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Seis lições que o Real Madrid deixa para as seleções da Copa do Mundo
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André Rocha

Foto: Kai Pfaffenbach/Reuters

Sergio Ramos à parte – ou aproveitando apenas o melhor de um dos grandes zagueiros do futebol mundial -, o Real Madrid impõe com o tricampeonato e os quatro títulos nas últimas cinco edições uma supremacia única na Era Champions League do maior torneio de clubes do mundo. Tempos em que clubes são maiores que as seleções, ainda que a Copa do Mundo siga imbatível no tamanho e na repercussão, até por acontecer com menos frequência.

O time de Zinedine Zidane ganhou três Ligas dos Campeões e apenas uma liga espanhola. É de mata-mata. Ou só de “mata”, como provou nas finais que venceu. Como será para as seleções no Mundial da Rússia a partir das oitavas de final. Por isto o blog destaca seis lições que esta equipe deixa para os países envolvidos, especialmente o grupo de favoritos:

1 – Todo pecado será castigado

Errar contra o Real costuma ser letal. Até rimou. Mas tem sido assim. É um time que não perdoa vacilos. PSG, Juventus, Bayern de Munique e Liverpool. Todos tiveram períodos de domínio ou de equilíbrio e sucumbiram em falhas, individuais ou coletivas. Assim também nas outras duas conquistas. Já os equívocos dos merengues não foram aproveitados com a mesma competência. Em 180 minutos, imagine em, no máximo, 120 a importância de minimizar erros. A precisão, como sempre, será fundamental.

2 – A força da mente

O gigante de Madri se alimenta de confiança que proporciona conquistas que aumentam a força mental. Para sair de situações complicadas e também atropelar quando o oponente baixa a guarda. Tantas vezes a desorganização dos setores em campo foi compensada com uma autoridade que intimida. Até os árbitros, diga-se. Mas não deixa de ser um mérito. Tantas vitórias transmitem a certeza de que no fim tudo terminará bem e joga a insegurança natural em um jogo grande para o outro lado.

3 – O talento é fundamental

Zidane foi um dos maiores jogadores da história do esporte. Tinha um talento especial que quando foi potencializado pelo coletivo produziu maravilhas nos gramados do planeta. Como treinador manteve esta convicção e explora o melhor de seus atletas. Porque uma bicicleta de Cristiano Ronaldo, um voleio de Bale, uma assistência de Kroos e um drible de Marcelo podem desmoronar qualquer modelo de jogo. Ainda que nenhum país consiga reunir craques como os clubes bilionários, quem tem qualidade deve explorá-la muito bem.

4 – A melhor notícia é não ter novidades

Os mesmos onze titulares em duas finais de Liga dos Campeões. Só o Real Madrid conseguiu. E a base mudou bem pouco desde 2014. O entrosamento também foi um trunfo. Para jogar ao natural, “de memória”. No universo de seleções é ainda mais importante, pela impossibilidade do trabalho diário ao longo das temporadas. Não por acaso, Espanha e Alemanha venceram os últimos mundiais usando Barcelona e Bayern de Munique como bases. A renovação é inevitável, mas quanto menos mexer durante a Copa, melhor.

5 – Fase de grupos não diz muita coisa

Nas últimas duas conquistas, o Real não terminou na liderança do seu grupo na primeira etapa do torneio continental. Ficou atrás do Borussia Dortmund em 2016 e do Tottenham no ano passado. Ainda que a Copa não tenha a pausa de dois meses, nem sorteio de confrontos, a lógica segue a mesma: jogos eliminatórios são de outra natureza, envolvem outras valências e a tradição costuma contar muito. No universo das seleções, com seu grupo seleto de campeões mundiais, mais ainda. Fase de grupos é para se classificar.

6 – Serenidade e simplicidade no comando

Se há algo para Pep Guardiola, sempre pilhado demais na Champions, e outros treinadores pelo mundo devem aprender com Zidane é que num ambiente que já carrega pressão descomunal por envolver paixão e muito dinheiro, quanto mais calma o comando passar, melhor. E mesmo quando promove variações táticas ou na proposta de jogo, o treinador merengue faz com simplicidade, para que os atletas entendam e executem. Sem chamar para si os holofotes. Até porque não há revolução a ser feita numa Copa do Mundo. É jogar com calma e atenção nos detalhes.


De Flávio Costa a Tite, toda escolha é julgada pelo resultado final da Copa
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André Rocha

Foto: CBF/Divulgação

Talvez não houvesse 7 a 1 em 2014 se doze anos antes o chute de Neuville no início do segundo tempo da final da Copa do Mundo, também entre Brasil e Alemanha, não tivesse parado em Marcos e na trave esquerda. Ou alguém imagina Luiz Felipe Scolari voltando tranquilo para seguir sua carreira no país depois de perder a decisão do Mundial na Ásia para uma Alemanha enfraquecida, sem o craque Ballack, e deixando Romário fora da lista final enfrentando um clamor popular poucas vezes visto?

O que seria de Carlos Alberto Parreira em 1994 sem o tetra? Talvez viajasse direto dos Estados Unidos para assumir o Valencia. Certamente lembrariam da falta de um meia criativo como plano B para a irregularidade de Raí. Ou não ter ousado enfiando mais um atacante, Viola ou o menino Ronaldinho, junto com Bebeto e Romário.

