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Manchester City dá aula de como impor o favoritismo. Vaga garantida
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André Rocha

No destino das bolinhas para as oitavas de final da Liga dos Campeões o Manchester City foi considerado um dos “sortudos” por fugir de Chelsea, Juventus e Real Madrid e encarar o Basel. Mas depois da eliminação para o Monaco na temporada passada, era obrigação da equipe de Pep Guardiola levar o confronto muito a sério.

Foi o que aconteceu na Basiléia. Em 45 minutos, 73% de posse de bola e 85% de acerto num total de 465 passes contra apenas 150 do adversário. Cinco finalizações, quatro no alvo. Três nas redes.

Gols mostrando todo o repertório do líder e virtual campeão inglês. Começando com Gundogan completando na primeira trave cobrança de escanteio. Depois Sterling chegou ao fundo pela esquerda – problema durante a ausência de Sané e Mendy ao mesmo tempo – e Bernardo Silva, cada vez mais adaptado ao novo clube, não bateu forte. O goleiro tcheco Vaclik aceitou. Depois o arqueiro não pulou no chute de Kun Aguero de fora da área.

Um de cabeça, outro de fora da área. No Barcelona eram mais raros gols construídos desta forma. Uma mostra da evolução do treinador, que não se apega sequer à sua grande obra prima, um dos maiores times da história.  A prova de que os citizens entraram 100% ligados.

Uma aula de como deve se impor um favorito. Sem dar chances ao 5-4-1 montado pelo treinador Raphael Wicky que esperava negar espaços com setores compactos e uma bola nas costas da defesa adiantada do adversário para o único atacante Dimitri Oberlin. Só conseguiu uma vez, mas o atacante não conseguiu finalizar.

Gundogan justificou a opção de Guardiola por colocar David Silva no banco com um golaço na segunda etapa para consolidar a goleada. Atuação tão boa que ofuscou De Bruyne, o meia a dar lugar ao espanhol na segunda etapa que teve como ótima notícia o retorno de Sané muito antes da previsão quando lesionou o tornozelo. E ainda falta Gabriel Jesus…

Para confirmar a qualidade e versatilidade de um elenco curto como gosta o Guardiola, mas cada vez entregando mais futebol. Garantindo com 90 minutos de antecedência a vaga nas quartas de final da Champions. Se na matemática a vantagem é reversível, o melhor futebol praticado na Europa torna a volta no Etihad Stadium uma mera formalidade.

(Estatísticas: UEFA)


Nos 500 jogos de Guardiola, o mais importante não são os números e títulos
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André Rocha

Pegando carona no levantamento dos colegas portugueses de “A Bola” sobre os 500 jogos de Guardiola como treinador, o último na vitória sobre o Bristol City por 3 a 2 que garantiu o Manchester City na final da Copa da Liga Inglesa, vale uma reflexão sobre a relevância do treinador catalão.

Os números, de fato, impressionam. São 368 vitórias, 78 empates e 54 derrotas. Marcou 1249 gols, sofreu 381. 18 títulos – 11 com o Barcelona, sete com o Bayern de Munique.

Para quem olha apenas o aproveitamento em oito temporadas e meia já é possível colocá-lo entre os melhores da história. Ainda que, de fato, tenha faltado ao menos uma conquista da Liga dos Campeões com o Bayern.

No entanto, o que torna Guardiola um treinador para a história é sua interferência no jogo. O esporte se transformou com o seu Barcelona e a evolução do comportamento de seus adversários para enfrentá-lo.

É isto que faz Rinus Michels vencer quase invariavelmente as eleições de melhor treinador de todos os tempos. Seu trabalho mais marcante, a Holanda de 1974, foi justamente o que não terminou com título. Mas a revolução de conceitos foi levada ao Barcelona por Johan Cruyff e Guardiola atualizou combinando com outros princípios de jogo.

Pressão, posse de bola, superioridade numérica, busca do homem livre. Time ataca preparado para roubar a bola assim que a perde e se defende pronto para sair em velocidade com mais jogadores que o adversário.

“Ladrão de ideias”. Sempre aberto ao aprendizado, se questionando. Em constante mutação para ser melhor e mais competitivo. Inquieto, inventivo. Genial.

Como qualquer profissional acerta e erra. Assume a responsabilidade pela eliminação do Bayern para o Real Madrid na semifinal da Liga dos Campeões 2013/14 ao ceder generosos espaços para Cristiano Ronaldo e o jogo de contragolpe de Carlo Ancelotti.

Algumas vezes se arriscou demais, como diante do Barcelona no Camp Nou, também na semifinal do torneio continental na temporada seguinte. Mesmo com muitos desfalques, começou com três defensores no mano a mano contra Messi, Suárez e Neymar para ter superioridade no meio-campo.  Corrigiu a insanidade ainda no primeiro tempo, mas seguiu buscando o ataque até ser punido pelo gênio argentino. Aquele mesmo que de um ponteiro habilidoso virou um craque completo nas mãos de Pep.

Melhorar atletas e equipes, eis o grande mérito de Guardiola mal compreendido, especialmente no Brasil. Terra das soluções fáceis, onde muitos tratam o treinador como um mero distribuidor de camisas em elencos milionários. O “engenheiro de obra pronta”.

Tudo que Guardiola não é. Basta olhar para o campo. No atual City, a base titular tem apenas duas novidades: Ederson e Walker. Peças importantes, sem dúvida. Mas é clara a evolução como equipe. Comandados assimilando melhor o estilo proposto e o comandante aprendendo com eles, com a Premier League. Jogo a jogo.

