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Croácia é um belo “case de caos”. Mas não deve ser exemplo mesmo que vença
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André Rocha

Foto: Yuri Cortez/AFP

O último título mundial do Brasil em 2002 foi um curioso caso, talvez único, no qual a conquista ficou parecendo a consolidação de um trabalho que vinha do título em 1994, passando pelo vice quatro anos depois. Mas a trajetória de fato foi caótica: Vanderlei Luxemburgo, Candinho e Emerson Leão até chegar a Luiz Felipe Scolari.

Sofrimento nas Eliminatórias, vergonha na Copa América contra Honduras. Tudo deu certo mesmo apenas na Ásia – com seus percalços, como a estreia contra a Turquia vencida no pênalti “mandrake” sobre Luisão e nas oitavas, quando a arbitragem também interferiu no triunfo sobre a Bélgica.

Curiosamente, depois do título veio um período de esperança e prosperidade. Amadurecimento de Kaká e Adriano Imperador, surgimento de Robinho e Diego no Santos campeão brasileiro ainda naquele ano. Com Parreira no comando, títulos da Copa América, Copa das Confederações e liderança nas Eliminatórias. A queda pós ascensão veio logo no Mundial na Alemanha.

Depois o Brasil não mais se impôs. Com ciclo completo de Dunga em 2010, os nas mudanças de Mano Menezes para Felipão em 2014 e agora saindo de Dunga para Tite. Pelas mais variadas circunstâncias, inclusive a aleatoriedade em jogos eliminatórios.

A classificação da Croácia para a final contra a França despertou aqui e ali uma tese bastante presente em nosso país: planejamento e organização não garantem sucesso, que se resume ao título. Ainda mais em tempos de Flamengo e Palmeiras equacionando dívidas e sem conseguir alcançar os troféus desejados justamente no momento em que os investimentos aumentaram.

Devia ser óbvio defender uma linha de trabalho com ideias claras e objetivos bem definidos. Que no futebol não pode ser atrelada tão diretamente a algo sem controle como o resultado final. Muito menos em uma Copa do Mundo. Torneio que conta com sorteio e chaveamentos. No qual a ordem de adversários e as circunstâncias são totalmente aleatórias. Premia o melhor daquele mês, não necessariamente o do ciclo inteiro.

O trabalho sério é para garantir a competitividade. Sair de um papel de coadjuvante, desclassificado na primeira fase, para brigar no topo ou no mais próximo disto. Assim foi com Espanha, França, Alemanha e Bélgica. Assim pensa o Brasil ao vislumbrar mais quatro anos com Tite.

Porque a Croácia pode até ser campeã mundial. Mas correu sérios riscos de ficar de fora da Copa. Quando contratou Zlatko Dalic às pressas depois de demitir Ante Cacic precisava vencer a Ucrânia fora de casa para ir à repescagem, já que a Islândia garantira o primeiro lugar do grupo na eliminatória. Conseguiu um 2 a 0. A ventura no sorteio com a Grécia. O resto é história.

Que podia nem ter chegado a Rússia. Como aconteceu com Itália e Holanda. Uma renegou a formação de talentos, a outra encontra-se presa numa escola de futebol que tanto ofereceu ao mundo, mas parou no tempo. Risco que o Brasil correu com Dunga. Agora é fácil dizer que independentemente do treinador o país sempre vai à Copa. Era sexto colocado, atrás do Chile, bicampeão da Copa América que não se repaginou após a saída de Jorge Sampaoli e o espasmo com Pizzi na conquista do torneio Centenário nos Estados Unidos e ficou fora.

A Croácia é um “case de caos” para virar filme. Admirar a força mental dos jogadores, invejar a presença de meio-campistas talentosos como Modric e Rakitic e reconhecer a capacidade de mobilização e trabalhar no improviso de Dalic, que chega a seu 14º jogo no comando da seleção em uma final. Mas não pode servir de exemplo.

Melhor a França, que manteve o contestado Didier Deschamps depois do decepcionante revés em casa na final da Eurocopa contra Portugal e, sem tantos tempos extras e sofrimento, também está na decisão de domingo. Com favoritismo pelo menor desgaste e por contar com um trabalho mais consolidado.

Carrega, porém, o peso da responsabilidade de vencer. Exatamente o que sangra tantas equipes. Os croatas não têm absolutamente nada a perder. A campanha já é histórica, superando a geração de 1998. O cansaço já é um álibi até em caso de derrota por goleada. Se num último esforço conseguirem a vitória serão heróis eternos de um país.

Posição cômoda na Copa do Mundo da força mental. Mas até chegar lá esbarrou em muitas variáveis que podiam fazer tudo dar errado. Sem contar que é uma geração que não deve deixar legado para 2022. Porque há talento, sorte e muita fibra. Mas pouco trabalho e estrutura pensando a longo prazo. É a exceção à regra, como o Brasil da “Família Scolari” há 16 anos. Não pode ser referência para ninguém.


