Blog do André Rocha

Arquivo : Zico

Na “Cidade Maravilhosa”, o ódio está em toda parte e não só em São Januário
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André Rocha

Muito já se falou e escreveu sobre o ocorrido em São Januário no sábado antes, durante e depois do clássico. Obviamente há a disputa política de um Vasco que há tempos necessita de uma terceira via forte além de Roberto Dinamite e Eurico Miranda.

Um clube que preferiu voltar ao passado com medo do futuro e que ainda não consegue vislumbrar um amanhã. Que acreditou que recuperaria protagonismo pelo simples retorno de um dirigente típico do século passado no futebol brasileiro. Com o rebaixamento veio o choque de realidade e, com ele, a exacerbação de uma cultura de ódio que é passada, intencionalmente ou não, ao torcedor cruzmaltino desde a infância.

Este blogueiro conhece porque vem de uma família de vascaínos e convive com vários desde sempre. O discurso é simples e direto: o Vasco é o clube popular de verdade e todos os seus títulos são conquistados com muito mérito, enquanto o rival Flamengo só tem a maior torcida do Brasil e construiu suas vitórias por ser protegido. Por CBF, Rede Globo, arbitragens…Em toda conquista há uma conspiração.

Algo que não faz o menor sentido, até porque todos os clubes cariocas historicamente já foram favorecidos por primeiro estarem na capital federal, em seguida pela proximidade geográfica da CBD, depois CBF. Antes mesmo da popularização dos aparelhos de televisão, a Rádio Nacional contribuiu para a formação de torcidas além da federação. Do Flamengo, sim. Mas também de Fluminense, Botafogo e do próprio Vasco.

Como todo trabalho de convencimento, algumas informações não são passadas porque desconstroem as teses de doutrinação.

Como a manobra no regulamento do Campeonato Brasileiro de 1974, primeiro conquistado pelo Vasco, para que a final contra o Cruzeiro que seria realizada no Mineirão pela melhor campanha do time celeste ao longo de todo o campeonato fosse transferida para o Maracanã. Na partida vencida pelo time carioca por 2 a 1, a arbitragem de Armando Marques é contestada até hoje pelos cruzeirenses por conta de um gol anulado do volante Zé Carlos aos 43 minutos do segundo tempo e o apito final sem nenhum acréscimo dentro de um jogo com muitas paralisações.

Também não revelam que alguns períodos vencedores do clube coincidem com a proximidade da CBD, comandada pelo Almirante Heleno Nunes de 1975 a 1980, vascaíno assumido e considerado responsável pela convocação de Roberto Dinamite para a Copa do Mundo de 1978 na Argentina. Também da CBF no final dos anos 1980, a ponto de Eurico Miranda ter sido o primeiro diretor de futebol da entidade no início da gestão de Ricardo Teixeira.

Ou a famosa aliança com a FERJ que vem desde os tempos de Eduardo Vianna, o Caixa D’água, e retomada agora com Rubens Lopes no retorno de Eurico Miranda à presidência. Períodos que coincidem com muitas conquistas do clube. Ou seja, ninguém tem telhado de vidro e história ilibada e sem manchas ou dúvidas. Infelizmente.

Mas o vascaíno é ensinado a odiar o Flamengo desde o berço, a vasculhar a história do rival em buscas de fatos reprováveis e frutos de conspirações. Por consequência, muitos sabem pouco da trajetória do próprio clube. A ponto de questionar o título carioca deste ano do Fla sem vencer nenhum turno, mas não saber – ou fazendo questão de esquecer – que a conquista estadual de 1982, tão celebrada sobre o multicampeão time de Zico, também foi construída sem ganhar a Taça Guanabara e a Taça Rio, mas por chegar ao triangular final pela melhor campanha geral. Questão de regulamento.

O clássico de sábado foi a gota de sangue num copo transbordando. O vascaíno percebe seu time de coração afundado por seguidas gestões incompetentes e irresponsáveis que ocasionaram três rebaixamentos no Brasileiro, as páginas mais vergonhosas de uma história gloriosa. O último sob o comando de um homem envelhecido, mas que faz questão de manter sua imagem de inquebrantável. E forte nos bastidores para afrontar o tal favorecimento ao rival.

No início houve um bicampeonato estadual e a sensação de que os tempos de rivalidade em igualdade de condições, ou aquela aliança vitoriosa com a federação carioca, tinham voltado. Mas a Série B em 2016 e a nítida mudança de patamar do Flamengo, com dívidas equacionadas, melhor estrutura e, numa cultura nacional sem fronteiras pela internet, rivalizando mais com os grandes paulistas e com o Atlético Mineiro do que com os tradicionais clubes locais fizeram explodir um ressentimento.

Foi o que se viu em São Januário, com bombas atiradas no campo, relatos de agressões a policiais mulheres, jornalistas e proibição de filmagem da festa da pequena torcida rubro-negra após a vitória por 1 a 0. Um triste cenário que retrata o desespero por ver um dos clubes mais tradicionais do país se apequenando por buscar sua grandeza de volta pelo caminho errado.

Equivocado e falimentar também o Rio de Janeiro depois da falsa bonança pelos investimentos para os Jogos Olímpicos. Associado aos escândalos na Petrobrás e à redução de arrecadação dos royalties do petróleo desencadeou na maior crise da história da cidade e do estado.

Como diz o velho ditado,”em casa que não tem pão todos gritam e ninguém tem razão”. Assim como em São Januário, onde há crise existe ódio. E na dita “Cidade Maravilhosa” ele está em toda parte.

De quem se acha vítima de um golpe eleitoral. No país, a nível estadual e também municipal. Enganado por políticos, presos ou soltos. Cidadãos que só querem os recursos surrupiados repatriados para estancar a sangria nos cofres públicos e salvar a dignidade de quem trabalhou e trabalha, mas no fim do mês está sem salário.