Partida a partida, Guardiola construiu um fantástico retrospecto. Conquistado treino a treino, a cada estudo de adversário, a cada partida que assiste e tenta aprender algo e aplicar no seu trabalho. Para ele, o Barcelona histórico já é passado. Quantos treinadores não se fixariam naquela fórmula tentando repetí-la para sempre desconsiderando os contextos e, principalmente, a ideia de que tudo evolui, se recombina e vira outra coisa.

Por isso é o melhor do seu tempo. Por isso conquistou o direito de buscar as melhores condições para exercer o seu ofício. Não a visão torta de muitos que dizem que só vão respeitá-lo no dia em que vencer num clube menos abastado e poderoso – e é claro que muitos, se um dia isto acontecer, inventarão outro “desafio” para atestar sua competência.

Alguém imagina um cirurgião renomado aceitando operar alguém num ambiente inóspito para mostrar que é mesmo bom no que faz ou um chef consagrado preparando um prato sofisticado numa cozinha suja e sem a devida aparelhagem?

Para o mundo, Guardiola ganhou esse status por conquistar a tríplice coroa em sua primeira temporada na nova função. Pelos impressionantes 78,8% de aproveitamento na carreira. Na prática, porém, ele é o melhor por estar em constante aprimoramento. Ao reciclar a si mesmo, reinventa o próprio futebol. Eis o mais importante, não os títulos e os números.

Que venham mais quinhentos jogos revolucionando o esporte bretão com o toque catalão.

 


Fim da invencibilidade do City no jogo “maluco” com assinatura de Klopp
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André Rocha

A melhor definição que este que escreve já leu sobre Jurgen Klopp é de “técnico rock and roll”. Tudo a ver com o estilo apaixonado do alemão. Intensidade, comunhão com a torcida, carisma, alegria. Um “maluco beleza”.

Por isso seus times costumam ser fortes em seus domínios pela atmosfera criada. Não é por acaso que Pep Guardiola quase sempre encontre dificuldades quando sua equipe enfrenta os times de Klopp, desde os duelos entre Bayern de Munique x Borussia Dortmund. Porque a motivação de enfrentar “o melhor treinador do mundo”, nas palavras do próprio comandante dos Reds, cria essa “loucura”. Sem controle.

Foi o que se viu nos 4 a 3 impostos pelo Liverpool no Anfield Road encerrando a invencibilidade do Manchester City em 23 rodadas. Início com intensidade máxima e gol logo aos oito minutos, no chute cruzado de Oxlade-Chamberlain, o meia pela direita no 4-3-3 do time da casa. Em tese, o substituto de Philippe Coutinho. Um dos destaques da partida.

Mas o líder absoluto da Premier League não é um time qualquer e, mesmo incomodado na saída de bola e com Fernandinho errando mais que o habitual, respondeu ocupando mais o campo de ataque e girando a bola. Na falha de Joe Gomez, a inversão de Walker encontrou Sané. Bela jogada do ponteiro alemão e chute forte entre a trave e o goleiro Karius. Uma das duas finalizações no alvo num total de quatro nos primeiros 45 minutos em que os citizens recuperaram o controle da bola e chegaram a 57% de posse.

O Liverpool finalizou oito, mas também um par na direção da meta de Ederson. Eficiência que deu um salto dos 15 aos 23 minutos com belos gols de Roberto Firmino, Mané e Salah. O mais bonito do brasileiro em lindo toque de cobertura. Incrível como é subestimado no Brasil por não ter história em um grande clube daqui. Pelo desempenho já pode questionar até titularidade no centro do ataque.

Pressão, bola roubada e contragolpe mortal. Futebol no volume máximo do time de Klopp. Gols na sequência que sempre baqueiam os times de Guardiola pela perda do domínio.

Mas mesmo com o desgaste físico por rodar menos o elenco nos jogos seguidos na virada do ano, já que conta com elenco curto e desfalcado, o City se entregou à “viagem” do jogo e assumiu o risco do bate-volta típico do Inglês que o time de Guardiola vem administrando melhor na temporada. O treinador catalão tirou Delph por lesão e colocou Danilo e depois trocou Sterling, novamente mal contra seu ex-time, por Bernardo Silva, autor do segundo gol.

Gundogan foi mais volante ao lado de Fernandinho do que meia alinhado a Kevin De Bruyne no meio-campo, alterando o desenho do time de Manchester para 4-2-3-1. Mas estava na área para marcar o terceiro e criar uma tensão em Anfield até a testada com perigo de Aguero, impedido, no lance final.

Foram 16 finalizações do anfitrião contra 11 dos visitantes, que tiveram 64% de posse. Cenário de equilíbrio relativo, definido pela maior eficiência nos momentos de superioridade e menos erros quando dominado.

O que parecia trágico se transformou numa reação digna para não abalar tanto o City. Apesar das 17 partidas sem vencer os Reds fora de casa e as seis derrotas de Guardiola contra Klopp. O triunfo do Liverpool teve a assinatura do alemão num jogo “maluco”.

(Estatísticas: BBC)


A segunda revolução de Pep Guardiola
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André Rocha

Se o futebol evoluiu 25 anos desde 2008 nos aspectos táticos e no jogo coletivo deve muito a Pep Guardiola. Não que o catalão tenha criado algo absolutamente original – ele mesmo diz que é um mero “ladrão de ideias”. Mas combinando conceitos construiu um modelo de jogo no Barcelona que virou do avesso o esporte bretão.