Ventura? Itália brinca com a sorte e pune geração nem tão fraca assim
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André Rocha

Foto: Divulgação/FIGC

A Itália não tem uma geração talentosa para duelar com a renovada Espanha por uma vaga na Copa do Mundo. Mas não precisava de tanto assim para superar uma Suécia sem Ibrahimovic na repescagem das eliminatórias.

Buffon na meta, uma defesa experiente, Jorginho e Verratti no meio-campo e bons nomes como Bernardeschi, Belotti e Insigne na frente. Mais que suficiente para colocar a Azzurra em mais uma Copa do Mundo. O que aconteceria na sequência dependeria do sorteio e de como a seleção chegaria à Rússia.

Em 2010 chegou na África do Sul em crise. No Brasil em 2014, o calor e o grupo complicado, com a surpreendente Costa Rica terminando na liderança, frustraram os planos.

Mas há uma referência mais recente que mostra que a crise não deveria ser tão feia: a Eurocopa 2016. Da grande atuação contra a então envelhecida Espanha e do belo duelo tático contra a Alemanha nas quartas-de-final. Perdendo apenas nos pênaltis para a atual campeã mundial. Há pouco mais de um ano, com praticamente os mesmos jogadores. E Antonio Conte no comando técnico.

Eis o ponto de desequilíbrio. Ainda que a saída do treinador para o Chelsea tenha sido traumática, a escolha do sucessor não podia ter sido tão aleatória. Giampiero Ventura, aos 69 anos, assumiu a seleção quatro vezes campeã mundial com a seguinte sequências de times no currículo nos últimos dez anos: Verona, Pisa, Bari e Torino.

Com todo respeito que essas equipes merecem, principalmente a história do clube de Turim, é muito pouco para o peso do cargo. Ainda que se compreenda a lógica diferente na Europa, na qual os melhores treinadores trabalham em clubes e não nas seleções, a federação italiana foi, no mínimo, infeliz. Com um Maurizio Sarri ali tão perto…

O resultado prático foi uma seleção armada num 4-4-2 com jeito de 4-2-4, com o meio-campo esvaziado logo diante da Espanha de Busquets, Isco, Iniesta, David Silva.. Se não há tantas opções de qualidade é obrigatório fazer o simples: organização e eficiência nas transições, defensivas e ofensivas. O que a Itália ensinou para o mundo e virou sua marca, até um clichê para falar do futebol praticado no país. Difícil entender.

Na decisão contra a Suécia no San Siro, a escolha de Immobile, um atacante de velocidade que precisa de espaço para receber às costas da retaguarda, para enfrentar uma equipe com sistema defensivo posicionado na maior parte do tempo para administrar a vantagem mínima construída no jogo de ida. Nos minutos finais, a imagem patética do volante De Rossi apontando para Insigne, talvez o mais talentoso atacante, como o jogador que deveria entrar e não ele. Apenas mostrando o óbvio.

É claro que, ainda assim, era possível fazer dois gols nos suecos em Milão e ao menos garantir o básico. Mas a Itália brincou com a sorte ao escolher Ventura. Agora paga com as lágrimas de Buffon, que não merecia se aposentar com tamanha decepção, e um dos grandes vexames de sua história. Repetindo o insucesso de 1957 ao perder a vaga para o Mundial da Suécia para a Irlanda do Norte e superando o papelão da constrangedora eliminação para a Coréia do Norte na Copa de 1966.

Vão falar em “geração fraca”, crise no Calcio e outras teses apocalípticas. Mas a liga, apesar do domínio da Juventus, tem mostrado evolução no futebol jogado, não só por causa dos estrangeiros. Basta ver o Napoli para notar que os conceitos mais atuais do jogo estão presentes. O erro maior foi a falta de cuidado e respeito com a própria história na hora de definir quem lideraria um dos maiores patrimônios do futebol mundial à beira do campo. Pecado mortal.

 


Eder consagrou CR7. Lembre outros coadjuvantes que eternizaram gênios
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André Rocha

Cristiano Ronaldo mudou de patamar na história do futebol com a conquista da Eurocopa. Ficou maior. Se Messi não mais jogar pela seleção argentina, este título do português pode colocá-lo acima do seu grande rival nos tantos rankings e eleições individuais que aparecem por aí e sempre existirão.

Porque comparar é um hábito milenar do ser humano, até para criar modelos, padrões e organizar os pensamentos, se situar.