Por outro lado, quem lembraria da romaria de políticos em campanha por São Januário na véspera da final de 1950 no Maracanã ainda que o Brasil conquistasse seu primeiro título mundial com um suado empate contra os uruguaios? E quem criticaria Flávio Costa, considerado “carioca” demais pelos paulistas e “vascaíno” demais no Rio de Janeiro?

O mesmo vale para Telê Santana em 1982. Curioso lembrar que até a derrota para a Itália a seleção brasileira era a favorita absoluta ao título, jogando um futebol considerado de outro planeta. Mas bastou ser eliminada para que Waldir Peres, Luisinho, Júnior, Cerezo e Serginho Chulapa fossem contestados como titulares. Meio time. Se Zoff não segurasse sem rebote a cabeçada certeira de Oscar no ataque final e a caminhada fosse segura para o título, estes mesmos jogadores hoje seriam lembrados como os herois de 1970.

Até Zagallo poderia virar alvo se a considerada maior seleção de todos os tempos tivesse sido vencida pelo nervosismo ao sofrer o gol do uruguaio Cubilla que abriu o placar da semifinal no México. Talvez cobrassem Marco Antonio na lateral esquerda no lugar de um Everaldo que se limitava a defender. Ou Paulo César Caju na vaga de Rivelino ou Gérson. Quem sabe até o contestado Dadá Maravilha não seria uma “solução”?

Sem contar Vicente Feola, que apostou em Pelé e Garrincha, dupla que, segundo o psicólogo a serviço da CBD, não teria capacidade cognitiva e equilíbrio emocional para disputar uma Copa. Se a anfitriã Suécia fosse mais um país a usar o fator casa para conquistar um título mundial, algo perfeitamente plausível, é bem provável que por aqui a linha de quatro na defesa e a utilização de um ponta recuando para se juntar à dupla de meio-campistas demorassem bem mais tempo para acontecer. Viraram vanguarda porque o “escrete” voltou com a taça.

No Brasil é corriqueiro dizer que o “se” não entra em campo. Mas a partir do momento que o resultado final norteia toda a análise e surgem os “profetas do acontecido” para dizer o que devia ser feito pelos derrotados e apontar os “segredos” dos vencedores, vale o exercício de imaginar o que seria caso vencidos e campeões trocassem os papéis.

O resultado é consequência das escolhas, sim. Mas também de uma infinidade de fatores, inclusive a sorte. Ou o imponderável. Um detalhe. A bola que bate na trave e quica dentro ou fora da meta. A arbitragem que erra a favor ou contra. Escorregar para fazer ou salvar um gol.

Todas as decisões podem ser questionadas. Antes, durante e depois da competição. O problema está no parâmetro único para este julgamento dos treinadores da seleção brasileira: ganhar ou perder.

Tite pode e diz que aceita ser contestado por não ter levado Arthur e Luan. Ou porque incluiu na lista final Fagner, Taison, Fred…Assume a dificuldade que é escolher. Mas merece respeito por ter trabalhado como nenhum outro treinador na história da seleção brasileira. Ele e sua comissão técnica. Acompanhando jogos in loco, na TV e até treinamentos. Estudando, atualizando, aprimorando. Em menos de dois anos de trabalho. Para enriquecer a análise e embasar as decisões. Com desempenho e resultado em campo sinalizando que a rota está correta. Ao menos até aqui.

Só que nesta terra cinco vezes campeã do mundo a derrota sempre é para si mesmo. Não há mérito do adversário. Basta fazer tudo certo que ninguém nos supera. Ainda que a Alemanha seja campeã do mundo, a Espanha jogue o melhor futebol dos últimos tempos e um português e um argentino estejam fazendo história há uma década. Somos imbatíveis. Se perdermos foi porque alguém errou.

Então se o resultado esperado na Rússia não vier o discurso já estará pronto. Mesmo que Tite mande a campo Roberto Firmino e Douglas Costa, destaques da temporada em Liverpool e Juventus, e eles até saiam do banco para melhorar o desempenho, se vier a eliminação a culpa recairá sobre a presença de Taison entre os reservas.

Usando apenas um exemplo no universo dos clubes, chega a ser engraçado ouvir ou ler que hoje”falta gente no banco para mudar o jogo” e lembrar que em 2006 os torcedores do Internacional explodiram no Orkut, a grande rede social da época, quando Abel Braga chamou o contestado Adriano Gabiru para entrar em campo. Numa final de Mundial de Clubes contra o poderoso Barcelona de Ronaldinho Gaúcho. Podia ter dado bem errado…

Como pode acontecer de tudo na trajetória brasileira em mais uma Copa do Mundo. Só uma coisa não vai mudar. Desde Flávio Costa até Tite. O julgamento será pelo resultado final. E só. Pouco, mas é o que tem para hoje. E ontem. Sempre.


Messi, CR7 e Champions são “culpados” pela disparidade nas ligas europeias
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André Rocha

Foto: Sergio Perez / Agência Reuters

O Bayern de Munique garantiu o sexto título consecutivo da Bundesliga, conquista inédita, com cinco rodadas de antecedência. Na França, o Paris Saint-Germain retomou do Monaco a hegemonia também disparando e confirmando matematicamente faltando cinco rodadas. A Juventus na Itália teve mais dificuldades, porém superou o Napoli e faturou o heptacampeonato nacional.