Não só por sua filosofia, mas pela exigência de uma resposta de outras equipes e treinadores. José Mourinho montou sua “linha de handebol” com a Internazionale e fez o jogo defensivo ganhar inteligência e sofisticação sem precedentes na negação de espaços. Estava criada a dicotomia do futebol mundial.

Com o tempo, o jogo mais complexo foi gerando outros conflitos. Times com posse e protagonistas sendo domados por fortes bloqueios e contragolpes letais. Mas também equipes reativas sofrendo quando precisavam criar espaços e jogar no campo de ataque. A evolução cobrando conjuntos inteligentes, capazes de alternar propostas e ações de acordo com necessidade, adversário, contexto.

É o futebol por demanda, tratado neste blog com o Real Madrid bicampeão da Liga dos Campeões comandado por Zinedine Zidane como o exemplo mais bem sucedido liderando um movimento.

Guardiola sofreu em sua primeira temporada na Inglaterra. Sem a reformulação que desejava no elenco envelhecido e vendo suas ideias sem encaixe na dinâmica do futebol inglês. Em muitos jogos foi uma equipe de posse estéril e muito exposta no bate e volta muitas vezes insano da Premier League. Foi o primeiro ano sem conquistas. Ainda assim, conseguiu cumprir a meta básica de colocar os citizens novamente na Liga dos Campeões.

Renovação do grupo de jogadores, especialmente nas laterais com Walker, Mendy e Danilo. Ederson para encarar a missão de ser o goleiro excelente com a bola nos pés que Bravo não foi. Mais saúde para resistir às adaptações dos princípios inegociáveis do comandante depois de um ano mais aprendendo do que tentando impor sua visão de futebol.

O resultado até aqui na temporada 2017/18 é a segunda revolução de Guardiola. Futebol por demanda na veia, porém um pouco mais propositivo que o Real Madrid. Quer a bola para comandar o jogo, mas com leitura partida a partida.

Guardiola é um treinador de ligas. Não por acaso vai encaminhando com 15 pontos de vantagem na liderança o sétimo título nacional em nove temporadas. Trabalho baseado no foco na evolução contínua do desempenho para conquistar os resultados. Sem relaxamento. Por isso as muitas conquistas com enorme antecipação e vantagem, especialmente na Alemanha. Nas competições por pontos corridos uma noite ruim ou infeliz é menos danosa do que numa Champions.

Com o triunfo por 1 a 0 sobre o Newcastle, o time azul de Manchester chega à 18ª vitória seguida, recorde absoluto na Inglaterra, ficando a uma da sequência de 19 do Bayern de Munique em 2013/14…comandado por Guardiola. Vitória fora de casa, vantagem mínima. Mas com posse de bola que ficou quase sempre acima de 80% e terminou com 78%.  Vinte e uma finalizações contra seis. Fruto da disparidade técnica e também da eficiência dos visitantes no trabalho de pressionar logo após a perda da bola.

Uma das virtudes do futebol total do City. Total não pelo significado original, da Holanda de 1974, pela constante troca de funções dos jogadores. Mas pela capacidade de atacar os adversários de todas as maneiras. Circulando a bola de forma mais cadenciada ou veloz. Passes de lado para controlar ou verticais para furar as linhas de marcação. Com toques rasteiros ou jogo aéreo, na bola parada ou não.

O City é o time com mais posse, com maior índice de acerto nos passes, mas também que mais finaliza e vence os duelos pelo alto. Absoluto.

Se o Tottenham adianta a marcação com encaixes e até perseguições individuais para complicar a saída de bola, Ederson capricha nos passes longos e cria superioridade numérica já no campo de ataque. Se o Newcastle recua e estaciona um ônibus à frente da própria área no primeiro tempo no Saint Jame’s Park, Guardiola “aproveita” mais uma lesão de Kompany para mandar a campo Gabriel Jesus e recuar Fernandinho para ter mais um a qualificar o passe e manter o time com a bola. E atacando, finalizando, colocando três bolas nas traves do goleiro Elliot. Indo às redes na nona assistência de Kevin De Bruyne, destaque individual absoluto, para o 13º gol de Sterling.

Nas vitórias mais sofridas, como a virada fora de casa sobre o Huddersfiled por 2 a 1 ou na pressão do Newcastle na reta final, pragmatismo e concentração para buscar ou administrar o resultado. Com linhas recuadas e ligações diretas. Nenhum romantismo na conquista dos três pontos. A preferência pelo espetáculo, mas só quando é possível. A competição vem primeiro.

Posse, perde e pressiona, busca das entrelinhas e da superioridade numérica no setor em que está a bola. Guardiola não mudou a essência. Mas vai se transformando ao longo do tempo, das experiências. Aprendendo com vitórias e derrotas.

O treinador é exigente com si mesmo e o mundo segue essa cobrança, querendo vitórias, títulos e espetáculos. Principalmente que continue liderando as transformações no futebol. Com o City vai fazendo história e interferindo no jogo mais uma vez. Com fome, mas também inteligência. O melhor time da Europa e do planeta no presente, mas também sinalizando o futuro.

(Estatísticas: WhoScored)

 

 


O futebol não tem culpa de ter envelhecido melhor do que nós
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André Rocha

Sim, este texto é sobre saudosismo. Esta sensação que sempre volta a cada derrota do futebol brasileiro, ainda mais quando a superioridade de quem vence é clara e incontestável. No caso, do Real Madrid no sábado pelo Mundial de Clubes.

