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Vinicius Júnior se destaca no Real Madrid, mas ainda falta o essencial
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André Rocha

Foto: AFP

Foram 66 toques na bola, 34 passes com 82% de precisão. Três para finalizações dos companheiros.  Finalizou cinco vezes, três no alvo. Mais quatro cruzamentos, seis dribles completos em 12 tentativas e duas faltas sofridas.

Vinícius Júnior foi o melhor em campo pelo Real Madrid na derrota para a Real Sociedad no Santiago Bernabéu. Certamente a responsabilidade de mais um resultado negativo que deixa o time merengue na quinta colocação do Espanhol, fora da zona de classificação para a Liga dos Campeões e a dez pontos do líder Barcelona não é do atacante de 18 anos que fez sua primeira partida no campeonato como titular.

Mas vendo o jovem formado no Flamengo em ação é possível notar que, apesar da habilidade e da coragem para encarar os marcadores, ainda falta o essencial para seu futebol explodir no mais alto nível: a precisão no acabamento das jogadas.

Mesmo relevando a ansiedade natural de um garoto de 18 anos defendendo o maior time do planeta em crise, os erros técnicos nos passes que poderiam proporcionar aos companheiros oportunidades claras e nas finalizações com liberdade desperdiçadas objetivamente fizeram falta à equipe em um momento complicado.

Não, ele não tem a obrigação de decidir com Benzema, Modric, Kroos, Marcelo e Sergio Ramos em campo. Mas se  é acionado tantas vezes precisa ser mais objetivo e eficiente para beneficiar o coletivo. Vinícius tem facilidade para driblar tanto para o fundo quanto para dentro pela esquerda. A grande maioria dos cruzamentos, porém, são feitos sem levantar a cabeça e encontrar o companheiro melhor colocado.

As finalizações também são afobadas. Uma em cada tempo. Sim, ele sofreu um pênalti do goleiro Rulli, ignorado pela arbitragem. Mas fica a dúvida se caso conseguisse limpar sem ser tocado ele marcaria o gol, porque o drible foi adiantando muito a bola.

Desde os jogos na base do Fla que encantaram a todos e fizeram o atual tricampeão europeu investir tão alto Vinícius não transparece a calma que distingue os gênios dos craques. Pode ser que o tempo transfira serenidade e confiança ao seu estilo arrojado. O lastro de evolução é algo muito particular e o esplendor aparece sem avisar.

Mas desde já é preciso trabalhar os detalhes para os momentos cruciais. Vinícius tem todo tempo do mundo e parece blindado para a impaciência natural em um clube acostumado a vencer. A indignação com a derrota e o mau momento também é importante. “Trocaria toda a minha atuação de hoje pela vitória”, afirmou o brasileiro depois da partida.

O Real Madrid precisa reagir e a virada na temporada passa também pela capacidade de sua jovem estrela de transformar ações em mudanças no placar a favor do seu time. Sem pressa, mas com trabalho e inteligência.

(Estatísticas: Whoscored.com)


Real Madrid tricampeão e, enfim, uma noite inquestionável de Luka Modric
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André Rocha

Luka Modric entrou para a história em 2018 como o homem capaz de interromper o domínio de Cristiano Ronaldo e Messi. No Prêmio FIFA e na Bola de Ouro, além de melhor da Copa do Mundo. Títulos individuais muito questionados. Para muita gente boa, o meio-campista não foi o melhor jogador do Real Madrid na conquista da Liga dos Campeões  – Marcelo, Kroos e o próprio Cristiano Ronaldo teriam ficado acima – e nem da Croácia na campanha do vice-campeonato mundial na Rússia (Perisic foi melhor para este que escreve).

Em Abu Dhabi, porém, não houve dúvida sobre o grande destaque da final do Mundial de Clubes. Do inédito tricampeonato do time merengue, a sétima conquista incluindo todos os formatos. Mesmo esvaziado pelo enfraquecimento dos sul-americanos e o consequente domínio absoluto dos europeus, o que já provoca conversas para a mudança da fórmula e do número de participantes, é um título que carrega sua relevância e recheia qualquer currículo.

