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Everton Ribeiro, a diferença no típico clássico da cultura do mal jogar
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André Rocha

O clássico em São Januário já seria naturalmente prejudicado pelos problemas das equipes antes e durante o jogo. Flamengo perdeu Rever pouco antes da partida por um problema gástrico, depois Rhodolfo lesionado. Entrou Léo Duarte, jovem que ganhou poucas oportunidades e entrou numa gelada. Não complicou e também saiu por contusão após levar entrada de Luis Fabiano na disputa que terminou no gol de Yago Pikachu bem anulado.

O time rubro-negro terminou a partida com Romulo improvisado e Rafael Vaz na zaga. Zé Ricardo também perdeu Guerrero, que deu lugar a Leandro Damião.

Milton Mendes ficou sem Douglas, seu melhor meio-campista, suspenso. Depois o substituto Bruno Paulista, também lesionado e substituído por Andrey. Desde o início, o time da casa apostou em um jogo físico, com marcação pressionada e parando com faltas seguidas. O Flamengo não conseguia sair pela já conhecida falta de criatividade da equipe. Apelou 13 vezes para o cruzamento.

O resultado foi um primeiro tempo sofrível. Os visitantes com 57% de posse, mas apenas três finalizações. A única no alvo em 45 minutos de Paolo Guerrero que, mesmo sem o zagueiro Rodrigo a pertubá-lo, novamente não foi feliz no clássico. O Vasco cometeu 14 faltas, dez a mais que o rival. Acertou oito desarmes contra seis.

Para quem pensa que clássico não é jogo para a prática de bom futebol e sim de rivalidade à flor da pele deve ter sido agradável. Na prática foi de sangrar as retinas.

Melhorou na segunda etapa graças à postura mais ofensiva do Fla, que tinha o jogador desequilibrante: Everton Ribeiro. Meia que partia da direita para articular as jogadas e encontrou espaços às costas dos volantes reservas do adversário. Primeiro deixou Diego na cara do gol e o meia finalizou pessimamente.

No minutos seguinte acertou linda jogada pela direita e, como um ponteiro, centrou com o pé “ruim, o direito, na cabeça de Everton. Gol único de uma partida que voltou a cair o nível pela pressão vascaína sem qualidade e organização e o time rubro-negro preocupado em proteger a zaga fragilizada.

Apareceu então o segundo melhor homem em campo: o contestado Márcio Araújo, preciso nas coberturas, antecipações e desarmes. Fundamental para impedir a chance cristalina do Vasco, que finalizou nove vezes, mas apenas uma na direção da meta que Thiago evitou com bela defesa.

No total, 34 faltas. 21 do Vasco e 13 do Fla. No apito final, a revolta dos torcedores vascaínos com atos de violência que devem resultar numa punição ao clube com perda de mandos de campo. Mais uma cena comum num Rio de Janeiro falido em todos os sentidos.

O esporte novamente ficou em segundo plano. Na visão comum por aqui de que o clássico tem que ser mais brigado que jogado. Mais sentido que pensado. Mais truculento que disputado. Típico da cultura do mal jogar.

Não deixa de ser um paradoxo que Everton Ribeiro, o jogador mais cerebral em campo, tenha sido a diferença. Às vezes a qualidade prevalece.

(Estatísticas: Footstats)


“O problema é quando se tem a bola” – Futebol atual é jogo de espaços
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André Rocha

A frase entre aspas do título deste post é de um treinador campeão brasileiro, cujo nome não será revelado para não criar qualquer estigma ou rótulo. Até porque havia um contexto dentro da entrevista. Mas a ideia era clara.

Ter a posse de bola é aumentar a probabilidade de errar e dar chances ao adversário. Na saída de bola, com zagueiros que não foram ensinados a iniciar a construção das jogadas e acabaram na posição pela estatura e vigor físico. Em um centro futebolístico que predomina financeiramente no continente, mas não conta com excelência técnica na maioria das posições e funções.

No qual a torcida não tem paciência para jogadas trabalhadas, vaia bola recuada para o goleiro com a proposta de criar espaços e, na ansiedade e imediatismo típicos da nossa cultura, exige que a ação ofensiva seja finalizada o quanto antes.

Por isso a bola de segurança pelos lados. Porque se há a perda, o contragolpe do oponente não se inicia em uma zona perigosa. O ataque só passa pelo centro para virar o lado saindo da pressão ou procurando um pivô, mas já no último terço do campo. Muitos cruzamentos, com bola parada ou rolando. A margem de erro é menor.

Como cobrar mais de treinadores trocados a cada três meses, ameaçados a cada três derrotas? Responsabilizados por problemas técnicos de seus atletas desde a base e sem tempo para treiná-los com jogos a cada três dias? Neste cenário pragmático é melhor mesmo não ter a bola e esperar o vacilo do outro lado.

A vitória do Botafogo sobre o Nacional uruguaio no Parque Central foi simbólica. Porque a equipe da casa, que também se sente mais confortável jogando em transições velozes, precisava trabalhar as ações ofensivas para infiltrar, construir o resultado para administrar na partida de volta.

Encontrou, porém, uma equipe brasileira novamente bem coordenada defensivamente, com concentração e entrega. Também sorte, já que no toque de Victor Luís na própria área com o braço muito aberto, em lance duvidoso para as novas recomendações da FIFA, a arbitragem não se deixou levar pelo mando de campo. Sem contar a falha grotesca do zagueiro Emerson Silva que Silveira não aproveitou à frente de Gatito Fernández. O erro quando teve a bola.