Do desemprego pelas portas fechadas. Seja porque não há dinheiro ou paz em locais sitiados pelo tráfico de drogas. A violência desmedida que aprisiona e revolta. Sem paz até nos shopping centers que eram o último refúgio. Cenário capaz de relativizar até as belezas naturais e os cartões postais. O Rio da zona sul, sempre privilegiada, que também revolta os que moram no subúrbio e na baixada fluminense.

Para responder à violência, só a truculência. Espalha-se, então, o fascismo e o preconceito como resposta. Não por acaso é o reduto eleitoral do deputado que quer ser presidente defendendo ditadura militar e lembrando com saudades de torturadores. Representante de quem detesta as diferenças e defende a segregação até na praia, antes o mais democrático dos símbolos cariocas. Junto com o Maracanã, outro gigante esquecido e afundado nesta lama fétida de corrupção e descaso.

Este é o Rio de Janeiro da cultura do ódio. Diário, cravado no cotidiano. Em toda parte. O que eclodiu em São Januário foi apenas uma faceta dele. Da cidade que continua linda como no verso de Gilberto Gil. Mas chora e se rebela com quem a mira com mais interesses escusos que carinho e cuidado. Uma pena.


Sarrià, 35 anos: a velha mania brasileira de achar que perdeu pra si mesmo
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André Rocha

 

As seleções brasileiras nas Copas de 1930 e 1934 foram “improvisadas”, não eram propriamente um grupo com os melhores jogadores do país. Em 1938 a Itália fascista de Mussolini venceu a semifinal por conta da ausência de Leônidas da Silva, “poupado” pelo treinador Ademar Pimenta. O “Maracanazo” de 1950 está eternamente na conta do goleiro Barbosa. Em 1954 e 1966 foi a desorganização. Na Copa da Alemanha depois do tri “amarelamos” contra a Holanda.

Em 1978 não houve derrota, então foi “campeão moral”. Mas se o Falcão tivesse sido convocado…Em 1986 a culpa foi do Zico com o joelho em frangalhos. Em 1990 e 2010 o responsável pelo fracasso foi o Dunga, dentro e fora de campo. A convulsão de Ronaldo impossibilitou a conquista em 1998 – para muitos foi a Copa “vendida” para a França. Há três anos, um simples “apagão” no Mineirão.

Para muitos brasileiros, em condições normais de temperatura e pressão, a seleção de Tite iria para o Mundial da Rússia apenas buscar sua 19ª taça. Porque o Brasil sempre perdeu apenas para si mesmo. Quando venceu foi por méritos totais. Ou não mais que a obrigação.

Ninguém lembra da dura semifinal contra a França em 1958 que acabou facilitada pela fratura do zagueiro Jonquet que deixou a forte seleção de Just Fontaine e Raymond Kopa fragilizada pela impossibilidade de fazer substituições. Nem dos apitos amigos em 1962 e 2002 contra Espanha e Bélgica, respectivamente. Em 1994, Branco nos tirou do sufoco nas quartas-de-final contra a Holanda numa falta cavada em que colocou a mão na cara do adversário. Mas aí é a velha “malandragem” tupiniquim.

Em 1982 foi culpa do Cerezo que entregou a bola para Paolo Rossi no segundo gol, do Telê Santana que não tinha um ponta pela direita e Cabrini desceu livre para cruzar na cabeça do algoz brasileiro no gol que abriu o placar . Junior vacilou não deixando Rossi impedido no tento derradeiro dos lendários 3 a 2 no Sarrià. Há 35 anos.

Esquecem, mais uma vez, que havia uma camisa bicampeã mundial vestindo a base da equipe, com o mesmo Enzo Bearzot no comando, que foi a única a vencer a anfitriã Argentina quatro anos antes. Que ficou em quarto no Mundial por detalhes, tanto na derrota para a Holanda que custou a vaga na final quanto nos gols de Nelinho e Dirceu na decisão do terceiro lugar. Em disputas equilibradíssimas.

Time do “regista” Antognioni, meio-campista que jogava com classe e marcou o quarto gol, anulado por impedimento inexistente. De Bruno Conti, ponta direita canhoto e articulador com técnica refinada. Do onipresente Tardelli no meio, indo e voltando. Do versátil Oriali, que foi atuar na lateral direita para que Gentile fosse perseguir Zico no campo todo, assim como fizera com Maradona.

De Gaetano Scirea, um dos melhores líberos de todos os tempos. De Cabrini, o lateral apoiador que apareceu bem no primeiro gol, mas depois sofreu com a movimentação brasileira pelo seu setor. Um dos motivos de críticas depois do revés, mas que confundiu e tirou o encaixe pensado por Bearzot. A ideia era que Cabrini cuidasse de Sócrates e Graziani, o ponta esquerda, voltasse com Leandro. Por ali saíram os gols de Sócrates e Falcão.

Porque a Azzurra também errou. Na defesa deixando Zico e Serginho livres para concluir à frente de Dino Zoff, mas o centroavante finalizou bisonhamente. O camisa dez brasileiro ainda sofreu pênalti tendo sua camisa rasgada. Marcação implacável? Só no segundo tempo. E Zico reclama até hoje que os companheiros pararam de procurá-lo, por estar sempre vigiado.

Rossi marcou três, porém o mais fácil ele perdeu, totalmente livre no segundo tempo, com a bola à feição no tradicional “contropiede” italiano. Com Bergomi no lugar de Collovati e a entrada de Paulo Isidoro na vaga de Serginho, Sócrates foi para o centro do ataque e a retaguarda italiana se confundiu para fazer a sobra com Scirea.

Jogaço duríssimo até a cabeçada de Oscar na cobrança de falta de Eder que Zoff pegou na maior defesa sem rebote da história das Copas. Mérito total do goleiro veterano. Assim como a Itália cumpriu sua melhor atuação naquela Copa na Espanha. Depois, com a confiança no topo, passou por cima da Polônia sem o craque Boniek na semifinal e atropelou na decisão no Santiago Bernabéu a Alemanha estropiada pelo esforço hercúleo diante da França.

