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Arquivo : Vasco

Alívio do Corinthians, agonia do Vasco. Sofrimento para todos
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André Rocha

O contexto de Corinthians x Vasco amplificou todas as características do futebol jogado atualmente no Brasil: muito sentido e sofrido, pouco pensado e treinado. Improvisação sob pressão de camisas pesadas, mas times indigentes.

Tortura para o torcedor envolvido emocionalmente com a saga para se afastar do Z-4, penúria para o espectador neutro que busca algum vestígio de qualidade de jogo coletivo. Para o analista…com toda sinceridade, apenas o dever de ofício e profundo amor pelo esporte bretão.

O Corinthians pena porque Jair Ventura ainda confunde organização com um time engessado. Poucas ideias a ponto de, no final de 2018, apelar para Danilo, 39 anos e naturalmente acima do peso para um atleta profissional. Pela experiência, presença de área, capacidade de reter a bola e inteligência quando o corpo consegue responder ao raciocínio.

O Vasco nem isso. Sem Maxi Lopez, por conta de um corte no pé direito, e com a queda de desempenho de Yago Pikachu, foi a São Paulo entregue à própria sorte. No abandono de um ambiente político conturbado e as piores perspectivas em caso de rebaixamento – financeiramente seria o caos pelas mudanças nas cotas de TV e considerando que a gestão Eurico Miranda gastou antecipado.

Para piorar, o treinador Alberto Valentim expulso pelo fraco árbitro Wilton Pereira Sampaio na saída para o intervalo por exagerar na reclamação de um escanteio marcado além dos acréscimos.

Jogo duro. De suportar para o apaixonado. De ver para quem se propôs a acompanhar. Pikachu deu espaço generoso para Fagner cruzar, Raul não acompanhou Mateus Vital, que cabeceou nas redes de Fernando Miguel. Gol da revelação vascaína que não comemorou. Por respeito a quem não teve como mantê-lo. Por seguidas gestões incompetentes e irresponsáveis. Sintomático.

Mesmo com domínio da posse de bola (55%) e 15 finalizações contra nove – quatro a dois no alvo. A última do zagueiro Henriquez no travessão, já nos acréscimos. Ainda um pênalti claro de Danilo Avelar em Marrony um pouco antes – o erro grave de arbitragem não podia faltar, até para monopolizar o debate sobre a partida e servir como cortina de fumaça para a ausência de virtudes…Era preciso somar três pontos. Ao menos um. Agora é agonia.

Alívio para o Corinthians. Mesmo com 38 lançamentos e das 38 rebatidas. Apenas 251 passes trocados. Apesar de tudo, a missão foi cumprida. E no momento só é possível para o (ainda) atual campeão brasileiro entregar o resultado. Puro e simples. Muito pouco.

No apito final, sopapos e pontapés numa catarse para extravasar o resto de tensão represada. Emblemático para os tristes tempos para Corinthians e Vasco. O único sorriso possível é de quem se livra do desespero. Fiel retrato do que se joga no país.

(Estatísticas: Footstats)


Corinthians pode ter seis decisões em nove jogos para se manter na Série A
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André Rocha

Foto: Rodrigo Gazzanel (Agência Corinthians)

O Corinthians não terá direito a “ressaca” ou “luto” pela perda da Copa do Brasil para o Cruzeiro. No domingo já enfrenta o Vitória no Barradão. Com 35 pontos em 29 partidas, está três à frente do adversário e quatro de distância do Ceará, 17º colocado, mas ainda com um jogo a cumprir contra o já saciado Cruzeiro no Mineirão.

Cenário preocupante, principalmente porque o time não consegue evoluir no desempenho com Jair Ventura. As semanas livres para treinar sem o mata-mata para priorizar podem ajudar o treinador a encontrar uma formação que entregue mais soluções em campo.

O atual campeão brasileiro vai precisar, porque ainda terá pela frente mais seis duelos com equipes que orbitam pela metade de baixo da tabela e podem ser decisivos para se manter na Série A sem sustos: Bahia, Vasco e Chapecoense em casa e Botafogo, além do Vitória, fora. O Cruzeiro ocupa a décima colocação com 37 pontos e tem um jogo a menos, mas dependendo de como vai se comportar até o fim do campeonato, com o relaxamento natural pelo objetivo alcançado, pode se complicar e tornar dramático o confronto pela 34ª rodada, no Mineirão.