No contragolpe, inversão de Pimpão para Bruno Silva e bola na rede com o toque meio sem querer de João Paulo, meia que deixou Camilo no banco pelo maior poder de marcação e dinâmica mais alinhada à proposta do treinador Jair Ventura. Triunfo com 40% de posse e oito finalizações, quatro no alvo. Contra 17 do Nacional, mas só duas na direção da meta de Gatito. Sem ideias, os uruguaios efetuaram 41 cruzamentos. O Bota cometeu 26 faltas contra 14 e acertou 17 desarmes, o Nacional só 12. Espírito de competição.

O resultado facilita o trabalho para a volta no Estádio Nílton Santos. Porque o Botafogo, mesmo em casa e provavelmente com a torcida apoiando, deve manter sua ideia pragmática de jogo. O questionamento inevitável é: como será quando a equipe precisar sair para o jogo por necessidade? As derrotas para Barcelona de Guayaquil e Avaí no Rio de Janeiro entregam respostas preocupantes.

Jogar como “azarão” é mais simples. O discurso motivacional do treinador vai na linha do “Davi x Golias”, os comandados entram mais concentrados e nenhuma pressão. Há espaços para atacar e menor cobrança sobre o erro.

Não só no Brasil. Nos grandes centros a lógica é a mesma. Com Leicester City e Chelsea vencendo as últimas edições da Premier League sem dar muita importância para a posse de bola. O Barcelona eliminado na Liga dos Campeões por Atlético de Madri e Juventus e ainda levando 4 a 0 do PSG. Os rivais sempre jogando a isca: “Me ataque, fique com a bola e te golpeio em seus pontos fracos”. Pep Guardiola no Manchester City também sofreu e vai tentando aprender e se adequar à dinâmica do futebol jogado na Inglaterra.

Na final da Liga Europa, José Mourinho armou seu Manchester United para aproveitar os espaços deixados pelo Ajax com seu ataque posicional típico do futebol holandês. Marcação encaixada, bote no zagueiro colombiano Davinson Sánchez, elo fraco nos passes, e contragolpe rápido. Força no jogo aéreo e mais uma taça continental para o treinador português.

O mundo é do Real Madrid comandado por Zidane porque é um time talentoso e inteligente. Sabe jogar com a bola pela qualidade individual que possui. Por ser um gigante, em 90% das partidas na temporada entra como favorito e precisa se arriscar. Mas faz por necessidade, não filosofia ou convicção. E se abre o placar o jogo reativo volta a ser a ideia principal. Assim como a Juventus, finalista derrotada na Champions, é um time “camaleão”, que muda de acordo com o que se apresenta. Para isso precisa de jogadores completos, inclusive na leitura de jogo. Saber acelerar e cadenciar, dosar a intensidade.

Não por acaso o predomínio recente de Cristiano Ronaldo sobre Messi nas premiações individuais. Consequência das conquistas coletivas. O português é mais prático, simples e vertical. Decide com um toque. Para brilhar, o argentino precisa construir em um Barcelona cada vez mais mapeado e estudado. Missão complicada.

Porque quem trata a posse como obsessão ou filosofia, dentro ou fora de casa e independentemente do contexto está sendo obrigado a mudar. No futebol tão estudado de hoje, a equipe abre mão do fator surpresa. Instala-se no campo de ataque, gira a bola em busca de espaços e os cede atrás, por consequência. Cabe ao rival negar as brechas para infiltrações, com o cada vez mais utilizado sistema com cinco homens na última linha de defesa, e explorar os pontos falhos, que sempre existem.

Na costumeira variação do 4-3-1-2 para duas linhas de quatro bem compactas, o Botafogo venceu em Montevidéu. Mais uma vez sem fazer questão da posse. No futebol, ela cada vez mais vai perdendo sua importância. A referência é o espaço. O “jogar sem bola” aproxima das vitórias.  Paradoxal, não?

E a frase do técnico, que soou absurda há alguns anos, mostra-se visionária. Mas qual será o impacto no futuro do esporte? Felizmente ele é cíclico, por isso tão apaixonante. Logo virá uma resposta. Tomara…

(Estatísticas: Footstats)

 


Sarrià, 35 anos: a velha mania brasileira de achar que perdeu pra si mesmo
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André Rocha

 

As seleções brasileiras nas Copas de 1930 e 1934 foram “improvisadas”, não eram propriamente um grupo com os melhores jogadores do país. Em 1938 a Itália fascista de Mussolini venceu a semifinal por conta da ausência de Leônidas da Silva, “poupado” pelo treinador Ademar Pimenta. O “Maracanazo” de 1950 está eternamente na conta do goleiro Barbosa. Em 1954 e 1966 foi a desorganização. Na Copa da Alemanha depois do tri “amarelamos” contra a Holanda.

Em 1978 não houve derrota, então foi “campeão moral”. Mas se o Falcão tivesse sido convocado…Em 1986 a culpa foi do Zico com o joelho em frangalhos. Em 1990 e 2010 o responsável pelo fracasso foi o Dunga, dentro e fora de campo. A convulsão de Ronaldo impossibilitou a conquista em 1998 – para muitos foi a Copa “vendida” para a França. Há três anos, um simples “apagão” no Mineirão.

Para muitos brasileiros, em condições normais de temperatura e pressão, a seleção de Tite iria para o Mundial da Rússia apenas buscar sua 19ª taça. Porque o Brasil sempre perdeu apenas para si mesmo. Quando venceu foi por méritos totais. Ou não mais que a obrigação.

Ninguém lembra da dura semifinal contra a França em 1958 que acabou facilitada pela fratura do zagueiro Jonquet que deixou a forte seleção de Just Fontaine e Raymond Kopa fragilizada pela impossibilidade de fazer substituições. Nem dos apitos amigos em 1962 e 2002 contra Espanha e Bélgica, respectivamente. Em 1994, Branco nos tirou do sufoco nas quartas-de-final contra a Holanda numa falta cavada em que colocou a mão na cara do adversário. Mas aí é a velha “malandragem” tupiniquim.