Por isso a festa de título no apito final de Abraham Klein no dia 5 de julho. A Itália havia eliminado o melhor futebol daquele torneio até então. Que não é esquecido até hoje. Que provocou aplausos a Telê Santana na sala de imprensa e elogios do vencedor Bearzot. Também o prêmio de segundo melhor jogador da competição a Falcão.

Mas não perdeu para si mesmo. A Itália venceu. Talvez fosse derrotada em outros dez confrontos. Talvez não. Nunca saberemos. No Sarrià superou as desconfianças de uma primeira fase de empates contra Peru, Polônia e Camarões para alcançar um de seus mais celebrados êxitos. Porque foi melhor.

Como tantas outras seleções que nos superaram em Copas. Desde a Itália bicampeã nos anos 1930, passando pelo Uruguai de Obdulio Varela, a Hungria em 1954, mesmo sem Puskas. Portugal de Eusébio, Holanda de Cruyff e de Sneijder, Argentina de Menotti, a França de Platini e de Zidane, a Argentina de Maradona e Caniggia. A Alemanha dos 7 a 1. Com exceção de 1966 e 1986, todos que eliminaram o Brasil foram, no mínimo, finalistas.

Não é pouco, nem merece ser subestimado como a Itália. Não foi a vitória do pragmatismo sobre a arte irresponsável, o futebol “bailarino”. O Brasil de Telê tinha os dez homens na defesa quando sofreu o terceiro gol e foi buscar o empate na jogada aérea. Não houve catenaccio, retranca, futebol covarde. A Azzurra fez uma partida combinando seu estilo e a necessidade do resultado.

O Brasil não contrariou suas características, mas quando empatou pela segunda vez com Falcão percebeu que devia ser mais cuidadoso. E foi, não sofreu gol em contra-ataque. Telê podia ter trocado Waldir Peres por Paulo Sérgio, Luisinho por Edinho e Serginho por Dinamite ao longo do Mundial. Mas não foi derrotado apenas por conta de seus elos fracos.

Havia um rival valoroso, com entrega, técnica e estratégia. O Brasil perdeu para a melhor seleção daquele mês de verão na Espanha em 1982. O resto é nossa presunção de onipotência quando o assunto é futebol. Uma velha e tola mania.


Há 40 anos, a paciência foi de ouro para o Flamengo. Vale o mesmo agora
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André Rocha

Foto: Acervo O Globo

Em 1977, o estadual tinha o mesmo peso, ou até maior, que o campeonato brasileiro na temporada. O Flamengo tinha nova diretoria, com Márcio Braga em seu primeiro mandato no clube. Liderando a FAF – Frente Ampla pelo Flamengo. Na época vista por muitos rubro-negros como pessoas que entendiam muito de Direito, Televisão e Marketing, mas nada de futebol.

Contava também com uma geração promissora e um jovem treinador: Claudio Coutinho, em sua primeira experiência no comando de um time profissional. Mas que não conseguia um título desde o Carioca de 1974. Na final da Taça Guanabara de 1976, derrota nos pênaltis. Com Zico desperdiçando sua cobrança.

Bicampeonato da máquina do Fluminense armada por Francisco Horta. No ano seguinte, nova derrota na disputa das penalidades. No segundo turno. Como o Vasco vencera também o primeiro, ficou com o título. Desta vez, o vilão foi Tita, então um garoto com potencial que entrara exatamente para participar da disputa de pênaltis.

Depois da partida, o grupo se encontrou em um bar para demonstrar união, apoiar Tita e firmar um pacto de vitórias. Os conselheiros que tomaram conhecimento da reunião criticaram os jogadores, como se eles fossem indiferentes ao sofrimento da torcida, que pressionou por mudanças.

Agora é simples imaginar que era mais fácil apoiar aqueles jogadores talentosos. Na época, só Zico e alguns poucos foram poupados. Talvez hoje fossem lançados à fogueira como “amarelões”, “pipoqueiros” ou “time sem vergonha”. E lembre-se: o clube na época não tinha sequer um título nacional, mesmo antes de 1971.

A diretoria manteve elenco e treinador, avaliou o trabalho como bom e que era questão de tempo, tranquilidade para trabalhar e reforços pontuais para que os resultados aparecessem. O resto está na história como a fase mais vencedora e marcante do time mais popular do país.

Corte para 2017. Não há um Zico vestindo a camisa dez. Nem uma geração vinda da base tão talentosa. Mas está lá uma diretoria que revolucionou o clube, saneando finanças e mudando a imagem de mau pagador. Que pecou por decisões no futebol, algumas intempestivas, seguindo os humores da torcida.

Massa que hoje tem vários canais para se manifestar. Mas continua resultadista, imediatista, instável. Com três vitórias seguidas é o melhor time da galáxia; em caso de derrota, todos devem ser demitidos, do presidente ao funcionário mais humilde. Os surtos foram para as redes sociais. Do “cheirinho” ao “Fora todo mundo!”

A eliminação na Libertadores instaurou um clima de caos, logo depois da conquista estadual que criou uma ilusão de “melhor elenco do Brasil”, favoritíssimo a todos os títulos. A confiança se dissolveu e jogadores marcados, como Muralha, Rafael Vaz e Márcio Araújo passaram a errar demais.

O time segue organizado, mas não tem coragem para arriscar. Pior, joga com medo. De errar, de ser perseguido por uma turba insana. Isso tudo com desfalques, os últimos Trauco e Guerrero, a serviço da seleção peruana. Não há relativização de mais nada.

A derrota para o Sport com má atuação foi tratada como o fim dos tempos. A diferença em relação a do ano passado, na abertura do returno, foi um gol a mais do time pernambucano. Talvez com desempenho abaixo daquela vez. Mas o time disputava a liderança, então foi logo esquecida.