Só que estamos falando de um esporte coletivo. Não há vitória solitária. A frase “Cristiano Ronaldo ganhou a Eurocopa” passa pelo gol de Eder na decisão. Ou o de Traustason, da Islândia contra a Áustria, que jogou o hesitante Portugal da fase de grupos no chaveamento mais acessível, saindo da rota de Itália e Alemanha antes da final.

Os livros estão repletos de casos de coadjuvantes que salvaram gênios da bola eternizados por suas grandes vitórias. Vamos lembrar:

1 – Pelé/Clodoaldo

Copa de 1970, semifinal contra o Uruguai.  Tensão pelo confronto com o algoz em 1950. Gol de Cubilla em falhas de Brito e Félix, primeiro tempo se arrastando para o final e a lendária seleção brasileira a ponto de se desmanchar mentalmente. Atuação sem brilho do Rei, o grande destaque individual no México.

Gerson, meia-armador e organizador da equipe, está bem vigiado e não consegue abastecer o ataque. Em uma conversa rápida com os companheiros surge a ideia: trocar com Clodoaldo e passar a ser volante, atraindo a marcação e desarrumando o meio-campo adversário.

O camisa cinco se lança ao ataque, recebe lançamento de Tostão e marca o gol de empate que seria a senha para a virada espetacular no segundo tempo, com atuação mágica de Pelé, que quase marcou um gol antológico, fintando o goleiro Mazurkiewicz sem tocar na bola e por pouco não surpreendeu o goleiro numa saída de bola equivocada.

Caminho aberto para o tri e a consagração do camisa dez. Graças ao companheiro menos badalado do Santos.

2 – Maradona/Olarticoechea

A lembrança marcante como coadjuvante do “Pibe” é de Burruchaga marcando o gol do título sobre a Alemanha na decisão no Estadio Azteca. Mas sem a presença do ala pela esquerda de nome esquisito, talvez a história do jogo mais emblemático da conquista da Argentina em 1986 tivesse sido diferente.

Na memória do planeta, um gol de mão e outro simplesmente o mais espetacular de todas as Copas. Maradona, o herói do triunfo que transcendeu o futebol como vingança por conta da Guerra das Malvinas. Só que o jogo não acabou com o segundo toque de Diego para as redes inglesas.

John Barnes entrou aos 29 minutos do segundo tempo. Em 1984 havia marcado um golaço no Maracanã enfileirando brasileiros na vitória inglesa por 2 a 0. Um ponta talentoso, mas descartado por ser negro. Fez a jogada do gol de Lineker, o sexto do artilheiro daquele Mundial. E faria o do empate, em nova arrancada de Barnes, não fosse o toque salvador de Olarticoecha, tirando do camisa dez inglês que já havia se desmarcado do zagueiro Ruggeri.

O detalhe: quem perdeu a bola na intermediária que gerou esse contragolpe foi…Maradona. Já exausto, assim como seus companheiros. Com o empate, como seria a prorrogação? Não houve. Porque Olarticoecha salvou o “Dios” argentino.

3 – Zidane/Blanc

Zinedine Zidane não perdeu a cabeça e foi expulso apenas na tão tola quanto lendária cabeçada no peito de Materazzi na final da Copa de 2006.

Em 1998, na vitória tranquila por 4 a 0 sobre a Arábia Saudita ainda na segunda partida da fase de grupos pisou em um adversário sem nenhuma necessidade e levou o cartão vermelho. Suspenso por dois jogos.

Ou seja, ficou de fora do duelo contra o Paraguai de Chilavert e Gamarra nas oitavas-de-final. Um dos sistemas defensivos mais sólidos e organizados daquela Copa. Zidane viu sua seleção rondar a área, sofrer e ser obrigada a já na primeira disputa eliminatória jogar uma prorrogação com “morte súbita”.

Um gol paraguaio e o camisa dez que pulverizaria o Brasil na decisão e entraria para o olimpo da bola iria para casa. Mas Laurent Blanc – sim, o ex-técnico do Paris Saint-Germain e ótimo zagueiro – fez o primeiro “golden goal” da história das Copas e salvou a pele de seu compatriota. Oito anos depois, Zizou não teve a mesma sorte e a Itália venceu nos pênaltis.

4 – Beckenbauer/Vogts

Até a decisão da Copa de 1974 em Munique, o craque do torneio era Johan Cruyff, gênio do “Carrossel Holandês”, a última grande revolução do esporte arquitetada fora do campo por Rinus Michels.

No primeiro minuto da final, justificou o status com uma arrancada desde a defesa  – era o último homem quando recebeu a bola! – e ser derrubado por Schwarzenbeck. Pênalti convertido por Neeskens. O primeiro a ser driblado foi Bert Vogts. Lateral direito de origem, mas que por ser um abnegado e incansável marcador foi designado para perseguir o falso centroavante holandês por todos os campos.

