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Ingenuidade árabe é a primeira surpresa da Copa. Melhor para a Rússia
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André Rocha

Juan Antonio Pizzi, campeão da Copa América Centenário com o Chile em 2016, fez treinadores idealistas como Paco Jémez, Juan Manuel Lillo, Zdenek Zeman e o nosso Fernando Diniz parecerem pragmáticos na abertura da Copa do Mundo.

Sua Arábia Saudita contrariou todas as previsões de seleções menos tradicionais e jogando como “zebras” fechando espaços com linha de cinco atrás e muita gente protegendo a própria área. Ainda que já tivesse apresentado ao mundo a proposta de tentar jogar. Adiantou os setores e fez saída “lavolpiana” com o volante Abdullah Otayf recuando para auxiliar os zagueiros no início da construção do jogo.

Mas que jogo? As limitações técnicas saltavam aos olhos. Seria como se em 1999 Vanderlei Luxemburgo escalasse na seleção brasileira os “zagueiros-zagueiros” Odvan e João Carlos e o “volante-volante” Nasa do Vasco para trocarem passes e os demais jogadores no campo adversário esperando a bola chegar. Suicídio.

Melhor para a Rússia, insegura como anfitriã e tensa numa estreia do Mundial que sedia. A equipe de Stanislav Cherchesov, numa variação básica do 4-2-3-1 para as duas linhas de quatro sem bola, foi ganhando confiança nos muitos erros dos árabes e, principalmente, com o gol de Gazinsky logo aos 11 minutos.

Cheryshev, que substituiu o lesionado Dzagoev aos 22 minutos, aproveitou bem os espaços deixados entre os setores adversários para marcar dois gols. Mário Fernandes, o brasileiro naturalizado, teve algum trabalho na defesa com Al Dawsari e Al Faraj, mas mostrou a habitual desenvoltura nas descidas ao ataque aproveitando todo o corredor direito.

E a Arábia tentando jogar num 4-1-4-1 que sacrificava Otayf sozinho na proteção de uma defesa escancarada. Uma seleção mais qualificada teria feito mais que os 5 a 0 – como, por exemplo, o Uruguai de Cavani e Suárez. Mas para os russos os gols de Dzyuba e Golovin foram motivos para muita festa e algum otimismo para a luta pelas duas vagas do Grupo A.

Porque os árabes e Pizzi mostraram que ainda existe bobo no futebol. A ingenuidade foi a primeira grande surpresa da Copa de 2018.


Não é a derrota de Fernando Diniz, mas a vitória de Abel Braga
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André Rocha

Foto: Lucas Merçon/Fluminense FC

Quando se contrata Fernando Diniz você compra uma ideia. Que precisa de tempo. Para aperfeiçoar os métodos, adaptar melhor o elenco à proposta de jogo e trabalhar as divisões de base para que o jovem entre no time profissional já sabendo o que fazer. O próprio treinador também necessita de vivência para aprimorar sua visão, o feeling. Como em qualquer ofício. É da vida.

A mágica no futebol é raríssima. O Barcelona de Guardiola vinha de Johan Cruyff, mas também do antecessor Frank Rijkaard. A combinação das escolas holandesas e espanholas apenas ganhou atualização e novos elementos. E havia material humano para executá-la com excelência. O mesmo para a origem, a Holanda de 1974. Rinus Michels reuniu o que se fazia no Ajax e no Feyenoord e deu ênfase à intensidade e a um movimento radical: o “arrastão” com todos correndo na direção da bola ao mesmo tempo para roubar e partir com superioridade numérica ou deixar um ou mais adversários em impedimento.

Diniz só não pode entrar na roda viva do futebol brasileiro, condicionada apenas a resultados imediatos. Se for para ser assim é melhor nem contratar. Ou abraça o projeto acreditando ser possível criar uma identidade e lá na frente fazer história ou entra no bolo da tentativa e erro.

Mas há jogos e jogos. E os 2 a 0 aplicados pelo Fluminense no Maracanã sobre o Atlético Paranaense foi o do espetáculo através do contragolpe. Este movimento tão incompreendido. Ou visto de uma forma até contraditória. Se é praticado por um time sem estrelas ou de um treinador com discurso mais pragmático é tratado como único recurso para compensar as limitações técnicas.

Por outro lado,caso o time conte com craques ou venda uma imagem de “jogo bonito” eles entram no pacote do “espetáculo”. Como os muitos do Manchester City campeão inglês de Guardiola. Ou os vários do Brasil de 1970, no calor do México aproveitando a preparação física realizada com muita antecedência e métodos modernos para a época. Mas confundem com “magia”.