O saudosismo no Brasil com o esporte bretão é aquele eterno “se eu não for o dono da bola e ganhar o jogo, não quero mais brincar!” Para muitos não é a saudade daquele futebol, mas das vitórias mais frequentes. O mau perdedor que não aceita que outro leve o troféu para casa, mesmo sendo melhor. Não quer voltar a superá-lo, mas que ele seja ruim como antes para ser batido com facilidade.

Mas na grande maioria dos casos, o saudosista tem mesmo é saudade de si mesmo e da vida que levava nos “bons tempos”. Ou seja, tem saudade de ir ao estádio com o pai que não está mais entre nós, de passar a semana só pensando no jogo e não nas contas para pagar ou onde estacionar o carro. Do seu vigor físico, da liberdade de namorar quem quisesse e de sair com os amigos sem hora para voltar para casa. Do olhar encantado do menino entrando no estádio pela primeira vez e na relação com o ídolo sem a maldade do mundo.

Dificilmente a saudade é do jogo em si. Até porque ele era mais ouvido do que visto, no caso dos que veneram o futebol da considerada “era de ouro” brasileira, nos 1960 e 1970. Talvez até 1982. Os jogos transmitidos ao vivo para a mesma cidade em que eram realizados passaram a ser mais frequentes no final dos anos 1980. Antes o ouvinte era escravo da descrição do narrador e sua equipe. E como eles mentiram para nós!

Não por maldade, mas necessidade. Se a partida estivesse desinteressante, sem emoção, o consumidor trocava de estação ou desligava o aparelho para só mais tarde se informar sobre o resultado. Então tome narração acelerada com a bola ainda na intermediária, chute que passou longe tratado como perigoso entre outras fantasias para dourar a pílula e manter os ouvidos atentos.

Sem contar a invenção de craques. Qualquer um que fizesse dois ou três bons jogos já era alçado a candidato a  convocação para a seleção brasileira. Para isto também havia um contexto: tirando os ídolos “nacionais”, como Pelé, Rivelino, Zico, Sócrates ou Falcão, normalmente os jogadores concediam mais entrevistas, em tempos sem coletivas definidas por assessores de imprensa, para os veículos que conheciam, para os repórteres que estavam acostumados a conversar. Então quanto mais convocados do Rio de Janeiro, melhor para as rádios da cidade. O mesmo valia para as paulistas, mineiras, gaúchas…

Hoje, com vários jogos antigos na íntegra espalhados pela internet, só é saudosista quem quer. Ou quem realmente acha que aquele jogo lento, violento, com bolas seguidas recuadas para o goleiro quando era permitido que eles segurassem com as mãos e com verdadeiros latifúndios para conduzir a bola era atraente.

Este que escreve tem 44 anos. Já viu e viveu muita coisa. E, obviamente, já foi um saudosista por todos estes motivos citados anteriormente. Mas que assim que pôde assistir aos jogos que apenas imaginou pelo rádio e viu os melhores momentos nos programas esportivos no dia seguinte simplesmente não teve como esconder a decepção.

Felizmente o futebol evoluiu e segue evoluindo. Como tudo no mundo. Mas como tudo que evolui fica mais complexo, multifacetado. Se aprimora em todos os aspectos e muitas vezes podem anular as forças por haver tanto conhecimento e preparo envolvidos.

Ainda assim, pode acreditar: ele nunca foi tão bom tecnicamente. Porque jogar sem espaços não é fácil. Dominar e passar rapidamente requer uma enorme destreza. Nunca saberemos se os craques geniais do passado conseguiriam brilhar hoje, até porque eles também seriam diferentes, mais bem preparados se quisessem ser atletas e não apenas jogadores.

O brasileiro ficou com essa imagem romântica da seleção de 1970, dos artistas que se reuniram para ensinar como se joga. Os cinco camisas dez aprumados por Zagallo que se entenderam como mágica, porque “craque se entende no olhar”.

A realidade, porém, foi bem diferente. Depois do fiasco em 1966, sendo engolidos física, técnica e taticamente pelos europeus – duvida? tem os jogos na Grande Rede! – a constatação era de que a seleção precisava se preparar melhor e se adequar ao novo ritmo do futebol mundial. Nascia a velha máxima “se igualarmos nos outros aspectos, venceremos na técnica e na habilidade”.

O Brasil de 1970 viajou com enorme antecedência, trabalhou muito e atropelou os adversários no segundo tempo sobrando fisicamente e matando nos contragolpes. A beleza dos lances nascia dos espaços gerados pela superioridade física no calor do México. Como dizia Johan Cruyff, “com espaços qualquer um joga futebol”. Com talento então…

Criou-se a mística do Brasil invencível apenas pela técnica e habilidade, esquecendo também que já fomos vanguarda na linha de quatro na defesa, na marcação por zona, no ponteiro que volta para defender…Fomos a referência.

Não somos mais, mesmo com a reabilitação da seleção com Tite. E não é porque Guardiola aprendeu a nos imitar – outra falácia que virou verdade por ser tão repetida. Simplesmente ficamos para trás, especialmente na leitura de jogo e no senso coletivo.

Isto, porém, não tornou o jogo pior, pelo contrário. É impressionante ver o goleiro brasileiro Ederson participando da construção de jogadas do Manchester City. Os movimentos dos laterais e pontas, alternando o ataque abertos ou por dentro. Meio-campistas como Iniesta, De Bruyne e Modric furando linhas compactas com passes precisos e verticais. Atacantes como Messi, Neymar, Hazard, Mbappé destruindo defesas com uma habilidade surreal. Ou Cristiano Ronaldo e sua quase perfeição nas finalizações. Todos fazendo melhor e mais rápido o que os craques de outrora faziam.