Luka Modric foi o destaque absoluto dos 4 a 1 sobre o Al Ain. Final que teve algo que lembrasse equilíbrio apenas nos primeiros minutos, com direito a gol anulado de Caio e Sergio Ramos salvando a finalização de El Shahat, segundos antes do camisa dez do maior time do planeta entrar em ação.

O meio-campista deitou e rolou com os muitos espaços deixados entre defesa e meio-campo do time árabe e a marcação passiva nos rebotes da entrada da área. Além do gol cortando para dentro e batendo de canhota no canto de Khalid Eisa, ainda um belíssimo chute completando escanteio de Kroos. Chegou a lembrar os lances ensaiados por Beckham e Roberto Carlos ou Zidane no Real Madrid galáctico dos anos 2000.

Geração que não chegou nem perto em conquistas da atual. Carvajal, Sergio Ramos e Benzema disputaram 16 finais nos últimos cinco anos e só perderam duas. A 14ª taça foi consolidada com o gol de Marcos Llorente. O volante que tem colocado Casemiro no banco foi outro a aproveitar a liberdade na entrada da área para marcar o primeiro gol pelo clube. Na bola parada, o habitual gol de cabeça de Sergio Ramos como “vingança” pelas vaias que recebeu durante a partida – ainda pela deslealdade na final da Liga dos Campeões contra Salah, o grande ídolo do “mundo árabe”.

No final, o gol de Shiotani, completando a terceira assistência do brasileiro Caio, para premiar o esforço do Al Ain. Dentro da realidade do Mundial e das possibilidades diante de uma equipe histórica, a atuação foi digna. Até pelo desgaste por conta das duas prorrogações nos três jogos antes da final.

Em ritmo de treino, o Real controlou com 63% de posse e 21 finalizações contra apenas oito – oito a dois no alvo. Muita facilidade pelos lados: Carvajal e Lucas Vazquez pela direita; Marcelo e Bale no setor esquerdo, que no final ganhou Vinicius Júnior por alguns minutos. Nos acréscimos, arrancada do jovem brasileiro e gol contra de Yahia Nader para fechar o placar.

Por todo o campo, Modric circulando e liderando a troca de passes. Com sobras o melhor em campo, ainda que a FIFA tenha premiado Llorente, fechando um ano espetacular. Enfim, numa noite inquestionável.

Superestimado pela temporada, mas sem dúvida um dos grandes da história. Junto com Xavi, Iniesta, Kroos, Schweinsteiger, Gerrard, Lampard e outros, Modric ajudou a transformar a função dos jogadores de meio-campo. Nem típico volante, nem meia clássico. Marcando e jogando em altíssimo nível colocou mais uma conquista na sala de troféus. Um cracaço!


Vinicius Jr. repete no Real o que fazia no Fla: salva time “arame liso”
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André Rocha

O Real Madrid não vencia há cinco rodadas no Espanhol. Entrou em campo no Santiago Bernabéu com Julen Lopetegui demitido e juntando os cacos dos 5 a 1 que levou do Barcelona. Para enfrentar o Valladolid, sexto colocado e invicto fora de casa até então. O time do sócio majoritário Ronaldo Fenômeno.

Com Santiago Solari no comando técnico, o time repetiu problemas coletivos graves da sequência negativa: marcação frouxa no meio-campo, muitos espaços na última linha de defesa e dificuldades para infiltrar em um sistema defensivo organizado e negando brechas para infiltração.

A tentativa inicial foi um 4-3-3 com Bale e Asensio se movimentando e procurando Benzema. Também abrindo os corredores para os laterais reservas Odriozola e Sergio Reguilón. Chance cristalina, porém, só no contragolpe em que Asensio encontrou Benzema livre para a finalização.

O Valladolid se fechava com duas linhas de quatro e todos os jogadores no próprio campo. Mas não abdicava do jogo e sempre era perigoso quando descia em bloco e explorava os espaços entre Casemiro, muito afundado perto dos zagueiros Nacho e Sergio Ramos, e os meias Modric e Kroos.