Na Premier League há maior alternância de poder, mas o Manchester City de Pep Guardiola liderou de ponta a ponta e empilhou recordes: chegou aos 100 pontos em 38 jogos e ainda fez história com mais vitórias (32), triunfos consecutivos (18), gols marcados (105), saldo (+79) e os 19 pontos de vantagem sobre o segundo colocado.

Se somarmos tudo isso ao domínio do Barcelona nesta edição da liga espanhola, com a invencibilidade perdida apenas na penúltima rodada com vários reservas e uma atuação desastrosa do colombiano Yerri Mina nos 5 a 4 do Levante. mas título confirmado faltando quatro jogos, temos um cenário em que as principais ligas da Europa não reservaram disputas mais acirradas.

A senha para os disseminadores do “ódio ao futebol moderno”, muitos confundindo equilíbrio com qualidade, protestassem contra este cenário em que, para eles, apenas a disparidade econômica justifica essa vantagem dos campeões.

O grande equívoco é desprezar a enorme competência e know-how desses clubes. O Bayern ostenta a melhor geração de sua história ao lado da de Beckenbauer, Gerd Muller e Sepp Maier nos anos 1970. O mesmo vale para a Juventus. O PSG nem há como comparar e no caso do Manchester City há um retrospecto de conquistas na década, mas principalmente a presença do “rei das ligas” Guardiola, com sete conquistas em nove temporadas por três clubes e países diferentes.

Sem contar Barcelona e Real Madrid com os grandes times de sua história. E os maiores jogadores de todos os tempos nos dois clubes. Competindo na mesma época. Eis a chave para todo este cenário.

Messi e Cristiano Ronaldo venceram as quatro últimas edições da Liga dos Campeões. Se considerarmos desde 2007/08, dez anos, são sete: Manchester United com uma, Barcelona e Real Madrid com três. E os merengues em mais uma decisão podendo ampliar este retrospecto.

Em tempos recentes nunca houve nada parecido. Um fenômeno que subiu o patamar da Champions para níveis estratosféricos. De interesse, inclusive, pela sedução de se medir entre grandes da história. Com isso, o sarrafo foi parar no topo. Para desafiá-los é preciso estar em um nível de excelência em desempenho. Em todos os aspectos – físico, técnico, tático, mental, logística…

Resta aos desafiantes investir. Em elenco, comissões técnicas, estrutura…Internazionale, Chelsea e Bayern de Munique conseguiram superá-los, com os alemães ainda acumulando dois vices e os ingleses um. Manchester United, ainda com CR7, Borussia Dortmund, Juventus e Atlético de Madri chegaram às decisões, mas não conseguiram equilibrar forças em jogo único. PSG e City seguem lutando para furar a casca e entrar no grupo de clubes mais tradicionais. O Liverpool, finalista depois de onze anos, tenta voltar à elite. Mas não é fácil.

Com esse nível tão alto, quem não consegue acompanhar vai perdendo o bonde da história. E os gigantes trabalham para ficar cada vez melhores de olho no principal torneio de clubes, dominado por Messi e Cristiano Ronaldo com seus históricos Barcelona e Real Madrid, mesmo com o time blaugrana de fora das últimas três semifinais.

Como consequência sobram em seus países. Elenco numerosos, estruturas fantásticas, ótimas comissões técnicas. Nos casos específicos de Bayern de Munique e Juventus, os títulos consecutivos acontecem também porque não há como se acomodar com as conquistas nacionais. Não são a prioridade. Então mesmo sobrando os processos são revistos e aprimorados, o elenco ainda mais qualificado. O time que está ganhando se mexe e fica ainda melhor. Pensando em Barça e Real Madrid.

Mas não basta só dinheiro. Ou o Borussia Dortmund de Jurgen Klopp não seria bicampeonato alemão de 2010 a 2012, o Atlético de Madri não teria superado os gigantes na Espanha em 2014. O mesmo com o Monaco contra o PSG na temporada passada e, caso a Juve não tivesse deixado a Champions ainda nas quartas eliminada pelo Real Madrid e dividisse esforços por mais tempo, o Napoli poderia ter fôlego para terminar na frente. Sem contar o fenômeno Leicester City na liga mais valiosa do mundo em 2015/16. Se não jogar muito não vence. A tese do “piloto automático” é furada.

Mais do que nunca o futebol no mais alto nível exige superação constante. Com regularidade, consistência. “Culpa” de Messi, Cristiano Ronaldo e da Liga dos Campeões que levam o esporte para outra galáxia. Ainda bem que estamos vivos para ver a história sendo escrita. E até os que hoje reclamam vão sentir saudades, mesmo que não admitam.

 

 


Juventus foi gigante, mas ninguém merece mais a semifinal que o CR7
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André Rocha

Quando Buffon afirmou depois do jogo em Turim que seu sonho de vencer a Liga dos Campeões era impedido pelo melhor, em referência a Cristiano Ronaldo, parecia que a Juventus tinha jogado a toalha e se concentraria na conquista do hexacampeonato italiano.

Mas um gigante da Europa não vai se curvar fácil. Massimiliano Allegri apelou para uma estratégia clara e simples, mas eficiente, para surpreender o bicampeão europeu: forçar o jogo pela direita no setor de Marcelo e cruzar a bola procurando Mandzukic na segunda trave para ganhar pelo alto de Carvajal. Além disso, o que se espera de uma equipe no futebol atual precisando reverter um 3 a 0 é adiantar marcação e pressionar o adversário com a bola.