Mais ou menos o que Gentile faria com Zico e Maradona oito anos depois. Tempos de marcação individual. Deu certo. Vogts anulou Cruyff, facilitou a vida do líbero Franz Beckenbauer, que liderou sua seleção para a virada por 2 a 1 e consagrou o “Kaiser” com seu único título mundial como jogador.

Em 1990 seria o segundo, depois de Zagallo, a ser campeão como jogador e treinador. Talvez a história tivesse sido bem menos generosa com Beckenbauer se não fosse a dedicação de Vogts no cerco a Cruyff.

5 – Romário/Branco

Quando se fala de grandes atuações individuais em Copas do Mundo, as lembranças recaem sobre Maradona em 1986, Garrincha em 1962 e Romário em 1994, tal a dependência da seleção brasileira treinada por Carlos Alberto Parreira.

Nos Estados Unidos, o camisa onze foi protagonista em praticamente todas as partidas. Na final contra a Itália perdeu gol feito, mas carregava o mundo nas costas naquela tarde tórrida no Rose Bowl. Foi corajoso na decisão por pênaltis ao pedir para bater sem ser um dos cobradores escolhidos.

Mas, a rigor, a sólida equipe só se viu fragilizada em um único momento daquela Copa: as quartas-de-final contra a Holanda: 2 a 0, com golaço de Romário, que virou 2 a 2 em poucos minutos por total desconcentração da defesa. Os 24 anos sem títulos pesaram como nunca. Time desorganizado e exposto.

Até Branco cavar uma falta em um lance que mais pareceu infração do lateral esquerdo, que largou a mão no rosto de um adversário. Cobrança forte e precisa, choro do gaúcho que superou problemas físicos para substituir Leonardo, expulso nas oitavas contra os Estados Unidos.

Romário fez contorcionismo para sair da bola. Imaginem se ela explodisse nas costas do Baixinho e fosse para fora…

Nunca saberemos. Porque o futebol é imprevisível como a vida. E nas pequenas vitórias do cotidiano dependemos de tanta gente…Assim como os gênios da bola precisaram de companheiros menos famosos para ocuparem seus tronos. Vale a lembrança.

 


Na Euro do futebol coletivo, Portugal faz história sem sua estrela maior
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André Rocha

Só País de Gales foi derrotado pelos campeões nos 90 minutos, na semifinal. Mesmo com a estrela maior do futebol atual nascida na Europa, Portugal empatou seis vezes, venceu Croácia nas oitavas com o gol de Quaresma na prorrogação.

Símbolo de um torneio equilibrado, definido tantas vezes nos minutos finais. Não é difícil explicar. Todas as seleções meticulosamente estudadas, a grande maioria joga para o mundo todo assistir quase diariamente nas principais ligas do planeta.

Campeonatos que desgastam, física e mentalmente. O eixo central do esporte hoje são os clubes, não mais as seleções. Sugam toda a energia dos atletas no futebol da concentração na execução de planos de jogos complexos, com compactação, intensidade máxima, disputa por espaços e pressão em quem tem a bola.

É para pensar a longo prazo numa solução para que as disputas mais importantes do futebol de seleções não fique com o bagaço de seus astros.

Cristiano Ronaldo chegou à França no sacrifício. Recuperou-se, colocou seu país na decisão, mas não resistiu à entrada dura, não maldosa, de Payet. Vinte e quatro minutos em campo no Stade de France, dezesseis no sacrifício. Saiu às lágrimas numa cena tocante. Entrou Quaresma.

Depois restou ao camisa sete gritar, incentivar e torcer por seus companheiros, que negaram espaços à anfitriã e favorita com entrega total. Quando os comandados de Didier Deschamps conseguiram se livrar do cerco fortíssimo, Rui Patrício garantiu com defesas fantásticas. Nos acréscimos do tempo normal, o goleiro luso foi vencido, mas não a trave na bela jogada de Gignac sobre Pepe.

Estava escrito que só iria às redes o chute de Eder, que entrou na vaga da revelação Renato Sanches. Portugal foi intransponível como a Grécia de 2004 em terras lusitanas para frustrar a geração de Figo. O time de Felipão. Agora Fernando Santos foi quem emulou um outro treinador português: José Mourinho, o homem que organizou e tirou a vergonha da retranca para responder ao fenômeno Guardiola.

Com as linhas próximas que lembram o handebol, Portugal fez história. Para não deixar dúvidas, o destino se encarregou de não deixar em campo o craque maior para que ele não carregasse sozinho as glórias da conquista. Ainda que com a taça ele supere Eusébio e qualquer outro compatriota e também consiga o que Messi não alcançou com a Argentina. Além disso, garantiu a próxima Bola de Ouro, a quarta da carreira mais que vitoriosa. Exemplo de dedicação ao trabalho.