Duas bolas no travessão de Courtois e outras chances desperdiçadas. A mais clara com Antoñito livre à frente do goleiro belga, ainda no primeiro tempo. Mesmo com Real em crise é sempre um perigo não “matar” um gigante.

Solari trocou Casemiro e Bale por Isco e Lucas Vázquez. Um 4-2-3-1 que assumiu os riscos de uma postura ofensiva. Mais gente no campo de ataque. A equipe, porém, seguia “arame liso”. Cerca, toca a bola, mas não fura a retaguarda do oponente.

Muito pela ausência de Cristiano Ronaldo, a personificação da contundência no ataque. Porque para que o passe se transforme em assistência é preciso ter um atacante que se desloque, ataque o espaço certo no tempo exato. Justamente a especialidade do português, sem contar a eficiência nas finalizações, a liderança positiva e o simbolismo do maior jogador da história do clube.

No cenário de crise, Vinícius Jr. virou um fio de esperança pelo que vem produzindo no Real Castilla. Entrou no lugar de Asensio aos 27 minutos do segundo tempo. Aberto pela esquerda. Sua função? A mesma de quando jogava no Flamengo, também “arame liso”: buscar a jogada individual da ponta para dentro buscando a finalização ou servir o companheiro.

Dez minutos depois, mesmo cercado por quatro adversários, cortou da esquerda para o centro e chutou. A bola desviou no zagueiro Olivas e saiu do alcance do goleiro Jordi Masip. Pela primeira vez o garoto descomplica um jogo para os merengues. Com o alívio veio o pênalti sobre Benzema convertido por Sergio Ramos.

Com os 2 a 0, a missão é resgatar a confiança e retomar a temporada com um novo treinador. Ou mesmo se mantiver Solari. Seja como for, Vinícius Júnior deixa o seu recado: pode ser a peça diferente para mudar jogos quando for necessário. O “batismo de fogo” já passou.


Só Vinicius Júnior está se ajudando no Real Madrid
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André Rocha

A semana foi de boas notícias para o Real Madrid. Os 3 a 0 em casa sobre a Roma na estreia da Liga dos Campeões mostraram que o time segue muito forte, mesmo sem Zidane e Cristiano Ronaldo. Já a rodada da liga espanhola, com vitória também no Santiago Bernabéu por 1 a 0 sobre o Espanyol e o empate por 2 a 2 entre Barcelona e Girona no Camp Nou, deixa o time merengue com os mesmos 13 pontos do Barça, só ficando atrás no saldo de gols (5 a 3).

Mas no sábado faltou tato ao treinador Julen Lopetegui. Incluiu Vinicius Júnior entre os relacionados, encheu de esperanças torcedores, mídia e fãs do jovem talento na Espanha e no Brasil, alimentou uma esperança no jogador…para sequer colocá-lo no banco de reservas.

Vinicius assistiu à partida e depois teve que se juntar ao Real Castilla para o jogo fora de casa no dia seguinte contra o Cultural Leonesa. Jogou com naturalidade, sofreu pênalti, arriscou suas jogadas características partindo com a bola dominada partindo do lado esquerdo e desperdiçou algumas chances.

Está claro que não é um jogador pronto. Nem poderia aos 18 anos, a menos que fosse um daqueles fenômenos que surgem de tempos em tempos. Vinicius vai precisar de tempo para se adaptar ao jogo no mais alto nível europeu. Ainda erra muito por afobação nas tomadas de decisão. Mas a qualidade, o toque diferente está lá. O clube espanhol pagou 45 milhões avaliando o potencial do jogador, não pelo que já entrega em campo.

O problema é que só ele parece estar se ajudando. Com paciência, sem a ansiedade de fãs e imprensa, que se empolgam com qualquer drible ou gol bonito em treinamentos que são transmitidos para todo o mundo e se espalham pelas redes sociais. Alguns lá na pré-temporada criaram uma ilusão de que bastaria encaixá-lo na vaga do CR7 e o Real estaria pronto para seguir soberano no continente.