Mas é difícil de aceitar. Eles não são da época de menino ou jovem do senhor de hoje, que sabe dos esquemas e falcatruas que sempre existiram, mas em cifras menores que as atuais. Que não se conforma por ter estudado tanto e hoje trabalhar mais do que deveria para receber uma migalha perto dos salários milionários dos superastros. Que declara ódio ao futebol moderno, mas esquece que para o seu avô o jogo que ele venerava já não era como o de antigamente.

Quem viveu o amadorismo reclamou da virada para o profissionalismo. Quem viu Zizinho não achou graça em Pelé. Os súditos do Rei criticaram a geração “perdedora” de 1982, que desdenham até hoje da conquista de 1994 e os integrantes desta geração criticam os craques atuais por usarem chuteiras coloridas, tirarem selfies e ficarem conectados em seus celulares nos vestiários.

A tese de que se não fosse o êxodo teríamos esquadrões no país e dominaríamos como no passado também é questionável. É duro, mas quem dá as cartas hoje e nos últimos dez anos são um argentino e um português. Neymar é o terceiro, ainda bem distante. A arte também está mais lá do que cá. E temos que agradecer pelo avanço na tecnologia nos permitir assistir tudo isso semanalmente. A evolução…

O tempo passou. E o futebol não tem culpa de ter envelhecido melhor que nós. Se reinventando, encontrando novas soluções para driblar novos problemas e seguir como o esporte mais apaixonante do planeta. Sem traumas, sem olhar para trás com amargura ou arrependimento. Vivendo e curtindo o hoje, que sempre é melhor que ontem. Que tenhamos maturidade para aprender com eles. O futebol e o tempo.


Vitória do City é a prova de que Guardiola se reinventou e Mourinho não
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André Rocha

O primeiro tempo do clássico de Manchester no Old Trafford foi um típico duelo Pep Guardiola x José Mourinho. City ocupando o campo de ataque, trocando passes e buscando surpreender o United com uma configuração inusitada do trio ofensivo: Sané pela direita, Sterling centralizado como uma espécie de “falso nove” entre a defesa e o meio-campo adversário e Gabriel Jesus à esquerda.

Provavelmente guiado pelo desenho tático dos Red Devils, desarmando o sistema com três zagueiros e voltando ao 4-2-3-1 com Smalling e Rojo na zaga e Lingard centralizado atrás de Lukaku. Sem tanta necessidade de esgarçar a marcação, os citizens tentaram explorar os ponteiros com pés invertidos buscando as diagonais.

Mas com 75% de posse de bola e num universo de nove finalizações, o gol saiu na bola parada. Cobrança de escanteio, desvio de Otamendi e gol de David Silva, aparecendo livre na falha de Ashley Young na tática de impedimento.

Só então o time da casa se aventurou no ataque e finalizou a gol, com Martial, que iniciou pela direita, mas logo depois da desvantagem no placar trocou com Rashford. Pela direita, a joia do lado vermelho de Manchester aproveitou falha grotesca de Fabian Delph no domínio para empatar já nos acréscimos. De novo Mourinho vivendo dos elos fracos dos adversários. Um exagero na especulação.

Guardiola foi ainda mais ousado na volta do intervalo ao trocar Kompany, sempre às voltas com problemas físicos, por Gundogan. Fernandinho foi para a zaga. O jogo ficou mais equilibrado, com United se aventurando um pouco mais. Também com uma substituição na zaga: Rojo por Lindelof.

Smalling trocou de lado na zaga. E deu azar no corte de Lukaku defendendo a própria área. A bola bateu nas suas costas e sobrou para Otamendi livre. Com a vantagem, entrou em ação o Guardiola mais pragmático.

Tirou Jesus, colocou Mangala. Preencheu o meio-campo com a volta de Fernandinho ao setor e abriu Sterling e Sané para os contragolpes. Também se protegeu do mais que previsível ataque aéreo do United na necessidade de reverter o resultado. Ibrahimovic no lugar de Lingard e Juan Mata substituiu Ander Herrera.

No abafa, quase o empate com Mata e Lukaku, mas Ederson salvou mostrando que é candidato, sim, à titularidade na seleção brasileira. Guardiola tirou Sané, exausto, mas deixou Aguero no banco. Colocou Bernardo Silva, que desperdiçou dois contragolpes cristalinos. Ainda falta um pouco de rapidez na tomada de decisão ao português para a intensa Premier League. De Gea ainda salvou em bela finalização do meia De Bruyne em mais uma rápida transição ofensiva.

Nos minutos finais, a frieza e o foco no resultado mantendo a bola perto da bandeira de escanteio. Lembrou times argentinos na Libertadores, principalmente o Boca Juniors de Riquelme. Gastando tempo pela noção do tamanho da vitória.

Os 11 pontos de vantagem no topo da tabela praticamente encaminham a conquista nacional. A campanha até aqui é espetacular e histórica: 15 vitórias – 14 seguidas – e só um empate. Reflexo da superioridade do City com um elenco renovado, mas também da reinvenção de Guardiola. Treinador que mantém seus princípios de jogo, mas se recicla para transformar o protagonismo em vitórias.