Agora há Donatti para voltar, Conca e Everton Ribeiro e Rhodolfo para estrear e ainda a possibilidade de contratar Geuvânio. Rafael Vaz foi barrado, agora Muralha perdeu a vaga para Thiago. Sobra Márcio Araújo, que segue jogando para compensar com velocidade as suas próprias limitações e a lentidão dos zagueiros e dos concorrentes na função.

Contra o Avaí, novamente faltou confiança. Mas mesmo na casa do adversário a equipe teve mais posse de bola (55%) e as mesmas dez finalizações do adversário na Ressacada. Uma a mais no alvo. Novamente sofreu um gol por falhas individuais – Leandro Damião que perdeu a bola, Juan que errou na tática de impedimento e deu condições a Romulo para abrir o placa.

Podia ter saído derrotado por conta do pênalti absurdo de Everton em Diego Tavares que a arbitragem confirmou, depois voltou atrás – mais um caso de acerto que deixou a nítida impressão de ter sido influenciado por uma interferência externa, de quem viu a imagem e notou que não houve a infração. Novo erro em uma regra que já devia ter sido alterada para minimizar os equívocos.

O Flamengo teve chances com Mancuello e Vinicius Júnior para ir às redes. Empatou com um golaço de bicicleta do mesmo Damião, que deixou a equipe em um dilema: se habituou, na ausência de Diego, a trabalhar ofensivamente a partir do pivô de Guerrero. Agora teve a volta do meia, que já mostrou mais desenvoltura, mas Damião tem dificuldades para dar sequência às jogadas. É atacante do último toque.

Zé Ricardo foi infeliz na troca de Vinicius Júnior, irregular entrando de início, por Filipe Vizeu. A equipe perdeu o lado direito, com e sem a bola. Tentou corrigir no final com Ederson na vaga de Damião. Mas teve a chance de uma vitória fora de casa. Com uma sequência que está por vir no Rio de Janeiro e um elenco mais encorpado em breve.

Ou seja, há lastro de evolução. O Flamengo de Zé Ricardo continua sendo uma equipe que perde pouco. Precisa de mais criatividade e efetividade na frente e segurança atrás. Questão de ajuste, algum tempo para treinar – inviável em junho, com rodadas de três em três dias – e peças mais qualificadas.

Acima de tudo, uma questão de paciência. Sem se deixar seduzir pela solução mais fácil: o “fato novo” que sempre é demitir o treinador. Às vezes funciona, como em 2007 na troca de Ney Franco por Joel Santana. Da zona de rebaixamento à vaga na Libertadores. Na maioria das vezes, porém, é uma solução de curtíssimo prazo. Dura o tempo da “chacoalhada” no elenco.

É a chance de fazer diferente. Não com conformismo, mas cobrando no tom certo. Sem apocalipse ou megalomania. Avaliando o trabalho e acertando internamente. Sem alarde, nem populismo. Há quatro décadas, a paciência foi de ouro para o Flamengo. Vale o mesmo agora.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Gol de goleiro, olímpico de Zico, Tevez… As histórias do Fla na nova casa
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André Rocha

Flamengo_Coritiba_2005

O Flamengo fechou acordo por três anos para a utilização da Arena da Ilha do Governador como sua casa a partir de 2017.

A indefinição do Maracanã e a rivalidade com o Botafogo que inviabiliza uma parceria com o Engenhão fizeram o clube rubro-negro se antecipar e garantir um estádio no Rio de Janeiro para evitar o desgaste de tantas viagens que desgastaram o time nesta temporada.

Arena da Ilha que foi inaugurada como Estádio Luso Brasileiro em 1965, e já foi Arena Petrobrás – adaptada para receber 30 mil pessoas, foi muito utilizada em 2005, já que o Engenhão ainda não existia e o Maracanã estava em obras para receber o Pan-Americano dois anos depois.

Tudo isso constrói uma história do Flamengo por lá que começa em 1969 até os 3 a 3 com o Botafogo este ano. Foram 35 partidas, com 19 vitórias, oito empates e oito derrotas. Considerando três pontos por vitória para facilitar o cálculo, o aproveitamento seria de 62%. Marcou 68 gols, sofreu 41. Zico marcou seis gols e é o artilheiro do clube no estádio.

Além dos números, o blog apresenta algumas histórias interessantes do rubro-negro na Ilha do Governador.

1 – Jovem Bandeira viu primeiro gol de Doval

O presidente Eduardo Bandeira de Mello lembrou ontem na celebração do acordo que, então com 16 anos, viu o primeiro jogo do Fla no Estádio Luso Brasileiro em 4 de maio de 1969. Também foi o primeiro gol do ídolo Doval com a camisa rubro-negra, na vitória por 4 a 1 sobre a Portuguesa da Ilha;

2 – Gol do goleiro Ubirajara

Na segunda partida do clube no estádio, um fato histórico: o gol do goleiro Ubirajara Alcântara. Aproveitando-se dos fortes ventos na região que acabaram virando lenda, bateu um tiro de meta e encobriu o goleiro do Madureira na vitória por 2 a 0 em maio de 1970. Na preliminar, um menino chamado Zico, aos 17 anos, marcou quatro gols na Portuguesa pelos juvenis;

3 – Conquista de título

Em 1979, ano da conquista dos dois títulos estaduais por conta de um calendário esdrúxulo, o Flamengo confirmou o título da Taça Guanabara, o quinto de sua história, com os 2 a 0 sobre a Portuguesa. Dois gols de Zico, já no auge da carreira aos 26 anos;

4 – Gol olímpico, mas primeira derrota

O primeiro revés viria na sétima partida disputada no estádio. Em outubro de 1982, um Flamengo dividido entre o Estadual e a Libertadores foi ao Luso Brasileiro para enfrentar a Portuguesa com time misto. Mas com Zico, que aproveitou o mesmo vento que ajudara Ubirajara em 1970 para marcar um histórico gol olímpico, já que ele fez apenas dois desta forma em toda a carreira. Mas não evitou os 3 a 2 para o time mandante;

