de um rival mais poderoso certamente contribuiu para que o time fenecesse quando encarou as outras duas potências mundiais – incluindo o universo de seleções.

Na Inglaterra, Guardiola poderá consolidar as mudanças que já se faziam notar no Bayern: intensidade e rapidez no último terço de campo, posse de bola apenas para a saída organizada, posicionando a equipe no campo rival.

Já Mourinho tem a chance de se reinventar. Na gestão de grupo que não funcionou na terceira temporada em Real e Chelsea. Na reconstrução do personagem que não precisa ser tão “rock’n’roll” como na tese do livro “Mourinho Rockstar”, de Luis Aguilar (Editora Grande Área).

No campo, o “anti-Guardiola” em grandes jogos beirou a irresponsabilidade, como na eliminação em casa para o PSG na última edição da Champions. O seu Chelsea perdeu a capacidade de propor o jogo, ser protagonista. Até em jogos menos difíceis a tendência era sempre atrair o adversário e explorar os espaços às costas da retaguarda. Recurso legítimo. Mas o futebol em altíssimo nível pede equipes mais completas.

O perigo é ver Guardiola do outro lado e eclodir o Mourinho anti-heroi, aquele que não se importa em personificar “o mal” e encarar o rival histórico com a obsessão dos tempos de Madrid. Até porque ambos seguem como referências de treinadores mundo afora. Mas suas equipes não conseguem o protagonismo na Europa.

Na disputada Premier League, cada vez mais parelha, até pela divisão mais equilibrada da grana farta da TV, Guardiola e Mourinho precisam evoluir, tornar suas ideias relativas ao jogo ainda mais abrangentes. Versatilidade é a palavra. Ou inteligência.

Há um enorme risco da dupla se consumir dentro da Inglaterra em uma liga ainda mais espetacular e falhar novamente na disputa além das fronteiras. Títulos nacionais não faltam nos currículos recentes. O desafio é voltar a levantar a Champions e a EPL, que não permite pausas para respirar e ainda conta com técnicos como Jurgen Klopp e Arsene Wenger para rivalizar, pode atrapalhar. Por mais incrível que isto possa parecer.


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