O Corinthians ainda terá o clássico com o São Paulo em Itaquera, o Atlético Paranaense que ainda nutre uma esperança de chegar ao G-6 ou G-7 fora de casa e fecha o campeonato em Porto Alegre contra o Grêmio que pode novamente estar com a cabeça no Mundial Interclubes. Ou lutando por vaga direta na fase de grupos da Libertadores 2019.

Tudo muito incerto e perigoso pelo que o time de Jair Ventura não vem fazendo em campo. É preciso resgatar a organização defensiva sem necessidade de se entrincheirar guardando a própria área e ganhar fluência ofensiva. Reunir Pedrinho, Jadson e Mateus Vital, os mais talentosos do quarteto ofensivo, com Romero, o melhor finalizador, mais próximo da meta adversária como um centroavante móvel, pode ser um bom início.

É urgente aumentar o número de finalizações – média de dez por jogo, só superior à do América. Bizarro para a equipe que é a segunda que mais acerta passes, atrás apenas do Grêmio, e está em sexto na posse de bola. Ou seja, é um time “arame liso”: cerca, mas não fura as defesas adversárias. Apenas 28 gols marcados, 27 sofridos. Irregularidade condizente com as mudanças de treinador e as dificuldades financeiras do clube.

Agora é contar com a paciência e o apoio da torcida em casa e um time mais consistente como visitante. Se não for possível na técnica e na tática, o Corinthians terá que ser coração puro para sobreviver a um 2018 que começou bem, mas foi desmoronando até sobrar a missão mais básica. Típico da montanha russa que é o futebol brasileiro.


Maxi López salvando o Vasco diz muito sobre o Brasileirão
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André Rocha

Foto: Andre Melo Andrade/Eleven

No gol de Pikachu, o movimento deixando a bola passar que desmontou a zaga dos reservas do Cruzeiro. Depois uma ação típica de centroavante, girando e batendo com efeito. Maxi López foi o grande destaque individual dos 2 a 0 em São Januário que fazem o Vasco respirar na fuga do Z-4.

O centroavante fez cinco gols em doze jogos.  Mais quatro assistências e dez passes para finalizações. Precisa em média de seis conclusões para ir às redes. Não são números espetaculares, de um fenômeno. Para a realidade cruzmaltina, porém, vem sendo a diferença. Ou a salvação.

Porque a equipe de Alberto Valentim depende fundamentalmente do trabalho do centroavante. Antes pesadão, agora mais em forma e com ritmo de competição. Mas naturalmente menos ágil com seus 34 anos e 1.85m. Ainda assim, faz o trabalho do típico pivô e incomoda os zagueiros. Recebe bolas longas ou passes curtos, retém, espera seus companheiros e serve ou gira para finalizar. Sem o argentino o time trava.

Impressionante para quem nas últimas temporadas do futebol italiano atuando por Torino e Udinese havia marcado apenas quatro gols em 44 partidas. Teve alguns bons momentos na equipe de Turim, mas desempenho em alto nível mesmo só no Catania em 2010 e… no Grêmio em 2009. Sua outra passagem pelo futebol brasileiro.

É surreal que em 2018 Maxi López ainda consiga em poucos jogos entregar tanto na Série A. No início estava nitidamente acima do peso. E já fez diferença… Méritos dele, bom para o Vasco, mas também diz muito sobre o Brasileirão. Um retrato nu e cru do baixo nível técnico e de intensidade. Em uma liga mais veloz e competitiva, Máxi teve e teria mais dificuldades para impor seu jogo físico e de boa técnica, mas já em rotação mais baixa.

Há muitos anos a principal competição nacional vive de jovens talentosos surgindo e de experientes sem mercado nos grandes centros. Mas não deixa de assustar a maneira com que “La Barbie” se impôs por aqui. Sinal dos tempos.

(Estatísticas: Footstats)


Nosso futebol é medroso porque o Brasil sempre tem algo a temer
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André Rocha

“Bola para o mato que o jogo é de campeonato!” Um dos jargões mais conhecidos do futebol do Brasil, com origem na várzea, traz um conceito básico do nosso jeito de ver o esporte: se vale pontos e taça, a ordem é minimizar os riscos. Para que tentar sair tocando e errar?