5 – “Prazer, sou o Tevez”

Um Flamengo irregular sofria no Brasileiro de 2005. Bravateiro, o presidente Márcio Braga resolveu promover o clássico contra o Corinthians com provocação ao argentino Carlos Tevez, contratado a peso de ouro pelo time paulista ao Boca Juniors: “Tevez? Quem é Tevez? Pensei que fosse o juiz da partida”. O resultado foi a vitória do Corinthians por 3 a 1 na então Arena Petrobras e a resposta do craque que seria campeão no final do ano: “Agora ele me conhece”;

6 – A maior derrota no estádio

O time claudicante sofreu diante de outro gigante paulista em 2005. O São Paulo campeão da Libertadores e que ganharia o mundo em dezembro contra o Liverpool vinha oscilando no Brasileiro, chegou até a entrar na zona de rebaixamento, mas resolveu despertar logo diante do rubro-negro: 6 a 1 que gerou profunda crise no clube;

7 – A salvação com Joel Santana

Após a derrota por 2 a 1 para o Vasco em São Januário, o treinador Andrade, interino que acabou efetivado, voltou a ser auxiliar e Joel Santana foi contratado para uma missão que parecia impossível: evitar o rebaixamento faltando nove rodadas. Das seis vitórias que junto com os três empates garantiram a equipe na Série A, duas aconteceram na Ilha do Governador: a primeira com Joel, nos 2 a 1 sobre o Coritiba, gols de Renato (foto) e Fellype Gabriel, e ainda os 3 a 0 sobre o Fortaleza. A confirmação viria com o triunfo fora de casa por 1 a 0 sobre o Paraná. O primeiro milagre do Natalino.

 


Alô, Tite! Cinco momentos em que o auge da seleção chegou antes da Copa
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André Rocha

Brasil Festa Confederacoes 2005

“Que m… que parou” Assim Tite deixou claro na coletiva que gostaria que as eliminatórias sul-americanas seguissem com rodadas próximas e não só em março, quando a seleção brasileira enfrenta Uruguai e Paraguai. Ainda concordou que seria ótimo que a Copa do Mundo começasse ainda em 2016.

De fato, sem nenhuma equipe tão dominante e absoluta, nem a campeão Alemanha,a fase positiva em desempenho e resultados poderia ser bastante favorável. Mas até 2018 na Rússia a estrada é longa – e com armadilhas. Por isso o blog lembra, até para esfriar um pouco o oba oba,  cinco momentos em que o auge do time canarinho chegou antes da Copa:

1981 – As exibições na Europa

Inglaterra, França e Alemanha. O Brasil de Telê Santana superou três forças do continente como visitante e consolidou sua imagem de favorito à conquista na Espanha. Com golaço de Zico, a primeira vitória de um sul-americano no lendário Estádio de Wembley. Depois 3 a 1 nos franceses no Parc des Princes, com novo gol do Galinho, outros de Sócrates e Reinaldo. Antes da bola rolar, Pelé recebeu o prêmio de “Atleta do Século” do jornal “L’Equipe”.

Por fim, os 2 a 1 sobre a então campeã da Eurocopa de 1980 em Stuttgart, com Waldir Peres defendendo duas cobranças de pênalti do antes infalível Paul Breitner. Triunfos que pareciam consolidar a formação com Paulo Isidoro como falso ponta pela direita e Reinaldo no comando do ataque.

No ano seguinte, porém, Telê precisou encaixar Falcão no meio-campo e sacou Isidoro. Com a queda de produção de Reinaldo e a lesão de Careca, Serginho Chulapa virou titular. Não houve exatamente uma queda técnica, mas a seleção parecia mais ajustada com o time que encantou a Europa um ano antes. Talvez tenha faltado uma passada em Roma ou Milão…

1989 – Copa América e time sólido

Depois de um início com muitas críticas e protestos em Salvador por conta da ausência de Charles ou de algum jogador do Bahia campeão brasileiro de 1988, a seleção de Sebastião Lazaroni encontrou abrigo no Recife para vencer o Paraguai por 2 a 0 e partir para o título da Copa América, que não acontecia há 40 anos, superando os mesmos paraguaios, argentinos (com Maradona) e uruguaios no Maracanã.

A formação com três zagueiros, considerava defensiva, contava com Bebeto e Romário aprimorando o entrosamento dos Jogos Olímpicos de Seul um ano antes e marcando todos os gols das quatro vitórias consecutivas que terminaram em taça.

Com a expulsão de Romário contra o Chile pelas eliminatórias, Careca voltou absoluto e o Brasil garantiu sua vaga na Copa e, com vitórias sobre Itália, anfitriã do Mundial no ano seguinte, e a Holanda campeã da Eurocopa no ano anterior, o time sólido virou favorito. Com Muller no ataque e Alemão no meio na vaga de Silas, eliminação nas oitavas de final para a Argentina de Maradona e Caniggia em Turim.

1997 – Dupla “Ro-Ro” encanta o mundo

Ronaldo e Romário. Dois dos maiores atacantes da história do esporte. Juntos e entrosados. Era bonito de ver na seleção campeã da Copa América disputada na Bolívia. Também da Copa das Confederações, disputada na Arábia Saudita e não França, país sede da Copa no ano seguinte.

Os franceses sediaram um torneio no qual o time de Zagallo também deixou boa impressão, empatando com os anfitriões em 1 a 1, com o lendário gol de falta de Roberto Carlos em Barthez, nos eletrizantes 3 a 3 com a Itália e a vitória por 1 a o sobre a Inglaterra, que conquistou o título.

Mas Romário se lesionou num jogo do Flamengo contra o Friburguense, acabou cortado numa polêmica com Zagallo e Zico que durou anos e uma seleção muito irregular acabou chegando à decisão. Nunca saberemos o que aconteceria um Saint-Denis com o craque do mundial anterior em campo para compensar um Ronaldo combalido contra a equipe de Zinedine Zidane.