Tudo perfeito na primeira etapa. Com gol logo aos dois minutos do croata e Higuaín perdendo chance clara aos seis. A produção italiana pela direita melhorou ainda mais com a entrada de Lichtsteiner no lugar do lateral De Sciglio. Centro do substituto, mais um de Mandzukic.

O clima de confiança, quase amistoso antes da partida, morreu de vez e o gol de Matuidi em falha grotesca de Navas no segundo tempo fez o sonho parecer possível. Zidane tinha arriscado tudo na volta do intervalo com Lucas Vázquez e Asensio nas vagas de Bale e Casemiro. A saída do brasileiro era bem questionável, principalmente pela ausência de um zagueiro no banco de reservas – Sergio Ramos, suspenso, foi substituído pelo hesitante Jesús Vallejo. Se houvesse qualquer problema o volante brasileiro poderia ser adaptado ali.

Mas o Real Madrid teve mais sorte que juízo. A desconcentração poderia ter custado caro. O desgaste e a possibilidade de uma prorrogação, porém, fizeram a Juventus recuar, transformando o 4-3-3 num 4-1-4-1. Os espaços às costas de Modric e Kroos deixaram de ser explorados e o time merengue ficou menos desconfortável na partida.

No ataque final, a bola esticada. Cristiano Ronaldo, obstinado e, mesmo numa noite pouco feliz, inesgotável na busca pelo gol, ajeitou de cabeça uma bola quase perdida na segunda trave e Benatia empurrou Vázquez dentro da área. Força muito desproporcional. Pênalti marcado. Qualquer jogador surtaria com a chance de uma classificação histórica escapando pelos dedos no último lance. Buffon acabou expulso.

Szczesny entrou com uma missão impossível. Mas a margem de erro do português em lances decisivos costuma ser zero. Cobrança forte no ângulo. Sem chance. Real Madrid na semifinal. Décimo primeiro jogo com gol do português no torneio continental.

No apito do atrapalhado árbitro Michael Oliver, a festa tímida de uma torcida assustada. Calada até Cristiano Ronaldo regê-la e pedir a devida comemoração para a vaga na semifinal. A oitava consecutiva. Ainda carregando favoritismo e certamente mais alerta, independentemente do adversário que será apontado pelo sorteio.

A Juventus foi gigante. Atuação para guardar na memória. Mas nos 80 minutos ninguém mereceu mais essa classificação do que o CR7. A saga pelo sexto prêmio de melhor do mundo e pelo tricampeonato europeu continua.


Na semana de reverências a Cristiano Ronaldo é obrigatório exaltar Zidane
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André Rocha

Imagem: Reprodução TV Globo

A bicicleta espetacular de Cristiano Ronaldo em Turim tinha mesmo que monopolizar as atenções, o noticiário e as análises sobre Real Madrid e Juventus, confronto praticamente definido nas quartas de final da Liga dos Campeões.

Serviu para muitos que desdenhavam da capacidade do português se renderem à sua genialidade que não é igual a de Lionel Messi, mas mesmo diferente não é menor. A incrível capacidade de adaptação para seguir decidindo e a inteligência em campo para facilitar o jogo de sua equipe e aparecer para o toque final é sem par na história do futebol.

No entanto, pouco se falou de outro grande personagem da vitória merengue. Ou melhor, a repercussão ficou restrita à sua reação incrédula ao momento mágico da partida. Como um espectador privilegiado de uma obra de arte.

Mas Zinedine Zidane foi muito mais que isto. Ele interferiu diretamente na disputa que culminou nos 3 a 0. Mais uma vez com a simplicidade e a discrição que são sua marca desde os tempos de jogador. Um dos melhores de todos os tempos.

Como treinador, se não é estrategista ou inovador, vem conduzindo com sabedoria e potencializando o melhor de um elenco curto. Apostando em entrosamento dentro e fora do campo. Gestão serena do grupo criando um clima positivo e mudando peças e o sistema de jogo sem alterar a proposta. Todos jogam e descansam de acordo com a necessidade.

Está claro que há três desenhos táticos bem definidos. Um 4-4-2 com Lucas Vázquez e Asensio pelos lados na linha de meio-campo que torna o time mais dinâmico, intenso e veloz; o 4-3-3 cada vez menos usado por apresentar menos variações e depender do trio “BBC” com a entrada de Bale na frente com Benzema e Cristiano Ronaldo. Mas ainda uma opção dependendo da necessidade da partida e também para dar minutos ao galês e mantê-lo motivado.

Por último, o 4-3-1-2 dos dois triunfos sobre a Juventus – na final da Champions na última temporada e no duelo de terça-feira – que valoriza a posse de bola com Kroos, Modric e Isco e ganha mobilidade com o meia espanhol circulando por todos os setores para desestabilizar a marcação e acionar a dupla de atacantes. Novamente desmontou o sistema defensivo da hexacampeã italiana.

Mérito de Zidane, mesmo com todas as relativizações. Difícil imaginá-lo tão à vontade em outro ambiente. A base de jogadores e também dos conceitos desde os tempos de Carlo Ancelotti ajuda muito. A convivência anterior com praticamente os mesmos atletas como auxiliar construiu uma cumplicidade fundamental no dia a dia tenso de um clube de ponta, do qual nunca se exige menos do que o máximo de conquistas.