O time de Abel Braga empilhou contragolpes. Uma goleada não teria sido nenhum absurdo no universo de treze finalizações, seis no alvo. Duas nas redes com Jadson concluindo e Thiago Heleno fazendo contra e depois Marcos Júnior. O Atlético finalizou 16, mas apenas três na direção da meta de Julio César. Com 66% de posse.

O detalhe que passa despercebido por quem olha os números e interpreta como domínio do time visitante é que a proposta de negar espaços e aproveitar os cedidos pelo oponente visa dificultar as finalizações “limpas”. Com liberdade. E usar a velocidade na transição ofensiva para criar as chances cristalinas.

E nisto o Flu foi preciso, até pelo maior tempo de trabalho. Um 5-4-1 organizado, com linhas próximas e estreitando a marcação no setor em que estava a bola. Alternando marcação no próprio campo com a adiantada para dificultar a construção da equipe de Diniz desde a defesa.

Bola retomada, saída rápida e com muita gente. E o mérito de Abel no Flu é privilegiar quem sabe jogar. Jadson e Richard são volantes com passes rápidos e certos, os alas Gilberto e Marlon descem com vigor e confiança, mas também técnica. Sornoza é o organizador, Marcos Júnior é o típico ponteiro ligeirinho que corre mais que pensa, mas dá sequência aos ataques e tem momentos de lucidez. Assim como Pedro vai evoluindo e mostrando não ser apenas o tradicional centroavante rompedor.

Nada muito sofisticado, até porque o orçamento tricolor não permite. Mas a proposta é voltada para o ataque, sempre. Mesmo que seja reagindo à iniciativa do adversário. E fica mais fácil quando se sabe o que o oponente vai fazer. O grande risco das ideias de Diniz sem o modelo bem assimilado e jogadores capazes de surpreender na jogada individual é a previsibilidade. Não há surpresa. O time terá a bola, ocupará o campo de ataque e trocará passes até encontrar uma brecha.

Pior ainda com uma recomposição lenta e sem defensores rápidos nas coberturas. Se transforma num convite aos rivais. Não por acaso as cinco derrotas seguidas. Ajustes imediatos são necessários, sem abrir mão dos princípios. Insistir apenas por “filosofia inegociável” será pouco inteligente, para dizer o mínimo.

Assim como é obtuso não reconhecer os méritos de quem faz um jogo potencializando virtudes e explorando as deficiências do adversário. Questão de lógica pura e simples. Porque o objetivo deste esporte que tanto amamos não mudou: colocar a bola na rede e vencer fazendo mais gols que o outro time. Há maneiras e maneiras de conseguir este intuito. Tolo é quem acredita nos que vendem a ideia de que só há uma. Ou a mais “nobre”.

Até Guardiola, ícone e referência dos defensores do jogo de posse como o “Santo Graal” do esporte,  já entendeu que é preciso ser “camaleão”, jogar por demanda, de acordo com o que pede o confronto. A especialidade do Real Madrid de Zinedine Zidane que pode ser tricampeão europeu e do mundo. Que também não surgiu por mágica. Veio da semente de Carlo Ancelotti e da manutenção de uma base.

Diniz é jovem na função e vai aprender. Pode e deve tirar lições, inclusive de Abel Braga.  O veterano treinador é que foi o grande vencedor na noite da beleza do contra-ataque no Maracanã.

(Estatísticas: Footstats)

 


Grêmio e Atlético-PR: um zero a zero para só se falar de futebol
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André Rocha

A maior prova de respeito do Renato Gaúcho campeão da América por Fernando Diniz e seu Atlético Paranaense foi o Grêmio completo, concentrado e repetindo a marcação implacável no campo de ataque da final da Libertadores contra o Lanús.

Só assim para impor a superioridade de quase dois anos de trabalho do atual treinador. Mais de três se pensarmos em um estilo que veio com Roger Machado e ganhou polimento, consciência e objetividade com Renato. Não porque Diniz seja um gênio ou mago. Apenas quer seu time jogando futebol durante noventa minutos, em qualquer estádio.

A atuação mais consistente do time que pratica o melhor futebol do país terminou sem gols, apesar das 20 finalizações – apenas seis na direção da meta do goleiro Santos. O Atlético Paranaense se recuperou na segunda etapa e só não impôs mais dificuldades pela expulsão de Camacho.