2005 – O “quadrado mágico” do “Dream Team”

Campeão mundial em 2002. Conquista da Copa América em 2004 no Peru com time reserva, líder das Eliminatórias e campeão da Copa das Confederações com um espetáculo nos 4 a 1 sobre a Argentina.

Ronaldinho Gaúcho absoluto como o melhor do planeta, já sendo comparado a Pelé e Maradona, e Carlos Alberto Parreira encaixando um “quadrado mágico” com Kaká, Ronaldo e Robinho ou Adriano. Comparações com o “Dream Team” americano campeão olímpico de basquete em 1992. Poucas seleções fecharam um ano tão favoritas ao título mundial quanto o Brasil antes da Copa na Alemanha.

Mas veio a preparação confusa desde Weggis, fruto da euforia e da autosuficiência difíceis de segurar com tantas estrelas…e um futebol paupérrimo desde a primeira fase até cruzar novamente com a França de Zidane, desta vez nas quartas de final, e ficar pelo caminho. Sem o tal quadrado, já que Adriano e Robinho começaram no banco e Juninho Pernambucano iniciou a partida em Frankfurt. De novo a frustração.

2013 – A “fórmula mágica” de Felipão

Hino nacional com a torcida cantando o final à capela, pressão sufocante e gol no início do jogo para deixar o estádio ainda mais elétrico, contragolpes com o talento de Neymar e o faro de gol de Fred.

Não tinha como dar errado na Copa disputada no Brasil para enfim apagar o trauma do “Maracanazo” em 1950. A “fórmula mágica” de Luiz Felipe Scolari deu muito certo e atingiu seu ápice nos 3 a 0 sobre a então campeã mundial e bicampeã europeia Espanha no Maracanã. Com Luiz Gustavo e Paulinho colocando Xavi e Iniesta no bolso.

De novo a Copa das Confederações. Ou seria das Ilusões. De novo o Brasil achou que estava pronto para o Mundial um ano antes, desta vez com o agravante de não se testar nas eliminatórias. Novamente o técnico fechou o grupo e os olhos para nítidas quedas técnicas e físicas. Mais uma vez um torneio que é apenas uma pequena amostragem do que pode ser a Copa empolgou o povo que cantou “O campeão voltou!” O resto é história. Trágica.

 

 


Enfim voltamos a ter um meio-campista, o oito e o “oito”: Renato Augusto
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André Rocha

Renato Augusto

Renato Augusto costuma dizer que gosta de ler ou ouvir em alguns veículos que é volante e em outros um meia. Nas Olimpíadas atuou com a camisa cinco e chegou mesmo a jogar mais fixo, compensando as descidas constantes de Walace no ofensivo 4-2-3-1, quase um 4-2-4, montado por Rogério Micale.

Na vitória sobre a Argentina no Mineirão foi mais meia a partir da troca com Paulinho e chegou a atacar o espaço deixado pela movimentação de Philippe Coutinho da ponta direita para dentro, como na jogada do gol de Paulinho, o terceiro da equipe de Tite.

Versatilidade, inteligência tática. Capacidade de recuar para buscar a bola com os defensores e iniciar a organização, mas também entrar na área para finalizar, quando necessário. Volante e meia.

Meio-campista que joga de área a área, com essência mais organizadora e criativa que vinha fazendo falta por aqui em tempos de Kroos, Modric, Iniesta, Pogba, Vidal, Verratti, Gundogan e, há pouco tempo, dos mestres Xavi e Pirlo.

Aos 28 anos, o camisa oito da seleção não chega ao nível de excelência dos melhores do mundo, até por questões físicas que o tiraram da Europa no que seria o seu auge. Mas já é um alento.

A grande questão é:por que ao longo do tempo os jogadores com essas características foram sumindo de nossos campos. Para entender melhor é preciso voltar quase sete décadas.

Nos tempos do 2-3-5, do WM ou da “diagonal” de Flávio Costa no Brasil do “Maracanazo” em 1950, os meias dividiam as funções de criação e finalização. Como Zizinho e Jair da Rosa Pinto, embora o primeiro, ídolo de Pelé, fosse mais vertical e o segundo tivesse como características os lançamentos. Mas jogavam praticamente alinhados.

A Hungria em 1954 ensaiou a linha de quatro na defesa que o Brasil consolidaria em 1958. Com quatro na defesa, o meio ficava um tanto esvaziado com apenas dois jogadores. O “Escrete Húngaro” recuava Hidegkuti como “falso nove” para liberar os ofensivos Kocsis e Puskas. No Brasil, com Vicente Feola influenciado por Bela Guttman, a solução foi recuar um ponteiro.

Zagallo ganhou notoriedade por executar a função pela esquerda no bicampeonato mundial em 1958 e 1962. Mas Telê Santana também era “falso ponta”, só que pela direita, no Fluminense. Com isso um meio-campista passava a ser mais articulador, próximo ao volante, e outro praticamente um atacante fazendo parceria com o centroavante.

Não é raro vermos escalações da lendária seleção com Zito, Didi e Zagallo; Garrincha, Vavá e Pelé. O mesmo vinte anos depois, com o Velho Lobo já treinador adaptando Rivellino como falso ponteiro: Clodoaldo, Gerson e Rivellino; Jairzinho, Tostão e Pelé.

Assim nasceram as figuras do “meia-armador” e do “ponta-de-lança”. E uma confusão histórica muito comum: em muitos times o camisa dez era o armador e o oito atuava mais avançado. Exemplo clássico: Ademir da Guia no Palmeiras da Academia era mais próximo de Dudu e Leivinha praticamente um quarto atacante.

Já Pita, o dez, era o mais avançado e Aílton Lira, camisa oito, o armador na primeira versão dos “Meninos da Vila” no Santos em 1978. Pita que, ainda com o mesmo número, recuaria para liberar Silas, o oito nos “Menudos” do São Paulo em 1985.