É óbvio que Zidane também se equivoca no começo de sua trajetória em um novo ofício. O péssimo início na liga espanhola combinado com a campanha espetacular e invicta do Barcelona praticamente inviabilizou a disputa pelo bicampeonato nacional. Nos duelos contra o Tottenham pela fase de grupos da Champions e no clássico contra o Barça o desempenho foi bem aquém da condição de equipe que conquistou o inédito bicampeonato do maior torneio de clubes do mundo em sua versão atual.

Sem contar a inexplicável insistência com Benzema, que hoje funciona como mero suporte para Cristiano Ronaldo. Quando não atrapalha desperdiçando oportunidades cristalinas. Imperdoável em jogos grandes.

Ainda assim, “Zizou” merece o reconhecimento. Principalmente por ter convencido seu camisa sete a descansar ao longo da temporada para estar pronto e concentrado nos jogos mais importantes. Planejamento perfeito em 2016/17 e agora, mesmo com a inesperada suspensão nos cinco primeiros jogos do Espanhol, o português também está voando na reta final.

Tudo com muita naturalidade, que é a marca deste time vencedor. Sem o comandante que faz questão de deixar sua assinatura e mostrar ao mundo que buscou algo diferente para surpreender. O pecado de Pep Guardiola na derrota do Manchester City para o Liverpool no Anfield Road. Com Zidane o protagonismo é sempre dos jogadores.

Em casa ou fora o Real atua da mesma maneira. Com inteligência, sabendo o momento de pressionar o adversário no seu campo ou de recuar as linhas e aproveitar os espaços às costas da defesa do oponente. Sempre voltado para o ataque e valorizando o espetáculo. Seja no passe preciso de Kroos, no ímpeto de Marcelo pela esquerda ou na eficiência assombrosa de sua estrela máxima com direito a momentos de magia.

Na semana de reverências a Cristiano Ronaldo é obrigatório exaltar Zidane. Sem ele toda essa jornada histórica do maior time do planeta seria bem mais complicada.

 


O que ainda falta para Cristiano Ronaldo ser respeitado como merece?
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André Rocha

O Real Madrid passou por cima do PSG quando Zidane mandou a campo Lucas Vázquez e Asensio nas pontas formando duas linhas de quatro numa formação mais ofensiva. Retomou o domínio em Madrid e sobrou no Parc des Princes.

Mas para o duelo com a Juventus, o treinador retomou a escalação da última decisão, com Isco, Modric e Kroos com a proteção de Casemiro. O 4-3-1-2 com muita mobilidade no meio-campo e na frente e a equipe se fechando em duas linhas de quatro.

A Juventus cometeu um pecado letal contra o bicampeão europeu: entrou desconcentrado e, pior, deixou Cristiano Ronaldo se desmarcar na área adversária para completar o passe de Isco pela esquerda. Aos dois minutos de jogo.

Depois o Real administrou como sabe: jogando ao natural, mesmo como visitante. Não se fecha tanto, até deixa alguns espaços. Mas pressiona logo após a perda de bola e se impõe através da força mental e do temor que provoca nos oponentes –  tanto que Massimiliano Allegri plantou Asamoah mais próximo a Barzagli e Chiellini para liberar Alex Sandro como ala/ponta pela esquerda na variação habitual do 4-4-2 para o 3-5-2.

O time merengue segue atacando, rondando a área, trocando passes e aproveitando o entrosamento de uma base que vem desde 2014. Desde Carlo Ancelotti. Carimbou o travessão com Kroos e sofreu com a pressão natural da Juve. Dybala buscava espaços entre as linhas de quatro do Real, mas o time italiano sentia falta de Pjanic, suspenso, na articulação.

Até o clímax. O gol espetacular de Cristiano Ronaldo. Uma bicicleta de cinema. Ato final da sua persistência e concentração aproveitando o erro de Chiellini na origem da jogada. Os aplausos dos torcedores adversários foram a rendição final. Do jogo e do confronto pelas quartas-de-final. O décimo jogo consecutivo em que o maior artilheiro da Champions foi às redes na competição.

O gol de Marcelo, em assistência de Ronaldo, foi apenas consequência. E podia ter virado quatro ou mais. Cristiano Ronaldo teve outras oportunidades claras, Kovacic também bateu no travessão. 53% de posse, 13 finalizações contra 12 da Juve – seis a um no alvo. No último ataque, Cuadrado perdeu à frente de Navas.

Três a zero soa como um placar exagerado. Mas nada parece impossível para o Real de Zidane e Cristiano Ronaldo. Foi mais uma aula de Liga dos Campeões em Turim. Consolidando a oitava participação consecutiva nas semifinais do torneio.

Tão histórico quanto a obra prima do gênio português. O que mais falta para enfim respeitarem um dos maiores da história, sem comparações esdrúxulas como fazem por aqui? “Robozão”, “caneludo”, “Penaldo”, “empurrador”, “Dadá Maravilha com grife”. Para cada apelido, um golaço. Para cada desdém, um recorde quebrado. Simplesmente respeite.