Não é assim que funciona. Vinicius Júnior era a peça desequilibrante do Flamengo que liderou o Brasileiro até a parada para a Copa do Mundo e faz uma falta enorme ao treinador Maurício Barbieri, mas o futebol jogado por aqui não é parâmetro. Talvez fosse melhor até emprestá-lo a um time de menor investimento na primeira divisão espanhola para que ganhasse minutos em partidas com nível de competição mais alto. Na terceira divisão já está virando alvo dos adversários, inclusive gerando protestos por “distorcer a competição”, como acusou o presidente do Cultural Leonesa.

Vinicius sabe que chegou cedo ao topo da carreira, vestindo a camisa do maior time da Europa e do planeta. Não tem pressa, quer aprender para se afirmar com maturidade. Lopetegui tem o direito de utilizá-lo quando bem entender e a concorrência com Bale, Isco e Asensio é pesada para o brasileiro. Mas um pouco de sensibilidade sempre ajuda.

O menino já tem os olhos do mundo voltados para si. Não precisa criar expectativas para depois frustrar os fãs e até alimentar os críticos que desconfiam das possibilidades do atacante promissor – no Brasil, aqueles que deram a Vinicius o absurdo apelido de “Neguebinha”. Ele só precisa de calma e confiança, já que conta com o principal:  talento e todo o tempo do mundo.


Pratas da casa têm participação direta em 60% dos gols do Flamengo
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André Rocha

Foto: Gilvan de Souza/Flamengo

O Flamengo marcou 28 gols no Brasileiro, sete na Libertadores e dois na Copa do Brasil. Total de 37. Destes, 22 foram marcados ou aconteceram completando assistências de jovens oriundos da base do clube. Os pratas da casa. Ou seja, 60%.

O Carioca não entrou na conta porque no início da competição o clube usou só a garotada e também porque, pela fragilidade dos adversários, ainda que o time não tenha sido campeão, os números ficariam “mascarados”. Vale o nível mais alto.

Vinícius Júnior marcou seis gols e serviu três passes para gols. Lucas Paquetá foi às redes cinco vezes e deu quatro assistências. Mais três de Vizeu, um de Matheus Sávio, outro de Matheus Thuler e o de Lincoln que garantiu o empate por 1 a 1 com o Grêmio em Porto Alegre pelas quartas de final da Copa do Brasil.

É evidente que todos são jogadores do Flamengo e no resultado final não há distinção entre quem é criado no clube e os contratados. Normalmente isto é até nocivo para o ambiente no elenco. Mas também é inegável que salta aos olhos os números dos meninos.

O Fla que equacionou dívidas e desde Paolo Guerrero em 2015 faz pelo menos uma contratação de impacto por temporada – Diego em 2016, Everton Ribeiro no ano passado e agora Vitinho, que fez sua estreia na arena gremista – tem precisado mais de seus jovens que o esperado.

Especialmente nos gols e assistências decisivas. Vinicius Júnior garantiu com duas conclusões cirúrgicas uma vitória fundamental para a classificação do Flamengo para o mata-mata na Libertadores: 2 a 1 sobre o Emelec em Guayaquil. Sua arrancada espetacular no Independência para servir Everton Ribeiro no 1 a 0 sobre o Atlético-MG também foi marcante. Sem contar o gol no empate contra o Vasco. Vizeu decidiu contra o Corinthians, Matheus Thuler empatou com o Palmeiras fora de casa. Matheus Sávio encaminhou o triunfo sobre o Botafogo com gol e o cruzamento que terminou no gol de Paquetá.

Em Porto Alegre, Lincoln evitou com finalização precisa no último ataque uma derrota que seria bastante doída. E injusta por conta da melhor atuação coletiva do Flamengo sob o comando de Mauricio Barbieri. Num jogo grande e fora de casa há bem mais tempo o time não rendia tanto. 58% de posse, 20 finalizações contra 14 do Grêmio. Trinta minutos dos 45 e mais os acréscimos do segundo tempo encurralando o campeão da Libertadores dentro da sua casa.