Em 1982 foi culpa do Cerezo que entregou a bola para Paolo Rossi no segundo gol, do Telê Santana que não tinha um ponta pela direita e Cabrini desceu livre para cruzar na cabeça do algoz brasileiro no gol que abriu o placar . Junior vacilou não deixando Rossi impedido no tento derradeiro dos lendários 3 a 2 no Sarrià. Há 35 anos.

Esquecem, mais uma vez, que havia uma camisa bicampeã mundial vestindo a base da equipe, com o mesmo Enzo Bearzot no comando, que foi a única a vencer a anfitriã Argentina quatro anos antes. Que ficou em quarto no Mundial por detalhes, tanto na derrota para a Holanda que custou a vaga na final quanto nos gols de Nelinho e Dirceu na decisão do terceiro lugar. Em disputas equilibradíssimas.

Time do “regista” Antognioni, meio-campista que jogava com classe e marcou o quarto gol, anulado por impedimento inexistente. De Bruno Conti, ponta direita canhoto e articulador com técnica refinada. Do onipresente Tardelli no meio, indo e voltando. Do versátil Oriali, que foi atuar na lateral direita para que Gentile fosse perseguir Zico no campo todo, assim como fizera com Maradona.

De Gaetano Scirea, um dos melhores líberos de todos os tempos. De Cabrini, o lateral apoiador que apareceu bem no primeiro gol, mas depois sofreu com a movimentação brasileira pelo seu setor. Um dos motivos de críticas depois do revés, mas que confundiu e tirou o encaixe pensado por Bearzot. A ideia era que Cabrini cuidasse de Sócrates e Graziani, o ponta esquerda, voltasse com Leandro. Por ali saíram os gols de Sócrates e Falcão.

Porque a Azzurra também errou. Na defesa deixando Zico e Serginho livres para concluir à frente de Dino Zoff, mas o centroavante finalizou bisonhamente. O camisa dez brasileiro ainda sofreu pênalti tendo sua camisa rasgada. Marcação implacável? Só no segundo tempo. E Zico reclama até hoje que os companheiros pararam de procurá-lo, por estar sempre vigiado.

Rossi marcou três, porém o mais fácil ele perdeu, totalmente livre no segundo tempo, com a bola à feição no tradicional “contropiede” italiano. Com Bergomi no lugar de Collovati e a entrada de Paulo Isidoro na vaga de Serginho, Sócrates foi para o centro do ataque e a retaguarda italiana se confundiu para fazer a sobra com Scirea.

Jogaço duríssimo até a cabeçada de Oscar na cobrança de falta de Eder que Zoff pegou na maior defesa sem rebote da história das Copas. Mérito total do goleiro veterano. Assim como a Itália cumpriu sua melhor atuação naquela Copa na Espanha. Depois, com a confiança no topo, passou por cima da Polônia sem o craque Boniek na semifinal e atropelou na decisão no Santiago Bernabéu a Alemanha estropiada pelo esforço hercúleo diante da França.

Por isso a festa de título no apito final de Abraham Klein no dia 5 de julho. A Itália havia eliminado o melhor futebol daquele torneio até então. Que não é esquecido até hoje. Que provocou aplausos a Telê Santana na sala de imprensa e elogios do vencedor Bearzot. Também o prêmio de segundo melhor jogador da competição a Falcão.

Mas não perdeu para si mesmo. A Itália venceu. Talvez fosse derrotada em outros dez confrontos. Talvez não. Nunca saberemos. No Sarrià superou as desconfianças de uma primeira fase de empates contra Peru, Polônia e Camarões para alcançar um de seus mais celebrados êxitos. Porque foi melhor.

Como tantas outras seleções que nos superaram em Copas. Desde a Itália bicampeã nos anos 1930, passando pelo Uruguai de Obdulio Varela, a Hungria em 1954, mesmo sem Puskas. Portugal de Eusébio, Holanda de Cruyff e de Sneijder, Argentina de Menotti, a França de Platini e de Zidane, a Argentina de Maradona e Caniggia. A Alemanha dos 7 a 1. Com exceção de 1966 e 1986, todos que eliminaram o Brasil foram, no mínimo, finalistas.

Não é pouco, nem merece ser subestimado como a Itália. Não foi a vitória do pragmatismo sobre a arte irresponsável, o futebol “bailarino”. O Brasil de Telê tinha os dez homens na defesa quando sofreu o terceiro gol e foi buscar o empate na jogada aérea. Não houve catenaccio, retranca, futebol covarde. A Azzurra fez uma partida combinando seu estilo e a necessidade do resultado.

O Brasil não contrariou suas características, mas quando empatou pela segunda vez com Falcão percebeu que devia ser mais cuidadoso. E foi, não sofreu gol em contra-ataque. Telê podia ter trocado Waldir Peres por Paulo Sérgio, Luisinho por Edinho e Serginho por Dinamite ao longo do Mundial. Mas não foi derrotado apenas por conta de seus elos fracos.

Havia um rival valoroso, com entrega, técnica e estratégia. O Brasil perdeu para a melhor seleção daquele mês de verão na Espanha em 1982. O resto é nossa presunção de onipotência quando o assunto é futebol. Uma velha e tola mania.


Rogério Ceni sabia, ou devia saber…
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André Rocha

Rogério Ceni sabia, ou devia saber…

Que a carga de responsabilidade seria imensa. Que no futebol brasileiro que mais sente do que pensa ele seria cobrado como o ídolo-bandeira-goleiro e não um treinador iniciante. Que não teriam tanta paciência assim. Que seriam capazes da calhordice de esperar o São Paulo entrar na zona de rebaixamento do Brasileiro e usarem como álibi para uma demissão.