Seu time ataca de todas as formas, com bola no chão e pelo alto. Se preciso for, reforça o sistema defensivo e gasta o tempo. Provando de vez que não é romântico. Sempre quis vencer, mas agora sem exigir tanto que seja à sua maneira. Como for possível.

Por isso está à frente de Mourinho, que não abandona a persona anti-Guardiola, o homem que pára o ônibus e parece estacionado. O português tem elenco e orçamento para fazer mais nos clássicos. Ainda pragmático e mirando o resultado. Porém mais eficiente, como Guardiola vai se impondo na Premier League.

(Estatísticas: BBC)

 

 


Falta um pouco de Tite em Klopp no Liverpool de Coutinho e Firmino
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André Rocha

Philippe Coutinho tem cinco gols e quatro assistências na temporada 2017/2018. Roberto Firmino foi às redes oito vezes e também serviu passes para gols de companheiros por quatro vezes. Só não são os grandes destaques individuais do Liverpool porque o egípcio Mohamed Salah vive momento mágico, já marcando 13 vezes e somando três assistências. É o artilheiro do Campeonato Inglês com nove.

Os brasileiros contribuem efetivamente para que os Reds só sejam superados pelo Paris Saint-Germain de Neymar, Mbappé e Cavani na Liga dos Campeões como ataque mais efetivo – 17 a 16, em cinco partidas – e fiquem atrás apenas dos times de Manchester na Premier League: marcou 24, enquanto o City de Pep Guardiola foi às redes 40 vezes e o United de José Mourinho 27.  Em 12 rodadas. É também a equipe que mais finaliza na competição nacional.

O quarteto ofensivo ainda conta com o senegalês Sadio Mané – quatro gols e três assistências em dez jogos, depois de cumprir suspensão de três jogos na PL e sofrer lesão que o deixou de fora por cinco partidas. Dos 40 gols marcados nas duas competições, eles são responsáveis por 30. Ou 75%.

Só não garantiram matematicamente a classificação antecipada para as oitavas de final do torneio continental e uma posição acima da quinta colocação atual no Inglês – ocupando a zona de classificação para a Liga Europa porque supera Arsenal e Burnley com os mesmos 22 pontos por conta do saldo de gols – pelo fraco desempenho do sistema defensivo.

Na Premier League, são 17 sofridos. A mais vazada entre os sete primeiros. Na Liga dos Campeões, apenas seis. Mas um mau sinal: o Sevilla, rival mais competitivo do Grupo E, fez cinco. Nos dois empates entre as equipes.

O último em 3 a 3 no Estádio Ramón Sánchez Pizjuán. Resultado que poderia ser considerado satisfatório como visitante. Mas não depois de abrir 3 a 0 em trinta minutos e ceder o empate na segunda etapa. Firmino marcou dois e serviu Mané. Jogo de 20 finalizações, dez para cada equipe. Sete no alvo dos visitantes, cinco dos anfitriões que ainda carimbaram a trave do goleiro Loris Karius uma vez.

Por que o Liverpool sofre tanto sem a bola? Uma das explicações seria as limitações dos jogadores da última linha de defesa – em Sevilla formada por Joe Gomez, Lovren, Klavan e Moreno, apesar do lateral espanhol ser um dos líderes em assistências da Champions com três passes para gols. Ou a proteção insuficiente da dupla Henderson-Wijnaldum. Mas vai um pouco além.

Passa pela visão de futebol do treinador alemão Jurgen Klopp. Figura carismática, instigante. Com eletricidade e paixão à beira do campo. Comandante que popularizou o “gegenpressing”, que nada mais é que um trabalho de pressão intensa e obsessiva sobre o adversário logo após a perda da bola, ainda no campo de ataque. Acredita em futebol no volume máximo.

Mas sem o minimo controle. Mesmo considerando o contexto de jogo ultraveloz não só da liga inglesa, mas também da alemã que conquistou duas vezes com o Borussia Dortmund. Um jogo de bate e volta, no estilo “briga de rua”. Sem adaptações, mesmo completando dois anos na Inglaterra em outubro. Na prática vem exaurindo sos atletas, física e mentalmente, além de expor demais o time.

Coutinho e Firmino devem sentir a falta de um pouco de Tite no clube. Não só pelos cinco gols sofridos pela seleção brasileira sob comando do treinador em 17 partidas, apenas três em 12 jogos oficiais pelas Eliminatórias. Mas principalmente pela busca do equilíbrio entre as ações de ataque e defesa, além, é claro, dos os companheiros mais qualificados na retaguarda verde e amarela.

Também a ideia de controlar o jogo, ora com a posse da bola, ora fechando os espaços e esperando o momento certo de atacar e definir as partidas. O Liverpool troca golpes o tempo todo. É capaz de surrar o Arsenal por 4 a 0 em Anfield Road na terceira rodada da Premier League e, no jogo seguinte pelo Inglês, ser atropelado pelo City no Etihad Stadium por 5 a 0.

Tem a terceira melhor média de posse da liga, empatado com o Arsenal e atrás de City e Tottenham, mas é muito mais pelo volume e por pressionar e recuperar rapidamente, em especial contra equipes de menor investimento, do que pela capacidade de dominar o oponente.

Aleatório demais. Aqui não há a intenção de comparar os treinadores em qualidade, mas realçando as diferenças de características e personalidades. Fica claro, porém, que falta uma pitada, ou uma mão cheia, de Tite em Jurgen Klopp. Por isso o time de Coutinho e Firmino não decola, na Inglaterra e na Europa.