Mas de novo a dificuldade para transformar chances em gols. Mais uma vez um garoto salvou o time. Considerando que eles são minoria na maioria das partidas – só contra o Palmeiras contou com seis jovens oriundos da base na formação inicial – é um dado impressionante.

Ótimo para o clube, que forma, tem retorno técnico e financeiro, já que é inevitável perdê-los para os europeus. Mas fica uma pequena ressalva: os mais experientes e caros dentro de um dos elencos mais valiosos do país poderiam decidir mais e tornar o time de Barbieri ainda mais forte. Vizeu e Lincoln marcaram quatro gols, com o primeiro iniciando apenas um jogo como titular. Henrique Dourado, Guerrero e Uribe, começando bem mais partidas como titulares, conseguiram apenas oito. Entre as estrelas, o destaque é Everton Ribeiro com cinco gols e duas assistências.

Não é pouco, mas pode ser mais. O Fla tem mesmo que celebrar os frutos de mais investimento em estrutura e formação de talentos, porém deve cobrar também de suas estrelas. Na hora da dificuldade precisam assumir a responsabilidade e não apenas se limitar ao papel de coadjuvantes de luxo.

(Estatísticas: Footstats)

 

 


Vitinho é o ponta que o Flamengo procura desde 2017
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André Rocha

Desde o planejamento de 2017, ainda com o treinador Zé Ricardo, o Flamengo procurava um ponteiro com as características de Vitinho: rápido, com bom drible e finalizador. Orlando Berrío, a escolha na época, tem outro estilo. Quando Vinícius Júnior começava a amadurecer, foi para o Real Madrid. No último ano de mandato de Eduardo Bandeira de Mello, o clube abriu os cofres e, com um ano e meio de atraso, contrata junto ao CSKA a peça que faltava.

Veja a análise, inclusive com uma possível variação tática, no vídeo abaixo:


Flamengo comprova sua força, Palmeiras segue na “montanha russa” de emoções
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André Rocha

O Flamengo sem seus três zagueiros experientes e também o lesionado Diego claramente sentiu a pressão do ambiente nos primeiros minutos no Allianz Parque. O treinador Mauricio Barbieri também sacou Henrique Dourado para aproveitar Filipe Vizeu o máximo de minutos antes da partida para a Udinese. O resultado foi um time bastante jovem, com seis oriundos das divisões de base. Por isso, assustado nos primeiros vinte minutos.

Mas quem errou foi Rodinei, que tinha várias opões para cortar um cruzamento da direita e tomou a pior decisão: um golpe de cabeça fraco, no pé de Dudu. Longe do adversário, deu espaços para o cruzamento que encontrou Bruno Henrique e deste para Willian ir às redes aos seis minutos.

Um time confiante e seguro teria amassado o líder do campeonato até os 15 minutos. O Palmeiras, também com desfalques importantes, até tentou, pressionando muito Lucas Paquetá, que novamente prendeu demais a bola, e atacando com volume, fazendo Diego Alves trabalhar muito. Mas quando a equipe de Roger Machado é obrigada a diminuir a pressão o time controla mal o jogo. Murcha. E a torcida, que também não confia muito, deixa a arena morna.

Foi o suficiente para que o organizado time de Barbieri, novamente no 4-1-4-1, encontrasse no lado direito com Rodinei e a aproximação de Jean Lucas a válvula de escape, enquanto Everton Ribeiro passou a aproveitar os espaços às costas de Felipe Melo e Bruno Henrique, os volantes do 4-2-3-1 alviverde, que estavam muito concentrados em não dar brechas a Paquetá.

O primeiro tempo terminou com 53% de posse do Fla e seis finalizações, quatro na direção da meta de Jailson. Destaque para o Palmeiras nos 12 desarmes certos, o dobro do adversário. Foi o que sustentou a vantagem.