Com inferioridade numérica e atletas já desgastados por uma disputa intensa, Diniz não foi romântico nem suicida. Priorizou o ponto na Arena do Grêmio. Porque isso faz parte do futebol competitivo. Assim como a revolta pela primeira etapa de domínio absoluto do adversário. E certamente o discurso de Renato exaltando o grande jogo seria bem diferente se fosse numa partida de ida de um mata-mata sem gol qualificado, por exemplo. O pragmatismo também faz parte do jogo. Só não precisa ser o elemento único.

Algumas ideias básicas precisam ser resgatadas no Brasil. A primeira é de que a busca por um futebol ofensivo, capaz de envolver o adversário e chegar à meta do oponente nada tem de romântico ou idealista. Muito menos é algo condicionado a quanto o clube pode gastar contratando os mais valiosos jogadores. Ou seja, um privilégio das potências europeias. É apenas uma das muitas formas de se praticar o esporte bretão e buscar o objetivo final que é a vitória. Com suas virtudes, defeitos e riscos.

Diniz vai um pouco além, quer seus jogadores resgatando aquele prazer original de ter a bola e se divertir dentro da responsabilidade de um trabalho. Algo que tantos fazem nas mais diversas atividades humanas em todo o planeta. E está provado que o rendimento aumenta exatamente quando no exercício profissional o indivíduo nem lembra que é pago para fazer aquilo. Faria até de graça se não tivesse contas para quitar.

Um contraponto nesse ambiente em que parece que tudo tem que ser sofrido. Nesta mesma segunda rodada do Brasileirão tivemos um clássico nacional entre Palmeiras e Internacional no Pacaembu. Gol único de Dudu no primeiro tempo. Celebração? Para o jogador não havia clima para isto diante de tanta tensão e cobrança. O momento máximo do mais emocionante dos esportes não passava de uma obrigação. Onde estava o prazer?

A mentalidade imediatista e que trata o resultado como um fim em si mesmo dificulta o entendimento de que o jogo é um processo. Eventualmente acontece num clique, na reunião e identificação imediata dos talentos. Também é possível vencer trabalhando mal e na base do sofrimento. Mas o que o Grêmio consegue fazer não se constroi de uma hora para outra. O Atlético está no início de sua trajetória.

Precisa ter margem de erro para o aprendizado e a correção. No Brasil parece um pecado mortal. A urgência é tão grande que se o time gaúcho tivesse vencido por um a zero com o chute de Luan no primeiro tempo que parou no travessão depois de um equívoco na saída de bola atleticana para muitos já seria motivo para demitir Diniz. A perda de um ponto dentro de um campeonato com 38 rodadas é mais importante que a consolidação de um modelo de jogo que pode render mais vitórias e pontos lá na frente. Que já conquistou quatro em duas rodadas.

Talvez por isso o zero a zero. Para que seja lembrado apenas pelo futebol praticado. Sem a arbitragem ou qualquer outra questão periférica como protagonista. Onde os desenhos táticos foram quase irrelevantes diante da dinâmica, da mobilidade e também da simplicidade de alguns movimentos que mostraram o óbvio: se um companheiro dá opção, o passe fica mais fácil. E passando o time progride em direção à meta adversária de forma mais coordenada. Não precisa ser gênio, nem craque. Apenas querer e saber fazer.

A partida parou pouco e o tempo passou rápido para quem assistiu com olhos de ver. Sem a ânsia do gol. Do “jogaço” em que não há uma bola na rede como consequência de jogada construída. Para muitos, se houver oito gols, quatro para cada lado, marcados de forma aleatória, na ligação direta ou na furada grotesca do zagueiro é o que vale. Legítimo apreciar apenas a emoção instantânea do futebol. Extrair só a adrenalina.

O que se pede aqui não é unanimidade nem ditadura de uma maneira de jogar. Há várias e todas com seu valor. O post só espera respeito à essência do esporte que é o jogo. O que Grêmio e Atlético Paranaense praticaram com excelência em Porto Alegre. Mesmo sem os maiores orçamentos do país. Mesmo sem bolas nas redes.

(Estatísticas: Footstats)


Fernando Diniz e a República do feijão com arroz
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André Rocha

Foto: Divulgação/Atlético Paranaense

Fernando Diniz foi tema na semana que passou por deixar o Guarani, depois de iniciar um projeto de reformulação no departamento de futebol, e aceitar a proposta do Atlético Paranaense. Havia uma cláusula de liberação no contrato com o clube de Campinas caso recebesse uma proposta de um time da Série A. O que o blogueiro pode dizer é que se fosse o treinador não pediria a cláusula e se fosse dirigente do Bugre não aceitaria.