(Estatísticas: UEFA e WhoScored)


City 2×1 Napoli – O “segredo” de Guardiola faz a diferença num grande jogo
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André Rocha

Nos primeiros 20 minutos do jogo no Etihad Stadium, o Manchester City conseguiu reproduzir a grande virtude do Barcelona e do Bayern de Munique comandados por Pep Guardiola: a dinâmica do “homem livre”.

Ou seja, a capacidade de ter superioridade numérica em todas as fases do jogo. Seja no início da construção das jogadas desde o goleiro Ederson, passando pelos laterais Walker e Delph ora descendo por dentro e deixando os pontas Sterling e Sané abrindo o campo, ora o inverso. Com Fernandinho recuando para auxiliar os zagueiros Stones e Otamendi.

A saída correta com passes limpos faz a equipe entrar na intermediária do oponente com mais jogadores no setor em que está a bola. Seja pelos flancos, com Walker, De Bruyne e Sterling à direita e Delph, David Silva e Sané do lado oposto, ou pelo centro com Fernandinho, De Bruyne, Silva, um dos laterais atacando por dentro e ainda o trabalho de pivô cada vez mais apurado de Gabriel Jesus. Sempre tem alguém livre dando opção para fazer o jogo fluir.

O resultado prático disso tudo contra o ótimo Napoli de Maurizio Sarri, líder da Série A italiana com 100% de aproveitamento em oito rodadas, foi um volume de jogo absurdo que criou pela esquerda com David Silva para encontrar Walker na área como atacante e Sterling abrindo o placar. Depois a jogada pela direita para mais uma assistência do meia De Bruyne como ponta para o toque simples e preciso de Jesus. 2 a 0 em 13 minutos.

Podia ter virado goleada num universo de onze finalizações e 63% de posse de bola. Mas os citizens não estavam jogando contra qualquer um e o Napoli, depois de compreender o que estava acontecendo, passou a se proteger melhor, vigiar os flancos, acertar a marcação por pressão no campo de ataque e, enfim, sair para jogar.

Teve a chance de equilibrar no placar com o pênalti de Walker sobre Albiol, mas Mertens bateu mal e Ederson pegou. Na segunda etapa de Napoli com seu 4-1-4-1 mais ajustado com Hamsik encontrando no brasileiro Allan, que entrou na vaga de Insigne, um companheiro mais qualificado para a articulação no meio. Até o pênalti tolo de Fernandinho sobre o lateral esquerdo Ghoulam que Diawara não desperdiçou.

Guardiola teve a humildade de reconhecer a qualidade do adversário e recuar linhas, compactar num 4-1-4-1 para buscar as transições em velocidade. Em seguida tentou recuperar posse e o controle de jogo com Gundogan e Bernardo Silva nas vagas de David Silva e Sterling. Depois tirou Jesus e colocou Danilo para administrar o resultado. Um pragmatismo mais que compreensível pelo contexto.

Reação do Napoli que se refletiu nos números. Chegou a oito finalizações. Metade das do City, mas muito melhor que na primeira etapa, assim como os 45% de posse. O início avassalador da equipe inglesa foi a diferença em um grande jogo, graças ao “segredo” de Guardiola que parece cada vez mais assimilado pelo time que no momento apresenta o melhor futebol da Europa.

(Estatísticas: UEFA)


A primeira vitória de Guardiola sobre o Chelsea, com a marca De Bruyne
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André Rocha

Com a suspensão de David Luiz, Antonio Conte perdeu a peça fundamental em sua saída da defesa, que com passes longos faz a bola chegar mais rapidamente ao ataque, sem riscos da pressão adversária se transformar em bolas roubadas e contragolpes. Quase um “quarterback” de futebol americano.

Diante do Manchester City de Pep Guardiola, que adianta a marcação e propõe o jogo mesmo no Stamford Bridge, a dificuldade ficou clara. Ainda obrigou Fábregas, escalado para atuar mais avançado, a recuar e tentar qualificar o passe. O mesmo com Eden Hazard.

O resultado em campo era um time com os jogadores mais qualificados lá atrás e Kanté, Bakayoko e Azpilicueta, escalado na ala direita do 3-4-1-2 de Conte, na área dos visitantes. Alonso, ala esquerdo que joga solto, na “função Sorín” sempre presente na área adversária, desta vez não pôde se arriscar tanto por ter Sterling atacando o seu setor.

A lesão de Morata ainda no primeiro tempo induziu Conte a não colocar Batshuayi e mandar Willian a campo. Fazia algum sentido: se não tinha o homem da bola longa, não fazia sentido ter o pivô para reter na frente. Era melhor ganhar qualidade na construção. Os Blues, porém, na prática ficaram ainda mais desconfortáveis.

O Manchester City de Guardiola se defendeu atacando, ocupando o campo de ataque e adiantando e pressionando a marcação, dificultando a vida do Chelsea de Antonio Conte sem David Luiz e depois perdeu Morata, entrando Willian (Tactical Pad)

Porque mais uma vez a equipe de Guardiola se defendeu atacando. Com Walker e Delph, novamente improvisado na lateral esquerda, ora atacando por dentro ou abertos. Nas pontas, Sterling e Sané trocando de lado, buscando as diagonais ou ficando quase colados nas laterais para esgarçar a linha de cinco defensores do rival.

A solução do treinador para seguir tendo a bola, mas sem ser vítima das transições seguidas e insanas dos times ingleses, foi acelerar a troca de passes assim que entra no campo adversário. Sem a paciência dos toques até se instalar no campo de ataque e praticar o jogo de posição.