De novo a intensidade e a torcida quente no início do segundo tempo. Mas foi esfriando, esfriando…E o Flamengo tomou conta. Empatou no gol do jovem zagueiro Matheus Thuler subindo mais que Thiago Martins pregado no chão e completando escanteio de Rodinei. Podia ter virado não fosse o individualismo de Paquetá e um chute fraco sem goleiro de Vinícius Júnior, novamente disperso e reclamando muito da arbitragem. Ainda uma finalização perigosa de Everton Ribeiro.

Na reta final, Barbieri preferiu administrar o empate. Trocou Arão por Jean Lucas, depois tirou Vizeu e colocou Marlos Moreno para tentar acelerar os contragolpes e, por fim, Jonas na vaga de Everton Ribeiro. Roger tentou com Lucas Lima, Artur e Papagaio, mas apenas num abafa sem grande criatividade. Time muito tenso com o peso da responsabilidade. Terminou com mais finalizações – 14 a 13, cinco no alvo. Mas a maioria muito deficiente, inclusive de Bruno Henrique livre na entrada da área rubro-negra. Saiu bem longe.

Nos acréscimos, a confusão geral que terminou nas expulsões de Jailson, Dudu e do zagueiro reserva Luan do lado do time mandante e Cuéllar, Jonas e Henrique Dourado, também no banco, pelos visitantes. Desnecessário. Mas o fraquíssimo árbitro Bráulio da Silva Machado não teve peito para dar mais minutos com Moisés na meta alviverde.

O Fla também não reclamou. O empate foi resultado satisfatório, fechando os primeiros 12 jogos com surpreendentes 27 pontos para o contexto do início do Brasileiro. Pelos desfalques, o time demonstrou solidez e consciência. Faltou contundência. Algo a melhorar na volta, sem Vizeu e, provavelmente, Vinicius Júnior.

O Palmeiras segue com oito pontos de distância para o líder. Podia ser pior pelo que aconteceu na partida. A missão de Roger e de todos no clube é aproveitar a pausa pra a Copa do Mundo e tentar estabilizar o time mentalmente e minimizar a “montanha russa” emocional que torna tudo tão incerto e inconstante.

(Estatísticas: Footstats)


Flamengo 1 x 1 Vasco – Mais um clássico estragado pelo clima de guerra
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André Rocha

Aconteceu de novo. 40 faltas, muita reclamação desnecessária com arbitragem. Nervos à flor da pele e pouco, muito pouco futebol.

Desta vez foram Flamengo e Vasco os protagonistas deste espetáculo deprimente no Maracanã. Cada vez mais frequente. E certamente depois da partida só vão falar do trabalho da equipe comandada por Ricardo Marques Ribeiro. Ruim ao longo do jogo, desde o impedimento de Diego na origem da jogada que terminou na finalização de Everton Ribeiro e Vinicius Júnior abrindo o placar ao aproveitar falha de Martín Silva, que deu rebote de um chute nem tão forte. Confuso nos critérios para as expulsões de Rhodolfo, Cuéllar, Breno e Riascos na confusão do final do jogo.

Mas os jogadores em nada colaboram. Toda hora alguém pedindo cartão para faltas normais, fazendo escândalo se discordar de uma marcação. Criando um clima de pressão que só prejudica a partida. Futebol é detalhe. O jogador entra em campo com a obrigação de fazer tudo para que o torcedor não o considere apático. Entrada dura, carrinho para a lateral batendo no braço, chutões. Um jogo só sentido, nada pensado.

Uma lástima. O Flamengo até tentou tomar a iniciativa em boa parte do jogo, repetindo a ideia de jogo com mais trocas de passe e bola no chão desde que Mauricio Barbieri assumiu, ainda interinamente. Apesar do início ruim e das quatro finalizações do rival até a sua primeira ir às redes. Mas logo em seguida vacilar na jogada aérea e permitir o empate vascaíno com Wagner. Diferente de outras partidas, desta vez Diego foi bem e Lucas Paquetá mal. No saldo final, 63% de posse e oito finalizações. Apenas três no alvo.

Contra 15 do time de Zé Ricardo, que acertou sete vezes na direção da meta de Diego Alves. Novamente mostrando no clássico a consistência defensiva que não apresenta em outros jogos na temporada. Yago Pikachu travou bom duelo com Rodinei e Breno mostrou novamente que é o zagueiro mais confiável do elenco cruzmaltino. Ou dos que o treinador utiliza, já que o jovem Ricardo Graça segue escanteado.