(Estatísticas: Footstats)

 


Quartas de final da Champions só não têm favorito no duelo inglês
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André Rocha

Barcelona x Roma  – Confronto com favoritismo claro. O Barcelona invicto no Espanhol e na Liga dos Campeões, com Messi voando, pega o adversário em tese mais frágil. Mas que merece respeito por ter fechado a fase de grupos na liderança de um grupo com Chelsea e Atlético de Madri e eliminando este último. O jogo na capital italiana terá que ser bem controlado pelo time catalão se quiser voltar à semifinal depois dos fracassos nas duas últimas disputas nesta etapa contra Atlético e Juventus. Mas são equipes em prateleiras diferentes no futebol mundial.

Palpite: Barcelona

Sevilla x Bayern de Munique – Desde o título em 2013, com Jupp Heynckes, o Bayern de Munique foi eliminado nas últimas quatro temporadas por espanhois. Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madri. Agora o adversário é o Sevilla, cinco vezes campeão da Liga Europa, mas longe de ter o mesmo peso na Champions. Merece respeito por ter eliminado o Manchester United e, pela disparidade na Bundesliga, é sempre complicado avaliar o poderio do time bávaro. Mas é impossível não tratar o gigante alemão como favorito.

Palpite: Bayern de Munique

Juventus x Real Madrid – Reedição da final da temporada passada. Com os dois times crescendo em desempenho e resultados. O atual bicampeão europeu carrega uma vantagem inegável: a força mental. Confiança pelas conquistas recentes e também a chance de priorizar o torneio continental, já que a Juventus tomou há pouco do Napoli a liderança da Série A do Calcio. Favoritismo merengue, mas é bom lembrar: no último confronto em dois jogos deu Juventus, na semifinal de 2014/15.  Justamente a única eliminação do Real nas últimas quatro edições.

Palpite: Real Madrid

Liverpool x Manchester City – A campanha fantástica do time de Pep Guardiola na Premier League só não é invicta em 30 jogos por causa de uma derrota: os 4 a 3 impostos pelo Liverpool no Anfield Road, talvez no melhor jogo da temporada 2017/18 na Europa. Adicione a isso a camisa cinco vezes campeã da Liga dos Campeões de volta ao mata-mata e Jurgen Klopp, treinador que quase sempre proporciona duelos equilibrados com os times de Guardiola, e temos o único confronto das quartas sem favorito. Apesar dos 21 pontos de vantagem na liga nacional que refletem o abismo de desempenho e da maior experiência dos jogadores do time azul de Manchester na Champions.

Palpite: Manchester City


Champions: é justo avaliar a temporada por um torneio que envolve sorteio?
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André Rocha

Foto: UEFA

Amanhã acontecerá em Nyon o sorteio das quartas-de-final da Liga dos Campeões. Real Madrid, Barcelona, Sevilla, Juventus, Roma, Manchester City, Liverpool e Bayern de Munique estarão nas bolinhas que definirão o destino de cada um.

Imaginemos um hipotético confronto Barcelona x Manchester City. Se o time de Messi ficar pelo caminho diante da ótima equipe de Pep Guardiola em confrontos parelhos e o Real Madrid, por exemplo, encarar a Roma ou o Sevilla e seguir adiante até a conquista do inédito tricampeonato na Era Champions, a temporada do argentino, mesmo com o provável título espanhol e a conquista da Copa do Rei, poderá ser tachada de fracassada? De novo as premiações individuais irão para Cristiano Ronaldo pelo simples fato de ter vencido o principal torneio de clubes do planeta?

E se Guardiola novamente for derrotado pelo time catalão, como aconteceu em 2015, sua jornada fantástica nos citizens com o título da Copa da Liga Inglesa e a conquista cada vez mais próxima da Premier League com uma campanha histórica carregará essa mancha? Por ter sido superado pela equipe que tem apenas uma derrota na temporada?

No jogo em si, o “se” é parte apenas da imaginação e sempre envolve competência no gol perdido, na falha do goleiro. Até a lesão muscular do craque do time, em tese, poderia ser evitada com uma avaliação melhor do departamento de fisiologia do clube. O sorteio, não. É sorte apenas. Ou a falta dela.

Voltemos à 2016. Um Real Madrid ainda hesitante no desempenho na transição de Rafa Benítez para o estreante Zinedine Zidane enfrentou Roma, Wolfsburg e Manchester City até a repetição da final de 2014 contra o Atlético, rival de Madri. Venceu e ganhou confiança e moral para no ano seguinte ganhar o espanhol e a Champions passando por Napoli, Bayern de Munique e Atlético de Madri até a decisão contra a Juventus.

Imaginemos que o roteiro fosse o inverso. aquele Real de 2016 encarando o Bayern de Guardiola nas quartas-de-final. Com o time alemão mais maduro no comando do treinador catalão e sedento por vingança da surra que levou na semifinal de 2014?

Será que passaria? Nunca saberemos. Mas é certo que o caminho diante de adversários menos tradicionais foram obstáculos menores à chegada à decisão. E olha que contra o time alemão foi preciso virar um 2 a 0 e contra o City foram duelos parelhos definidos no detalhe e com a vantagem mínima.

Nesta mesma temporada, se as bolinhas colocassem o City e não o Atlético de Madri no caminho de Guardiola e seu Bayern de Munique, haveria, sim, a saia justa do treinador enfrentar a equipe com que estava acertado para trabalhar a partir da temporada seguinte. Mas as chances de chegar à decisão e buscar o título que faltou na passagem pela Baviera aumentariam exponencialmente.