Que o período de estudos na Europa poderia não ser suficiente para chegar com conceitos sólidos e métodos definidos para colocá-los em prática de imediato. Que jogar com a intensidade máxima desejada no nosso calendário é praticamente impossível. Que a antipatia que cultivou ao longo do tempo por defender incondicionalmente o clube, sempre com certa arrogância, faria parte da imprensa não ser tão paciente com ele.

Que sua “tropa de choque” de jornalistas-torcedores/fãs não seria capaz de blindagem eterna. Que a diretoria, ainda nos tempos de Carlos Miguel Aidar, já tinha irritado Juan Carlos Osorio com a compra e venda de jogadores durante o Brasileiro.

Que podia fraquejar em suas convicções e jogar mais por resultados que desempenho, como tantos outros treinadores com que trabalhou fizeram – ou foram obrigados a fazer. Que a torcida teria carinho e paciência até o limite, mas não para sempre. Que nossa cultura é imediatista e pode moer até as carnes mais nobres. Até as sagradas.

Rogério Ceni sabia, ou devia saber, que a chance de dar errado era enorme. Que o mercado de treinadores praticamente se fecha para ele no Brasil. Que para ser diretor ou ocupar outro cargo no tricolor do Morumbi só com a troca na direção. Ou talvez ele mesmo sendo presidente. Que o sonho era ambicioso.

Mas acabou. Rogério Ceni sabia, ou devia saber, que ser mito na meta não credencia ninguém à onipotência e à onisciência. Não é licença para todas as funções no futebol. Pena ter descoberto, ou constatado, da pior maneira.


Márcio Araújo é o 5º passador do BR-2017, mas quem constrói no Fla é Trauco
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André Rocha

Ao deixar o campo aos 34 minutos do segundo tempo para dar lugar a Renê, Miguel Trauco era o melhor passador do Flamengo na vitória por 2 a 0 sobre o São Paulo na Arena da Ilha do Governador com 49 acertos e três erros. Ao final, foi ultrapassado por Pará, que alcançou 51 passes certos (três errados).

Márcio Araújo, o volante de proteção à defesa, terminou com 29 acertos e um erro. Bem abaixo dos laterais e também de Cuéllar, seu companheiro de meio-campo, que completou 40 passes corretos e três erros. Ou seja, a bola passou menos pelo camisa oito rubro-negro.

Contestado exatamente por destoar quando o Flamengo recupera a bola. Poucos passes verticais e inversões de jogo. Uma tentativa de lançamento, correto. Trauco tentou dez vezes, 50% de aproveitamento. Mas faz o jogo correr.

Quando o time precisou criar no primeiro tempo até marcar os gols com Guerrero, em bela cobrança de falta, e Diego, na melhor jogada coletiva da partida, o lateral peruano foi disparado o que mais passou, com 34 acertos e um equívoco. Quase o dobro de Márcio Araújo – 19 passes corretos, nenhum erro.

Ficou nítido no quarto triunfo consecutivo da equipe de Zé Ricardo, terceiro no Brasileiro, que houve uma mudança de atribuições sem mudar as funções em campo. Márcio Araújo protege a zaga, que ganhou qualidade e liderança com a entrada de Rhodolfo, mas continua apostando mais em posicionamento que velocidade no enfrentamento dos atacantes.

Quem se junta a Cuéllar, Diego e agora Everton Ribeiro para construir as jogadas é Trauco, que mostra bem mais visão de jogo. Normalmente o lateral ataca por dentro, enquanto Everton, o ponteiro no 4-2-3-1 do Fla, fica aberto para espaçar a marcação adversária.

A solução não é nova, embora adaptada à marcação por zona. No Vasco campeão brasileiro de 1997 e da Libertadores no ano seguinte, o treinador Antônio Lopes, para dar liberdade ao talentoso lateral Felipe, plantava o volante Nasa praticamente como terceiro zagueiro. Também para deixar o veterano Mauro Galvão na sobra da defesa. Tempos de encaixe e perseguições individuais mais frequentes no futebol brasileiro.

Algumas vezes Márcio Araújo apareceu pela esquerda na cobertura de seu companheiro. Mas a principal tarefa é mesmo desarmar e interceptar. Segundo a comissão técnica, sua principal virtude é a mudança rápida de comportamento quando o time perde a bola. Ele não desperdiça aquele segundo para se situar no campo e iniciar o trabalho defensivo. Pensa e reage rápido.

Com a bola não tem a mesma leitura. Mas, curiosamente, uma olhada no ranking de passadores no Footstats revela o volante como o quinto passador do campeonato. Arredondando, média de 45 acertos e apenas três erros. Já Trauco não é nem o segundo melhor do Fla. Fica atrás de Pará e Rever. Acerta 44, erra cinco por jogo.

Erra porque arrisca o passe mais criativo. Costuma acionar Guerrero em lançamentos tão logo entra na intermediária do adversário. Ousa, tenta criar. Márcio toca de lado, passe seguro, de controle. Importante, mas que objetivamente acrescenta muito pouco nas ações de ataque.

Fica a impressão de que Zé Ricardo poderia dar mais oportunidades a Romulo ou ao jovem Ronaldo, ou mesmo recuando Cuéllar e voltando com Willian Arão, e tentar fazer com que coletivamente a equipe consiga reagir rápido na recomposição e possa abrir mão de um volante que a cada contratação que estreia parece destoar mais tecnicamente. Todos jogam, todos marcam. Como deve ser no futebol atual.

Para que os passes de Trauco sejam apenas mais um recurso e não a compensação para o volante à moda antiga do Flamengo que sobe na tabela, mas ainda precisa evoluir em entrosamento e desempenho para ser, de fato, um rival à altura para o até aqui inabalável líder Corinthians.