Pelo menos não houve nada mais grave nas arquibancadas e foi um alento ver a área ocupada pelas duas torcidas juntas em paz. Mas ninguém mereceu sair com os três pontos. Até para não deixar o campo com a crença de que esses artifícios compensam. Não foram só dois pontos perdidos para cada lado, mas a chance desperdiçada de mostrar desempenho. Futebol. No apito final sobra muito pouco, quase nada.

Qual será o próximo clássico no Brasil estragado pelo clima de guerra?

(Estatísticas: Footstats)

 


Flamengo nas oitavas da Libertadores com boa atuação para superar o trauma
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André Rocha

É obrigatório contextualizar a situação do Flamengo para analisar a atuação da equipe na vitória por 2 a 0 sobre o Emelec no Maracanã. Valia vaga nas oitavas da Libertadores depois de três eliminações seguidas e vexatórias na fase de grupos.

A última traumática, no ano passado, para San Lorenzo e Atlético Paranaense. Ostentando com alguma sobra o maior orçamento do grupo, que ainda tinha a Universidad Católica. Vencendo o time chileno na despedida do Maracanã e saindo na frente com o gol de Rodinei no Nuevo Gasometro. Virada na Argentina e o Atlético vencendo no Chile. Misto de incompetência e muita falta de sorte.

Tudo isso foi levado para o Maracanã cheio. Com a massa apoiando, mas a tensão sendo transferida de dentro para fora do campo. Era obrigatório vencer um adversário que também precisava dos três pontos para seguir vivo. Se deixasse para definir no Monumental de Nuñez contra o River Plate as chances diminuiriam drasticamente.

Dito isto, por tudo que envolveu o jogo, a atuação do time de Mauricio Barbieri pode ser considerada boa. Por incrível que pareça, o treinador com menos grife e experiência consegue o que parecia impossível: combinar as características dos jogadores.

Rodinei é o lateral de ataque, de buscar o fundo. Renê segura mais e vai se especializando no trabalho defensivo. Tanto no um contra um como no posicionamento, fazendo diagonais de cobertura cada vez mais precisas. Desce na boa e dá liberdade a Vinicius Júnior para buscar jogadas individuais e infiltrações em diagonal. E o garoto ganha cada vez mais confiança e vivência entre os profissionais.

No meio-campo, Cuéllar protege, mas também passa. Lucas Paquetá faz tudo, embora ainda erre na circulação da bola prendendo muito em momentos inadequados. Mas se multiplica como o segundo homem de suporte ao volante na contenção e dos meias na articulação.

Everton Ribeiro merece um parágrafo à parte. Ou dois. O meia finalmente se encontrou em campo e passou a ter as companhias que precisa: do lateral passando no corredor quando ele corta da direita para dentro com a canhota e de um colega dando opção para tabela ou entrando exatamente no espaço deixado pelo ponta que vem para dentro. Com jogadores para dialogar no passe curto e não nos toques sem ideias buscando o lado para os cruzamentos seguidos, o futebol do camisa sete cresce demais.

Os gols da vitória foram a cereja do bolo de uma atuação que só não foi perfeita por um vacilo na saída e a perda da bola que gerou um contragolpe do Emelec que só não causou estragos pela presença de Rever. Este sim, numa noite sem erros e consertando vários equívocos dos companheiros. Perdendo Juan, que colocou duas bolas nas traves, no final do primeiro tempo e transmitindo segurança a Leo Duarte na segunda etapa.

Diego alternou passes de primeira que aceleraram ataques para Vinicius Júnior e a insistência em reter a bola e atrasar a transição ofensiva. Barbieri pode insistir para que ele recue menos e se posicione mais como um companheiro na frente de Henrique Dourado.