É aí que entra Kevin De Bruyne. O belga é a referência de toque veloz no campo de ataque. Marca, articula e finaliza. Também homem das bolas paradas. Completo. Novamente decisivo no golaço vencendo Courtois completando pivô de Gabriel Jesus.

O atacante brasileiro, jogando no centro como referência com a ausência de Aguero por conta de um acidente automobilístico na Holanda, teve dificuldades contra Rudiger, Christensen e Cahill, não deu sequência a algumas ações ofensivas importantes e só cresceu com espaços após o gol. Quase deixou o seu em bela finalização, não fosse as costas de Rudiger, com o goleiro já batido.

No final, com Pedro e Batshuayi nas vagas de Bakayoko e Hazard, o Chelsea tentou um abafa nas jogadas aéreas, mas o City estava prevenido com Stones e Otamendi e podia ter ampliado nos contragolpes. Atuação segura da equipe de Manchester com 62% de posse e nada menos que 17 finalizações contra quatro dos donos da casa.

Primeiro triunfo em 90 minutos de Guardiola sobre o Chelsea – vencera nos pênaltis em 2013 a Supercopa da Europa. O único time a vencer em turno e returno uma equipe do treinador catalão em uma liga nacional. Feito da temporada passada, de título. Desta vez os citizens, em plena disputa pela liderança com o rival United, estavam mais prontos e aproveitaram as ausências sentidas no time londrino.

Com a marca De Bruyne, cada vez mais desequilibrante. O meio-campista dos sonhos de qualquer time. Mais um a mudar de patamar nas mãos de Pep.

(Estatísticas: BBC)

 


No “clássico brasileiro” na Champions, o melhor em campo é da geração belga
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André Rocha

No Etihad Stadium, três brasileiros do lado do Manchester City entre os titulares – Ederson, Fernandinho e Gabriel Jesus – mais Danilo no banco de reservas. No Shakhtar Donetsk, a legião de sempre: Ismailly, Fred, Marlos, Taison e Bernard na formação inicial e Dentinho, Márcio Azevedo e Alan Patrick como suplentes.

A novidade de Pep Guardiola foi o meio-campista Fabian Delph improvisado no lugar do lateral esquerdo Mendy. Mas apoiando por dentro, enquanto Sané, mantido entre os titulares, ficava bem aberto para esgarçar o sistema defensivo adversário. No lado oposto, a lógica inversa: o lateral Walker abrindo o campo e Gabriel Jesus procurando infiltrar em diagonal e se juntar a Aguero no centro do ataque. Variações por características dentro da proposta de jogo na execução do 4-3-3.

O time ucraniano se fechava com duas linhas de quatro compactas mantendo Taison mais adiantado, próximo ao argentino Facundo Ferreyra, atacante único do 4-2-3-1 armado pelo português Paulo Fontes. Fred, convocado por Tite na última lista, era o responsável por fazer a bola chegar ao quarteto ofensivo. Pelas pontas, o canhoto Marlos pela direita e Bernard, destro, à esquerda.

Shakthar que em nenhum momento abdicou de jogar, terminando com 46% de posse. Mas no início foi amassado pela pressão intensa do time inglês na saída de bola e muito volume de jogo de uma equipe que ataca por todos os lados. Especialmente pela qualidade no meio-campo. Fernandinho comandando a saída de bola, David Silva distribuindo e triangulando com ponteiro e lateral, normalmente à esquerda.

O destaque absoluto, porém, foi Kevin De Bruyne. Mais uma vez. Com seu passe vertical, sua visão de jogo privilegiada, a movimentação inteligente sempre dando opção para o passe. Faz o time de Guardiola jogar. Nem tão feliz na finalização quando Gabriel Jesus iniciou contragolpe veloz interceptando passe e arrancando até servir o belga, que colocou mal e permitiu defesa de Pyatov.

Mas quando foi o meia quem interrompeu a saída para o ataque do Shakhtar, a transição ofensiva rápida encontrou o camisa 17, que colocou no ângulo para abrir o placar e descomplicar o jogo. Consolidando o amplo domínio do time azul de Manchester na segunda etapa.

Inclusive com pênalti – que este que escreve não marcaria por considerar normal o choque entre Sané e o zagueiro Ivan Ordets – cobrado por Aguero para defesa de Pyatov. Sterling substituiu Jesus, de atuação sem brilho mas importante na movimentação e no trabalho coletivo, e definiu os 2 a 0 no final em mais um contra-ataque letal. Assistência de Bernardo Silva, que substituiu Aguero e trabalhou como uma espécie de “falso nove”. Outra experiência do treinador catalão.

Desta vez não houve goleada, mas pelas estatísticas não seria nenhum absurdo. Foram 14 finalizações, oito no alvo. Apenas quatro do Shakhtar, metade na direção da meta de Ederson. De qualquer forma, os três pontos colocam o City na liderança do Grupo F e confirmam o ótimo início de temporada. No ritmo de Kevin De Bruyne.

No “clássico brasileiro” na Liga dos Campeões, o melhor em campo foi um grande talento da geração belga que costuma ser alvo de chacota pela falta de grandes títulos. Como se o país fosse da primeira prateleira do futebol mundial em termos de conquistas.

Não é, mas conta com um meia raro, que o Brasil, por exemplo, só tem em Philippe Coutinho um jogador do mesmo nível no futebol mundial. Exaltado por Guardiola e admirado por quem ama o esporte sem preconceitos.

(Estatísticas:: Footstats)