Mas fora a questão ética, a chegada de Diniz a um time da primeira divisão, com um título brasileiro em sua história, reabriu a discussão sobre as possibilidades do técnico de estilo personalíssimo que chamou atenção do país com o Audax vice-campeão paulista em 2016. Muito ceticismo e o velho temor de que não transforme sua visão de futebol em resultados.

Este que escreve teve contato direto com Diniz apenas uma vez, em um evento. Participamos da mesma dinâmica de grupo. Superficialmente pareceu um profissional com ideias claras e preocupação com todos os aspectos do esporte, inclusive a dimensão humana. Mas em suas entrevistas dá a impressão, que pode estar equivocada, de não ter os conceitos bem claros em termos de metodologia para colocá-los em prática. Sem contar o relacionamento um tanto tenso com seus comandados. Aspectos que podem melhorar com o tempo e a maturidade, obviamente.

O maior estigma que carrega, porém, é o da ousadia. De buscar o novo. Conviver com o risco. No futebol brasileiro, isto significa enfrentar uma resistência quase intransponível. Porque vivemos na República do feijão com arroz.

Nossa cultura no esporte sempre se baseou no talento e na simplicidade. Cada jogador em sua posição e bola para os craques decidirem. Goleiro defende com as mãos, zagueiros tiram a bola da área, laterais correm, volantes marcam, meias criam, pontas driblam e vão à linha de fundo e o centroavante faz o gol.

Até hoje há quem não entenda o ponta marcar lateral. Ora, foi o nosso futebol que criou essa necessidade! No dia que um lateral apoiou e, junto com o ponta, fez dois contra um adversário apenas, o ponteiro precisou recuar para ajudar. Questão matemática e lógica. Zagallo e Telê Santana foram os primeiros “falsos pontas” e o conceito ganhou o mundo com a Inglaterra em 1966 recuando Ball e Peters, um em cada flanco, para formar o típico 4-4-2.

Além do conservadorismo, o desprezo pelo novo vem do nosso resultadismo insano. Todo jogo é fundamental, decisivo e tem que ser vencido. Contra o pequeno no estadual não pode perder porque o rival vai disparar na liderança. Nos clássicos nem pensar. No Brasileiro de pontos corridos todo jogo é importante e nas competições de mata-mata o caráter eliminatório torna tudo ainda mais tenso.

Ai do goleiro que tentar sair jogando com os pés e errar, do zagueiro que tentar um passe mais complexo. Ai do treinador que mudar a função de um atleta e este não for bem, algo que pode acontecer na sua posição original por uma infinidade de motivos.

Nunca há espaço para experiências, testes, amadurecimento de uma maneira de jogar. Tem que vencer. E aí surge uma outra lógica simplista: se a equipe tem craques ou jogadores mais qualificados que os rivais joga no ataque. Senão fecha a casinha e ganha “na tática”.

Tática que no Brasil ainda é sinônimo de “camisa de força”. De um recurso para quem não tem talento. Voltemos a 2012. Nos confrontos entre Corinthians x Santos pela Libertadores como a mídia trabalhou os jogos? Era Neymar contra Tite. A estrela de um lado e o time organizado pelo treinador do outro. Como se um não tivesse qualidade e o outro só necessitasse de um lampejo do mais talentoso para vencer.

Brasileiro, em geral, acredita que só é preciso ter organização para defender. Na hora de atacar fica tudo por conta da intuição dos jogadores. No máximo uma ou duas jogadas ensaiadas, na maioria das vezes na bola parada. Por isso a dificuldade de infiltrar em sistemas defensivos que cada vez mais negam espaços.

Ainda assim a opção quase sempre é pelo simples. Repare nos elogios que são feitos aos auxiliares que viram interinos/efetivos ou do treinador, mesmo renomado, assim que assume um time: “não inventou como o antecessor” é quase invariável quando as vitórias acontecem – normalmente por uma mera questão motivacional, o tal “fato novo”.

O treinador não conhece o elenco, não teve tempo para treinar. O que vai fazer? Só pode simplificar. Mas não pode ser assim sempre. O trabalho precisa evoluir, ganhar nuances, variações. O jogador tem que crescer junto com a equipe, ficar mais versátil. Progredir.