Um paradoxo no país cinco vezes campeão mundial, que ainda carrega para muitos o rótulo de “jogo bonito”. O detalhe é que por aqui sempre houve uma distinção entre talentosos e os esforçados que deviam correr para os craques decidirem. Os “carregadores de piano” que faziam o serviço sujo, mas entregavam a bola limpinha para quem sabe. No sufoco é chutão para frente mesmo!

Em três momentos da história da seleção brasileira, o medo de ficar para trás foi uma alavanca. Em 1958, a influência dos húngaros na Copa anterior trouxe a linha de quatro na defesa. Somado ao recuo de Zagallo pela esquerda no 4-3-3 que ficou mais nítido quatro anos depois no Mundial do Chile. Cuidados defensivos para o talento de Didi, Garrincha e Pelé decidir na frente.

Mesma lógica de 1970 depois do massacre físico e tático da Copa de 1966 na Inglaterra. O raciocínio básico de Zagallo e comissão técnica era: “se igualarmos na força e na organização venceremos na técnica”. No México, a seleção até hoje considerada a maior de todos os tempos se fechou com todos atrás da linha da bola e matou a grande maioria dos oponentes no segundo tempo em contragolpes velozes.

Depois da traumática Copa de 1982, o mote que encontrou seu ápice em 1994: “vamos fechar a casinha porque se não levarmos gol os nossos craques desequilibram”. Bebeto e Romário nos Estados Unidos. Mas também o trio Ronaldo-Rivaldo-Ronaldinho em 2002 no último título mundial. Decidindo para o Brasil de Felipão com três zagueiros e dois volantes. Sempre a cautela, o pensamento conservador. Fazer o simples no coletivo para que o brilho individual faça a diferença. Não arrisca, só vai na boa.

Lógico que há brilhantes exceções, especialmente nos clubes. Times arrojados, ofensivos como o “Expresso da Vitória” do Vasco nos anos 1940, Santos de Pelé, o Botafogo de Garrincha, Cruzeiro de Tostão, o Palmeiras da Academia, o Flamengo de Zico, o São Paulo de Telê Santana e outros. Mas a linha mestra sempre foi “na dúvida, toca pro talento que ele decide”.

Hoje vivemos um dilema na execução desta ideia de futebol. Porque o esporte evoluiu demais nos últimos dez anos, na organização para atacar e defender. Pep Guardiola levou a proposta ofensiva a outro patamar, José Mourinho respondeu com a radicalização do trabalho de compactar setores para proteger sua meta.

Por conta da nossa tradição de acreditar no talento, olhamos com atenção mais para a prática do treinador português. A modernização do “fechar a casinha”. Ser atacado durante a maior parte do tempo virou “saber sofrer”. De Guardiola pegamos a marcação por pressão no campo de ataque. Nenhuma novidade, já que os times do sul têm essa reação após a perda da bola em sua cultura futebolística influenciada justamente pelos europeus.

E na hora de atacar? Ainda acreditamos que é questão de entregar a bola aos mais talentosos. Só que há dois problemas: o primeiro é que os melhores vão para a Europa cada vez mais cedo. O segundo é a relação espaço/tempo. Pela aproximação dos setores e por conta da pressão que o jogador com a bola recebe assim que a recebe é obrigação decidir certo e rápido.

Driblar? Só no local e no momento exatos. De preferência bem perto ou mesmo dentro da área adversária e com apenas um jogador pela frente. Algo cada vez mais raro. Porque para chegar neste ponto é preciso construir a jogada  com precisão e velocidade. Desde a defesa. Toca, se desloca, arrasta a marcação. Ilude com movimentos coletivos, não necessariamente com a finta, a ginga. Pensar no todo e não segmentando os que defendem e atacam. Difícil mudar uma mentalidade de décadas e que foi vencedora tantas vezes.

Mais fácil sair jogando com ligações diretas, tentar ganhar o rebote e avançar alguns metros já no campo adversário. Sem correr o risco de perder a bola perto da própria meta por conta de um passe errado. Minimizar erros, lembra? Por isso vez ou outro ouvimos dos treinadores uma espécie de confissão: “o perigo é quando temos a bola”.