Nos anos 1960, o primeiro quadrado no meio-campo com o Cruzeiro de Piazza, Zé Carlos, Dirceu Lopes e Tostão. A Inglaterra campeã mundial em 1966 dera a senha para o 4-4-2 com Ball e Peters sendo os “dois Zagallos” de Alf Ramsey.

Ao longo do tempo o falso ponta foi sendo incorporado ao meio-campo. Na prática, os times jogavam com um losango – o ponteiro se juntando ao meia-armador e liberando o ponta de lança – ou num quadrado, com o ponta e o meia mais adiantado alinhados. Nas Copas de 1974 e 1978, o ponta esquerda que preenchia o meio era Dirceu.

Quando o Flamengo de Zico liberou os laterais Leandro e Junior para o apoio, a primeira solução foi transformar os pontas em meias: Tita e Lico. No final da era vitoriosa surgiu a necessidade de escalar dois volantes – Andrade e Vítor e, no título brasileiro de 1983, Vítor e Elder. Também para aproveitar o potencial ofensivo do meia Adílio.

Com a derrota brasileira em 1982 com Cerezo, Falcão, Sócrates e Zico, criou-se o dogma de que volantes eram necessários para dar liberdade aos laterais cada vez mais ofensivos, até pela obrigação de aproveitar os corredores com a extinção dos típicos ponteiros.

Vale a lembrança de que Cerezo jogava à frente de Chicão no Atlético Mineiro e Falcão, Sócrates e Zico eram os pontas-de-lança em seus clubes – Roma, Corinthians e Flamengo. Nenhum dos quatro era volante.

O 4-2-2-2 se consolidaria nos anos 1990 com a divisão de funções no meio-campo: o primeiro volante “cão de guarda”, protetor da defesa; o segundo volante que marcava, porém tinha um pouco mais de liberdade caso os dois laterais não fossem alas. Dois meias: um mais cerebral, outro mais finalizador e criativo. Ambos, porém, sem muitas atribuições defensivas.

O São Paulo campeão mundial de 1992, com Pintado, Cerezo, Palhinha e Raí e o Palmeiras de 1996, com Amaral, Flávio Conceição, Djalminha e Rivaldo. Volantes e meias. Dois trabalhavam mais da intermediária para trás, dois da intermediária para frente. Os que jogavam de área a área sumiram.

Foram retomando com os volantes de saída no 4-2-3-1, como Elias e Paulinho, o Ganso num meio termo entre a organização e a infiltração na área, mas com a lentidão que Jorge Sampaoli vai tentando transformar em dinamismo no Sevilla.

Até chegar ao 4-1-4-1. Primeiro com Abel no Internacional de 2014, com D’Alessandro e Aranguiz alternando como ponta e meia pela direita e o mesmo com Alex e Alan Patrick do lado oposto.

Depois Tite voltaria do ano sabático em 2015 e, no mesmo desenho, avançou Elias e encaixou um Renato Augusto mais preparado fisicamente para a função de armador. Funcionou tão bem que dividiu com Jadson o protagonismo e os prêmios de melhor jogador do Brasileiro.

É ele quem dá ritmo e facilita todo o plano de jogo de Tite na seleção. Marca, passa curto ou longo, finaliza. Dita o ritmo, acelerando e desacelerando. Temporiza o jogo. Não é gênio nem protagonista, mas facilita o trabalho de toda a equipe. Por isso a insistência nas convocações e escalações, mesmo jogando no ainda pouco competitivo futebol chinês.

Três décadas depois, voltamos a contar com este jogador. Que Renato Augusto seja o “oito”, norte e referência para que outros surjam e o futebol brasileiro fique em definitivo alinhado ao que de mais atual existe na prática do esporte no seu mais alto nível.


Novo Flamengo “rei dos balanços” precisa de pitadas do velho no futebol
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André Rocha

Protesto torcida Flamengo

Muricy Ramalho vai cuidar da saúde, Abel Braga deve voltar ao clube após 12 anos, um título estadual e derrota histórica para o Santo André na Copa do Brasil. É técnico conciliador, para abafar a crise que transcende o time de futebol.

Porque o Flamengo que virou referência  na gestão financeira por equacionar dívidas, aumentar as receitas por conta da recuperação da credibilidade e administrar o orçamento de forma responsável não consegue criar uma identidade na gestão do carro-chefe do clube.

Em 2013, a Chapa Azul venceu, tomou posse e conscientizou o torcedor de que os primeiros anos seriam de controle de custos, negociações das dívidas e baixo investimento. Elias, Carlos Eduardo e Mano Menezes foram as “extravagâncias” possíveis no primeiro ano.

O título da Copa do Brasil com Jayme de Almeida no comando e um time barato para os padrões rubro-negros sinalizou para a diretoria que seria possível manter a austeridade, pensar a médio/longo prazo e continuar vencendo.

As boas notícias fora de campo, como amortização dos passivos, aumento considerável nas cotas de TV, captação de patrocinadores e um inimaginável superávit construíram na maior torcida do país a esperança de que tudo seria naturalmente transferido para o futebol. Contratações mais valiosas, treinadores de ponta, centro de treinamento mais equipado.

Um engano. Fora o título carioca, campanhas pífias na Libertadores de 2014 e nas edições dos Brasileiros. O início de 2016 com eliminações e atuações irregulares no Brasileiro, o outrora incensado Muricy sem dar padrão à equipe e Guerrero, a estrela do elenco, com atuações pluripatéticas ligaram um sinal amarelo.

Acabou a paciência da massa. A segunda etapa do crescimento do clube não se concretizou e Bandeira de Mello está sendo cobrado. Seu maior erro: transformar o Flamengo em um clube morno.

Antes era euforia ou depressão. Contratações sem dinheiro, megalomania sem respaldo estrutural. Por isso só restava brigar em campo por vitórias e títulos. Até para gerar renda. Irresponsabilidade administrativa que servia como uma espécie de doping emocional que alimentava a sede de conquistas. Estimulante que viciou a instituição.