A maioria não quer. “Time que está ganhando não se mexe”, “o torcedor tem que saber de memória a escalação” e outras máximas que não cabem mais no futebol em 2017. Mas há uma enorme negação ao novo. Desde as mudanças nas regras até a maneira de se jogar.

Por isso tantos torcem o nariz para Guardiola. Até porque “o que um espanhol tem a ensinar ao futebol cinco vezes campeão do mundo?” Se manter no topo sem aprender, reciclar e atualizar é utopia e o Brasil vem pagando caro por esta visão curta, obtusa.

Fernando Diniz vai para o olho do furacão (sem trocadilho). Já será visto com má vontade por muitos pela maneira como chegou ao Atlético. Mais ainda por tentar quebrar paradigmas. A cada erro na saída de bola, a cada gol sofrido no contragolpe por adiantar seu time e valorizar a posse de bola terá que encarar o sorriso cínico e o deboche de quem quer as coisas sempre nos mesmos lugares.

O futebol é o esporte mais apaixonante do planeta por ser simples e poder ser praticado por qualquer um, sem exigência de peso, altura, impulsão…Mas profissionalismo não é pelada. Tem que avançar. A visão conservadora é pouco inteligente e, na prática, funciona como uma bigorna amarrada às pernas. Tudo que o país que já foi referência e parou no tempo não precisa.

Já passou da hora de temperar melhor esse feijão com arroz. O problema é convencer os que acham que vão “gourmetizar” o nosso jogo sem entender que a evolução é irreversível. Quem estacionar será atropelado. Simples assim.


São Paulo não perdeu para qualquer um e ideias de Ceni precisam de tempo
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André Rocha

Por maior que Rogério Ceni seja para o São Paulo, sua história como técnico é uma página em branco que começa a ser escrita.

Talvez fosse mais simples começar em uma equipe menor ou nas divisões de base. Já que resolveu começar no clube que o tem como maior ídolo, a proposta de jogo poderia ser mais simples, partindo do básico para o mais complexo.

Mas Ceni é ambicioso, como sempre foi na carreira como goleiro-artilheiro. Quer muito e já. O São Paulo resolveu investir no projeto e agora vai precisar de paciência, mesmo em um cenário de seca de títulos e ansiedade do torcedor.

Porque não é fácil se colocar como protagonista nas partidas. Adiantar linhas, trocar passes, empurrar o adversário para trás, criar espaços. É uma escolha que, como qualquer outra, corre riscos. Ainda mais num início de trabalho.

Pior ainda quando encara uma equipe organizada por um treinador que não abre mão de jogar. O Audax de Fernando Diniz qualifica a saída de bola com o recuo de Pedro Carmona e Léo Arthur e envolve na frente com muita movimentação do trio ofensivo e laterais espetados, chegando à frente com velocidade e muita gente.

Letal para Douglas e Buffarini perdidos pela esquerda e expostos pela lenta recomposição. Muito por conta da qualidade do adversário para sair da defesa para o ataque. Porque a premissa da proposta de Ceni é pressionar na frente para quebrar o passe. Coisa que Chávez, Luiz Araújo, Cueva e Wellington Nem, depois Cícero, não conseguiram.

Só com o recuo natural do Audax depois de abrir 2 a 0 em oito minutos com Marquinho e Carmona é que o tricolor paulista ganhou volume e poder de reação. Com Cícero na vaga de Nem, a bola passou a transitar mais pelo meio e encontrou Chávez duas vezes para empatar.

Na segunda etapa a diferença foi a competência da equipe de Fernando Diniz na bola parada com o gol de Felipe Rodrigues. O São Paulo reagiu com João Schmidt na vaga de Douglas, com Rodrigo Caio recuando para a zaga.

Depois Gilberto entrou na vaga de Chávez e aí Ceni teve que abrir mão de sua ideia e partir para uma espécie de “Muricybol” dos seus tempos de tricampeão brasileiro, despejando bolas na área adversária. Muito pelo cansaço de sempre correr atrás do resultado.

Também porque é preciso refletir sobre o contexto brasileiro na hora de pensar num modelo de jogo. O calor e os gramados desgastam mais quem joga na base de pressão e movimentação para criar espaços. Intensidade, porém com pausas de controle de jogo com posse de bola e uma marcação mais compacta no próprio campo.