Porque somos medrosos. No futebol e até como nação. Basta olhar a nossa história, quase sempre guiada por temores: da corte portuguesa, da insurreição mineira, do comunismo, do varguismo, da ditadura, do golpe, do imperialismo americano, da volta do partido x ou y ao poder, do fascismo. Votamos por medo, vamos às ruas com ele. Vivemos no susto. Com nossos fantasmas reais ou fictícios.

O futebol é mero reflexo. Por isso os gols estão cada vez mais raros, os jogos mais parelhos definidos em uma bola. Apenas o gol de Barcos para o Cruzeiro nas semifinais da Copa do Brasil, só os dois de Vasco 1×1 Flamengo nos três clássicos estaduais da 25ª rodada do Brasileiro. Poucos se arriscam e quando o fazem viram alvos. Dos rivais, das críticas. Para que mudar? É melhor “trabalhar quietinho”, sem assumir favoritismo. Respeitando todos os adversários. Até temendo. Deixando a bola para eles e ganhando no erro. Mais confortável ser zebra, até para diminuir o pavor da derrota.

O Brasil sempre tem algo a temer. A esperança é que em algum momento desperte o medo de matar a paixão do torcedor e, como consequência, seu interesse por um jogo tão pragmático e que entrega quase nada além do resultado final. Um cenário que já pareceu mais distante.

 

 

 


Empate no clássico dos contrastes: Vasco surpreende, Fla é mais do mesmo
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André Rocha

Quando saiu a escalação do Vasco antes do clássico em Brasília foi difícil imaginar como os jogadores se distribuiriam em campo. A formação inusitada de Alberto Valentim, depois de sua primeira semana cheia para treinamentos, foi uma surpresa para Maurício Barbieri e seus comandados.

Na prática, um 4-3-1-2 com Maxi López na referência, Andrés Rios saindo da direita para dentro e abrindo o corredor para as descidas de Raul e Fabrício partindo da função de “enganche” e procurando o lado esquerdo para combinar com Ramon.

Foram 27 minutos de domínio cruzmaltino. Deixando a posse de bola para o Flamengo e chegando em velocidade, principalmente com Raul pela direita. Seis finalizações contra uma do rival. Duas chances claras com a dupla de ataque até Maxi disputar com Léo Duarte e a bola sobrar para Rios empurrar para as redes.

Só que a intensidade vascaína cobrou um preço ao longo do jogo: a resistência física foi acabando para jogadores que não tinham uma sequência de partidas e o Flamengo foi adiantando as linhas e rondando mais a área do oponente.

Só que o time rubro-negro talvez seja o mais lento da Série A brasileira. Não só pela ausência de Vinicius Júnior, a referência de velocidade no bom momento até a parada para a Copa do Mundo, mas principalmente pela morosidade para circular a bola e acelerar o jogo com passes para frente quebrando as linhas de marcação do adversário.

Paradoxalmente acabou melhorando com a expulsão de Diego. Mas o gol de empate logo após o cartão vermelho para o camisa dez não teve nenhuma relação com a mudança. Mais um dos muitos cruzamentos de Pará, infelicidade de Luiz Gustavo para ajudar um ataque nada contundente.

Mas com Berrío e Arão nas vagas de Vitinho e Uribe, Paquetá foi para a referência na frente e o Fla passou a dar sequência às jogadas e criar mais perigo para a meta de Martín Silva. Valentim fez as três substituições para reoxigenar seu time, mas perdeu Bruno Silva num choque que tirou o jogador numa ambulância que precisou ser empurrada (!). Com dez para cada lado, restou ao Vasco lutar com Máxi López. Impressionante como o argentino consegue levar vantagem nas típicas disputas de centroavante com os zagueiros. Podia ter feito o gol da vitória.

Foram 16 finalizações para cada lado – sete do Vasco no alvo, uma a mais que o Fla, novamente o dono da bola: 58% de posse.De novo exagerando nos cruzamentos, com 40 bolas levantadas. Muita esforço, pouca efetividade. Mais do mesmo, tendência de se afastar de vez da busca pelo título. Se o Atlético Mineiro vencer o clássico contra o Cruzeiro reserva, o Flamengo terá mais um concorrente se aproximando.

Outro empate no duelo entre desiguais que se equilibra no campo com seus contrastes. Alberto Valentim foi arrojado e alcançou seu primeiro ponto. Mas a luta para seguir na Série A, com vitórias na semana de Chapecoense e Ceará, será duríssima. Pode terminar a 25ª rodada em penúltimo lugar. Vem mais um drama por aí.