Mas o herói foi o time. A Eurocopa também aponta o norte do futebol mundial: jogo coletivo. Pode não agradar puristas e saudosistas, mas a entrega de cada português em campo construiu o maior feito do país.


Cristiano Ronaldo já é Bola de Ouro e pode tirar de si o asterisco de Messi
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André Rocha

Depois de sofrer para criar espaços na linha de cinco defensores galeses no primeiro tempo, Portugal definiu a semifinal no segundo tempo em oito minutos com Cristiano Ronaldo e Nani, os atacantes do 4-1-3-2 luso (Tactical Pad).

Depois de sofrer para criar espaços na linha de cinco defensores galeses no primeiro tempo, Portugal definiu a semifinal no segundo tempo em oito minutos com Cristiano Ronaldo e Nani, os atacantes do 4-1-3-2 luso (Tactical Pad).

Portugal havia jogado um futebol indigente numa avaliação geral dentro da Eurocopa. Mas foi letal no início do segundo tempo da semifinal contra País de Gales que garantiu a primeira vitória em 90 minutos e a presença na final.

Cristiano Ronaldo decidiu. O melhor finalizador que este que escreve viu jogar. De cabeça, o terceiro na edição e o nono na história da competição, igualando Michel Platini. Depois iniciou a jogada, na hora de arrancar para a área desistiu e esperou o rebote. Decisão acertada. Dominou com liberdade e chutou para Nani escorar.

Dois a zero em oito minutos. Intervalo de três minutos entre os dois gols. Improvável depois de um primeiro tempo de 51% de posse dos galeses que penaram na articulação sem Ramsey. Os lusos haviam finalizado cinco vezes contra três, mas em 45 minutos apenas uma conclusão no alvo: de Bale para defesa de Rui Patrício.

Estava difícil infiltrar na linha de cinco defensores de Gales e mais a proteção de Allen e Ledley. Nani e Cristiano até tentaram, com o suporte de Adrien Silva, Renato Sanches e João Mário, os três meias à frente de Danilo, volante mais plantado para liberar os laterais Cédric e Raphael Guerreiro, que não desceram tanto. Talvez temendo a circulação de Bale nas costas.

O técnico Chris Coleman desmanchou o sistema original, preencheu o meio com Williams, colocou Vokes e Church na frente e despejou bolas na área portuguesa. Só deu espaços para os contragolpes que só não terminaram no terceiro gol porque Danilo perdeu à frente do goleiro Hennessey e o individualismo de Cristiano Ronaldo em algumas jogadas.

Natural para quem quer competir e decidir sempre. A quarta Bola de Ouro está garantida com título e artilharia da Liga dos Campeões no Real Madrid e agora Portugal na decisão continental. Mas mesmo com o favoritismo no outro lado da semifinal, convém não menosprezar a grande estrela da Europa e seus compatriotas.

Até porque a disputa com Lionel Messi pelo status de maior craque desta era ganharia um ingrediente especial e decisivo com um título importante pela seleção. Se vencer, Cristiano Ronaldo tira de si o asterisco que incomoda o rival argentino. O domingo pode ser histórico.

(Estatísticas: UEFA)

 


Alemanha e Itália apresentam a lógica por trás da volta dos três zagueiros
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André Rocha

Quando Sepp Piontek adicionou um zagueiro, ou retirou um defensor, na Dinamarca da Eurocopa de 1984 e, quase ao mesmo tempo, Carlos Bilardo adotou prática semelhante na Argentina, o raciocínio era idêntico.

Se o jogo se definia no meio-campo, para que deixar quatro defensores para marcar apenas dois atacantes? Com três, a sobra era garantida e haveria cinco homens entre as intermediárias para criar superioridade numérica.

Eram tempos de marcação individual, influenciada pela Itália campeã do mundo e que tinha a principal liga do planeta. Na final da Copa de 1982, Enzo Bearzot montou a Azzurra com Bergomi e Collovati pegando Fischer e Rummenigge para sobrar o líbero Scirea.

E Gentile, que perseguiu Maradona e Zico como um volante cão de guarda no “grupo da morte” na segunda fase? Foi ala, pela direita, para fazer o cruzamento para o primeiro gol, de Paolo Rossi, nos 3 a 1 sobre a Alemanha que garantiram o tricampeonato no Santiago Bernabéu.

A Argentina venceu no México em 1986 com Brown na sobra de Ruggeri e Cuciuffo e Maradona fazendo mágica na frente. O auge dos três zagueiros com encaixes individuais veio em 1990 na Itália com o tri alemão, mas como símbolo do jogo truncado. Um marco, como definiu o jornalista inglês Jonathan Wilson em seu livro “Invertendo a Pirâmide”, da virada do 2-3-5 dos primórdios do esporte para o 5-3-2.