O São Paulo foi superior na posse (55%) e teve mais que o dobro de finalizações – 27  a 12, dez a sete no alvo. Mas morreu no pênalti em Gabriel Leite que Carmona converteu. De qualquer forma, os 4 a 2 na Arena Barueri não são o fim do mundo, nem razão para Rogério Ceni mudar tudo e rasgar sua proposta, que não é simples. A fase é de aprendizado. Do time em relação à nova forma de jogar e do treinador na nova função. Precisa de tempo.

Acima de tudo, fazer algo tão raro por estas bandas: reconhecer os méritos do vencedor. O Audax foi superior e Fernando Diniz é um técnico mais pronto, que vai aprendendo com os erros sem abrir mão de sua filosofia. Em um país menos conservador quando o assunto é futebol já teria oportunidade num clube de maior investimento.

O São Paulo acreditou em Ceni. Só que a fase dos milagres na meta fazem parte do passado. O comandante ainda não está pronto.

(Estatísticas: Footstats)

 

 

 

 

 


Nos pênaltis, Tite ganha asterisco e Fernando Diniz vira gênio
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André Rocha

Uma enorme incoerência de nós, analistas, é clamarmos por novidades no futebol brasileiro, reclamarmos do imediatismo e do foco apenas no resultado dos nossos treinadores.

Mas quando surge um jovem técnico propondo algo novo, ou alinhado ao futebol atual mesmo numa equipe de menor investimento, exigimos que funcione logo nas primeiras tentativas, somos cruéis com o erro e condenamos na derrota. Respeitamos pouco o tempo.

Fernando Diniz não é Pep Guardiola. Nem tem o catalão como grande referência. É um técnico que quer apenas se sentir realizado com seu trabalho e ver os jogadores competindo, mas também se divertindo em campo. Psicólogo, sabe que errar faz parte do processo.

O modelo de jogo é uma escolha, não receita de bolo. Quem prefere construir desde a defesa corre riscos com a pressão do adversário no próprio campo. Mas se ultrapassar essa marcação, a chance de chegar na frente com igualdade ou superioridade numérica é considerável.

Optar pela ligação direta é arriscar o duelo do atacante de costas contra o defensor de frente. Se não ganhar o rebote, o oponente volta a ficar com a posse. Cansa mais, física e mentalmente. O jogador, em tese, gosta da bola.

O Audax prefere rodar a pelota. Mesmo que o goleiro Sidão se complique na reposição e os zagueiros errem passes eventualmente. Jogar é risco. Viver é arriscar. Mas pode dar prazer.

Dá gosto ver o time de Fernando Diniz. Trocas de posições, funções e desenhos táticos. Algumas ligações diretas para quebrar o estereótipo. Jogo bonito nos golaços de Bruno Paulo e Tchê Tchê na Arena do Corinthians. Com espaço para o pragmatismo e o estudo do adversário: Juninho e Bruno Paulo ajudando Velicka no combate a Fagner, que sentiu a ausência de Giovanni Augusto pela direita.

Ainda assim, disputa equilibrada: 52% de posse para o Corinthians, que também finalizou mais – 17 a 11, sete a seis no alvo. André foi às redes duas vezes. Primeiro completando bote e centro de Bruno Henrique, outro no centro de Romero em contragolpe cedido pelo Audax com 2 a 1 no placar.

A equipe de Tite teve o triplo de desarmes certos (24 a 8). Errou menos passes. Cresceu no segundo tempo com Romero e Rodriguinho, que deve ganhar a vaga de Guilherme, definitivamente sem aptidão para a função que era de Renato Augusto no 4-1-4-1.

O Audax poderia ter sido eliminado nos noventa minutos em Itaquera. Por seus erros e pelos méritos dos donos da casa. Ainda assim a campanha teria sido digna. Mas certamente o rótulo de “Professor Pardal” seria colado mais uma vez na testa de seu treinador.

Só que a classificação inédita e histórica para a decisão do Paulista veio nos pênaltis. Cobranças precisas, Sidão heroi e a trave ajudando nas cobranças de Fagner e Rodriguinho.

E aí Tite, de melhor do Brasil e inquestionável como o nome ideal para a seleção, ganha um asterisco pela falta de vitórias com atuações consistentes em jogos grandes e/ou decisivos de um time ainda em reconstrução.

Já Fernando Diniz vira gênio, técnico pronto para comandar um time de Série A no Brasileiro. Até merece. Mudou? Pouco. Mas ganhou. Por aqui é só o que vale.

(Estatísticas: Footstats)


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