(Estatísticas: Footstats)


Péssimos no returno, Vasco e Botafogo voltam a flertar com o perigo
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André Rocha

Foto: André Durão/Globoesporte.com

Parece um passado distante, mas o Vasco disputou a Libertadores em 2018. Eliminado em um grupo complicado com Cruzeiro e Racing, mas conseguindo passar pelas fases preliminares. O Botafogo marcou presença no ano passado, também começando a trajetória no início do ano, e foi mais longe. Talvez o adversário mais complicado do campeão Grêmio, caindo nas quartas de final.

Era possível vislumbrar um período com alguma estabilidade depois da sequência de rebaixamentos de 2013 a 2015. As oscilações, porém, voltaram com força e os times cariocas flertam de novo com o perigo.

No returno, o Vasco soma quatro pontos em cinco partidas, mais a derrota por 1 a 0 para o Atlético-PR em jogo adiado. Estreia de Alberto Valentim, que foi campeão estadual pelo Botafogo vencendo o Vasco de Zé Ricardo e voltou de uma breve experiência no Pyramidis do Egito. Ainda tem uma partida a cumprir para chegar aos 24 jogos, fora de casa contra o Santos de Cuca e Gabigol. São quatro reveses consecutivos. Nenhum ponto com o novo treinador.

Já o Botafogo de Zé Ricardo, que comandou o time cruzmaltino no torneio continental, tem o mesmo desempenho: quatro pontos em cinco jogos. Aproveitamento de 27%. Ambos se igualam a Sport e Corinthians e só superam Paraná (dois pontos em cinco jogos) e Chapecoense (um ponto em quatro partidas), equipes que parecem fadadas ao rebaixamento, embora a recuperação ainda seja perfeitamente possível na matemática para ambas.

Clubes com problemas financeiros no primeiro ano dos mandatos dos presidentes Alexandre Campello e Nelson Mufarrej e quatro mudanças no comando técnico em nove meses de temporada. O Vasco teve Zé Ricardo, Jorginho, um breve hiato com o interino Valdir Bigode e agora Valentim. O Botafogo começou o ano com Felipe Conceição, depois Alberto Valentim saiu por proposta irrecusável – a única mudança sem a iniciativa do clube – para a chegada de Marcos Paquetá, que durou cinco jogos, e agora Zé Ricardo. Elencos também muito mexidos. Baixa qualidade e pouco entrosamento, sem um modelo de jogo assimilado. Uma fórmula que não costuma terminar bem.

Para complicar, Rodrigo Lindoso perdeu o pênalti do empate no clássico contra o Fluminense – uma bela defesa do goleiro tricolor Rodolfo – e Yago Pikachu foi expulso no Barradão na derrota para o Vitória e está suspenso para o clássico contra o Flamengo. Agora sob o comando de Paulo César Carpegiani, o time baiano subiu para a 12ª colocação, com dez pontos em 15 possíveis no returno. Com Tiago Nunes, o Atlético-PR também se afastou da “confusão” com bom futebol. Tem 27 pontos no 14º lugar e ainda dois jogos a cumprir.

Ceará também reage: são oito em seis partidas. Com os mesmos 24 pontos de Sport e Vasco, este o primeiro fora do G-4. Dois pontos abaixo do Bota, o 15º na tabela. Todos com aproveitamento total abaixo dos 40%. O Vasco já sofreu 35 gols. Só não levou mais que Vitória (40) e Sport (36).  O Botafogo sofreu 33, mas só marcou 21. Quinto ataque menos efetivo. Quarto pior saldo de gols.

A má notícia é o viés de queda em contraste com o Ceará de Lisca pontuando com mais frequência. É claro que nesta zona da tabela as variações são naturais e devem seguir até o final. Mas Vasco e Botafogo vivem situações preocupantes. A tensão de torcidas traumatizadas com descidas ao inferno da Série B torna tudo ainda mais explosivo.

O Botafogo tem uma competição em paralelo: disputa as oitavas de final da Copa Sul-Americana contra o Bahia. Uma possibilidade a mais de arrecadação e de vitórias para reagir animicamente no Brasileiro, mas também semanas “cheias” a menos que os concorrentes para recuperar e treinar.