Porque a ideia de ter mais gente no meio-campo foi deturpada. A começar pelo Brasil de Sebastião Lazaroni, que escalou três zagueiros com a intenção de dar liberdade aos laterais que jogavam abertos e não preenchiam os espaços no centro.Ou seja, eram laterais dois passos à frente.

Com o advento do 4-2-3-1 no final dos anos 1990, início dos 2000, não fazia sentido manter uma trinca de defensores para vigiar apenas um atacante. E se o adversário fosse ousado adiantava os dois meias abertos como pontas e matava a sobra. O 3-5-2 sumiu do mapa, com algumas exceções.

Uma delas era o México do técnico argentino Ricardo La Volpe. Mas não com o propósito único de defender e sim qualificar a saída de bola e dificultar a pressão do adversário com dois zagueiros bem abertos e Rafa Márquez no centro distribuindo de trás.

Inspiração no Barcelona e no Bayern de Munique para Pep Guardiola, discípulo também de Johan Cruyff, Louis Van Gaal e Marcelo Bielsa, três que inovaram nos anos 1990 por trabalharem com três zagueiros buscando a imposição do jogo. Na Itália, Antonio Conte se consagrou na Juventus que domina o futebol do país desde 2011/12 também com um trio atrás. Mas com marcação por zona, não individual.

A lógica por trás deste retorno está na capacidade de se adaptar ao futebol atual, de compactação e falta de espaços para quem tem a bola.

Se a equipe tem três zagueiros que sabem sair jogando, qual a necessidade de recuar tanto um volante para fazer a saída de bola? Até porque normalmente um outro jogador do meio-campo precisa recuar para dar opção de passe. Com o trio de passadores atrás o preenchimento do meio é maior.

Além disso, a utilização de alas garante a amplitude, a possibilidade de abrir o jogo. Porque se os ponteiros atuam normalmente com os pés invertidos – o destro à esquerda e o canhoto pela direita – e procuram o centro, deixando os corredores para os laterais, é mais inteligente garantir mobilidade e presença na área com pelo menos três jogadores mais agressivos se mexendo e os alas partindo de um posicionamento mais avançado.

Atrás, a meta hoje é negar espaços no último terço, impedindo os passes em profundidade. Então para que sacrificar um ponteiro ou meia voltando tanto para impedir a ultrapassagem do lateral adversário se pode ter um ala posicionado numa linha de cinco?

Três centralizados tapando as tabelas no meio e dois abertos. De acordo com o lado atacado, um ala avança e o outro faz a diagonal de cobertura. Mais gente ocupando os espaços onde o jogo se decide. Inteligência. Quem mostrou para o mundo? A Costa Rica e seu 5-4-1 que tirou Itália e Inglaterra na fase de grupos da Copa no Brasil em 2014.

Tudo isso foi visto em Marselha no duelo entre Alemanha e Itália pelas quartas-de-final da Eurocopa. Surpresa do lado alemão com Joachim Low escalando Howedes como zagueiro pela direita fazendo companhia a Boateng centralizado e Hummels à esquerda.

Flagrante da saída de bola alemã com Howedes e Hummels abertos, Boateng centralizado e Kroos recuando para criar superioridade numérica contra Pellè, Eder e Giaccherini e empurrar a Itália para o próprio campo (reprodução Sportv).

Flagrante da saída de bola alemã com Howedes e Hummels abertos, Boateng centralizado e Kroos recuando para criar superioridade numérica contra Pellè, Eder e Giaccherini e empurrar a Itália para o próprio campo (reprodução Sportv).

O objetivo não era simplesmente espelhar o rival para encaixar a marcação, e sim empurrar o rival para o próprio campo, além de negar a Giaccherini as brechas para inflitrar como elemento surpresa italiano se juntando a Eder e Pellé na frente variando o 5-3-2 para o 3-4-3.

Saída qualificada de trás, jogada pelos lados com os alas Kimmich e Hector, distribuição com Toni Kroos e muita movimentação na frente de Muller, Ozil, Mario Gómez e Khedira, depois Schweinsteiger.

A Azzurra de Conte sofreu, mas respondeu com concentração absoluta sem a bola, coordenação quase perfeita entre os setores e um princípio de jogo inegociável: não entregar a posse, mesmo com uma proposta defensiva forçada pelo oponente. Jogo apoiado sempre.

Lá atrás, linha de cinco com a trinca da Juventus: Barzagli, Bonucci e Chiellini. Mas não fosse a diagonal do ala direito Florenzi e o incrível golpe que desviou o chute de Muller, a Alemanha teria aberto o placar no início do segundo tempo. O mesmo Florenzi que apareceu na frente para a conclusão mais perigosa da Itália no primeiro tempo. Ala multifuncional.