 


Alemanha campeã é o resultado dando respaldo ao planejamento
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André Rocha

Foto: Ivan Sekretarev (AP Photo)

Na final da Copa das Confederações, a Alemanha encarnou a máxima que já passou pela boca de José Mourinho e Rafael Nadal, dois pragmáticos até a medula: “Finais não são para ser jogadas, mas vencidas”. Já que “deixou chegar”…

Trabalhou em um 5-4-1 mais “duro” e menos fluido que em outras ocasiões no torneio. Jogou para controlar os espaços e sofreu mais do que deveria contra o Chile. Porque na execução deste sistema, o perigo é não conseguir sair da pressão adversária e nunca sair em bloco, perdendo a bola e vendo o adversário dominar com volume de jogo.

Foi o que aconteceu e só não causou maiores danos porque o Chile, assim como você já leu aqui sobre o Flamengo, é uma equipe “arame liso”. Ou seja, cerca mas não fura. Ou melhor, tem dificuldade para transformar em gols as oportunidades criadas dentro de uma proposta ofensiva no 4-3-1-2.

A partir da saída de bola “lavolpiana”: dois zagueiros abrem, um volante afunda para qualificar o toque com passe limpo. Mas Marcelo Díaz errou no domínio, e com Medel e Jara distantes, restou ao goleiro Bravo assistir ao toque de Werner para Stindl marcar o gol que seria do título.

O triunfo podia ter sido resolvido ainda na primeira etapa com o claro abatimento dos chilenos após o gol sofrido exatamente no período de maior domínio. Mas Goretzka não completou com precisão passe de Draxler. A Alemanha controlava sem a bola.

Na segunda etapa, atuação pragmática para conter o campeão sul-americano. Joachim Low trocou Werner por Can. Pizzi tirou Aranguiz e colocou Sagal. Substituições sintomáticas dentro das propostas. Sagal perdeu gol feito, Ter Stegen foi o melhor alemão na decisão com grandes defesas, inclusive no ato final em cobrança de falta de Sánchez.

A vitória dentro de um “estilo Mourinho” é curioso paradoxo para quem usou a Copa como laboratório e oportunidade para dar rodagem a quem deve ser titular no Mundial do ano que vem. Kimmich se afirmou como o jogador mais inteligente em termos táticos e de tomada de decisão de sua geração. Goretzka, Stindl e Werner foram aprovados. Ter Stegen é a sucessão de Neuer.

Draxler não foi o protagonista que se esperava, mesmo com a Bola de Ouro do torneio que costuma ser mais midiática do que por mérito.Mas o coletivo se impõe dentro de uma proposta atual, que se adapta às circunstâncias e às ideias do oponente. A decisão pedia cuidado e eficiência diante da melhor e mais vencedora geração chilena, faminta por mais uma conquista. Na provável despedida da Copa das Confederações.

O título, porém, não muda os planos da Alemanha. Mas é óbvio que dá ainda mais respaldo a Low e afirma o favoritismo que já existia da atual campeã mundial. Descansando os veteranos será possível voltar a Rússia acrescentando experiência à qualidade dos jovens que mantiveram a mentalidade vencedora.

E se chegar de novo…


A cultura do mal jogar
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André Rocha

Uma pergunta simples e direta ao torcedor: qual foi a última vez que você desfrutou o futebol do seu time? Talvez naquela goleada construída já no primeiro tempo, como nos 4 a 0 do Grêmio sobre o Atlético Paranaense na Copa do Brasil. Mas provavelmente com um ou outro lapso de preocupação com ataques relativamente perigosos do adversário.

Repare nas comemorações de títulos no Brasil, mesmo os descartáveis estaduais. As primeiras reações são de choro e, principalmente, desabafo: “Chupa, anti! Chupa, rival! Contra tudo e contra todos!” Só depois surgem os sorrisos, a criança no colo, a celebração.

Porque criou-se um consenso por aqui de que quanto mais se sofre por um time, mais apaixonado é. Uma espécie de “ranking da sofrência”. Uma partida então se transforma em 90 minutos de tortura psicológica com o alívio no final em caso de vitória, seja lá como ela foi construída.

O desempenho só costuma ser avaliado com algum critério naquele jogo de estadual que vale muito pouco. Então o 1 a 0 em casa com atuação fraca pode ser vaiado, mesmo com os três pontos. Ainda assim, se o rival sofrer uma derrota será o suficiente para memes e zoeiras na internet.

Porque o que importa é o resultado, puro e simples. Uma sequência de vitórias e empates que construam uma invencibilidade, mesmo com atuações não tão boas e sem apresentar margem de evolução, é tratada como “boa fase”. Já duas derrotas circunstanciais, demonstrando virtudes e possibilidade de crescimento, viram um “sinal de alerta”.

Discute-se pouco o jogar bem, que é diferente de jogar bonito. Confusão que vem desde a grande dicotomia da nossa história recente: Brasil de 1982 jogou bonito e perdeu, em 1994 jogou feio e venceu. Uma distorção, porque não há como jogar feio com Bebeto e Romário no ataque e uma equipe que teve mais posse de bola em seis das sete partidas da Copa do Mundo dos Estados Unidos.

Assim como o escrete de Telê Santana não jogou irresponsavelmente no Sarriá contra a Itália. Levou o terceiro gol com todos os jogadores na própria área e quase conseguiu o empate desejado num abafa final com Éder levantando na área para o golpe de cabeça de Oscar que Dino Zoff segurou.

Não importa. Nasceu ali uma convicção de que era preciso jogar pelo resultado e só. Com o êxodo do talento, o torcedor daqui passou a se contentar com muito pouco. No futebol que se eternizou por viver dos lampejos de seus craques, se estes não estão mais por aqui o jogo tem que ser sofrido e vale a vitória para ao menos ter a alegria de tripudiar do vizinho ou do colega de trabalho no dia seguinte.