Todos esses exercícios de mexer com as bolinhas e tentar adivinhar o desfecho podem ser estendidos a todas as temporadas. A partir das quartas, já que nas oitavas ao menos a colocação na fase de grupos é levada em campo. Continua sendo imaginação. O que aconteceu, obviamente, é o que está na história.

A questão é: ainda que seja o torneio que reúne o melhor do futebol mundial é justo ganhar um peso tão grande, ultimamente maior do que a Copa do Mundo, para avaliar equipes e jogadores? A impossibilidade de todos se enfrentarem em ida e volta não deveria ser levada em conta na hora de avaliar os desempenhos coletivo e individual?

Apenas uma reflexão. Pois, na prática, quem quiser terminar a temporada no topo do planeta bola terá que superar o que aparecer pela frente. Cristiano Ronaldo, Messi, Ben Yedder, Buffon, Dzeko, Salah, De Bruyne e Lewandowski. Os treinadores. Todos à expectativa do sopro da ventura na Suíça.

O amanhã pode sinalizar com força o caminho até 26 de maio no Estádio Olímpico de Kiev.


Camisa pesa, sim! É o clichê do qual não podemos fugir
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André Rocha

Este que escreve aprendeu com os mestres amigos e os da sala de aula que no texto jornalístico devemos fugir dos clichês. O senso comum evitado ao máximo na afirmação de um estilo de escrita ou comunicação.

Mas com o tempo de ofício uma pergunta sempre ronda essa busca: se narramos ou analisamos acontecimentos sobre pessoas e estas costumam se agarrar a clichês, crendices e superstições como podemos desprezar a existência destes?

A história do futebol apresenta questões subjetivas, baseadas em acontecimentos eventuais, mas tratadas como regras não escritas. Capazes de interferir na disputa e ajudar na definição de vencedores e vencidos.

O “peso da camisa” é um exemplo clássico. Longe de garantir resultado, mas que no campo pode pesar se o contexto favorecer. Uma ideia que resume eventos importantes dentro de uma partida.

Como a vivência de um clube em jogos grandes, o histórico de momentos em que se agigantou e subverteu a lógica, a capacidade de no primeiro sinal de reação instalar medo no rival com menos tradição ou o respeito que impõe só pelo que representa.  Até mesmo diante da arbitragem. Afinal, na dúvida qual clube terá mais poder de prejudicar o apitador e sua equipe em caso de erro?

É óbvio que esses fatores têm mais relevância se os desempenhos são equivalentes ou não há uma disparidade na verdade do campo. Como nos 180 minutos entre Real Madrid e PSG. Valeu mais a qualidade e a maturidade da equipe bicampeã da Europa.

Na prática, porém, podem influir, sim, na força mental dos times. Porque jogadores e torcedores, em geral, acreditam nesta espécie de “força estranha” que se mistura com toda a loucura e falta de lógica do jogo.

Como na virada da Juventus em Wembley sobre o Tottenham por 2 a 1 pelas oitavas de final da Liga dos Campeões. Primeiro tempo dominado e controlado pelo time londrino com o gol do sul-coreano Son e outras oportunidades. Organização e volume ofensivo mantendo a torcida quente no estádio.

Mas bastou a equipe italiana mostrar solidez para o Tottenham nitidamente ter sua confiança abalada, dentro e fora de campo. As jogadas de Eriksen e Dele Alli passaram a não acontecer com frequência, Harry Kane ficou isolado e o time de Mauricio Pochettino nitidamente se abateu com a pressão de um jogo deste tamanho. A torcida virou plateia. Silenciosa.

Empate com Higuaín. Com o golpe final três minutos depois, no contragolpe letal construído pelo pivô de Higuaín que encontrou Dybala livre, restou ao Tottenham o desespero. Que podia até ter acabado no empate que levaria à prorrogação na bola na trave de Buffon já nos acréscimos. Talvez a história contada fosse outra.

É óbvio que Massimiliano Allegri foi feliz nas substituições, especialmente a entrada de Lichtsteiner no lugar de Benatia e Barzagli sendo deslocado para fazer dupla com Chiellini na zaga. Com o lateral, o time ganhou um escape pela direita e companhia para Douglas Costa na execução do 4-4-1-1 que não havia até então. Ainda assim, o brasileiro, que cumpriu boa atuação, sofreu pênalti claro ignorado pela arbitragem na primeira etapa.

Com o melhor rendimento, o gigante italiano se impôs especialmente pela tradição na Liga dos Campeões. Ainda que com apenas duas conquistas em nove finais, a história é muito maior que a do Tottenham, cuja melhor campanha na competição foi o terceiro lugar em 1962, bem anterior à fase Champions. Mais ainda da geração da Velha Senhora que vem de duas decisões em três temporadas. A trajetória dos Spurs de Kane é de “pato novo”. Faz diferença. Fez.

Por maior que seja a resistência à ideia, a camisa pesou. Entortou varal, como se costuma dizer. Acontece. E não dá para fugir deste clichê. Porque os grandes agentes do esporte se permitem afetar por isto. Para o bem e para o mal.