É claro que o torcedor otimista pode ver esperança na classificação “achatada”: são seis pontos de distância do Vasco em relação ao décimo colocado, o Corinthians. Uma sequência de vitórias e a primeira página da tabela vira uma realidade.

Se tudo der errado e as campanhas forem novamente de rebaixado, a esperança da dupla carioca é que, ainda assim, quatro clubes caiam por eles. Já pareceu mais possível.  Os times se enfrentam dia 6 de outubro, pela 28ª rodada.


Onde você estava no dia 24 de janeiro?
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André Rocha

Atlético-MG x São Paulo. Internacional x Flamengo. Palmeiras x Atlético-PR. Ainda Santos x Grêmio na quinta-feira. Jogos grandes e importantes para o Brasileiro. Todos os envolvidos são campeões nacionais. A 23ª rodada é daquelas que num campeonato por pontos corridos podem definir muita coisa. Ainda mais no meio da semana, sem mata-mata e times poupando seus atletas.

Mas será disputada em meio à data FIFA. Muita reclamação dos clubes com jogadores convocados por Tite, porém desfalcados também pelos estrangeiros que servem suas seleções. Everton, Kannemann, Arboleda, Paquetá, Cuellar, Trauco, Chará. Mais as ausências comuns por cartões e lesões. Neste último caso, também pelo acúmulo de jogos na temporada.

As principais ligas paradas para as seleções jogarem e a gente aqui descascando batata no porão. De novo. Por quê?

A resposta genérica é o calendário inchado. Mas podemos ser mais específicos. Onde você estava no dia 24 de janeiro deste ano?

Nesta quarta feira, na qual os times poderiam estar fazendo sua pré-temporada com tranquilidade – em especial o Grêmio, que entrou de férias depois dos demais porque disputou o Mundial de Clubes -, o São Paulo venceu em casa o Mirassol por 2 a 0, o Corinthians fez 2 a 1 sobre a Ferroviária. Mesmo placar da vitória do Palmeiras sobre o Red Bull Brasil no dia seguinte, enquanto o Santos perdia por 1 a o para o São Bento.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro o Flamengo vencia o Bangu por 1 a 0, o Vasco era derrotado pela Cabofriense por 2 a 1 e o Fluminense empatava sem gols com a Portuguesa da Ilha. Na quinta, vitória do Botafogo sobre o Macaé por 2 a 1. No Rio Grande do Sul, o Grêmio perdeu para o Avenida por 3 a 2 e o Internacional foi superado pelo Caxias por 2 a 1. Em Minas, o Cruzeiro enfiava 5 a 0 no Uberlândia e o Atlético, na quinta, perdia para o Villa Nova por 1 a 0.

Você lembra dessas partidas? Com todo o respeito que as equipes de menor investimento merecem, não dá para dizer que foi uma rodada de meio de semana perdida? A maioria de jogos deficitários, alguns com os grandes utilizando reservas e resultados que pouco interferiram no destino dos clubes dentro da temporada. Mesmo para quem valoriza os estaduais, até pelas boas cotas de TV, não dá para negar que foram datas jogadas no lixo.

Pois é…Se o seu time vai jogar hoje ou amanhã dentro de uma data FIFA, na qual poderia estar recuperando e treinando para se fortalecer e apresentar um desempenho melhor na volta do campeonato, é por causa desse 24 (e 25) de janeiro que só alimenta uma estrutura federativa ultrapassada, pouco eficiente e eficaz na gestão do futebol brasileiro.

É chato bater sempre na mesma tecla. Mas enquanto os mesmos erros forem cometidos pelos clubes que aceitam ser explorados e exauridos, nada fazem pensando no todo e só reclamam quando se sentem prejudicados será inevitável. Mais do mesmo. Uma pena.


Sem o típico “pivozão”, Cuca faz o Santos trabalhar para o redivivo Gabigol
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André Rocha

Sem a maratona de Copa do Brasil e Libertadores, a tendência é o Santos de Cuca ganhar corpo. Mesmo sem muito tempo para trabalhar até aqui, já é possível notar uma melhor organização no 4-1-4-1. Sem tantas perseguições longas que quebram a última linha de defesa, prática habitual do treinador.