É a cultura do mal jogar. Que quase sempre se mistura à noção de que o campo de futebol é o templo da virilidade e da afirmação do “ser macho”. Colocar a bola no chão, trabalhar as jogadas, buscar a jogada diferente, com dribles, no último terço do campo viraram coisas de time “faceiro”, “bailarino”. Tem que ralar a bunda no chão e vencer por ser o mais forte. Cobrar lateral na área, ganhar as divididas. Arrancar o triunfo a forceps.

Obviamente não há apenas uma maneira de jogar futebol. Aliás, no mais alto nível cobra-se exatamente a versatilidade e a capacidade de adaptação dos atletas. Saber a hora de acelerar e cadenciar, ter a posse ou jogar em velocidade. Criar espaços ou buscar abrir o placar na jogada aérea para, com a vantagem, aproveitar o avanço do rival. Inteligência futebolística.

O que incomoda no Brasil é a pouca vontade de entender o jogo. Repare nas discussões. Na imprensa, muitos bastidores, esse mercado que nunca fecha e as explicações de sempre para vitórias e derrotas: união, um craque desequilibrando. Se ele não existe é porque foi a “tática do treinador”. Mas dificilmente explicando qual seria. Na derrota, é o vestiário rachado, o salário atrasado, o treinador que fez voar a prancheta.

Tudo com jogos às quartas e domingos, sem tempo para recuperação e treinos. Porque a TV quer partidas todos os dias, espalhadas na programação. Como ninguém se importa com o nível e quer viver apenas a catarse, que se dane se os atletas, extenuados física e mentalmente, vão fazer apenas o básico para vencer. Afinal, só os três pontos importam. Até cria-se um vício nesta adrenalina do sofrimento nos jogos. Então se meu time jogar todo dia, melhor ainda.

É um cenário complexo, no qual é difícil propor soluções, como a diminuição no número de jogos na temporada. O Bom Senso F.C. tentou algo neste sentido e para muitos os jogadores só queriam trabalhar menos e continuar ganhando muito. E aí vem a comparação esdrúxula com o peladeiro que pratica todo dia e não se cansa. Como se fosse com o mesmo nível de exigência física e mental do profissional.

Parar nas datas FIFA já seria uma primeira mudança positiva, por não punir os times competentes que cederam jogadores às seleções – brasileira e estrangeiras – e dar um respiro para que quem está a ponto de estourar descanse.

Mas não interessa. O jogo tem que ser diário, intenso, catártico. Uma válvula de escape para os problemas do cotidiano. Sofrer de dia e depois penar mais um pouco com o time do coração em campo. Só sentir, sem pensar. Não é trabalho, mas nem chega a ser entretenimento. Para muitos é uma religião. Pela qual se mata e morre.

Ninguém desfruta. Poucos pensam e cobram um futebol bem jogado. Os treinadores, nesta roda viva, apelam para o mais simples e eficiente a curtíssimo prazo. E nunca há tempo para buscar algo mais elaborado. Porque tem que entregar a vitória que alimenta o torcedor, cala o crítico e a oposição política, alivia o ambiente.

Como diz a canção de Herbert Vianna, em outro contexto, “o jogo segue e nunca chega a fim, e recomeça a cada instante”. Sem descanso, sem reflexão. Com espasmos de boas ideias e alguma evolução tática no meio da loucura. Com o Brasil de Tite como contraponto e esperança. Mas é pouco.

De que adianta se para a maioria a cultura do mal jogar é confortável e atende os interesses imediatos? Que siga o jogo. Este espaço fica como uma pequena trincheira de resistência.

 


O que a Alemanha tem a ensinar ao Flamengo
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André Rocha

A Alemanha foi campeã mundial em 2014 no Maracanã com sua tradicional camisa branca. Mas na vitória mais emblemática e histórica, o uniforme era rubro-negro. Assumidamente inspirada no Flamengo, numa clara tentativa de conquistar a simpatia da maior torcida do país. Conseguiu, mesmo impondo a maior derrota do futebol cinco vezes campeão do mundo.

Agora é a vez do Fla se inspirar na Alemanha. País que com três títulos mundiais resolveu se transformar. Condicionada, sim, por resultados frustrantes nas Copas de 1994 e 1998 e na Eurocopa 2000. Mas entendendo que as eliminações eram consequência de um desempenho insatisfatório. Fruto de um estilo ultrapassado.

A mudança passou por clubes, desde a formação até o profissional. O vice-campeonato mundial em 2002 ainda seguindo a velha escola poderia ser tratado como um sinal de que era possível vencer da mesma forma. Não mudou em uma vírgula o planejamento a longo prazo.

Não é na reestruturação do futebol em campo que o Flamengo precisa ter a Alemanha como espelho, embora seja um ótimo modelo.  Mas sim na certeza de que a escolha de um caminho é essencialmente filosófica. Parte da ideia de que é a coisa certa a fazer. Mesmo que de 2005 a 2014 a seleção tenha convivido com eliminações seguidas nas semifinais. Da Copa das Confederações em casa até a Eurocopa 2012, caindo para a Itália.

A mudança no comando técnico, de Klinsmann para Joachim Low, foi absolutamente natural na manutenção do projeto. Na Eurocopa do ano passado, eliminação de novo na semifinal para a anfitriã França. Low segue e a perda do título não motivou nenhuma alteração no que estava projetado. Reservas na Copa das Confederações para dar férias aos mais experientes e rodagem aos mais jovens.

Com o mesmo propósito, mandou um grupo bastante jovem para a Olimpíada do Rio de Janeiro, até aproveitando o limite de 23 anos. Medalha de prata e mantendo a imagem para o mundo de prezar o bom futebol. Desde a vontade de privilegiar a técnica há mais de uma década, passando pela influência dos três anos de Pep Guardiola no Bayern de Munique para valorizar ainda mais a posse de bola. Mas também bebendo da fonte de Antonio Conte na execução do 5-4-1. Primeiro da Itália na Eurocopa e agora do Chelsea campeão inglês.