Chelsea pode eliminar Barça porque Messi é senhor e escravo das entrelinhas
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André Rocha

Difícil imaginar em dezembro um confronto previsto para fevereiro. Mas ainda que o Chelsea não seja o mesmo da temporada passada, o sorteio das oitavas de final da Liga dos Campeões não foi nada generoso com o Barcelona.

Porque o time de Antonio Conte, com linha de cinco homens na defesa e meio-campo com Kanté e Bakayoko, vai negar os espaços que o Barcelona precisa e cada vez cria menos.

Sem uma opção de drible pela ponta como Neymar e o lesionado Dembelé, o jogo está todo concentrado em Messi. O argentino precisa armar e finalizar como nunca. O único escape é Jordi Alba pela esquerda ou as eventuais infiltrações de Paulinho.

Só que Messi vive um paradoxo. É o mestre das entrelinhas. Embora a bola nos pés do gênio seja poesia pura, o conceito não é subjetivo, nem romântico. É física pura.

Antes um ponta habilidoso e goleador que virou gênio quando Guardiola o chamou no seu quarto em 2009 para mostrar os espaços entre a defesa e o meio-campo do Real Madrid e pediu para que ele jogasse exatamente ali. Entre as linhas de marcação. Para receber com liberdade e acelerar em direção ao gol. O Barça enfiou 6 a 2 no maior rival dentro do Santiago Bernabéu. Nascia o Messi “falso nove”.

Mas mesmo quando ele voltou para o lado direito com a chegada de Suárez e Neymar e agora como um autêntico “ponta de lança” moderno no 4-4-1-1 montado por Ernesto Valverde, o espaço do camisa dez genial não muda. Ele procura as brechas entre os setores.

O problema é quando o adversário não as cede. O primeiro a fazer esta leitura foi José Mourinho. Primeiro com o ônibus da Internazionale em 2010, depois no Real Madrid colocando um homem entre essas linhas – primeiro Pepe, depois Xabi Alonso – não para marcar individualmente, mas preencher o vazio. Só com a expulsão do zagueiro luso-brasileiro o time de Guardiola se impôs e Messi, no auge do auge, fez a diferença na lendária semifinal da Liga dos Campeões 2010/2011.

Com o tempo, as equipes passaram a utilizar como “antídoto” quase sempre o 4-1-4-1, como o Villareal que plantou o volante português Rúben Semedo entre as linhas e foi um duro adversário na 15ª rodada do Campeonato Espanhol. A vitória por 2 a 0 só foi construída no segundo tempo, depois da expulsão do ponteiro Raba por falta duríssima em Sergio Busquets. Messi marcou seu 14º gol numa saída de bola errada, com o adversário escancarado.

É óbvio que o argentino continua genial e desequilibrante, com números estupendos. Para este que escreve o melhor que viu jogar. Mas repare como ele costuma crescer quando o adversário cansa ou está desarticulado. No cenário ideal, recebendo com liberdade entre as linhas, da meia direita para o centro, é imparável.

Flagrante do cenário ideal para Messi: recebendo entre a defesa e o meio-campo adversário, partindo da meia direita para o centro. Serve ou finaliza. É o jogo entrelinhas (reprodução ESPN Brasil).

A questão é que os adversários já sabem disso, ficou “manjado”. E nos jogos grandes, mais parelhos, os espaços somem. Até pela cultura de ter a bola do Barcelona. O oponente se recolhe, compacta as linhas. E Messi não joga.

Na última temporada, as partidas contra PSG e Juventus foram didáticas. Para eliminar os franceses o time catalão precisou do brilho de Neymar. Diante dos italianos não teve jeito. Porque Messi simplesmente se entrega. Ou espera a entrelinha. Se ela não vem…

Repare no argentino em campo. Ele só compete com a bola. Trota, por vezes caminha. Espera a bola chegar. Só dispara se perceber a chance de recebê-la em boas condições. Se o adversário não permite, ele costuma recuar. Com as principais linhas de passe fechadas, toca de lado. Ou se enfia no centro do ataque ou em uma das pontas. Os lançamentos dos companheiros não o encontram pela desvantagem física, inclusive na estatura. Ou seja, está morto no jogo.

Contra o Villareal, um exemplo de um cenário complicado para Messi: recebe de frente para as linhas compactas e fechando as linhas de passe, com um adversário cercando. No Barcelona atual, só há escape com Jordi Alba pela esquerda (reprodução ESPN Brasil).

Por isso a desvantagem nos últimos anos no duelo com Cristiano Ronaldo pelos prêmios individuais. O português é mais adaptável, já entendeu que precisa ser mais atacante, tocar menos na bola. Passa o jogo buscando a melhor chance de finalizar. Ora entrando como centroavante, ora buscando as infiltrações em diagonal. Contra retaguardas mais ou menos fechadas. Não desiste.

Messi fraqueja. Se a concentração do rival durar noventa minutos, ele só vai aparecer na bola parada – falta ou pênalti, como nos 6 a 1 sobre o PSG. Se já era pouco antes, agora que o Barcelona depende mais de sua estrela maior pode ser bem dramático.

O Chelsea não atua no 4-1-4-1, mas o 5-4-1 bem executado, com dois leões franceses na proteção, deve complicar bastante a vida do Barcelona, mesmo com o retorno de Dembelé. Porque Messi é senhor, mas também escravo das entrelinhas. Já está mais que subentendido.