Nos 3 a 0 sobre o frágil Vasco na segunda partida sob o comando de Alberto Valentim, o time paulista marcou os gols através de combinações pelos flancos como devem ser: aproximação, ultrapassagem e passe para trás do fundo para quem chega de trás. Duas pela direita, uma pela esquerda. Gabriel Barbosa, o Gabigol, chegou três vezes. Agora tem dez gols e é um dos artilheiros do Brasileiro, ao lado de Pedro do Fluminense.

Redivivo por uma ideia de jogo que potencializa suas virtudes. Joga solto na frente, com Sánchez e Pituca adicionando inteligente ao meio-campo e Rodrygo e Sasha fazendo diagonais partindo das pontas para se juntar ao camisa dez na área adversária. Sem a bola, duas linhas de quatro com Sánchez aberto e um dos ponteiros voltando do lado oposto.

Sem o típico “pivozão” que Cuca costuma usar em seus times para disputar pelo alto nas ligações diretas, o Santos troca passes, movimenta as peças e tenta pressionar para roubar a bola na frente e chegar rapidamente à área adversária.

Assim controlou o jogo no Maracanã e foi efetivo. 48% de posse, nove finalizações, cinco no alvo. Três nas redes de Martín Silva, que poderiam ser quatro se Gabriel não perdesse gol feito no contragolpe. Óbvio que o descoordenado trabalho defensivo de um Vasco constantemente mexido, inclusive no comando técnico, colaborou para a fluência ofensiva do alvinegro praiano. Não por acaso é uma equipe constantemente vazada. São 32 sofridos, abaixo apenas de Sport (34) e Vitória (40). Tão preocupante quanto a aproximação do Z-4.

Não tira, porém, os méritos do Santos que pula, ao menos por enquanto, para a primeira página da tabela do Brasileiro. Ainda tendo um jogo a cumprir – justamente contra o Vasco, em São Paulo. Com praticamente um turno a cumprir, o G-6 é meta mais que palpável. Ainda mais com o “sprint” do redivivo Gabigol.

(Estatísticas: Footstats)


São Paulo agora é líder, com a mão de Diego Aguirre e um toque de humildade
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André Rocha

O gol de Joao Rojas no primeiro minuto do jogo no Morumbi era tudo que o São Paulo precisava para não complicar o duelo contra o Vasco como aconteceu na derrota para o Colón pela Sul-Americana. O jogo parecia ficar à feição da equipe que trabalha melhor com espaços para acelerar as transições ofensivas.

Mas o tricolor deu a impressão de se acomodar dentro de uma proposta de atrair o adversário para o seu campo, controlar espaços e esperar que o contragolpe ou uma bola parada surgisse naturalmente para ampliar a vantagem no placar.

Só que este São Paulo de Diego Aguirre precisa de agressividade na marcação e não recuar tanto as linhas para se defender na execução do 4-2-3-1. Porque Rojas e Everton ocupam a segunda linha de quatro e se ficarem no próprio campo deixando Diego Souza e Nenê na frente o time perde velocidade. Precisa que a dupla de veteranos retenha a bola na frente à espera dos companheiros.

Talvez a intenção tenha sido administrar o fôlego depois do desgaste físico e mental na quinta diante de um oponente que teve uma semana cheia de trabalho. Mas desperdiçou a chance de aproveitar o estádio quente e tentar definir o jogo com intensidade nos primeiros 45 minutos.

Pior foi a desconcentração na volta do intervalo, com muitos espaços entre os setores. Bem aproveitados por Andrés Ríos e Giovanni Augusto, o meia central do 4-2-3-1 cruzmaltino, que entrava às costas de Liziero e Hudson para servir os companheiros. Passe preciso e o sétimo gol de Yago Pikachu, a grande estrela vascaína na competição, entrando às costas de Bruno Alves.

O São Paulo foi da letargia ao desespero. Muitos passes errados cedendo contragolpes seguidos ao Vasco, que desperdiçou boas chances. Chute perigoso de Giovanni Augusto e em várias situações o lateral improvisado Luiz Gustavo se juntando a Pikachu fazendo dois contra o lateral Reinaldo.

Aguirre precisava mexer e teve coragem. Tirou Nenê e Diego Souza e colocou Carneiro e Tréllez. Mudanças que poderiam gerar reclamações das estrelas – socos no banco de reservas, chutes nos copos de água. Nada disso, apenas apoio. De todos. Até porque estava claro que o ataque precisava de gás.