A última linha defensiva da Itália. Como a Alemanha ataca pela direita, De Sciglio sai para bloquear a descida de Kimmich. Do lado oposto, Florenzi cuida de uma possível inversão de bola para Hector. Espaços ocupados na zona de decisão (reprodução Sportv).

A última linha defensiva da Itália. Como a Alemanha ataca pela direita, De Sciglio sai para bloquear a descida de Kimmich. Do lado oposto, Florenzi cuida de uma possível inversão de bola para Hector. Espaços ocupados na zona de decisão (reprodução Sportv).

Mas quando Gómez saiu pela esquerda e desequilibrou tudo com um passe improvável para a ultrapassagem de Hector, o sistema italiano ruiu num efeito dominó. Ozil apareceu livre chegando de trás para abrir o placar.

A Alemanha não recuou e quase ampliou com Gómez. Excepcional defesa de Buffon. A intenção de Low passou a ser “esconder” a bola até o final. Teria dado certo não fosse o inexplicável movimento de Boateng com os braços erguidos dentro da própria área. Pênalti que Bonucci converteu.

Empate persistente no tempo normal, na prorrogação e nos pênaltis do histórico confronto entre os cobradores e Buffon e Neuer, os dois melhores goleiros do mundo. Até o alemão pegar o chute de Darmian e Hector definir após 18 cobranças.

A Alemanha segue sem vencer a Itália em jogos oficiais. Mas desta vez sai classificada em uma disputa que foi o retrato do futebol de hoje: pensado, estudado, baseado no erro zero. De passes e movimentos, controlando as próprias ações e dos rivais. Nem sempre bonito ou cheio de gols.

Os três zagueiros foram apenas um suporte ou veículo para ocupar os espaços mais importantes do campo, na defesa e no ataque. Na busca do mais simples no futebol: jogar com a bola e, sem ela, não deixar o adversário se impor. Melhor para os campeões do mundo.


Gómez decisivo! A importância do centroavante em um típico jogo da Eurocopa
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André Rocha

Retrato do jogo: Irlanda do Norte compacta, muitas vezes com seis homens na última linha de defesa e Alemanha trocando passes, buscando abrir o jogo e tendo Mario Gómez no centro da área para usar a força e finalizar as jogadas (Tactical Pad).

Retrato do jogo: Irlanda do Norte compacta, muitas vezes com seis homens na última linha de defesa e Alemanha trocando passes, buscando abrir o jogo e tendo Mario Gómez no centro da área para usar a força e finalizar as jogadas (Tactical Pad).

Irlanda do Norte x Alemanha foi um típico jogo desta Eurocopa. Com vinte segundos, ou antes mesmo da bola rolar, já é possível saber quem vai propor o jogo e quem vai se defender com proposta reativa. Ou seja, quem será Guardiola e quem será Mourinho.

Por isso Joachim Low mexeu na campeã do mundo. Kimmich entrou na lateral direita para ser opção de apoio e, principalmente, abrir o jogo, esgarçar as linhas de marcação. Porque os irlandeses em vários momentos se fecharam com os quatro defensores bem próximos e centralizados.

Os meias abertos, ou “wingers” do 4-1-4-1 – Ward à direita e Dallas pela esquerda – bem recuados, praticamente como laterais. Sim, seis homens na última linha. Quase handebol.

Para infiltrar nessa barreira à frente da meta de McGovern, muita paciência, troca de passes comandada por Toni Kroos, mobilidade e diagonais dos ponteiros Muller e Gotze, o toque diferente de Ozil dando apoio, as infiltrações como surpresa de Khedira.

No primeiro tempo, 67% de posse, 12 finalizações contra apenas uma. Mas quem furou e chegou às redes foi Mario Gómez. A outra mudança de Low. Centroavante que destoa na técnica, mas foi a presença física que rondou a área rival. Movimentação? Apenas a suficiente para não atrapalhar os companheiros, mas sempre na zona de decisão.

Curiosamente, o gol saiu em jogada pelo meio, em tese onde está mais congestionado. Ozil apareceu pela direita, encontrou Muller centralizado. Na combinação com Gómez, o centroavante fez o gol único da partida, no rebote. Cumpriu sua missão: abrir a fórceps o compacto sistema defensivo do oponente.

No segundo tempo, outra nuance deste futebol pragmático e estudado: a Irlanda não abriu mão de sua ideia e seguiu à espera do erro alemão. Quebrando um velho paradigma. Para que sair e correr o risco de sofrer uma goleada se é possível seguir se defendendo e achar o empate num contragolpe ou na bola parada? Ajuda a explicar a baixa média de gols no torneio, além da fórmula que classifica também os quatro melhores terceiros colocados.