O centroavante é que destoou mais uma vez. Simplesmente não consegue dar sequência às jogadas e peca pela ansiedade na hora de finalizar – impressiona o contraste com a incrível segurança na cobrança de pênaltis. A ampliação da suspensão de Paolo Guerrero de seis para 14 meses é um duro golpe para o Fla. Com este ajuste crescente nas peças e mais volume de jogo a tendência era o peruano acrescentar muito com sua técnica e movimentação. Dourado terá que compensar com posicionamento e precisão no último toque. Faltou mais uma vez.

Vale a classificação antecipada, ainda que com sofrimento. Compreensível pelo histórico recente. Era preciso quebrar a barreira e a missão foi cumprida. A tarefa agora é seguir evoluindo, ganhar consistência. Com o jovem Barbieri, mesmo com seus erros normais de “pato novo”, parece haver uma luz mais à frente. Um rumo. No Flamengo do final da gestão Bandeira de Mello isto não é pouco.

 

 


Vitória da Chape é mais uma prova do mito do “elenco forte” no Flamengo
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André Rocha

Maurício Barbieri foi corretíssimo ao descansar alguns titulares na Arena Condá pensando na decisão contra o Emelec no Maracanã pela Libertadores. Os sinais de desgaste já tinham ficado claros no empate contra a Ponte Preta que valeu a classificação para as quartas de final da Copa do Brasil.

Mas poupar significa enfraquecer um Flamengo que novamente deu provas que, na prática, tem o cobertor bem curto na qualidade do elenco. Mesmo com alto investimento em reforços e nas divisões de base.

A começar por Trauco, de volta à lateral esquerda e reforçando suas virtudes e seus defeitos. O peruano que deve estar na Copa do Mundo tem bom passe e acertou duas assistências para os dois gols do Fla. Guerrero, o primeiro na volta da suspensão por doping aproveitando falha grotesca do goleiro Jandrei, e Vinicius Júnior, que saiu do banco para contribuir com seu talento para que uma equipe naturalmente desorganizada pelas mudanças pudesse se impor mais uma vez através de lampejos.

Mas defensivamente é um desastre. Pior ainda sem o devido auxílio na recomposição de Marlos Moreno, outra contratação que até aqui não trouxe respostas em campo. Apodi e Guilherme voaram pelo setor do peruano. Inclusive no lance do único gol do primeiro tempo, de Canteros completando assistência do lateral veloz.

Sem Paquetá e Cuéllar, o meio-campo teve poder de marcação com Jonas e condução de bola com Diego e o jovem Jean Lucas, mas quase nada de circulação de bola através dos passes. Muito menos criatividade. Por isso Trauco acabou aparecendo com dois passes para gols.

Para piorar, o titular Juan acabou falhando também, na saída de bola que terminou no pênalti bastante discutível de Jonas que Guilherme sofreu e converteu em bela cobrança. Pareceu mais disputa por espaço que falta. Mas não dá para colocar a derrota por 3 a 2 na conta do árbitro Leandro Vuaden.

Porque Barbieri resolveu poupar Diego Alves para dar minutos a César, que acabou surpreendido pelo toque de Leandro Pereira, o substituto do suspenso Wellington Paulista, e com o pé colocou para dentro da própria meta nos minutos finais. Outra falha individual para a Chapecoense encerrar com vitória sobre o ainda líder uma sequência de quatro empates na temporada.

Mais uma prova de que a ideia de que o Flamengo tem elenco robusto para dividir esforços ao longo da temporada não passa de um mito. Se fica difícil combinar características e extrair qualidade no jogo coletivo com todos disponíveis, imagine mesclando titulares e reservas.

Sobreviveu na Copa do Brasil, manteve a liderança do Brasileiro pelo saldo superior a Corinthians e Atlético Mineiro e joga a tão desejada classificação para o mata-mata do torneio continental na quarta. Mas com um grupo de jogadores tão desigual e heterogêneo é difícil vislumbrar aonde pode chegar um dos maiores orçamentos do país que não consegue ser consistente na temporada.

Resta à maior torcida do país rezar para “São Paquetá” seguir tirando coelhos da cartola. Sem ele, o Flamengo não passa de um time bem comum.