Mas o gol do desafogo saiu na jogada com protagonistas que estavam em campo e já desgastados. Arrancada de Liziero, Everton ganhou de Luiz Gustavo e cruzou para Tréllez. Desta vez a bola aérea funcionou, com o toque que tirou de Martin Silva. A quinta assistência do ex-jogador do Flamengo. Gols em dois dos 30 cruzamentos em 90 minutos.

Na beira do campo, Nenê e Diego Souza comemoraram com Aguirre. Um detalhe que vira clichê nas vitórias e conquistas, mas que em qualquer ocasião tem seu simbolismo. E deixa claro que o São Paulo, mesmo oscilante, está mobilizado atrás do título que não vem há uma década.

Fundamental em jogo que se mostrou mais equilibrado que o esperado: nove finalizações para cada lado e 52% de posse de bola do time de Jorginho. Mas 24 desarmes certos dos são-paulinos, o dobro do Vasco. Tão simbólico quanto a ascensão à liderança logo na primeira rodada do campeonato no temido agosto para o Flamengo. Para o clube paulists, depois de três anos.

Se mantiver a mão firme do treinador e a humildade dos jogadores priorizando o coletivo é possível ampliar a vantagem no topo da tabela. Mesmo com o sofrimento e a ansiedade de um gigante que não levanta taças desde 2012.

(Estatísticas: Footstats)


Romero é a marca da “identidade Corinthians” em mais uma reconstrução
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André Rocha

Fabio Carille teve oportunidades como interino antes de ser efetivado como treinador do Corinthians em 2017. Quando saiu com status de vencedor, o sucessor Osmar Loss não desfrutou de tempo para “estágio”. Mesmo em um time campeão brasileiro e bi do Paulista não é uma transição simples.

Para piorar, a continuação de mais um desmanche por conta dos problemas financeiros do clube. Antes Pablo, Jô e Guilherme Arana, depois Balbuena, Sidcley, Maycon. Por último, Rodriguinho. Protagonista e melhor finalizador. Como único contraponto, a permanência de Jadson.

A solução foi manter a identidade de organização e concentração defensiva, mesmo com muitos erros individuais e natural desentrosamento na última linha da retaguarda, e buscar a melhor reposição possível. Na lateral esquerda, Danilo Avelar vai ganhando confiança e encaixe. No meio, Douglas tem passe mais qualificado que Renê Júnior e melhora a dinâmica e a construção de jogadas.

Na frente, com Roger lesionado e Jonathas ainda se adaptando, Loss recorreu ao 4-4-2 sem centroavante dos tempos de Carille. Na frente, o retorno de Jadson e liberdade para o grande personagem desta tentativa de reação no Brasileiro com as vitórias por 2 a 0 sobre o Cruzeiro em Itaquera e 4 a 1 contra o Vasco no Mané Garrincha.

Ángel Romero marcou cinco dos seis gols da equipe, mas não só isso. Muita mobilidade quando atua solto na frente, sempre rondando a área adversária, e a já conhecida eficiência nas finalizações. Ainda a volta pela direita para compensar a intensidade e a resistência não tão altas de Pedrinho para fazer a função pelo lado. Dá liberdade ao jovem talentoso, mas não deixa de participar das ações ofensivas.

No segundo tempo em Brasília, a melhor atuação corintiana sob o comando de Loss. Com algumas marcas da maneira de jogar construída por Mano Menezes e Tite e ratificada por Carille: apenas 47% de posse e nove finalizações. Seis no alvo, quatro gols. Apenas oito desarmes certos contra 23 do Vasco. Mas oito interceptações corretas e nenhuma do adversário. Consequência de um time melhor posicionado. A “identidade Corinthians”.

Evolução importante para um momento fundamental da temporada, com as disputas de mata-mata na Copa do Brasil e na Libertadores chegando. Com tantas mudanças recentes é difícil vislumbrar regularidade suficiente para ser competitivo em três frentes. Mas a impressão é de que mais uma vez o Corinthians pode minimizar em campo os problemas crônicos de gestão.

Com mais um que “herda” protagonismo: já foi Jadson, depois Jô, Rodriguinho… Agora é a vez de Romero. Antes desprezado e até motivo de chacota, agora a estrela de mais uma reconstrução do atual campeão brasileiro.

(Estatísticas: Footstats)