O principal: nenhuma derrota foi capaz de mudar as ideias e ideais dos alemães. Porque sabem que não há controle sobre resultados, nem garantia de títulos. Mas é saudável e também é possível fazer história pela bola jogada e não só pelas taças levantadas. Fazem porque acham o melhor caminho a seguir.

A diretoria encabeçada por Eduardo Bandeira de Mello equacionou dívidas, aumentou receitas e prometeu um Flamengo forte em três anos. A torcida comprou a ideia, mas agora começa a cobrar com mais intensidade os títulos relevantes na temporada brasileira e sul-americana.

Como se fosse uma equação exata, sem chances de equívoco: time popular + altas receitas = elenco qualificado, estádios lotados e hegemonia no país e no continente.

A questão é que futebol e matemática ou lógica nem sempre combinam. Ainda mais nessas terras de tanta alternância de poder. Com um Palmeiras que quase caiu pela terceira vez em 2014, mas com o auxilio inicial do presidente milionário Paulo Nobre e depois a injeção da Crefisa, alcançou resultados mais rapidamente: uma Copa do Brasil, um Brasileiro. Ainda vivo na Libertadores, prioridade no ano.

Agora um Corinthians que em termos de gestão tem muitas lacunas, mas dentro do campo construiu uma identidade vencedora com Mano Menezes e Tite que Fabio Carille resgata e forma um time competitivo que abre nove pontos em relação ao terceiro colocado Flamengo. O vice é o Grêmio que construiu um modelo de jogo com Roger Machado e Renato herdou acrescentando seu carisma e ajustando o que não vinha dando certo. Faturou uma Copa do Brasil e encaminhou a vaga na semifinal do mesmo torneio com os 4 a o sobre o Atlético-PR.

Clubes que no momento estão na frente do Flamengo, que acerta nas finanças, mas nem tanto no futebol. Contratações, montagem de elenco. Ano passado se equivocaram ao não preparar um estádio no Rio de Janeiro para evitar o desgaste de viagens seguidas. Custou o fôlego na reta final da última temporada.

Corrigido em 2017 com a Arena da Ilha do Governador. Questão de tempo e aprendizado. Que deve seguir mesmo que não venham o Brasileiro, a Copa do Brasil e a Sul-Americana até dezembro. Sem a visão limitada de que é melhor voltar aos tempos de equipes vencedoras montadas sem compromisso com orçamento.

Porque mesmo que clubes vivam de glórias mais que as seleções, os títulos não podem ser um fim em si mesmo. A Alemanha começou a semear em 2000 e colheu 14 anos depois. Sem desvios. Porque havia convicção de que o resultado viria em algum momento. Porque era a coisa certa a fazer.

A seleção de Joachim Low está em mais uma decisão. Depois dos 4 a 1 na semifinal da Copa das Confederações contra o México. Mostrando ao mundo Goretzka, Werner e um futebol atualíssimo. Alternando linhas de quatro, cinco e até seis homens. Jogadores técnicos e inteligentes formados lá atrás e ganhando minutos e vivência com uma camisa pesada.

Mas se perderem a final para o Chile, país sem grande tradição com a sua melhor e maior geração da história, nada vai mudar. Nem um sinal de arrependimento de poupar os mais veteranos, nada de “tivemos a chance de ganhar mais uma taça”. O trabalho segue com seus processos. Sem imediatismo.

Um bom norte para o Flamengo não mirar o futuro querendo voltar a um passado que deixou conquistas, mas também caos e um enorme passivo que quase inviabilizaram a recuperação dos últimos anos. Manter as contas em dia e investir em estrutura é o básico, o correto. Não necessariamente uma receita de bolo para empilhar troféus.

 


Alguém vai chorar sangue no Mineirão
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André Rocha

É improvável que um time mandante tão poderoso, o atual campeão brasileiro, deixe tantos espaços para contragolpes, permita tantas lacunas em seu sistema de marcação e aceite que um elo fraco como Fabiano, totalmente perdido pela direita, fique tanto tempo em campo num jogo eliminatório como fez o Palmeiras no primeiro tempo do Allianz Parque.

Mesmo com a pressão inicial e a fantástica jogada individual de Guerra. Os dois gols em contragolpes no setor de Diogo Barbosa e Alisson, com este marcando o segundo e aquele servindo Thiago Neves no primeiro, são jogadas em velocidade construídas com muito espaço. O segundo, sim, tem méritos pela articulação pela direita que achou Robinho com liberdade na área. Mas novamente o encaixe com perseguições individuais de Cuca foi desmontado com facilidade.

Não existe um time tão forte sair com três a zero contra em casa num torneio eliminatório com gol “qualificado”. Mesmo que a Copa do Brasil não seja prioridade na temporada. Ainda que o adversário tenha obtido eficiência máxima ao colocar nas redes de Fernando Prass as únicas três finalizações em 45 minutos.

Assim como é inconcebível um visitante voltar do intervalo no Allianz Parque com tamanha vantagem e não esperar um time de Cuca partindo para o abafa no modo “Porco Doido” para buscar a reação. Intensidade máxima, preenchendo a área adversária com muita gente e partindo para o jogo aleatório – com fibra, entrega e 33 cruzamentos no total – para trazer a torcida junto.

Era o jogo para a equipe de Mano Menezes controlar os espaços, mesmo que permitisse os 61% de posse alviverde. Mas evitando os cruzamentos e se organizando para os contragolpes, ainda que Fabiano, o “mapa da mina” do rival, não estivesse mais em campo. Mas deixou tudo ruir em 20 minutos com dois gols de Dudu e um de Willian.