Sem sucesso, porém. Nenhuma conclusão nos 45 minutos finais, mesmo com desvantagem no placar. Também porque a Alemanha seguiu sua carta de intenções e respondeu com controle com a bola e no campo de ataque, mas sem correr riscos. Subiu a posse para 73% e finalizou mais 14 vezes, 26 no total. Mario Gómez tentou mais três vezes. Ficou no 1 a 0.

Em tese, frustração alemã apesar da liderança no Grupo C. Mas a leitura do jogo mostra que faltou apenas precisão nas conclusões. O roteiro nos 90 minutos era até previsível. Nada bonito de ver e filosoficamente questionável. Mas dá para entender.

Gómez fez a diferença. O centroavante mais “grosso” que não atrapalha a dinâmica no ataque e usa o instinto predador para dar o toque final, mesmo sem refinamento. Decisivo.

(Estatísticas: UEFA)


Virada da Inglaterra! A força do jogo mental na disputa tática
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André Rocha

Confirmando a previsão, a Eurocopa na França vem se caracterizando pelos jogos equilibrados por conta da intensa disputa por espaços. Compactação.

Uma seleção propõe o jogo por estilo, peso da camisa ou necessidade. Ocupa o campo de ataque, troca passes, se movimenta para criar brechas. A outra se posiciona para reagir. Jogadores muito próximos, guardando a própria meta, pressionando o homem da bola para evitar os passes entre linhas.

No clássico do Reino Unido pelo Grupo B, o papel de protagonista era da Inglaterra e o reativo de País de Gales. De Bale. De um 5-4-1 que dava os lados para o rival, deixando os alas Gunter e Taylor na proteção e liberando Ramsey e Bale para os contragolpes.

Sem tantos danos porque Walker e Rose, os laterais ingleses, desciam, porém não conseguiam com Lallana e Sterling criar as jogadas de profundidade. Até chegavam, mas o cruzamento saía previsível. O trio de zagueiros galeses rebatia e encaixotava Harry Kane. Chance cristalina apenas com Sterling.

Gales no 5-4-1, mas com Ramsey e Bale mais liberados; na Inglaterra, Rooney recuava para articular liberando Dele Alli, porém pelos flancos faltava a jogada mais aguda, facilitando o trabalho do trio de zagueiros galeses contra Harry Kane (Tactical Pad).

Gales no 5-4-1, mas com Ramsey e Bale mais liberados; na Inglaterra, Rooney recuava para articular liberando Dele Alli, porém pelos flancos faltava a jogada mais aguda, facilitando o trabalho do trio de zagueiros galeses contra Harry Kane (Tactical Pad).

Bola na rede, de Bale. Cobrança de falta que Hart deixou passar por pular atrasado. O time reativo saía na frente no primeiro tempo. Em tese, jogo à feição com mais espaços para as transições rápidas às costas da defesa adiantada. Certo?

Seria, se Roy Hodgson não tivesse mudado a dinâmica ofensiva com Sturridge e Vardy nas vagas de Sterling e Kane. Rooney seguiu voltando para articular e liberando Dele Alli. Mais mobilidade e aproveitamento dos corredores. Mas foi no abafa que Vardy, esse incrível personagem do futebol inglês em 2015/16, conseguiu o empate.

Só depois do gol sofrido o técnico Chris Coleman notou que precisava recuar Ramsey e Bale e formar uma linha de quatro à frente dos cinco defensores e evitar o dois contra um pelos flancos.

A má notícia para os galeses é que a partida já havia entrado no jogo mental. Aquele momento em que as substituições e o cansaço, ainda mais num final de temporada, deixam as disputas tática e estratégica em segundo plano. Ou prejudicadas. Entregues à aleatoriedade que tanto amamos e os treinadores tentam evitar.

Hodgson colou o jovem Rashford, que ajudou a incendiar ainda mais. Coleman trocou o lesionado Ledley por Edwards, depois Robson-Kanu por Williams. Buscou manter a compactação, mas mentalmente sentiu o peso, acuou. Também foi empurrado.

No final não havia mais tática ou estratégia, só a necessidade da Inglaterra com formação ultraofensiva empurrando o rival até virar o placar (Tactical Pad).

No final não havia mais tática ou estratégia, só a necessidade da Inglaterra com formação ultraofensiva empurrando o rival até virar o placar (Tactical Pad).

Até a jogada de Alli, Vardy e Sturridge marcando nos acréscimos. Calando o torcedor de Gales que fez linda festa e sonhou ao menos com o empate que encaminharia a vaga.

A obrigação, inclusive matemática por conta do empate com a Rússia na estreia, arrancou do English Team uma última tentativa de transformar em três pontos os 64% de posse de bola e as 21 finalizações contra sete.

Virou. No placar e na mente.


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