O torcedor médio acredita que a “receita” é a bagunça de 2009. Técnico interino, craque veterano contratado para pagar dívida, investimento de alto risco em um artilheiro instável emocionalmente. Time cheio de incógnitas que deu liga. Mas não passa da exceção que confirma a regra no campeonato por pontos corridos.

O saudosismo que exige um novo Flamengo de Zico só ancora o clube, que não caminha e nem consegue pensar grande sem um “Messias”. Mentalidade que queimou vários jovens promissores por cobrar o quase impossível: repetir um dos maiores times da história do esporte, algo que só acontece uma vez. Passou.

Por isso é urgente encontrar um meio termo. Nem tudo é falta de raça, como cobram os mais exaltados. É nítido, porém, que não há aquela indignação absoluta com o revés. O “rei dos balanços” precisa aumentar a fervura.

Não atrasando salários, voltando para o campo de terra da Gávea ou contratando superastros fora do orçamento. Mas fazendo o chão tremer. Na ambição, na cobrança. Na criatividade para buscar jogadores que resolvam, na cultura de vitória. Pensar grande na justa medida.

O novo com pitadas do velho Flamengo. Sem a loucura que quase afundou o clube, com a insanidade saudável de crer na utopia que consta no próprio hino: “vencer, vencer, vencer”.


É hora do Flamengo entregar geração Zico à eternidade e seguir em frente
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André Rocha

Flamengo_1981_Mundial

Mais uma vez, o “Jogo das Estrelas” organizado por Zico há doze anos proporcionou uma tarde de nostalgia no Maracanã. Uma ótima ideia no final do ano que reúne artistas, jogadores aposentados e ainda na ativa e a renda sempre é revertida para quem precisa.

Novamente o Galinho saiu reverenciado pela torcida do Flamengo, sempre maioria neste evento. Aos 62 anos, quase 26 depois de sua despedida do futebol profissional.

Nada mais justo para uma rara combinação no planeta bola: revelado pelo clube, maior craque, maior artilheiro, mais vencedor, nunca jogou por outro time no país. Ainda um exemplo de profissional e de conduta humana.

A geração que conquistou os títulos mais importantes da história do Flamengo com Zico também não é simples de repetir: a maioria de jovens formados no clube, alguns com transição para o profissional mais segura, outros não. Que ganharam ‘casca” com os títulos estaduais perdidos de 1975 a 1977. Maturidade para depois levar para a Gávea todas as taças possíveis à época.

“Um time de exceção”, como ressaltou o Leovegildo Junior na entrevista para o livro “1981” que este blogueiro escreveu em 2011 com Mauro Beting, amigo e referência profissional.

Exceção. Até porque a distância do tempo não permite que seja modelo. Outro contexto, outra realidade. Por isso o Flamengo precisa, enfim, entregar à eternidade a melhor e mais vencedora reunião de craques de sua história e caminhar pensando no futuro.

Não mais a tentativa de resgatar o slogan “Craque o Flamengo faz em casa” com a esperança de revelar um novo Zico. Ou Junior, Leandro, Adílio, Andrade…

A espera pelo “Messias”. Muito comum no Brasil que ainda crê no poder de uma só pessoa para resolver tudo. Seja presidente da república, de um clube. Ou o diretor de futebol Arthur Antunes Coimbra, que chegou em 2010 como o Salvador. Como se fosse entrar em campo com o vigor de 1981. Não podia dar certo.

O que vai funcionar é o Flamengo ter orgulho de sua história, homenagear seus heróis sempre que possível, mas pensar futebol em 2016. Na gestão financeira já o faz. Falta a estrutura e a compreensão de que o futebol mudou.

Aquele time foi vanguarda pela valorização da posse de bola, congestionamento do meio-campo e maior aproveitamento ofensivo dos laterais Leandro e Júnior. Mais ou menos, acabou influenciando o futebol que se jogou depois. No Brasil e até no mundo, através da lendária seleção de 1982.

Está na hora de voltar a ser referência, mas por um novo caminho. Mais profissionalismo, menos folclore e crença de que a camisa e a torcida vão fazer a diferença sempre. Ou os remanescentes daquela geração.

Repare: com exceção da Copa do Brasil de 2006, todos os títulos relevantes do Flamengo nos últimos 25 anos tiveram algum protagonista direta ou indiretamente ligado àquele time. Do veterano Junior no Brasileiro de 1992, passando por Carlinhos, interino no Brasileiro de 1983, efetivo na Copa União de 1987 e treinador na Mercosul de 1999. Até Andrade no Brasileiro de 2009 e Jayme de Almeida na Copa do Brasil de 2013.

Em todas essas conquistas, sempre há quem busque alguma semelhança com 1981. Seja na maneira de jogar, no espírito, na valorização da base…Referência única.

Chegou a hora de buscar outras. Mais atuais, entendendo que o esporte mudou muito de 2009 para cá no mundo e o Brasil, mesmo com atraso, vai seguindo. Como o Corinthians de Tite, antenado e vencedor.

Muricy Ramalho chega falando em novas ideias, em um novo mandato de Eduardo Bandeira de Mello, presidente que faz história por mudar a imagem do clube mau pagador, pela coragem de trabalhar a longo prazo, mesmo sem a certeza de seguir no poder. Falta acertar mais no futebol. Em campo.

Com gratidão eterna a Zico e seus companheiros. Respeitando e até ouvindo esses personagens. Mas buscando um modelo que forme um coletivo forte para escrever outras páginas gloriosas do time mais popular do país.

Sem o saudosismo das velhas tardes de domingo no antigo Maracanã. Ou guardando para o “Jogo das Estrelas”. Mas com time forte, CT e um estádio para, de fato e de direito, chamar de seu. Seguir em frente. Ainda Flamengo.


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