Impressionante não terminar em virada. Fez lembrar os 3 a 3 lendários entre Liverpool e Milan em Istambul na final da Liga dos Campeões 2004/2005. Reação imediata e tão contundente dos ingleses, em 14 minutos, que seria capaz de encher o time que a alcançou de forças para buscar a virada inacreditável e de abalar o que sofreu a ponto de desmanchar. Na prática, porém, não determina uma mudança no placar.

A decisão europeia foi para prorrogação e pênaltis. A disputa pelas quartas-de-final da Copa do Brasil vai para o Mineirão. O Palmeiras só pode pensar em vitória, já que um 4 a 4 é bem improvável. O time mineiro, junto da torcida, não tem como não vislumbrar um triunfo para compensar tamanho vacilo em 20 minutos de segundo tempo. Mesmo longe de Belo Horizonte e encarando um dos elencos mais fortes do país.

Em tese, os 3 a 3 seriam para comemorar pelos gols marcados fora. O Palmeiras celebrou a invencibilidade em casa na temporada. Mas os equívocos de ambos são inegáveis neste jogo mais maluco que de alto nível técnico e tático. Alguém vai chorar sangue na volta.

(Estatísticas: Footstats)


Eu sei por que você me odeia
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André Rocha

O primeiro contato deste blogueiro com críticas a ídolos não veio do futebol. Até porque nos anos 1980 os veículos eram, digamos, “festeiros” demais para sequer fazer ressalvas a quem quer que fosse. Ainda mais a idolatrada, por vezes mimada, geração de 1982.

Foi na música mesmo, com a explosão do Rock Brasil. Era duro ler ou ouvir alguém detonando a banda ou o artista favorito. Dado Villa-Lobos, guitarrista da Legião Urbana, conta em seu livro “Memórias de um Legionário” que o jornalista José Augusto Lemos disse a ele que, por causa de uma crítica negativa ao disco “Dois”, lançado em 1986, ele recebeu 30 cartas iguais de um fã indignado. Uma por dia.

Outros tempos. Hoje, com quase todo mundo relativamente acessível nas redes sociais, fica mais fácil extravasar. E confesso que, naquela época, lá pelos 13, 14 anos, se pudesse mandar mensagens para os críticos da revista Bizz, especialmente o André Forastieri, eu seria insuportável e levaria um block implacável.

Ou seja, os haters só são um fenômeno atual pelos meios, não pelos indivíduos. Em qualquer segmento. Na música, na TV, no futebol. Em relação aos jornalistas, não é difícil entender essa aversão.

Porque nos enfiamos no meio dessa relação ídolo-fã, time do coração-torcedor. Que é lúdica por natureza. Uma válvula de escape para as agruras do dia após dia. Na qual tudo pode ser perfeito, nem que seja por uma noite. Um jogo. Um espetáculo. Um capítulo.

E o pior: entramos nessa “intimidade” querendo trazer racionalidade. O “não é bem assim” naquela vitória que fez o fanático ir às nuvens e querer ficar por lá. E nós puxando a perna do sujeito, trazendo à realidade de que no próximo jogo pode ser tudo diferente.

Pior ainda quando relativizamos o triunfo com erros de arbitragem. Ou informamos aqueles problemas na gestão do clube. “Não, está tudo perfeito!” Tem que estar tudo perfeito. Ora, quem pode contestar o dirigente que, mesmo sem dinheiro nos cofres e duplicando a dívida, trouxe aquele craque que me faz tão feliz?

É nossa função. Claro, com as exceções que confirmam a regra. Os mal intencionados, com desvio de caráter mesmo. Ou os que não conseguem disfarçar a torcida – a favor do seu e contra os rivais. Ou aqueles que declaram as cores que amam e, no vício do ofício de trazer o discurso para o equilíbrio, passam a ser mais críticos do que com o resto. Estes também viram alvos.

A “vingança” mais comum é tentar nos excluir: “Nunca jogou bola e quer opinar!” Isso vale para o clube que se ama e o jogador que se idolatra e normalmente existe o sonho de ser igual. Até imitando na pelada. Como alguém ousa dizer que ele não é o maior de todos os tempos (da última semana)?

Sabemos, ou devemos saber, da nossa insignificância dentro do espetáculo. Jogadores e torcida são os protagonistas. Hoje, treinadores e dirigentes entraram nesse bolo – para este que escreve, um equívoco. Nós estamos de fora, sim. Mas temos o direito de informar, opinar e ajudar a construir a visão do espectador. E às vezes interferimos no jogo.

Seja para o craque criticado que se motivou e arrebentou no jogo para “calar a bola de quem falou besteira”, seja naquela observação que incomoda e gera protestos públicos, mas também a reflexão e até a mudança de atitude no silêncio do orgulho. Algo que jornalista não pode ter para também mudar de opinião. Ainda que seja depois chamado de “incoerente” ou “picolé de chuchu” por não seguir com a convicção que já tinha se transformado em teimosia.

Na essência somos desimportantes. Mas lembre-se: quando terminou o doído 7 a 1, muitos deixaram a TV ligada ou correram para a internet para que ajudassem a explicar o que havia acontecido. Quando a tragédia da Chapecoense abalou os corações foi o jornalismo que trouxe tanto a informação que todos preferiam que não existisse quanto o conforto e o abraço da Dona Ilaídes, mãe do goleiro Danilo. Em um repórter.

O mundo ainda segue a fábula do rei que ao receber uma má notícia manda matar o mensageiro. Compreensível. É preciso descontar em alguém. E o bom jornalismo incomoda quem quer manter o status quo que o privilegia. Acredite: sem imprensa, seria bem pior do que é. Por pior que ela seja ou que você ache. A história mostra.

Eu sei por que você me odeia. Até entendo. Mas tenha certeza de que não é minha intenção. Só o meu trabalho.